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A Vida Louca da MPB

A Vida Louca da MPB, de Ismael Caneppele (Leya, 2015, 205 p.), é uma coleção de biografias de importantes músicos brasileiros do século XX, todos já mortos (uma das condições para inclusão na obra).

O livro está disponível para download em PDF pela própria editora.

O texto e crítico, traz muitos detalhes pouco conhecidos dos artistas, algum humor, e oferece uma leitura ágil.

São retratados em A Vida Louca:

  • Carmen Miranda
  • Noel Rosa
  • Mário Reis
  • Orlando Silva
  • Dalva de Oliveira
  • Nelson Cavaquinho
  • Vinicius de Morais
  • Maysa
  • Wilson Simonal
  • Tim Maia
  • Raul Seixas
  • Sérgio Sampaio
  • Itamar Assumpção
  • Júlio Barroso
  • Cazuza
  • Renato Russo
  • Cássia Eler.

Diferentes estilos, artistas com trajetórias que têm em comum o valor musical, o sucesso e a fama, e histórias recheadas de sexo, drogas e iluminações, como consta do texto.

As fontes mencionadas, humanas e bibliográficas, merecem respeito.

A maior falha, em minha opinião, é que faz comparações para o futuro. Ou seja, diz quem foram outros artistas influenciados pelos músicos mencionados, mas não diz quais foram as influências passadas que eles tiveram na formação.

 

Confissões de uma Máscara

Confissões de uma máscara foi o primeiro romance escrito por Yukio Mishima (Círculo do Livro, 184 p., FR 12,00), em 1949, e narra em primeira pessoa a história de um jovem, desde a primeira infância até a adolescência em busca da maturidade em pleno final do catastrófico destino no Japão, ao final da Segunda Guerra, tomado por valores ocidentais.

Na primeira parte, a auto-observação de sua homossexualidade, e depois a valorização de um amor platônico pela irmã de um amigo, que busca compensar a perda dos valores tradicionais e as máscaras que são necessárias para a vida em sociedade.

A forma de escrita se altera nessas duas fases, uma que busca a discrição ao abordar um tema difícil para a sociedade da época, mais discreto e ao mesmo tempo mais agressivo, e a segunda com a tristeza de um país que se encaminha para a derrota.

Mishima transparece ao longo do livro os muitos aspectos de sua vida pessoal, que resultou, em 1970, no suicídio em busca da “honra”, muito relacionado aos valores militares.

A leitura é simples, concentrada na própria personagem do autor.
É mais importante por tratar dos aspectos psicológicos de Mishima e por ter sido a primeira experiência literária do escritor.

A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande

Encontrei alguns elogios a respeito de Yuri Vieira e procurei em uma livraria alguma obra sua. A única à venda era “A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande” (Editora Record, 2017, 306 p., R$ 44,90).

O livro seria uma coleção de contos, todos porém interligados ao personagem advogado que lhe dá nome.

Os contos têm os seguintes títulos:

  1. O machista feminista – uma longa divagação sobre um ilusionista que finge ser extra-terrestre e fala da invasão islâmica na Europa em um boteco de Vila Madalena;
  2. O Prompt de Comando ou A sábia ingenuidade do Dr. João Pinto Grande – sobre bullying e racismo;
  3. A teologia da maconha – a respeito de um casal e o vizinho policial;
  4. O pedinte do metrô – uma enxurrada de moralismo do personagem principal em uma viagem de metrô;
  5. A menina branca – o uso excessivo das comunidades sociais e a violência na periferia de São Paulo;
  6. Amarás ao teu vizinho – uma discussão entre ex-vizinhos durante jantar na casa de um ex-militar sérvio; somada à filosofia de um bêbado da vizinhança;
  7. A Satoshi o que é de Satoshi (somente para nerds e geeks) –outra longa divagação, dessa vez sobre bitcoins e a possibilidade de corrupção da justiça, durante um almoço de pizza e cerveja (péssima escolha para um almoço, por sinal, mas normal para o mau gosto gastronômico dos paulistanos).

