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Os Románov

Recebi “Os Románov 1613-1918“ (Simon Sebag Montefiore, Companhia das Letras, 2017, 906 p.), e fiquei entusiasmado.

Ledo engano.
Jornalista que pretende ser historiador tem de ser mais do que um reles escrevinhador de fofocas.
O livro parece um roteiro de novela mexicana, com muito sexo e doenças. Apenas isso.
Cheguei à página 383, início do século XIX, e desisti.

Descobri que muito pior do que os loucos de todo gênero foi a seqüência de imperadores que tentaram imitar os reis germânicos, sobretudo Pedro I e a alemoa Catarina II, denominados de os grandes.

O livro é uma pura coleção de curiosidades sobre as pessoas. Não fala nada sobre a sociedade, a política e a economia da Rússia imperial.
Certamente o autor supôs que esses dados destoariam do tom de revista sobre jêntchi famóza, que tem seu público,mas não exatamente entre leitores de História.

 

Um homem: Klaus Klump

Ganhei Um Homem: Klaus Klump, de Gonçalo M. Tavares (Companhia das Letras, 2007, 116 p.), foi publicado em Portugal em 2003 e editado no Brasil conforme a grafia portuguesa, e não sob as regras do desacordo ortográfico.

Narra um país em guerra, sob ocupação militar, em que os sons das armas se elevam inclusive aos da língua local.

Klaus Klump é membro de uma rica família, que tem como atividade editar livros contra a política e o sistema econômico, indiferente ao regime militar, até que sua amante é violentada por soldados, o que o leva a optar pela guerrilha, sendo contudo aprisionado.

Outros personagens se acercam à narrativa, ao longo de vários anos de guerra e posteriormente de paz, e ocupam a vida de Klaus.

Após o retorno da vida civil e democrática, como membro da classe abastada, Klaus assume a direção dos negócios familiares, abrindo mão dos ideais revolucionários que havia anteriormente assumido.

Durante o período de guerra, a narrativa é repetitiva e enfatiza as máquinas. Não pude deixar de sentir uma sombra das obras do realismo fantástico, escritas pelo goiano José J. Veiga durante as décadas de 1980 e 1990.
Terminada a guerra no romance de Gonçalo Tavares, a narrativa assume outra forma, de menos efeitos e de mais linearidade.

Não deixa uma impressão além da obviedade do comportamento humano.
Terei de ler outras obras do autor português para estar capacitado a opinar sobre que tipo de emoção ele deixou (ou não) em mim. Até agora pareceu déjà vu.

Kyoto

Kyoto, de Yasunari Kawabata (Estação Liberdade, 2006, 256 p., tradução de Meiko Shimon, R$23,00) é uma obra, de 1960, que desenvolve uma história de duas irmãs gêmeas com vinte anos, na antiga capital japonesa, na década de 1960.

Na época, havia ainda entre os japoneses o preconceito contra gêmeos, por isso, ainda recém-nascida, uma das filhas – Chieko – havia sido abandonada na cidade, e criada como filha por um casal cujo marido é proprietário de uma tecelagem e confecção de quimonos, enquanto a outra – Naeko – é criada na pequena aldeia onde havia nascido, tendo os pais morrido logo.

O livro narra as muitas festas de caráter religioso, budista ou xintoísta, que marcavam estações do ano ou outros eventos de ordem natural.

Em uma dessas festividades as duas irmãs vêem-se pela primeira vez, e a partir daí desenvolvem uma relação de amizade afetuosa mas muito formal, dadas as diferenças sociais que haviam marcado a criação de ambas.

Uma obra literária muito lírica, na descrição da natureza e das festas tradicionais, com passagens em torno de Chieko e seus amigos, e da vida cheia de frustrações do empresário que a adotou.

Uma boa leitura.

 

 

A casa de Virginia W.

A casa de Virginia W., de Alicia Giménez Bartlett (Ediouro, 272 p., R$ 21,00, 2005, título original Una habitación ajena, tradução de Joana Angélica d’Avila Melo) é um misto de romance e ensaio, com a inserção de trechos dos diários (autênticos) da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941) e da cozinheira Nelly Boxall (1890-1965), que trabalhou, de 1916 a 1934, com Virginia e seu marido Leonard (1880-1969).

Fiz a leitura no “modo diário”, a conta gotas, o que também deu oportunidade para permear com leituras sobre outros personagens e sobre o grupo de Bloomsbury,que reunia intelectuais e artistas do início do século XX na inglaterra, e como burgueses trabalhistas e socialistas fabianos condenavam e desprezavam os valores…  … burgueses da era vitoriana.

Nelly tem a capacidade de análise que faltou a sua colega Lottie Hope, que não questionava a incoerência entre o que era pregado pelo casal Woolf, em palestras e livros, e a atitude de indisposição com as classes inferior, o zé povinho, e o desconforto que lhes era oferecido nas próprias residências.

