erotismo

Diário de um velho louco

Diário de um velho louco (tradução de Leiko Gotoda, Estação Liberdade, 2007, 208 p., R$ 21,00), de 1962, foi o último livro escrito por Jun’ichiro Tanizaki, que morreu em 1965.

Em formato de diário, conta a história de um septuagenário rico, que descreve a velhice, as doenças (e remédios), as relações com os parentes, os médicos, e, sobretudo, a relação com a nora.

Fala do erotismo de alguém que se descreve como alguém que “continua vivo e não pode deixar de sentir atração pelo sexo oposto”.
Enquanto isso, o velho sai a procurar o túmulo que mandará construir para, em breve, guardar seus ossos.

A linguagem é sempre muito ágil, e tem muita ironia e sarcasmo do personagem com relação às pessoas que o cercam.

Por outras vezes, fala da aparente “dureza” que o velho tenta manter, mas que resvala em lágrimas, que esconde quando inquirido por seu estado de saúde.

Muito bom.

Ao contrário de Voragem, do mesmo autor e da mesma tradutora, neste livro, porém, não há muitas notas para explicar detalhes dos hábitos japoneses, como por exemplo peças da indumentária.

Nada grave. Podem perfeitamente ser sub-entendidos e passados por cima.
(sub por cima ?!)

 

 

 

 

As Mil e Uma Noites

Livro das Mil e Uma Noites – Volume I – ramo sírio (Editora Globo, 2005) é acima de tudo um genial e minucioso trabalho do tradutor Mamede Mustafa Jarouche.
A precisão com que se preocupou com o sentido das palavras, com a comparação entre diversos textos, não raras vezes contraditórios, e o humor com que trabalhou o texto em português, fazem desse livro algo muito interessante, ao passo em que deixou de lado – quando não contrariou – o texto do francês Antoine Galland que tornou a obra conhecida no mundo ocidental.

Interessante, no entanto, muito mais para quem gosta de línguas.
Do ponto de vista dos contos e histórias, variam de um erotismo-pornográfico a uma ingenuidade que demonstra alguma falta de imaginação dos autores que há séculos montaram a coleção das narrativas de Xerazade à irmã Duniazade e ao rei Xariar, evitando ser executada, como havia ocorrido com as anteriores esposas do rei.
Há tantos trechos tediosos que, se eu fosse Xariar, teria executado Duniazade antes do nascer do segundo dia, e exilaria Xerazade em florestas européias, para conhecer contos populares com personagens mais variados do que comerciantes e demônios.

As diversas adaptações fora do texto original em árabe melhoraram os contos.

Sangre de amor correspondido

Sangre de Amor Correspondido, de Manuel Puig (Seix Barral, 1982, 208 p.), foi escrito enquanto o autor de O Beijo da Mulher Aranha vivia no Rio de Janeiro.

Lembranças que se sucedem e se misturam, na vida de um jovem, da adolescência ao início da idade adulta, em uma vilazinha do Estado do Rio, em um subúrbio da cidade do Rio, e no interior de São Paulo, enquanto passa de estudante a pedreiro, eletricista e encanador.

Suas relações com namoradas e amantes, e o peso da relação com pai e mãe.

Um livro que poderia ser mais criativo. Seria também muito mais curto, se não abusasse de palavrões e de expressões como “verdad?” e “está claro?”, que, muitas vezes, tornam a leitura tediosa. O autor ficou devendo algo de mais qualidade.

O Último Suspiro do Mouro

O Último Suspiro do Mouro (The Moor’s last sigh), de Salman Rushdie (Editora Planeta DaGostini, 2003, 450 p., R$ 16,90), é um livro muito interessante. Além disso, a  tradução feita por Paulo Henriques Britto brinca com as palavras em português e sabe manter os trocadilhos do original em inglês.

Não é um livro daqueles que a gente pega e devora em minutos, porque é denso, e cheio de complicadas palavras indianas onde os olhos tropeçam. Mas achei o livro uma obra-prima.
Livro para portugueses e brasileiros lerem. Afinal de contas, sabemos o significado de Vasco da Gama, de Goa, de Salazar, e também de El Cid, de Isabel de Castela, e da conquista de Granada. Leitores de outros países podem não entender muitas coisas do livro, pois falta-lhes informação básica para isso.
Além disso, somos instruídos e sabemos quem foi Nehru, Indira, e todo o resto da curriola que é mencionada nas páginas. Involuntariamente, até fazemos comparações com dinastias de políticos brasileiros. Sabemos o que é um sikh, um muçulmano e um parse (zoroastriano como o Freddie Mercury), como também conhecemos ao menos um pouco do pensamento católico e do judaico . O livro mostra que, ao contrário do que se diz vulgarmente, deveríamos ter orgulho de sermos herdeiros da civilização lusíada.

