biografia

Eduardo VII

Eduardo VII, de André Maurois (Globo Livros, 2014, 303 p. R$ 49,90), foi escrito em 1933, mas só agora é publicado no Brasil, em função do centenário do início da Primeira Guerra Mundial (embora o Rei tenha morrido em 1910).
O título original inglês é Rei Eduardo VII e seu tempo, já o título brasileiro é Depois da Rainha Victoria, Edward VII.

Eduardo VII tinha já 54 anos, quando ascendeu ao trono, em sucessão a sua mãe, a famosa Rainha Vitória. Por isso, a parte inicial do livro trata de assuntos do reinado de Vitória, a mãezona do Império Britânico, e que era de certo modo também a avòzona do mundo todo.

Vitória, sob a influência do marido alemão Alberto (embora ele tenha morrido com apenas 44 anos), transformou a corte inglesa da futilidade das dinastias francesas (Bourbon, Orléans e Bonaparte) para um reinado voltado para a burguesia, deixando de fora a velha aristocracia.
Vitória governava para a classe média.
Pobres ela não sabia como eram, mas aristocratas ela atirou no lixo.

Eduardo Alberto, ainda príncipe de Gales, fez uma viagem oficial aos Estados Unidos, a primeira na história das relações entre os dois países, e foi tão adorado pelos americanos, que pediram que ele voltasse dali a uns anos para se candidatar a presidente dos EUA. Descobriram a frustração de serem uma reles republiqueta, coisa que se estendeu por todos os presidentes seguintes. Mesmo no enterro de Eduardo VII, em 1910, a presença do ex-presidente Theodore Roosevelt deu sinal de que as repúblicas eram países de segunda categoria no início do século XX.

Tinha aprendido com a mãe que o rei reina, não governa, mas tem (e exerce) o direito de saber,  direito de encorajar e o direito de advertir. Aliás, é assim que os ingleses funcionam até hoje.

O curto reinado de Eduardo VII, apenas nove anos, foi contudo marcado por muitas mudanças. As tradicionais disputas políticas entre Conservadores e Liberais adquirem o novo componente do Partido Trabalhista, fala-se muito do Home Rule na Irlanda, a mudança na composição da Câmara dos Lordes, para eliminar o poder de veto que ainda mantinha sobre decisões tomadas na Câmara dos Comuns, e o Rei jogou com muita habilidade no entendimento que buscava entre todas as partes. Também durante seu reinado ocorreram as manifestações em favor do voto feminino (as suffragettes), que passou a valer logo após o término da Grande Guerra.

Fora isso, se o reinado de Vitória foi o império do trem, Eduardo VII deu início ao império da bicicleta e do automóvel. Jorge V, mais tarde, veria o império do avião.

As relações de amizade que mantinha, desde quando ainda Príncipe de Gales, serviram para acomodar muito do trabalho de diplomacia a que ele se interessava, com outros monarcas europeus, bem como com os presidentes franceses. Inspirou a aproximação com a França e com a Rússia, promovendo a Entente Cordiale, que se contrapôs à Tríplice Aliança montada pela Alemanha, pela Áustria-Hungria e, na época, a Itália.

As relações com o sobrinho, o Kaiser Guilherme II, porém, sempre foram cheias de desconfiança, e foram tornando mais difíceis as que envolviam seus países.

Por acaso tenho lido outros artigos, que agora vêm sendo publicados por conta dos cem anos da Grande Guerra, e parece haver unanimidade em que o comportamento psicològicamente doentio do Kaiser foi decisivo para o desencadeamento do conflito. Segundo alguns autores, não houve sequer uma II Guerra, pois aquela primeira nunca chegou a ser concluída.

Nisso erram historiadores marxistas, que insistem em que a economia é a causa de todos os arranques e de todas as alterações. Podem contribuir para o surgimento de cenários propícios, mas figuras execráveis como Napoleinho, o Kaiser, Stálin e Hitler deram o tom final para que a História tomasse rumos desastrosos. Sem eles, até mesmo os desastres econômicos teriam sido menores. Pessoas têm sim um poder muito grande de modificar rumos de povos.

Ah, só um lembrete: fumar faz mal à saúde.

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Nessa polêmica sobre “autorização prévia” para se escrever biografias no Brasil, tenho algumas certezas.

Para que quero ler a biografia de Caetano Veloso? Chico Buarque? Roberto Carlos? Quando estou com rádio ligado, não são poucas as vezes em que troco de estação no mesmo instante em que suas vozes desafinadas começam a invadir meus ouvidos. Bons letristas, em alguns casos, mas muito melhor se interpretados por cantores de verdade. Por outro lado, músicos na maioria das vezes medíocres, repetitivos, chatos mesmos. Cantores? Não.

