Portugal

D. Maria I

D. Maria I, as perdas e as glórias da rainha que entrou para a história como “a louca”, de Mary del Piore (Benvirá, 2019, 215 p., R$ 31,90) é um livro sobre a vida a primeira rainha de Portugal, que viveu entre 1734 e 1816, e reinou a partir de 1777.

O livro é mal escrito. Algumas vezes a linguagem é rebuscada, copiando os escritos da época, e em outras parece mais um blog do século XXI. Nem sempre segue a ordem cronológica, para ajeitar por completo a presença de algum personagem.

Traz, porém, as necessárias dúvidas sobre a saúde mental de qualquer pessoa (segundo a autora, com a colaboração do doutor Sávio Santos Silva)).

– como se sentiria uma pessoa que a cada mês via morrer um parente próximo?

– como reagiria uma pessoa cercada da pior laia de fanáticos religiosos, que só falavam “das delícias” de queimar no inferno sob a imperdoável presença de um deus onipotente?

– como era a vida de alguém que, no início do século XIX, chegou aos 81 anos?

Ficar isolada do mundo foi um alívio para a velhinha de bom coração, que se preocupou em reinar para corrigir os inumeráveis abusos do antigo ministro de seu pai, José I, o famoso marquês de Pombal, e que sinceramente se envolvia com o povo, forma como  via sua missão de governar.

O defeito dela foi ter sido rainha de um Portugal já ofuscado por outras potências européias.
Tivesse nascido na Alemanha ou na Inglaterra e teria entrado para a história como uma grande governante.

Foi melhor e mais lúcida do que os presidentes que o Brasil teve nos últimos cento e trinta anos.

Que vida difícil teve a senhora rainha!
Médicos da pior espécie, padres fofoqueiros, ministros incompetentes, parentes.
Duvido que outros governantes tivessem tido a honestidade e a dedicação que teve em sua vida dona Maria I, a piedosa.

Silêncio

Silêncio, de Shusaku Endo (Tusquets editores, traduzido do japonês para o inglês por William Johnston e daí para o português por Mário Vilela, 2017, 270 p., R$ R$ 37,00), foi escrito em 1966, e aborda a perseguição religiosa promovida no Japão, durante o século XVII, contra os cristãos que tinham sido convertidos por missionários portugueses anos antes.

O livro tem prefácio do cineasta Martin Scorsese, que dirigiu filme do mesmo nome em 2016.

Dois padres, Ferreira e Garpe, viajam de Goa para Macau e partem em viagem clandestina para o Japão, com o intuito de restabelecer o contato de Portugal com os cristãos convertidos nas décadas anteriores durante missão de São Francisco Xavier, iniciada em 1549, mas que passaram a ser perseguidos pelo novo governo do xogunato japonês, a partir de édito de expulsão de 1614.

Além disso, buscavam informações sobre um padre Rodrigues, que havia sido professor no seminário em Lisboa, de quem se dizia que havia feito a apostasia.

O romance baseia-se em fatos reais, mas não é um retrato histórico. Muitas datas e fatos aparecem corrigidos nas notas de rodapé do tradutor.

Descreve a vida das reclusas comunidades cripto-cristãs no Sul do Japão, e as muitas práticas de tortura a que eram submetidos para efetivarem a apostasia, bem como as traições realizadas por japoneses, que denunciavam inclusive parentes, em troca de recompensas.

Padre Ferreira, personagem principal, faz comparações entre ele mesmo, a apostasia, o flagelo de Jesus, e o papel de Judas.

Apesar do tema, o livro tem leitura fácil e desenvolve uma importante dúvida entre civilizações e culturas que, costumeiramente, consideram-se superiores a outras, tentando impor seus costumes e suas doutrinas.

 

 

 

A desumanização

Fui falar mal de Válter Hugo Mãe, em O Filho de Mil Homens, e eis que agora tenho de dizer: minha língua estava correta.

A desumanização, escrito em 2013 (Editora Globo – Biblioteca Azul, 2017, 190 p., R$ 44,91) é muito pior, muito mais chato, muito mais arrogantemente pretensioso.

A começar pelo prefácio escrito por um “professor de ética”, que acredita que a falsa empostação de voz e a deliberada ausência de movimentos faciais trazem “ética” aos mentirosos.

O livro narra a história de uma jovem adolescente islandesa, cuja irmã gêmea morreu, e a  deformação mental, moral e social de sua família e da pequena aldeia onde vive.

Outra vez o autor usa e abusa da fórmula de usar expressões líricas, para em seguida inundar o leitor com imagens de violência, ódio e asco.
Aquela conhecida fórmula de “épater le bourgeois”, repetida por “intelectuais”.

Frases curtas, sem a escrita rocambolesca de frases na ordem inversa, do livro que li anteriormente.
Frases porém que se tornam monótonas, por nada trazerem, exceto o falso lirismo da violência.