A escritora espanhola compõe em “la habitación ajena” (um dormitório na casa de outrem, em uma tradução livre) um retrato da falta de liberdade das empregadas domésticas nas casas de seus empregadores, fazendo a mixagem dos diários, de fatos daquelas décadas, e textos que foram inseridos para dar a movimentação de romance ao livro, e explicar os comportamentos sexuais do grupo de “vanguardistas”.

Um livro agradável e útil.

 

Confissões de uma Máscara

Confissões de uma máscara foi o primeiro romance escrito por Yukio Mishima (Círculo do Livro, 184 p., FR 12,00), em 1949, e narra em primeira pessoa a história de um jovem, desde a primeira infância até a adolescência em busca da maturidade em pleno final do catastrófico destino no Japão, ao final da Segunda Guerra, tomado por valores ocidentais.

Na primeira parte, a auto-observação de sua homossexualidade, e depois a valorização de um amor platônico pela irmã de um amigo, que busca compensar a perda dos valores tradicionais e as máscaras que são necessárias para a vida em sociedade.

A forma de escrita se altera nessas duas fases, uma que busca a discrição ao abordar um tema difícil para a sociedade da época, mais discreto e ao mesmo tempo mais agressivo, e a segunda com a tristeza de um país que se encaminha para a derrota.

Mishima transparece ao longo do livro os muitos aspectos de sua vida pessoal, que resultou, em 1970, no suicídio em busca da “honra”, muito relacionado aos valores militares.

A leitura é simples, concentrada na própria personagem do autor.
É mais importante por tratar dos aspectos psicológicos de Mishima e por ter sido a primeira experiência literária do escritor.

Ulisses

Ulisses, o clássico de James Joyce (L&PM Pocket – Mangá, tradução do japonês de Drik Sada, 2016, 388 p.), não me convenceu.

Simplesmente isso.

O mais famoso livro de James Joyce nunca foi famoso por suas gravuras, mas pelo texto.
O formato de mangá, porém, enaltece as figuras, e não o texto.
Além disso, a onomotopéia em japonês, com legendas ao pé de quadros, é um tanto incômoda de ser absorvida, ao mesmo passo em que esconde muitos detalhes descritos por Joyce.

O mangá segue rigorosamente a divisão em três partes e seus subcapítulos do livro de Joyce.
Os personagens, as horas retratadas, e tudo mais, estão de acordo com o que se encontra no original.
Os desenhos, contudo, não são capazes de transportar o leitor ao ambiente e às idéias dos personagens dublinenses.

Parece mesmo que não apenas foi feita a tradução do texto do japonês para o português, mas que Joyce vivia em Tóquio, e não na Irlanda.

Vale como experiência lúdica, não porém como literatura.

 

 

 

 

A Lebre com Olhos de Âmbar

Quando eu estava na escola primária, na década de 1960, uma das coisas de que eu menos gostava, nas aulas de Linguagem, era a tal descrição.

Eu olhava para a imagem, e via um menino pescando em um córrego. Ponto final.

A professora (naquele tempo não era tia) dizia que eu tinha de descrever como era o calção, a camisa, a botina, a vara de pescar, a margem do córrego onde o menino estava sentado, a outra margem, a cor do céu, o formato de uma eventual nuvem, …. Tudo o que (para mim) era supérfluo era o que contava.

Ao ler A Lebra com Olhos de Âmbar, de Edmund de Waal (editora Intrínseca, tradução de Alexandre Barbosa de Souza, 2011, 320 p.), tive a impressão de que estava em uma daquelas aulas.

A história (real) poderia se concentrar na vida da família Ephrussi, de comerciantes judeus que fizeram coleção de miniaturas japonesas (netsuguês), que percorreram o Japão, a Áustria e a Inglaterra, antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial.

Mas não. o ceramista que escreveu o livro seguiu rigorosamente as orientações da professora de Linguagem.

A casa ficava em uma rua assim, tinha a fachada assado, as casas ao lado eram de outro estilo, a escadaria era… , o hall tinha móveis …, o andar de cima ….

Fiquei perdido no meio de tantas descrições.

E certamente o ceramista tinha muitos detalhes visuais para dar a tudo o que havia no cenário do livro.

Resultado: ao contrário da “crítica especializada”, achei o livro tedioso.

Prova de que contratar um “editor” pode dar bons resultados de venda, mas, dar ao livro o interesse que a indústria gráfica deseja, pode afastar uma outra parte do público leitor.

160 páginas poderiam dar conta do recado, pois, exceto o ponto de vista da família do autor, nem mesmo a parte histórica é algo que traga novidades, exceto o ponto de vista da família do autor. É apenas a descrição de cenas que foram mostradas em livros e em filmes.