África

Contos do nascer da Terra

livro010Contos do nascer da Terra, de Mia Couto (Companhia das Letras, 2014, 270 p,, R$ 21,00) contém 35 textos do renomado escritor moçambicano, um dos maiores expoentes da literatura em língua portuguesa contemporânea.

Em todos eles, a característica de criar palavras, a partir de dois conceitos que se somam ou se opõem, como O homem era um vidabundo, ou Minha água-natal, de freqüentemente alterar ditos e provérbios, como Não ata nem diz ata, e de formar frases com palavras de som assemelhado, como Um homem atravessou a calçada, desavultado vulto avulso.

Os contos muitas vezes relatam casos da relação entre pais e filhos, ou de casamentos desfeitos, de pessoas vítimas da guerra civil que marcou a fase da independência de Moçambique, ou são adaptações de fábulas africanas. Na verdade, preferi ler os contos criados do que as fábulas adaptadas, que se tornaram em geral sem forma nem formato, desenroladamente roliças.

A leitura dos contos é um constante exercício para os olhos e para as idéias do escritor e do leitor, para quem utiliza os neurônios subjacentes da linguagem.

Mia Côunto: leitura obrigatória.

 

Eduardo VII

Eduardo VII, de André Maurois (Globo Livros, 2014, 303 p. R$ 49,90), foi escrito em 1933, mas só agora é publicado no Brasil, em função do centenário do início da Primeira Guerra Mundial (embora o Rei tenha morrido em 1910).
O título original inglês é Rei Eduardo VII e seu tempo, já o título brasileiro é Depois da Rainha Victoria, Edward VII.

Eduardo VII tinha já 54 anos, quando ascendeu ao trono, em sucessão a sua mãe, a famosa Rainha Vitória. Por isso, a parte inicial do livro trata de assuntos do reinado de Vitória, a mãezona do Império Britânico, e que era de certo modo também a avòzona do mundo todo.

Vitória, sob a influência do marido alemão Alberto (embora ele tenha morrido com apenas 44 anos), transformou a corte inglesa da futilidade das dinastias francesas (Bourbon, Orléans e Bonaparte) para um reinado voltado para a burguesia, deixando de fora a velha aristocracia.
Vitória governava para a classe média.
Pobres ela não sabia como eram, mas aristocratas ela atirou no lixo.

Eduardo Alberto, ainda príncipe de Gales, fez uma viagem oficial aos Estados Unidos, a primeira na história das relações entre os dois países, e foi tão adorado pelos americanos, que pediram que ele voltasse dali a uns anos para se candidatar a presidente dos EUA. Descobriram a frustração de serem uma reles republiqueta, coisa que se estendeu por todos os presidentes seguintes. Mesmo no enterro de Eduardo VII, em 1910, a presença do ex-presidente Theodore Roosevelt deu sinal de que as repúblicas eram países de segunda categoria no início do século XX.

Tinha aprendido com a mãe que o rei reina, não governa, mas tem (e exerce) o direito de saber,  direito de encorajar e o direito de advertir. Aliás, é assim que os ingleses funcionam até hoje.

O curto reinado de Eduardo VII, apenas nove anos, foi contudo marcado por muitas mudanças. As tradicionais disputas políticas entre Conservadores e Liberais adquirem o novo componente do Partido Trabalhista, fala-se muito do Home Rule na Irlanda, a mudança na composição da Câmara dos Lordes, para eliminar o poder de veto que ainda mantinha sobre decisões tomadas na Câmara dos Comuns, e o Rei jogou com muita habilidade no entendimento que buscava entre todas as partes. Também durante seu reinado ocorreram as manifestações em favor do voto feminino (as suffragettes), que passou a valer logo após o término da Grande Guerra.

Fora isso, se o reinado de Vitória foi o império do trem, Eduardo VII deu início ao império da bicicleta e do automóvel. Jorge V, mais tarde, veria o império do avião.

As relações de amizade que mantinha, desde quando ainda Príncipe de Gales, serviram para acomodar muito do trabalho de diplomacia a que ele se interessava, com outros monarcas europeus, bem como com os presidentes franceses. Inspirou a aproximação com a França e com a Rússia, promovendo a Entente Cordiale, que se contrapôs à Tríplice Aliança montada pela Alemanha, pela Áustria-Hungria e, na época, a Itália.

As relações com o sobrinho, o Kaiser Guilherme II, porém, sempre foram cheias de desconfiança, e foram tornando mais difíceis as que envolviam seus países.

Por acaso tenho lido outros artigos, que agora vêm sendo publicados por conta dos cem anos da Grande Guerra, e parece haver unanimidade em que o comportamento psicològicamente doentio do Kaiser foi decisivo para o desencadeamento do conflito. Segundo alguns autores, não houve sequer uma II Guerra, pois aquela primeira nunca chegou a ser concluída.

