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A casa de Virginia W.

A casa de Virginia W., de Alicia Giménez Bartlett (Ediouro, 272 p., R$ 21,00, 2005, título original Una habitación ajena, tradução de Joana Angélica d’Avila Melo) é um misto de romance e ensaio, com a inserção de trechos dos diários (autênticos) da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941) e da cozinheira Nelly Boxall (1890-1965), que trabalhou, de 1916 a 1934, com Virginia e seu marido Leonard (1880-1969).

Fiz a leitura no “modo diário”, a conta gotas, o que também deu oportunidade para permear com leituras sobre outros personagens e sobre o grupo de Bloomsbury,que reunia intelectuais e artistas do início do século XX na inglaterra, e como burgueses trabalhistas e socialistas fabianos condenavam e desprezavam os valores…  … burgueses da era vitoriana.

Nelly tem a capacidade de análise que faltou a sua colega Lottie Hope, que não questionava a incoerência entre o que era pregado pelo casal Woolf, em palestras e livros, e a atitude de indisposição com as classes inferior, o zé povinho, e o desconforto que lhes era oferecido nas próprias residências.

A escritora espanhola compõe em “la habitación ajena” (um dormitório na casa de outrem, em uma tradução livre) um retrato da falta de liberdade das empregadas domésticas nas casas de seus empregadores, fazendo a mixagem dos diários, de fatos daquelas décadas, e textos que foram inseridos para dar a movimentação de romance ao livro, e explicar os comportamentos sexuais do grupo de “vanguardistas”.

Um livro agradável e útil.

 

Confissões de uma Máscara

Confissões de uma máscara foi o primeiro romance escrito por Yukio Mishima (Círculo do Livro, 184 p., FR 12,00), em 1949, e narra em primeira pessoa a história de um jovem, desde a primeira infância até a adolescência em busca da maturidade em pleno final do catastrófico destino no Japão, ao final da Segunda Guerra, tomado por valores ocidentais.

Na primeira parte, a auto-observação de sua homossexualidade, e depois a valorização de um amor platônico pela irmã de um amigo, que busca compensar a perda dos valores tradicionais e as máscaras que são necessárias para a vida em sociedade.

A forma de escrita se altera nessas duas fases, uma que busca a discrição ao abordar um tema difícil para a sociedade da época, mais discreto e ao mesmo tempo mais agressivo, e a segunda com a tristeza de um país que se encaminha para a derrota.

Mishima transparece ao longo do livro os muitos aspectos de sua vida pessoal, que resultou, em 1970, no suicídio em busca da “honra”, muito relacionado aos valores militares.

A leitura é simples, concentrada na própria personagem do autor.
É mais importante por tratar dos aspectos psicológicos de Mishima e por ter sido a primeira experiência literária do escritor.

Ulisses

Ulisses, o clássico de James Joyce (L&PM Pocket – Mangá, tradução do japonês de Drik Sada, 2016, 388 p.), não me convenceu.

Simplesmente isso.

O mais famoso livro de James Joyce nunca foi famoso por suas gravuras, mas pelo texto.
O formato de mangá, porém, enaltece as figuras, e não o texto.
Além disso, a onomotopéia em japonês, com legendas ao pé de quadros, é um tanto incômoda de ser absorvida, ao mesmo passo em que esconde muitos detalhes descritos por Joyce.

O mangá segue rigorosamente a divisão em três partes e seus subcapítulos do livro de Joyce.
Os personagens, as horas retratadas, e tudo mais, estão de acordo com o que se encontra no original.
Os desenhos, contudo, não são capazes de transportar o leitor ao ambiente e às idéias dos personagens dublinenses.

Parece mesmo que não apenas foi feita a tradução do texto do japonês para o português, mas que Joyce vivia em Tóquio, e não na Irlanda.

Vale como experiência lúdica, não porém como literatura.

 

 

 

 

A Lebre com Olhos de Âmbar

Quando eu estava na escola primária, na década de 1960, uma das coisas de que eu menos gostava, nas aulas de Linguagem, era a tal descrição.

Eu olhava para a imagem, e via um menino pescando em um córrego. Ponto final.