Para que me interessa a biografia de “defuntos frescos”, cujos livros foram escritos por oportunismo de gente que queria faturar grana com celebridades? Aírton Sena, Michael Jackson, Steven Jobs, Lady Di, e sei lá quantos outros que já tinham recebido muito dinheiro em vida, e que continuam a dar lucros para outros depois de mortos. Essas biografias são tão oportunistas quanto projetos do poder legislativo para dar nomes de ruas ou de aeroportos a um ou a outro defunto do momento.

O que ganho com a biografia de “defuntos estrelas”, como Marilyn Monroe, Elvis, Kurt Cobain, e sei lá quantos artistas famosos, que quase nada deixaram de contribuição para a sociedade e para seu avanço?

As vidas dessas pessoas todas são objeto de tudo quanto é “caderno de cultura e fofocas” dos jornais mais variados do país. Nada contribuem para a qualificação do pensamento da população – chavões superados há décadas, e mais do que isso totalmente incoerentes com a vidona grande burguesa que vivem. Esquerda caviar do pior tipo.

Eles e todos os outros que fazem essa campanha contra as biografias não autorizadas pelos biografados.

Dá para acreditar nas biografias escritas para enaltecer políticos? Todos têm o ranço da ideologia do autor babando perante o ídolo. Isso não é história, é perpetuação da lenda. Getúlio, Che Guevara, Marighella, JK, e outros tantos.

Por sua vez, há “biógrafos” que são mais chatos do que os biografados.
Uma vez ganhei o livro “Garrincha”, e quem mo deu disse: li e não gostei.
Não terminei de ler e dei-o, também. Quem o recebeu tampouco gostou do livro.
Três “não gostei”.
A vida de Mané era bem menos interessante do que o jogador em campo.
A biografia dessas pessoas pouco ou nada contribui para alguma coisa em nossas vidas. Igualzinho à falsa história de um ex-presidente, que foi retratada em um filme. Aproveita-se algo da óbvia propaganda política?

Lógico que os “biógrafos” reclamam, pois perdem o filão de ouro de seus aborrecidos livros oferecidos a curiosos que não gostam de se aprofundar, mas apenas conhecer algumas pinceladas daqui e uns retoques dali.

Desde que Fernando Sabino escreveu a biografia daquela economista que em um passe de mágica fez desaparecer o dinheiro de todos os brasileiros, nunca mais quis ler nada que ele tenha escrito. Desde então FS faz parte de minha lista de não-escritores.

Se há pessoas com tantos desejos de escrever biografias, melhor – mais útil, mais elucidativo, mais difícil, também – que abordem a vida de pessoas mortas há mais de um século, cuja verdadeira história confundiu-se com lendas e com fatos mal contados ou não explorados. Pedro II, Lincoln, Marx, Michelangelo, Voltaire.
Nisso, biografias escritas por autores de História são incomparàvelmente melhores.

Que tal deixarmos os corpos apodrecerem por uns cinqüenta anos, para depois se fazer uma avaliação, de cabeça fria, sobre a importância ou não de registrar a vida dessas pessoas na História e na Literatura, com letras maiúsculas.

Que tal deixarmos empoeirados nas livrarias essa sub-literatura que insistem em nos empurrar, chamada “biografia”. O tempo é o senhor da razão. O tempo serve para  avaliarmos quem merece que suas vidas sejam de nós conhecidas.

Apenas este comentário: leio sim biografias, não livros de fofocas ou panfletos.

As Quatro Coroas de D. Pedro I

As Quatro Coroas de D. Pedro I (Editora Paz e Terra, 1996, 350 p., R$ 90,00) foi escrito por Sergio Corrêa da Costa em 1940, foi posteriormente aumentado para inclusão de um capítulo sobre o Rapto de D. Pedro Tentado pelos Argentinos.

Divide-se em seis partes:

I – D. Pedro e a coroa do Brasil, que inclui a independência do Brasil, os casamentos com Dona Leopoldina e com Dona Amélia de Leuchtenberg, a relação com a Marquesa de Santos, a cultura de D. Pedro (nada desprezível, sobretudo para os padrões atuais) e as relações com a maçonaria;

II – D. Pedro e a coroa da Grécia;

III – D. Pedro e a coroa da Espanha;

IV – D. Pedro e a coroa de Portugal;

V – Os grandes auxiliares de D. Pedro (Palmela, Saldanha e Mouzinho da Silveira);

VI – Pedro, o Magnânimo.
Ao contrário de tantas obras que preferem apresentar caricaturas do primeiro imperador do Brasil (e também rei de Portugal), o historiador demonstra as muitas qualidades de que desfrutava o Duque de Bragança.