Nisso erram historiadores marxistas, que insistem em que a economia é a causa de todos os arranques e de todas as alterações. Podem contribuir para o surgimento de cenários propícios, mas figuras execráveis como Napoleinho, o Kaiser, Stálin e Hitler deram o tom final para que a História tomasse rumos desastrosos. Sem eles, até mesmo os desastres econômicos teriam sido menores. Pessoas têm sim um poder muito grande de modificar rumos de povos.

Ah, só um lembrete: fumar faz mal à saúde.

Os Grandes Contos Populares do Mundo

Os Grandes Contos Populares do Mundo (Ediouro, 432 p., 2005) é uma das coletâneas organizadas por Flávio Moreira Garcia, responsável também por coleções sobre contos eróticos e contos de humor.

Pequenas histórias de lugares tão díspares quanto Afeganistão, Guatemala, Irlanda e Moçambique.

Histórias de mitologia, como os egípcios Osíris e Ísis, os gregos Édipo, O Rei Midas e O Minotauro, os bíblicos Sansão e Salomão e a Rainha de Sabá. Histórias clássicas como trechos de As Mil e Uma Noites (Ali Babá e Os Quarenta Ladrões, Sindbad o Marujo), uma versão adaptada de Romeu e Julieta (Shakespeare), O Barba Azul (Perrault), A Nova Roupa do Rei (Andersen), a lenda suíça de Guilherme Tell, e o humorístico português O Caldo de Pedra (conhecida história de como fazer uma sopa à base de uma pedra lavada).

Uma considerável parte dos 83 contos eu conhecia, e foi realmente gostoso ter a oportunidade de reler histórias que eu tinha conhecido na infância. Os ingleses João e O Pé de Feijão, e O Matador de Gigantes, o trabalho de Andersen sobre O Bravo Soldadinho de Lata (para mim era um soldadinho de chumbo), o turco O Relógio, de Khawajah Nasr Al-Din.

Para representar o Brasil, foram selecionados sete contos:

  • O Ciclo de Pedro Malazarte
  • Mãe d’Água
  • As Proezas de Macunaíma
  • O Princípio do Mundo
  • Xangô (adaptação da mitologia africana)
  • O Baile do Judeu (do amazonense Inglês de Sousa)
  • A Mboitatá, do gauchíssimo Simões Lopes Neto.

Aí vem a imensa grande enorme diferença. Os contos dos outros países têm cunho moral, mesmo quando os heróis aproveitam uma capacidade de esperteza para ludibriar inimigos. O resultado é que as histórias são feitas para ressaltar vantagens da honestidade, do trabalho, do respeito aos mais velhos.
Pois nos contos e lendas brasileiras, exceto a da Boitatá, prevalece a mentira, a falta de caráter, a trampa enganadora.
De Manunaíma, o herói sem nenhum caráter, não preciso comentar. Pedro Malazarte era apenas um Más Artes, O Baile do Judeu é a aparição do Boto, …
Uma amiga que é candomblecista baiana desmentiu essa versão de Xangô. Foi abrasileirado para tornar-se um aproveitador da primeira mulher, o que não ocorreria na lenda original africana.

Qualquer semelhança entre os contos e os povos não deve ser mera coincidência.

Ah, caso alguém não saiba: esperteza não é sinônimo de mau-caratismo.

Pré-história

Pré-história, do autor inglês Chris Gosden (L&PM Pocket, 158 p., 2012, R$ 15,00), é um livro que nos dá algumas informações sobre o período da humanidade sem registros escritos que fogem o padrão a que fomos habituados.

Quando é a pré-história? Em qualquer momento. A maior parte dos indígenas da América sempre viveu na pré-história, apenas com tradições orais para manter vivas algumas lembranças. O mesmo vale para povos africanos ou da Oceania. Todas as informações materiais sobre eles só podem obtidas a partir de vestígios arqueológicos, que conduzem a teorias, diferentemente da história de povos que já deixaram o cenário mundial, como assírios, egípcios, ou outros que ainda permanecem, como chineses ou povos da península indiana.

Muitas das informações sobre como viviam esses povos é obtida a partir de vestígios como restos de algum vestuário, a cerâmica, a utilização de metais ou de ossos usados como armas. Igualmente relevantes, porém, são os vestígios de alimentos, animais ou vegetais, que dão traços de sociedades mais patriarcais ou matriarcais, mais nômades ou mais sedentárias. Restos funerários, e eventuais adornos, também são fontes de informações / especulações sobre o modo de vida dos humanos.