A professora (naquele tempo não era tia) dizia que eu tinha de descrever como era o calção, a camisa, a botina, a vara de pescar, a margem do córrego onde o menino estava sentado, a outra margem, a cor do céu, o formato de uma eventual nuvem, …. Tudo o que (para mim) era supérfluo era o que contava.

Ao ler A Lebra com Olhos de Âmbar, de Edmund de Waal (editora Intrínseca, tradução de Alexandre Barbosa de Souza, 2011, 320 p.), tive a impressão de que estava em uma daquelas aulas.

A história (real) poderia se concentrar na vida da família Ephrussi, de comerciantes judeus que fizeram coleção de miniaturas japonesas (netsuguês), que percorreram o Japão, a Áustria e a Inglaterra, antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial.

Mas não. o ceramista que escreveu o livro seguiu rigorosamente as orientações da professora de Linguagem.

A casa ficava em uma rua assim, tinha a fachada assado, as casas ao lado eram de outro estilo, a escadaria era… , o hall tinha móveis …, o andar de cima ….

Fiquei perdido no meio de tantas descrições.

E certamente o ceramista tinha muitos detalhes visuais para dar a tudo o que havia no cenário do livro.

Resultado: ao contrário da “crítica especializada”, achei o livro tedioso.

Prova de que contratar um “editor” pode dar bons resultados de venda, mas, dar ao livro o interesse que a indústria gráfica deseja, pode afastar uma outra parte do público leitor.

160 páginas poderiam dar conta do recado, pois, exceto o ponto de vista da família do autor, nem mesmo a parte histórica é algo que traga novidades, exceto o ponto de vista da família do autor. É apenas a descrição de cenas que foram mostradas em livros e em filmes.

 

90 Livros Clássicos para Apressadinhos

Em menos de uma hora li 90 livros clássicos.

O livro de ilustrações do sueco Henrik Lange (tradução de Ota, Galera Record, 2010, 190 p.), traz em apenas três quadrinhos o resumo de várias obras, algumas clássicas, e outras bem menos conhecidas do brasileiro médio.