Confesso que não gostei dos capítulos.
O texto na maior parte é recheado com a preocupação em “escrever certinho”. Sobretudo certinho demais para diálogos.

Os capítulos teòricamente não têm data (embora sejam muito bem datados na contemporaneidade), mas a descrição geográfica é excessiva.
Parece que o autor considera que os assuntos abordados são exclusividade de São Paulo, e não de qualquer outra cidade do Brasil (ou do mundo).
Surpreendente, para alguém que já viveu em diferentes cidades e países.
Já que não o livro não tem data, que tal se não tivesse endereço?
Haveria a eliminação de aborrecidos detalhes sobre o trajeto em automóvel, por exemplo.

Ao longo do texto, Yuri Vieira recheia o desenrolar dos contos com a exposição de suas idéias políticas – nem sempre com muita clareza.

A futura leitura de outra obra poderá me dar uma visão mais clara sobre minha opinião a respeito de Yuri.

Silêncio

Silêncio, de Shusaku Endo (Tusquets editores, traduzido do japonês para o inglês por William Johnston e daí para o português por Mário Vilela, 2017, 270 p., R$ R$ 37,00), foi escrito em 1966, e aborda a perseguição religiosa promovida no Japão, durante o século XVII, contra os cristãos que tinham sido convertidos por missionários portugueses anos antes.

O livro tem prefácio do cineasta Martin Scorsese, que dirigiu filme do mesmo nome em 2016.

Dois padres, Ferreira e Garpe, viajam de Goa para Macau e partem em viagem clandestina para o Japão, com o intuito de restabelecer o contato de Portugal com os cristãos convertidos nas décadas anteriores durante missão de São Francisco Xavier, iniciada em 1549, mas que passaram a ser perseguidos pelo novo governo do xogunato japonês, a partir de édito de expulsão de 1614.

Além disso, buscavam informações sobre um padre Rodrigues, que havia sido professor no seminário em Lisboa, de quem se dizia que havia feito a apostasia.

O romance baseia-se em fatos reais, mas não é um retrato histórico. Muitas datas e fatos aparecem corrigidos nas notas de rodapé do tradutor.

Descreve a vida das reclusas comunidades cripto-cristãs no Sul do Japão, e as muitas práticas de tortura a que eram submetidos para efetivarem a apostasia, bem como as traições realizadas por japoneses, que denunciavam inclusive parentes, em troca de recompensas.

Padre Ferreira, personagem principal, faz comparações entre ele mesmo, a apostasia, o flagelo de Jesus, e o papel de Judas.

Apesar do tema, o livro tem leitura fácil e desenvolve uma importante dúvida entre civilizações e culturas que, costumeiramente, consideram-se superiores a outras, tentando impor seus costumes e suas doutrinas.

 

 

 

Árabes

Árabes, de Mark Allen (Nova Fronteira, 2007, 172 p., tradução de Denise Bottman) é uma análise dos povos árabes, feita por um ex-diplomata britânico que serviu em diversos países daquela região.

O livro aborda a importância dos laços de sangue, a religião, a comunidade, as mulheres, o problema do poder e a política, a modernidade, a língua e os sinais de comunicação (como servir café), e contém no final uma breve perspectiva dos países, além de uma bibliografia, para interessados em aprofundar o estudo.

As diferenças com os povos europeus são muitas, muitas vezes demonstradas pela diferença de vocábulos.
Jizz, o espírito da coisa, é o próprio ser; privacidade foi um neologismo que teve de ser incorporado à língua, para traduzir (mal) conceitos do direito ocidental.

