Record

A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande

Encontrei alguns elogios a respeito de Yuri Vieira e procurei em uma livraria alguma obra sua. A única à venda era “A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande” (Editora Record, 2017, 306 p., R$ 44,90).

O livro seria uma coleção de contos, todos porém interligados ao personagem advogado que lhe dá nome.

Os contos têm os seguintes títulos:

  1. O machista feminista – uma longa divagação sobre um ilusionista que finge ser extra-terrestre e fala da invasão islâmica na Europa em um boteco de Vila Madalena;
  2. O Prompt de Comando ou A sábia ingenuidade do Dr. João Pinto Grande – sobre bullying e racismo;
  3. A teologia da maconha – a respeito de um casal e o vizinho policial;
  4. O pedinte do metrô – uma enxurrada de moralismo do personagem principal em uma viagem de metrô;
  5. A menina branca – o uso excessivo das comunidades sociais e a violência na periferia de São Paulo;
  6. Amarás ao teu vizinho – uma discussão entre ex-vizinhos durante jantar na casa de um ex-militar sérvio; somada à filosofia de um bêbado da vizinhança;
  7. A Satoshi o que é de Satoshi (somente para nerds e geeks) –outra longa divagação, dessa vez sobre bitcoins e a possibilidade de corrupção da justiça, durante um almoço de pizza e cerveja (péssima escolha para um almoço, por sinal, mas normal para o mau gosto gastronômico dos paulistanos).

Confesso que não gostei dos capítulos.
O texto na maior parte é recheado com a preocupação em “escrever certinho”. Sobretudo certinho demais para diálogos.

Os capítulos teòricamente não têm data (embora sejam muito bem datados na contemporaneidade), mas a descrição geográfica é excessiva.
Parece que o autor considera que os assuntos abordados são exclusividade de São Paulo, e não de qualquer outra cidade do Brasil (ou do mundo).
Surpreendente, para alguém que já viveu em diferentes cidades e países.
Já que não o livro não tem data, que tal se não tivesse endereço?
Haveria a eliminação de aborrecidos detalhes sobre o trajeto em automóvel, por exemplo.

Ao longo do texto, Yuri Vieira recheia o desenrolar dos contos com a exposição de suas idéias políticas – nem sempre com muita clareza.

A futura leitura de outra obra poderá me dar uma visão mais clara sobre minha opinião a respeito de Yuri.

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90 Livros Clássicos para Apressadinhos

Em menos de uma hora li 90 livros clássicos.

O livro de ilustrações do sueco Henrik Lange (tradução de Ota, Galera Record, 2010, 190 p.), traz em apenas três quadrinhos o resumo de várias obras, algumas clássicas, e outras bem menos conhecidas do brasileiro médio.