Além disso, notam-se aqui e ali incoerências no texto, que corroem a trama e o cenário no pano de fundo.

Ô Valtinho, decidi que vou dar um tempo!
Você está besta demais, com tanta pretensão.

Tchau!
Há muitos outros escritores que merecem a minha atenção.
Você se perdeu no meio da fama de auto-bajulação dos “iguais”- ou seja, a fama dos que se consideram superiores.

 

O filho de mil homens

O filho de mil homens, de Válter Hugo Mãe (Cosac Naify, 2012, 208 p., R$ 21,00) é o que eu diria, em poucas palavras: Ô livro chato!

Nada contra o autor. Bem o contrário: gosto muito desse escritor lusitano.

Nada contra o tipo do romance, que percorre uns 20 anos para contar a vida de vários personagens de uma não-identificada cidadezinha a beira mar, que se entrelaçam em relações e em diferentes gerações.

O texto porém é um festival de preconceitos daquela gente interiorana do litoral (acho que era o objetivo do retrato que o autor fez), não poucas vezes em níveis chocantes.

Pior, a redação em sentido inverso amiúde o leitor confunde e a reler toda a frase o obriga.

Por um lado o livro quer ser realista, e de outro quer mostrar lirismo na louca fragilidade dos personagens.

Não deu samba, nem fado. Ficou petulante como um afroflamenco polifônico.

 

Afirma Pereira

Li em poucas horas Afirma Pereira, de Antonio Tabucchi (Rocco, 1995, 125 p., tradução de Roberta Barni).

O livro do escritor italiano, que foi levado ao cinema, em 1995, com Marcello Mastroianni no papel do protagonista, narra a história de um jornalista que, em 1938, por 40 anos trabalhou como repórter policial, e depois de viúvo foi trabalhar como editor da seção de cultura de um pequeno vespertino lisboense, ligado apenas aos ideais católicos, sem afinidades com os fascismo que dominava vários países europeus.

Esse jornalista, Pereira, vive mergulhado nas lembranças do passado, na vida com a mulher tuberculosa, e tem por regra isolar-se do contexto político.
Encontra, porém, um jovem ítalo-português, Monteiro Rossi, que se oferece como estagiário na seção cultural. A impetuosidade de Rossi, dominado pela namorada marxista, é muito pueril e nada contribui em termos de trabalho com Pereira. A ligação entre ambos, porém, vai se transformando em uma abertura do jornalista com a realidade da ditadura salazarista, iniciando uma indisposição com o regime, e altera a obsessão de Pereira com a morte e o arrependimento, e inicia uma trajetória em busca da vida.

Essa trajetória se intensifica quando Pereira conhece, em uma clínica de tratamentos alternativos contra a obesidade, o doutor Cardoso, que o estimula a deixar Portugal e sua repressão, ostensiva e velada.

O verbete do filme na Wikipedia conta toda a história.

A linguagem do livro é muito ágil, sem floreios, adjetivações inúteis ou descrições de paisagens e de características de personagens, o que facilita e incentiva o leitor a logo concluir a leitura.

 

Homens imprudentemente poéticos

Homens imprudentemente poéticos é o último lançamento de Valter Hugo Mãe (outubro de 2016 – Biblioteca Azul da Editora Globo, 190 p., R$ 44,00, ).

Um livro que descrevo como pesado igual a sopa de chumbo derretido no café da manhã, ou como um edredon (kakebuton; futon, em japonês) fabricado de tijolos de cromo (o mineral).
Dois japoneses vizinhos em um lugar pavoroso, ao lado da Floresta do Suicidas.
Um é pobre e faz leques de bambu, e o outro é miserável, faz tigelas e as pinta.
Um cuida de uma irmã cega, e o outro teve a mulher morta por um urso que invadiu a aldeia, e cultua o quimono da falecida.
Enquanto isso, um vizinho discretamente odeia o outro.

MAS o livro é poesia pura!
Você vai deslizando as páginas como se fossem os relatos mais doces do mundo.

O texto, porém, segundo a forma saramaguiana da escrita de Válter Mãe, sem pontos de interrogação, sem travessões, e com uma infinidade de frases muito curtas, pelo não uso de conjunções, – linguagem poética à parte no meio do texto em prosa – torna-se muitas vezes entediante, sobretudo na metade do livro.

Ressalto, porém, que a leitura deste livro é recomendável. Uma verdadeira obra de arte, como os leques de Itaro e os jardins cultivados por Saburo.

 

 

A Máquina de Fazer Espanhóis

livro007Válter Hugo Mãe não gosta de Letras Maiúsculas. Foi assim que ele escreveu “A Máquina de Fazer Espanhóis”.  Sem Maiúsculas e apenas com Vírgulas e Pontos, nada de Interrogações, Exclamações, Travessões ou Aspas.