No caso dos neandertais, nossos primos, mas não antepassados, pode-se saber que, dadas as características físicas, não possuíam o mesmo estilo de linguagem oral dos homo sapiens. O autor coloca, com humor, que provàvelmente a linguagem de desenvolveu mais para fazer fofocas do que para assuntos muito elaborados, tal como é utilizada até hoje pelos humanos.

Um conceito, pràticamente tabu, que o autor desmonta, é o das floras autóctones na Oceania, pois pode-se afirmar hoje em dia que os  habitantes que partiram da Papua Nova Guiné (onde viveu o último povo pré-histórico a ter contacto, já no século XX, com os “civilizados”) para as ilhas da Oceania a leste, levavam consigo as plantas que conheciam, para com elas moldar a paisagem de “paraísos” como a Polinésia Francesa do modo que lhes pudessem dar a noção de que mantinham a relação com a terra de origem. Nada mais falso do que supor que eles tivessem  a preocupação “ecológica” de “preservação” de espécies nativas, sem a “contaminação” de outras transplantadas. O ambiente servia ao humano.

O livro às vezes torna-se um pouco lento, na descrição de sítios arqueológicos, mas na maior parte da obra a leitura é ágil e até mesmo divertida.

A pré-história não é um período tão distante de nós nem, muito menos, desinteressante.

O cerne da questão (com P.S.)

O cerne da questão, de Graham Greene (Editora Globo, 2007, 396 p., R$ 30,60), é um romance que demorei várias semanas para concluir a leitura. Em algumas partes ela fluía ràpidamente, em outras, rastejava.

O livro narra a história de um major da polícia colonial britânica, em Freetown, Serra Leoa, durante a Segunda Guerra Mundial, que vive uma relação fria com a mulher, tem princípios católicos rígidos para a convivência com os outros brancos da cidade, e que se apaixona por uma jovem viúva, de quem se torna amante.

Os personagens têm suas várias facetas psicológicas expostas ao longo dos capítulos, porém, muitos dos diálogos são tediosos. Conversas do tipo “você me ama?”, ou “quero ser seu amigo”  são pouco convincentes. Mais parecem frases de um folhetim do século XIX.

A história de frustrações e de pesadas recordações não chega a empolgar. Dos quatro livros que li de Graham Greene, este foi o que menos me agradou, menos até do que Nosso Homem em Havana, que me pareceu um chavão da Guerra Fria. Preferi, ao ler, O Fator Humano e O Poder e a Glóriadois livros cuja leitura recomendo.

P.S. 13 de junho – No livro há um trecho muito interessante, que quero destacar:

O desespero é o preço que pagamos por nos comprometermos com uma meta impossível.
É, dizem, o pecado imperdoável, mas um pecado que nunca é cometido pelos corruptos ou pelos maus.
Eles sempre têm esperança.
Nunca atingem aquele estado paralisante que é o conhecimento do fracasso absoluto.
Só os homens de boa vontade carregam sempre no coração essa capacidade de danação.

Uma Breve História do Mundo

Uma Breve História do Mundo, de H. G. Wells (L&PM, 2011, 378 p., R$ 21,00), o mesmo autor de clássicos da ficção científica como “A ilha do Doutor Moureau”, “O homem invisível” e “A Guerra dos Mundos”, foi escrita em 1922, na outra faceta do grande escritor, a de historiador.

Os 67 capítulos são bem curtos, e ao final de cada um fiz um intervalo, para ruminar e digerir o que li. Por isso também demorei vários dias na leitura.
O início do livro é quando a terra ainda estava quente, e a descrição dos períodos geológicos e e a evolução das formas de vida. Pterossauros, cenozóico e outras palavras que a gente já ouviu, mas não tem muito claro o que significam.

Ele fala de umas coisas que outros autores não costumam dizer, como as origens étnicas dos povos antigos.
Fenícios eram semitas que mais tarde se ajudeuzaram, e se espalharam por Cartago e pela Espanha.
Em geral outros autores falam de Cartago fenícia, mas não dizem que depois do fim dos fenícios surgiram os judeus na Espanha. Não é uma coincidência. Mas vá dizer isso a um libanês – você será trucidado.

Os russos inicialmente eram da mesma origem que os suecos. Franceses e alemães têm a mesma origem étnica e histórica (até o império de Carlos Magno) – só que um fala língua latina e o outro língua germânica. Búlgaros identificam-se com os turcos, mas têm religião ortodoxa e língua eslava.

Os gregos não são tratados exatamente como geniais em todas as situações, mas Aristóteles e Arquimedes o foram.
Roma é tratada pelas diferenças, e não pelas semelhanças que podem ter tido nos séculos romanos. Júlio César foi um personagem de segunda grandeza.

Gostei dos vários capítulos que tratam dos mongóis e seus diversos governos e impérios ao longo de milhares de anos da história. Mas antes, ao falar dos hunos, Wells disse que Átila se encontrou com o papa, e isso é lenda.