  • Psicopata Americano, 1991, Bret Easton Eilis
  • Passagem para a Índia, 1924, E. M. Forster
  • A Praia, 1996, Alex Garland
  • O Sono Eterno, 1939, Raymond Chandler
  • Águas Negras, 1922, Joyce Carol Dates
  • Admirável Mundo Novo, 1932, Aldous Huxley
  • Ayla, a Afilha das Cavernas, 1980, Jean M. Axel
  • Cidade de Vidro, 1987, Paul Auster
  • Uma Confraria de Tolos, 1980, John Kennedy Toole
  • Morte de um Caixeiro-Viajante, 1949, Arthur Miller
  • Drácula, 1897, Bram Stoker
  • Fahrenheit 451, 1953, Ray Bradbury
  • Rambo, 1972, David Morrell
  • O Carnê Dourado, 1962, Doris Lessing
  • O Grande Gatsby, 1925, F. Scott Fitzgerald
  • As Viagens de Gulliver, 1726, Jonathan Swift
  • O Guia do Mochileiro das Galáxias, 1979, Douglas Adams
  • Cem Anos de Solidão, 1967, Gabriel García Márquez
  • Eu sou a Lenda, 1954, Richard Matheson
  • Em Busca do Tempo Perdido, 1927, Marcel Proust
  • Agência nº 1 de Mulheres Detetives, 1999, Alexandre McCall Smith
  • O Perfume, 1985, Patrick Susskind
  • O Cemitério, 1983, Stephen King
  • A Pianista, 1983, Elfried Jelinek
  • A Sombra do Vento, 2001, Carlos Ruiz Zafón
  • O Estrangeiro, 1943, Albert Camus
  • O Espião que veio do Frio, 1963, John le Carré
  • Pássaros Feridos, 1977, Collen McCullough
  • Os Três Mosqueteiros, 1844, Alexandre Dumas
  • O Sol é para Todos, 1960, Harper Lee
  • A Cabana do Pai Tomás, 1852, Harriet Beecher Stowe
  • O Código Da Vinci, 2003, Dan Brown
  • O Senhor dos Anéis, 1955, J. R. R. Tolkien
  • Coração das Trevas, 1899, Joseph Conrad
  • O Velho e o Mar, 1952, Ernest Hemingway
  • As Crônicas de Nárnia: o Leão, o Feiticeiro e o Guarda—Roupa, 1950, C. S. Lewis
  • O Senhor das Moscas, 1954, William Golding
  • A Guerra dos Mundos, 1898, H. G. Wells
  • 1984, 1949, George Orwell
  • Moby Dick, 1851, Herman Melville
  • O Processo , 1925, Franz Kafka
  • A Bíblia
  • Crime e Castigo, 1866, Fiódor Dostoiévski
  • Don Quixote de La Mancha, 1605, Miguel de Cervantes
  • Vinte Mil Léguas Submarinas, 1870, Júlio Verne
  • A Ilha do Tesouro, 1883, Robert Louis Stevenson
  • O Retrato de Dorian Gray, 1890, Oscar Wilde
  • As Aventuras de Tom Sawyer, 1876, Mark Twain
  • O Nome da Rosa, 1980, Umberto Eco
  • Morte em Veneza, 1912, Thomas Mann
  • Lolita, 1955, Vladimir Nabokov
  • Ardil 22, 1961, Joseph Heller
  • Odisséia, sec. VIII a.e.C., Homero
  • O Apelo da Selva, 1903, Jack London
  • Mistério na Neve, 1992, Peter Høeg
  • Era uma Vez em Watership Down, 1972, Richard Adams
  • A Vida de Pi, 2001, Yann Martel
  • Almoço Nu, 1959, William S. Burroughs
  • As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, 1865, Lewis Carroll
  • Náusea, 1958, Jean-Paul Sartre
  • Bola de Sebo, 1884, Guy de Maupassant
  • O Caso dos Dez Negrinhos, 1939, Agatha Christie
  • Laranja Mecânica, 1962, Anthony Burgess
  • O Corcunda de Notre-Dame, 1831, Victor Hugo
  • Três Garotos num Barco, 1889, Jerome K. Jerome
  • Ratos e Homens, 1937, John Steinbeck
  • On the Road, 1957, Jack Kerouac
  • O Mestre e Margarida, 1928, Mikhail, Bulgakov
  • O Apanhador no Campo de Centeio, 1951, J. D. Salinger
  • Ulisses, 1922, James Joyce
  • Nada de Novo no Front, 1929, Erich Maria Remarque
  • O Coração Denunciador, 1893, Edgar Allan Poe
  • O Submarino, 1973, Lothar-Günther Buchheim
  • Watchmen, 1987, Alan Moore
  • Um Estranho no Ninho, 1962, Ken Kesey
  • Thérèse Raquin, 1867, Émile Zola
  • Nosso Homem em Havana, 1958, Graham Greene
  • A Fantástica Fábrica de Chocolate, 1964, Roald Dahl
  • Romeu e Julieta, 1597, William Shakespeare
  • Frankenstein, 1818, Mary Shelley
  • Robison Crusoé, 1719, Daniel Defoe
  • O Cão dos Baskervilles, 1902, Arthur Connan Doyle
  • O Lobo da Estepe, 1928, Herman Hesse
  • Factótum, 1975, Charles Bukowski
  • Orgulho e Preconceito, 1815, Jane Austen
  • Os Nus e os Mortos, 1848, Norman Mailer
  • 2001: Uma Odisséia no Espaço, 1968, Arthur C. Clarke
  • Oliver Twist, 1839, Charles Dickens
  • Fome, 1890, Knut Hamsun
  • O Alquimista, 1988, Paulo Coelho.

A lista contempla muito mais livros em língua inglesa, alguns dos quais mais conhecidos pela adaptação ao cinema, do que uma verdadeira relação de livros clássicos. Lamentàvelmente, o único livro em língua portuguesa é apenas um best-seller.