Assim como eu, porém, posso agora aqui me distrair, ele também deu suas Derrapadas, e todo o Capítulo Cinco conheceu a Utilidade das Letras Maiúsculas, que os Alemães sabem tão bem cultivar quando escrevem os Substantivos. Também o Capítulo Dezassete conhece Letras Maiúsculas, usadas nos Nomes próprios. Por que Policiais e Jogadores de Futebol merecem essa Deferência de Mãe?
Afinal de contas, faz alguns Milênios que deixamos de lado a Escrita Cuneiforme, e passamos a conhecer a Utilidade das Letras Maiúsculas e da Pontuação, embora alguns Portugueses, como Mãe considerem isso supérfluo, copiando o Mestre (dele) josé saramago (sal amargo), tão queridinho de Intelectuais.

A Máquina de Fazer Espanhóis“, (Cosac Naify, 2015, 255 p., R$ 21,00) é um Livro dolorido. Como conclui o Personagem Principal, provoca Angústia.
Em Primeira Pessoa, narra a História de António Jorge da Silva, um Barbeiro aposentado, Octogenário, que é enviado pelos Filhos para uma “Casa de Repouso”, quando enviúva. A Filha resume Toda a Vida do Pai (o Filho mora na Grécia e sequer foi ao Funeral da Mãe), em duas Malas de Roupas, e uma Imagem de Nossa Senhora de Fátima.
Este Silva passa um Período de Silêncio, revoltado com a Situação, e desejando muito expressar a Necessidade do Luto que sente com a Morte de Laura, com quem vivera 48 Anos.

Alguns Capítulos são marcados pelas Lembranças da Vida deste Silva, durante o Salazarismo, e mesclam-se com as Narrativas do Quotidiano no Asilo, chamado de Feliz Idade, e de cujas Janelas os Internos avistam o Cemitério que fica ao lado.
Os outros Personagens mesclam-se nas Narrativa sobre os Internos, lúcidos ou senis, e sobre o Passado. Encaixa-se aí um tal Ricardo que Silva, do alto de sua sempiterna Covardia, denunciara à Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), trazendo-lhe permanentes Remorsos.Os Internos sucedem-se nas Mortes, algumas Vezes suspeitas e violentas, e nas novas Internações que ocupam as Vagas deixadas, embora alguns Fantasmas desses Moradores rondem a Vida dos que ficaram.
Dentre eles há a Figura de Esteves, um Senhor Centenário, que afirma (falsamente) ter sido Inspiração para que Álvaro de Campos / Fernando Pessoa escrevesse o Poema Tabacaria.

Nas Conversa entre Silva e Esteves, há a Clareza de que o nosso Inimigo é o Corpo, porque o Corpo é que nos ataca. Estamos finalmente perante o mais terrível dos Animais, o nosso próprio Bicho, o Bicho que somos, que decide que é chegado o Momento de começar a desligar-nos os Sentidos e decide como e quando devemos padecer de que Tipo ou Loucura.

Sabem que os Peixes têm uma Memória de Segundos? Aqueles Peixes bonitos que vês dentro dos Aquários pequenos, sabes que têm uma Memória de uns Segundos, três Segundos, assim. É por isso que não ficam loucos dentro daqueles Aquários sem espaço, porque a cada três Segundos estão como num Lugar que nunca viram e podem explorar. Devíamos ser assim. Mas seria uma Pena que não se voltasse a lembrar das Pessoas, como lhe explicou o Enfermeiro.

No final da Vida, Silva percebe que as Histórias bonitas aconteciam por acaso, e ele acabara de aprender que a Vida tem de ser mais à Deriva, mais ao Acaso, porque quem se guarda de Tudo foge de Tudo.

Acredito que este Livro devesse ser Leitura Obrigatória para todas as Pessoas com menos de 40 Anos, para terem uma Visão de que lhes reserva a Vida, o próprio Corpo.
Curiosamente Mãe, como afirma na Nota do Autor, escreveu o Livro pensando no próprio Pai, que não chegou à Terceira Idade, já que morreu de Câncer antes disso.Algum outro Velho, porém, deve tê-lo marcado, para que pudesse perceber, com 39 Anos, quando escreveu “A Máquina de Fazer Espanhóis”, que a Vida é muito menos do que se imagina na Juventude e na chamada “Vida Produtiva”.

Como dizia minha Avó Olguinha, viver muito é um Castigo de Deus.
Como dizia minha Tia Rosa, de que adianta estar lúcida, se não posso passear porque os Joelhos não me permitem? se não posso ir a uma Festa porque o Estômago não se sente à Vontade? se não posso fazer uma Visita, porque a Bexiga me atrapalha?