  • Psicopata Americano, 1991, Bret Easton Eilis
  • Passagem para a Índia, 1924, E. M. Forster
  • A Praia, 1996, Alex Garland
  • O Sono Eterno, 1939, Raymond Chandler
  • Águas Negras, 1922, Joyce Carol Dates
  • Admirável Mundo Novo, 1932, Aldous Huxley
  • Ayla, a Afilha das Cavernas, 1980, Jean M. Axel
  • Cidade de Vidro, 1987, Paul Auster
  • Uma Confraria de Tolos, 1980, John Kennedy Toole
  • Morte de um Caixeiro-Viajante, 1949, Arthur Miller
  • Drácula, 1897, Bram Stoker
  • Fahrenheit 451, 1953, Ray Bradbury
  • Rambo, 1972, David Morrell
  • O Carnê Dourado, 1962, Doris Lessing
  • O Grande Gatsby, 1925, F. Scott Fitzgerald
  • As Viagens de Gulliver, 1726, Jonathan Swift
  • O Guia do Mochileiro das Galáxias, 1979, Douglas Adams
  • Cem Anos de Solidão, 1967, Gabriel García Márquez
  • Eu sou a Lenda, 1954, Richard Matheson
  • Em Busca do Tempo Perdido, 1927, Marcel Proust
  • Agência nº 1 de Mulheres Detetives, 1999, Alexandre McCall Smith
  • O Perfume, 1985, Patrick Susskind
  • O Cemitério, 1983, Stephen King
  • A Pianista, 1983, Elfried Jelinek
  • A Sombra do Vento, 2001, Carlos Ruiz Zafón
  • O Estrangeiro, 1943, Albert Camus
  • O Espião que veio do Frio, 1963, John le Carré
  • Pássaros Feridos, 1977, Collen McCullough
  • Os Três Mosqueteiros, 1844, Alexandre Dumas
  • O Sol é para Todos, 1960, Harper Lee
  • A Cabana do Pai Tomás, 1852, Harriet Beecher Stowe
  • O Código Da Vinci, 2003, Dan Brown
  • O Senhor dos Anéis, 1955, J. R. R. Tolkien
  • Coração das Trevas, 1899, Joseph Conrad
  • O Velho e o Mar, 1952, Ernest Hemingway
  • As Crônicas de Nárnia: o Leão, o Feiticeiro e o Guarda—Roupa, 1950, C. S. Lewis
  • O Senhor das Moscas, 1954, William Golding
  • A Guerra dos Mundos, 1898, H. G. Wells
  • 1984, 1949, George Orwell
  • Moby Dick, 1851, Herman Melville
  • O Processo , 1925, Franz Kafka
  • A Bíblia
  • Crime e Castigo, 1866, Fiódor Dostoiévski
  • Don Quixote de La Mancha, 1605, Miguel de Cervantes
  • Vinte Mil Léguas Submarinas, 1870, Júlio Verne
  • A Ilha do Tesouro, 1883, Robert Louis Stevenson
  • O Retrato de Dorian Gray, 1890, Oscar Wilde
  • As Aventuras de Tom Sawyer, 1876, Mark Twain
  • O Nome da Rosa, 1980, Umberto Eco
  • Morte em Veneza, 1912, Thomas Mann
  • Lolita, 1955, Vladimir Nabokov
  • Ardil 22, 1961, Joseph Heller
  • Odisséia, sec. VIII a.e.C., Homero
  • O Apelo da Selva, 1903, Jack London
  • Mistério na Neve, 1992, Peter Høeg
  • Era uma Vez em Watership Down, 1972, Richard Adams
  • A Vida de Pi, 2001, Yann Martel
  • Almoço Nu, 1959, William S. Burroughs
  • As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, 1865, Lewis Carroll
  • Náusea, 1958, Jean-Paul Sartre
  • Bola de Sebo, 1884, Guy de Maupassant
  • O Caso dos Dez Negrinhos, 1939, Agatha Christie
  • Laranja Mecânica, 1962, Anthony Burgess
  • O Corcunda de Notre-Dame, 1831, Victor Hugo
  • Três Garotos num Barco, 1889, Jerome K. Jerome
  • Ratos e Homens, 1937, John Steinbeck
  • On the Road, 1957, Jack Kerouac
  • O Mestre e Margarida, 1928, Mikhail, Bulgakov
  • O Apanhador no Campo de Centeio, 1951, J. D. Salinger
  • Ulisses, 1922, James Joyce
  • Nada de Novo no Front, 1929, Erich Maria Remarque
  • O Coração Denunciador, 1893, Edgar Allan Poe
  • O Submarino, 1973, Lothar-Günther Buchheim
  • Watchmen, 1987, Alan Moore
  • Um Estranho no Ninho, 1962, Ken Kesey
  • Thérèse Raquin, 1867, Émile Zola
  • Nosso Homem em Havana, 1958, Graham Greene
  • A Fantástica Fábrica de Chocolate, 1964, Roald Dahl
  • Romeu e Julieta, 1597, William Shakespeare
  • Frankenstein, 1818, Mary Shelley
  • Robison Crusoé, 1719, Daniel Defoe
  • O Cão dos Baskervilles, 1902, Arthur Connan Doyle
  • O Lobo da Estepe, 1928, Herman Hesse
  • Factótum, 1975, Charles Bukowski
  • Orgulho e Preconceito, 1815, Jane Austen
  • Os Nus e os Mortos, 1848, Norman Mailer
  • 2001: Uma Odisséia no Espaço, 1968, Arthur C. Clarke
  • Oliver Twist, 1839, Charles Dickens
  • Fome, 1890, Knut Hamsun
  • O Alquimista, 1988, Paulo Coelho.

A lista contempla muito mais livros em língua inglesa, alguns dos quais mais conhecidos pela adaptação ao cinema, do que uma verdadeira relação de livros clássicos. Lamentàvelmente, o único livro em língua portuguesa é apenas um best-seller.

Sem Goethe, nem Tolstói, Balzac, Marquês de Sade, Tchekhov, Sófocles, Cortázar, Hans Andersen, Ibsen, Eça de Queirós, ou até mesmo Saramago.