Sem Goethe, nem Tolstói, Balzac, Marquês de Sade, Tchekhov, Sófocles, Cortázar, Hans Andersen, Ibsen, Eça de Queirós, ou até mesmo Saramago.

A forma de escrever dos quadros é bastante agradável, muito atualizada para o linguajar do final do século XX – início do XXI, apesar de, claro, não cobrir toda a trama dos livros.

A leitura pode ser útil, para reavivar livros já conhecidos ou para estimular o interesse por outros.

A composição das páginas, porém, é mais um dos famosos engodos editoriais de deixar muito espaço em branco, para aumentar o volume de páginas e aumentar o preço.

O tipo da letra, imitando os quadrinhos, em algumas vezes não é muito favorável ao leitor.

O Estranho Caso do Cachorro Morto

O Estranho Caso do Cachorro Morto, de Mark Haddon (Record, 12a. edição, 2011, 288 p.,  tradução de Luzi Antonio Aguiar e Marisa Reis Sobral, R$ 18,00), é um pequeno romance surpreendente.
Não foi à toa que recebeu o Prêmio Whitbread de melhor livro do ano de 2003.

“Narrativa brilhante e engenhosa…  este livro não é sòmente um dos romances mais originais dos últimos tempos… ... …. .” – The Times, como consta da capa

O livro conta, em primeira pessoa, a história de um adolescente autista, que vive apenas com o pai no interior da Inglaterra, sonha em ser astronauta, e encontra um cachorro morto por um forcado.

A partir daí, decide descobrir quem havia matado o animal da casa em frente à sua, e vai juntando peças de que-bra-ca-be-ças, que no entanto o conduzem a outras descobertas mais sérias, como o fato de que a mãe não havia morrido, como lhe contara o pai, mas vivia em Londres com o marido da dona do cachorro morto.

Os capítulos vão se misturando com a narrativa do pequeno Sherlock, com suas memórias e com pensamentos da lógica matemática que ele aprecia, para ordenar sua mente autista, incapaz de compreender metáforas, ou expressões faciais – muito menos emojis.

Por exemplo, os capítulos do livro são numerados na seqüência dos números primos. 2, 3, 5, 7, 11, 13, 17, 19, … 233.

A linguagem do livro é rápida, a leitura é muito dinâmica, embora às vezes sobre para o leitor um pouco da angústia de ter de mergulhar no pensamento quase inflexível do rapaz.

Grande livro. Recomendo sua leitura, tanto pelo valor literário, como para poder alargar a visão do mundo em que vivemos.

 

 

 

Demian

Demian, de Hermann Hesse, escrito em 1919, é tido como a auto-bio-graphia do famoso escriptor que, nas décadas de 1960 e 1970, tornou-se ícone dos movimentos pacifistas.

Li a 45a. edição brasileira, comemorativa dos cinqüenta anos do lançamento da obra em terras tupinambás. Editora Record, 2016, tradução e pós-fácio de Ivo Barroso, 194 p., R$ 32,90.

O livro narra a história de um garoto, Emil Sinclair, que tem dificuldades de relacionamento com os colegas na escola. Nesse contexto ele conhece Max Demian, que lhe expõe teorias sobre a capacidade das pessoas em praticar tanto o bem como o mal, chamado o Sinal de Caim, e que lhe fala de Abraxas, a divindade síntese de deus e do demônio.

Mais tarde, Sinclair conhece outros rapazes com quem troca conversas do mesmo tipo de religiosidade mística, um mais velho, o organista Pistórius, e outro da mesma idade, Knauer. O vínculo com Demian, contudo, sempre jaz e floresce na vida de Sinclair, como uma forma de amor platônico, que anos mais tarde também se transfere para a mãe de Demian, Eva.

Tudo no livro são narrativas de pensamentos, de sofrimentos, de vergonha, de sexualidade não resolvida, de estudos psicanalíticos, de idealizações e idealismos.

Ao final, a Guerra se impõe, pois para que algo nasça é preciso que alguma coisa morra…

 

 

A Cabeça do Italiano

A Cabeça do Italiano – uma visita guiada (título original: La Bella Figura), de Beppe Severgnini, Editora Record, 2008, tradução de Sérgio Mauro, 272 p. – R$ 21,00, não é um livro de viagens, como aparece na classificação dos editores.
É um livro escrito por um  jornalista, para retratar o comportamento médio dos italianos, que salienta a diferença e a igualdade entre as regiões do país.