O livro tem palavrões, mas palavrões que cabem nas horas certas, de raiva, de explosões. Não estão no texto por modernismo bobo de reprimidos.
Tem sexo, mas sexo em horas devidas, e não expostas a todo instante, como fazem escritores impotentes, que querem fingir a sexualidade já perdida.
Mostra que corrupção na Índia tem cara parecida com corrupção no Brasil.
Mostram, também, que Bombaim pode ser São Paulo ou Rio de Janeiro. Basta apenas observar e encontrar todas as semelhanças.
O livro fala dessa classe que se denomina artística, que tem a mesma cara pretensiosa e afrescalhada em todos os lugares.

Um livro que enriquece o leitor.

O Cortiço

O Cortiço, do grande Aluisio Azevedo (Martin Claret, 2011, 240 p., R$ 14,90), deveria ser leitura obrigatória para todos os brasileiros de tempos em tempos.

Em primeiro lugar, porque a atualidade do romance naturalista, publicado pela primeira vez em 1890, é incontestável. Em segundo lugar, e não menos importante, é a oportunidade de encontrar um livro escrito em muito bem escrita língua  portuguesa, algo que parece em vias de desaparecimento.

Não é necessária a vulgaridade ou os erros grosseiros para retratar a linguagem popular, de classes urbanas mais baixas, como crêem alguns “escritores caça-níqueis” de hoje.

A mescla de interesses dos imigrantes portugueses no final do Império brasileiro, entre a tradição lusitana e os novos costumes encontrados no Brasil, a fusão de cores de pele (indevidamente qualificadas como raças humanas), a sexualidade, ao mesmo tempo explícita e oculta, que até hoje domina o comportamento dos brasileiros. Tudo isso exposto com clareza em personagens bem retratados pelo escritor. Uma obra-prima, como sempre qualificada por estudiosos da literatura brasileira.

O Mulato

Depois de ter lido uma mensagem eletrônica com expressões e gírias do Brasil de 2011, para compensar, mergulhei-me na leitura de O Mulato, escrito por Aluísio Azevedo em 1881 (L&PM Pocket, 330 p., 2011, R$ 14,90).

É impressionante como o livro ainda tem muita atualidade. Problemas da corrupção no Brasil, o coronelismo, a interferência da igreja em todos os assuntos, racismo – disfarçado ou assumido, trabalho degradante, violência e crimes “sem solução” judiciária.

Tendo sido o primeiro romance naturalista escrito no Brasil, o livro ainda mantém um pouco das características românticas, como a linearidade dos personagens – ou bons ou maus. A linguagem e o tema, porém, fazem esta obra merecer lugar destacado no quadro da literatura brasileira.

Tem mesmo de ser leitura obrigatória – sobretudo para quem só sabe se expressar com as gírias de 2011…

Voragem (e P.S.)

Li nos últimos dias um livro escrito em 1928, do escritor japonês Junichiro Tanizaki (Voragem, Planeta deAgostini, 2003, 240 p., R$ 16,90).

O título em inglês do livro é Quicksand (areia movediça), e o original japonês é Manji, o símbolo da suástica budista.

O romance, de leitura ágil, conta com um excelente trabalho de tradução de Leiko Gotoda, que também esclarece ao leitor brasileiro informações e conceitos do Japão da primeira metade do século XX.

Narra um triângulo (quadrilatéro ?) amoroso entre duas jovens mulheres japonesas, o marido de uma e o noivo de outra.

O livro é cheio de erotismo, em linguagem que não apela a menções explícitas a atos sexuais, bem diferente de obras de autores brasileiros ou de língua espanhola, como Vargas Llosa e Mário Prata, que beiram a pornografia dos frustrados por vida sexual insatisfatória.

Com Voragem, descobri que nada tenho contra livros de teor erótico; do que não gosto é dessa literatura sexual que mencionei acima.

P.S. O livro no final cria uma dúvida: quem traiu quem? Quem manipulou os outros?