Mostra Leopoldina como uma mulher interessada na política, mas realmente muito desinteressante no que se refere à feminilidade. Questiona fatos relacionados ao casal, que muitas vezes teriam sido inventados por Metternich, o chanceler austríaco, ainda ressentido de derrotas que sofreu com relação a Portugal após a queda de Napoleão. O livro também mostra Maria Domitila, a Marquesa de Santos, como uma mulher que praticou intensamente a caridade, e o autor pergunta por que a cristandade pôde perdoar e santificar Madalena, mas não pode retirar as pechas sexuais que ainda recaem sobre a dama brasileira.

O livro mantém muitos trechos originais de documentos em português e em outras línguas (espanhol, francês, italiano) que comprovam o respeito que as pessoas tinham por Pedro I em sua época.

Uma pena que se faça tanto esforço para desmantelar a importância de uma pessoa que viveu poucos anos (apenas 34) em nome de um pseudo-modernismo de correção política, històricamente mentiroso, incompatível com a época em que ocorreram os fatos a ela relacionados.

D. Pedro II

A Condessa de Barral me fez tomar coragem de ler D. Pedro II, de José Murilo de Carvalho (Companhia das Letras, 2007), que há muito tempo aguardava minha leitura.

José Murilo é um historiador de sentido mais tradicional, por isso o livro não tem a mesma fluidez das obras de Mary del Piore. Dessa forma, o livro não chega a parecer um romance – é exatamente um livro de história.

Mas a importância de D. Pedro II na formação do Brasil, e sua incontornável indecisão quando à abolição da escravidão, e suas conseqüências, é inquestionável.

Interessante o capítulo sobre a Guerra da Tríplice Aliança, travada com o inimigo errado (Paraguai) e com o aliado errado (Argentina).

Inegável que D. Pedro II foi o mais republicano de todos os governantes que o Brasil já conheceu. Avesso a todo tipo de salamaleques e de mamatas com dinheiro público. Exatamente o contrário de democratas, caudilhos, milicos e outros tipos de presidentes que o Brasil teve depois da proclamação da república.

Condessa de Barral, a paixão do imperador

Com certo atraso, retirei da estante um livro que me aguardava a leitura: Condessa de Barral, a paixão do imperador, de Mary del Priore (editora Objetiva, 2008).

Um pouco romanceado, o livro da historiadora narra muito bem a história da preceptora das princesas Isabel e Leopoldina, que teve um caso amoroso com D. Pedro II, e influenciou de várias formas as relações no Brasil monárquico, como lutar pelo fim da escravidão. A importância das viagens de Barral pela Europa, desde a infância até a morte.

A vida de Barral é tão intensa e bem retratada, que o livro bem que poderia servir roteiro para um bom filme histórico. Fica a sugestão – só espero que não seja Carla Camurati, com seu deboche destrutivo, que pretenda levar a sério a empreitada.

A Trégua

A Trégua, de Primo Levi (Coleção Grandes Escritores da Atualidade, Planeta DeAgostini, 2004), escrito em 1958, narra a experiência REAL que o autor viveu no campo de concentração de Auschwitz, e a posterior jornada por áreas da Europa Oriental, conduzido, com outros judeus italianos, pelo exército soviético vencedor.

Simplesmente muito bem escrito, sensível, e com detalhes muito interessantes, sobre o lado humano vivido pelos ex-prisioneiros do campo e os militares, o pessoal de saúde e a população comum das localidades percorridas por Levi.

Um retrato impressionante das conseqüências da guerra.

Dona Leopoldina

Dona Leopoldina, uma Habsburg no trono brasileiro, de Gloria Kaiser, é um livro que merecia ser mais conhecido. Talvez até mesmo ser leitura obrigatória em escolas.

O texto é meio chato, pois a autora considera que fazer digressões de memórias, mudando de épocas no meio do capítulo, é enriquecedor, quando isso é apenas entediante, pois faz o leitor perder o fio da meada.

Mas a biografia de Dona Leopoldina apresentada é muito rica, e mostra a imensa importância da primeira imperatriz brasileira no desenvolvimento de nossa História.

Pena que não se fizeram outras “primeiras-damas” tão sérias e interessadas no Brasil quanto ela.