A forma de escrever dos quadros é bastante agradável, muito atualizada para o linguajar do final do século XX – início do XXI, apesar de, claro, não cobrir toda a trama dos livros.

A leitura pode ser útil, para reavivar livros já conhecidos ou para estimular o interesse por outros.

A composição das páginas, porém, é mais um dos famosos engodos editoriais de deixar muito espaço em branco, para aumentar o volume de páginas e aumentar o preço.

O tipo da letra, imitando os quadrinhos, em algumas vezes não é muito favorável ao leitor.

O Estranho Caso do Cachorro Morto

O Estranho Caso do Cachorro Morto, de Mark Haddon (Record, 12a. edição, 2011, 288 p.,  tradução de Luzi Antonio Aguiar e Marisa Reis Sobral, R$ 18,00), é um pequeno romance surpreendente.
Não foi à toa que recebeu o Prêmio Whitbread de melhor livro do ano de 2003.

“Narrativa brilhante e engenhosa…  este livro não é sòmente um dos romances mais originais dos últimos tempos… ... …. .” – The Times, como consta da capa

O livro conta, em primeira pessoa, a história de um adolescente autista, que vive apenas com o pai no interior da Inglaterra, sonha em ser astronauta, e encontra um cachorro morto por um forcado.

A partir daí, decide descobrir quem havia matado o animal da casa em frente à sua, e vai juntando peças de que-bra-ca-be-ças, que no entanto o conduzem a outras descobertas mais sérias, como o fato de que a mãe não havia morrido, como lhe contara o pai, mas vivia em Londres com o marido da dona do cachorro morto.

Os capítulos vão se misturando com a narrativa do pequeno Sherlock, com suas memórias e com pensamentos da lógica matemática que ele aprecia, para ordenar sua mente autista, incapaz de compreender metáforas, ou expressões faciais – muito menos emojis.

Por exemplo, os capítulos do livro são numerados na seqüência dos números primos. 2, 3, 5, 7, 11, 13, 17, 19, … 233.

A linguagem do livro é rápida, a leitura é muito dinâmica, embora às vezes sobre para o leitor um pouco da angústia de ter de mergulhar no pensamento quase inflexível do rapaz.

Grande livro. Recomendo sua leitura, tanto pelo valor literário, como para poder alargar a visão do mundo em que vivemos.

 

 

 

Silêncio

Silêncio, de Shusaku Endo (Tusquets editores, traduzido do japonês para o inglês por William Johnston e daí para o português por Mário Vilela, 2017, 270 p., R$ R$ 37,00), foi escrito em 1966, e aborda a perseguição religiosa promovida no Japão, durante o século XVII, contra os cristãos que tinham sido convertidos por missionários portugueses anos antes.

O livro tem prefácio do cineasta Martin Scorsese, que dirigiu filme do mesmo nome em 2016.

Dois padres, Ferreira e Garpe, viajam de Goa para Macau e partem em viagem clandestina para o Japão, com o intuito de restabelecer o contato de Portugal com os cristãos convertidos nas décadas anteriores durante missão de São Francisco Xavier, iniciada em 1549, mas que passaram a ser perseguidos pelo novo governo do xogunato japonês, a partir de édito de expulsão de 1614.

Além disso, buscavam informações sobre um padre Rodrigues, que havia sido professor no seminário em Lisboa, de quem se dizia que havia feito a apostasia.

O romance baseia-se em fatos reais, mas não é um retrato histórico. Muitas datas e fatos aparecem corrigidos nas notas de rodapé do tradutor.

Descreve a vida das reclusas comunidades cripto-cristãs no Sul do Japão, e as muitas práticas de tortura a que eram submetidos para efetivarem a apostasia, bem como as traições realizadas por japoneses, que denunciavam inclusive parentes, em troca de recompensas.

Padre Ferreira, personagem principal, faz comparações entre ele mesmo, a apostasia, o flagelo de Jesus, e o papel de Judas.

Apesar do tema, o livro tem leitura fácil e desenvolve uma importante dúvida entre civilizações e culturas que, costumeiramente, consideram-se superiores a outras, tentando impor seus costumes e suas doutrinas.