A desorganização e o descompromisso com “o outro”- o que importa é ao “eu vou me dar bem”.
Desordem nas filas, burocracia, trânsito e transporte, comércio, gastronomia, moradia, bancos, igrejas, praias, futebol, turismo sexual e corrupção.

Parece com um outro país que você conhece, não é mesmo?

O texto é de leitura fácil, mas nem todos os capítulos despertam interesse.
Destaco:

A Itália é um país indisciplinado, mas uniforme em sua indisciplina.

Os piores inimigos da paisagem já não são a ignorância e a fome, nascida da pobreza. A principal ameaça é a ganância, agravada pelo mau gosto. Ambos ficaram espertos e agora se dizem democráticos e populares. Como eu ia dizendo, os governos concedem anistias regulares e desastrosas a violadores de códigos. Muitos governos municipais, onde o construtor é amigo do prefeito, quando não é, ele mesmo, o prefeito, justificam essas abominações alegando que elas criaram empregos. Não se sabe se estão sendo míopes ou descarados.

como virar Buda em cinco semanas

Que título longo: como virar Buda em cinco semanas – o caminho mais curto para a serenidade.
Foi assim que Giulio Cesare Giacobbe, Ph.D em psicologia, denominou seu livro (Best Seller, um ramo da editora Record, 2009, tradução de Carlota M. Xavier, 140 p.), escrito como auto-ajuda e auto-convencimento, após a morte do filho de 27 anos.

Fala sobre As Quatro Nobre Verdades e O Nobre Caminho Óctuplo da doutrina budista.
Até aí tudo bem, mas querer convencer o leitor de que o filho morto se tornou um buda, e que fazendo exercícios ràpidamente todos conseguirão fazer o mesmo, é simplesmente ultrapassar os limites do bom-senso.
Compreendo que o autor sinta a perda do filho, mas esse tipo de auto-convencimento se enfraquece quando surge com “fórmulas” para o “método científico” para a “presença da realidade”, no caso, a própria Itália do século XXI.

Admiro muito a filosofia budista, e o Dr. Giacobbe a resumiu bem, de forma, claro.
Não gostei, porém, desse tentativa de encontrar o caminho mais curto para receber uma graninha.
O livro ficou com “cheiro” de charlatanismo.

 

Guerra das Rosas – 1

Guerra das Rosas – 1 – Pássaro da Tempestade, de Conn Iggulden (Editora Record, 2014, 406 p., R$ 45,00) é um romance histórico que inicia uma coleção de três livros sobre o período histórico das lutas dinásticas entre York e Lancaster, na Inglaterra, enquanto ainda ocorria a Guerra dos Cem Anos, contra os franceses.

Como romance  histórico, conforme admite o próprio autor, o livro “cria” fatos a partir de suposições.
Na nota histórica no final o livro o próprio autor esclarece essas inserções.
Não raras vezes eventos paralelos, ocorridos com a população civil, como a fuga de ingleses dos territórios perdidos para os franceses, e a revolta popular no Kent, são mais interessantes do que os episódios dos conchavos e traições de cortesãos.
Há diálogos que são tão improváveis e mal escritos como se eu me propusesse a escrever um romance. Teria sido melhor manter a narrativa em terceiro pessoa do que inseri-los para “dar cor” ao romance.

Do prólogo, referente a 1377, o autor passa para o corpo do livro, em 1443, sem informações históricas que complementem o texto.

Ao iniciar a leitura, pesquisei na internet referências sobre o autor e a obra, e o que encontrei foram vários blogs que apenas reproduziam a resenha que havia sido divulgada pela editora quando do lançamento do livro.
Eu, como consumidor, me senti lesado.
Se não leu o livro, por favor, não o comente.

A impressão que Conn Iggulden me transmitiu foi a de que se trata de mais um escritor que pretende ganhar a vida, lançando livros a cada temporada.
Já havia escrito, no início da carreira literária, a coleção O Imperador, sobre a vida de Júlio César, e a história do general romano não foi exatamente a preocupação do romancista Iggulden.
Seu nome estará ausente de minha curiosidade no futuro.

Em uma classificação de até cinco estrelas, Guerras das Rosas fica com três.