Não gostei do tratamento dado os bizantinos. O livro que li sobre Bizâncio desmente muitos dos pré-conceitos ocidentais descritos.

A partir da chamada Idade Moderna, os capítulos passam a ser menos factuais e muito mais analíticos. O desenrolar da História dá-se por grandes mudanças de pensamento e pelos substanciais progressos tecnológicos e científicos. Coincide com o apogeu britânico e o predomínio dos Estados Unidos.

O último capítulo é sobre a Liga das Nações.
Ele já anunciava que a primeiro guerra mundial seria seguida de uma muito pior.
Isso em 1922…

A nomenclatura é totalmente fora do contexto de correção política que existem na história. Povos e países são muitas vezes nomeados pela desginação atual – alemães, por exemplo, e não alamanos, germânicos ou teutônicos.

Pelo preço e pelo conteúdo, vale a pena a leitura desse livro da L&PM. Recomendo.

O Retorno da História (e um P.S.)

O Retorno da História e o fim dos sonhos, de Robert Kagan (Editora Rocco,  2009, 117 p., R$ 21,50), foi organizado pelo autor em 2008, sobre artigo publicado anteriormente na Policy Review.

O livro versa sobre o cenário internacional pós-Guerra Fria, e a nova composição de forças das potências mundiais, seus alidos, os interesses econômico-financeiros, os militares e de apoio político.

A dissolução da antiga União Soviética pareceu, em primeiro instante, ser o grande passo para que todos os países fossem se integrando, através de laços comerciais, e moldando seus regimes políticos na forma das democracias ocidentais.

Nada disso ocorreu. A Rússia enfraquecida, com Putin retornou à autocracia, reforçada por um conjunto de outros países que passaram a impedir sanções que levassem à mudança de regime em outros continentes. A China ignorou as sanções após os conflitos de 1989 e assumiu mais fortemente um papel preponderante nas relações internacionais, o que levou os vizinhos Japão e Índia a buscar papéis mais atuantes nas relações entre os países asiáticos, incluindo um aumento na militarização de todos.

Irã tornou-se uma potência nuclear. Talvez também a Coréia do Norte.

O livro, porém, é excessivamente datado. Não viu o descrédito que atingiu a União Européia. Mais ainda, fala de uma “certeza” de que alguma força mágica levaria a uma tendência de “democracia” nos moldes ocidentais. Aquilo que seria positivo com uma intervenção em países árabes, para reduzir o papel dos radicais islâmicos. Não viu o fracasso que foram as mudanças ocorridas com a “primavera árabe”, que substituiu antigos ditadores militares por constituições islâmicas fundamentalistas. Iraque, Afeganistão, Tunísia, Líbia, Egito, e atualmente Síria (e também Máli), são alguns dos exemplos fracassados da intervenção de potências ocidentais no mundo islâmico, provocados pela crença de que, com o aumento do fluxo de informação no mundo, haveria a facilidade para que os modelos do Atlântico Norte prevalecessem em países que poderiam servir de base para a alianças de países contra as autocracias russa, chinesa e iraniana.

O autor também ignorou inteiramente o papel das demagocias (democracias demagogas) em países da América e da África, que se unem e reduzem o efeito das sanções comerciais impostas pelas potências tradicionais.

Apesar de ter sido escrito em 2008, quando se dizia que o Brasil era “a bola da vez”, a única menção que Kogan faz ao país é em uma pequena menção de uma busca de apoio da União Européia e a OTAN com outras democracias – “que até agora tiveram comparativamente pouco a ver com as outras para além das áreas do comércio e das finanças”. Essa inserção tão sucinta indica que o Brasil teria, de qualquer modo, o papel de coadjuvante, e não o de protagonista, como insistia a propaganda político-partidária da época.

O título do livro baseia-se na premissa de que, após o fim da Guerra Fria, o que houve foi um retorno da história, com o ressurgimento de nacionalismos, de novas corridas armamentistas e da procura de várias formas de dominação sobre outros países, em geral vizinhos. Nada parecido com o sonho de integração e de cooperação quase irrestrita de que se falava há 20 anos. Nisso o autor acertou em cheio. Assim como acertou quando perguntou

“Que razão havia para acreditar que depois de 1989 a humanidade estivesse, de repente, prestes a entrar em uma ordem completamente nova?”

Não tenho dúvidas de que nos últimos 25 anos demos uma guinada para trás, em termos de História. Talvez porque quanto mais informação, menor o tempo para raciocínio.

P.S. No livro, salienta-se que o desejo de ser potência mundial, na China, na Índia e no Irã, está sempre relacionado com um desejo de vingança contra humilhações de terem sido ocupados por “povos inferiores”. Será que isso produz consistência ao desenvolvimento?