Allen explica que os hoje chamados povos árabes, na verdade foram arabizados pelos beduínos que expandiram (à força) a religião surgida no século VII.
Os povos da África do Norte e suas mesclas de berberes e outros mais; os iraquianos mistos de caldeus e turcos, com forte influência de persas; os egípcios com sua história específica e o misto de africanos e greco-bizantinos; os iemenitas descendendo de hamitas, e não se semitas.
Os sírios eram um povo com grandes influências de persas, egípcios, romanos e bizantinos, que se comunicavam em aramaico (como os judeus que viviam no que hoje se chama Palestina), e foram os primeiros não-árabes a serem devastados pelos exércitos muçulmanos.
A difícil convivência de povos vizinhos, faz com que os curdos digam que “os únicos amigos que têm são as montanhas˜, de onde provém a água.

Certa vez a esposa do diplomata, em uma festa de mulheres, perguntou irrefletidamente como seria o paraíso para elas, visto que para os homens havia a promessa de virgens no céu. “Minha querida”- respondeu uma delas, “no meu Paraíso não vai ter homem nenhum”.

A falta de privacidade se revela com a análise de que fica claro que o suicídio, embora seja raríssimo e considerado desonroso no mundo árabe (como no mundo judaico) enquanto ato pessoal, não macula necessàriamente a honra enquanto ato político, coletivo.

A modernidade, lenta para os padrões ocidentais, dá-se porém de modo rápido, com o acesso a produtos tecnológicos e novos meios de comunicação (inclusive a rede de tv Al Jazira), e serve para agregar os emigrantes de modo reforçado com o “sangue”. As conseqüências vemos todos os anos, neste século XXI.

 

Os bruzundangas

Fui “convidado” a ler “Os bruzundangtas“, de Lima Barreto (Editora Ática, 2012, 176 p.) como se fosse “O” livro-retrato do Brasil.
Já conhecia todo o enredo, mas foi bom ter a pausa para ler cada página, do livro escrito em 1917 e publicado pòstumamente em 1922.

Bem, o livro não me atingiu.
Há partes curiosas, e até engraçadas, mas a mágoa que o escriptor tinha do país parece mais esses blogueiros d’oje’m dia.
Reclama, reclama, reclama, mas não propõe nada.
Parece aquele peçonhal que diz que se “hindiguína” com a situação…

O livro é apresentado pelos críticos literários como um retrato do Brasil do início do século XX, mas é na verdade um livro futurista, que se parece demais com o Brasil do início do século XXI. Estancado.

É a cara escrita e escarrada do Rio de Janeiro que sempre vota no “diferente”, no “engraçado”.
Desde que a Guanabara foi extinta, votam em brizola, garotinho, cabral, maia, e todos os outros que têm A-sumido u pudê.
É também o ranço fluminense de que o Brasil é o Rio de Janeiro, e despreza tudo o que vem de outras partes.
O Brasil não conhece o Brasil“, como cantou Elis Regina; ou “Ficar de frente para o mar, de costas pro Brasil, não vai fazer desse lugar um bom país“, como cantou Milton Nascimento.

Lima Barreto demonstra em várias páginas um ódio pelo Barão do Rio Branco, que mais parece alguém que xinga por não ter passado no concurso – algo muito comum hoje em dia, passado um século.
Muito pertinentes, até hoje, são os comentários sobre a “nobreza dos doutores”.  Basta ver a regra de prisão especial para quem dispõe de título universitário.
Curioso ter mencionado no livro a grande “heroína” Anita Gari-baldes, figura que realmente não merecia estar na lista duzerói brazuquendangos. Há mulheres muito mais relevantes na história do país.
No Brasil, porém, o panteão de heróis é criado mais para valorizar os regionalismos de políticos. Talvez isso decorra da “opressão” fluminense.

A frustração de Lima Barreto nunca ter sido eleito para a academia de brasileira de números é visível em cada página.
Simples: pobre não entra se não tiver números que sirvam para patrocinar a candidatura! (ou cão ditadura)
A fama de um literato depende da editora que está por trás!
Gente muito melhor não entrou. E alguns nunca tentaram, diga-se de passagem, pois a ABL sempre foi um clubinho para cariocas ociosos.

Nesse contexto, Lima Barreto fez para si mesmo uma vida tão miserável que caía bêbado nas ruas de diferentes cidades.
Tal não ocorreu apenas por influência genética, mas sobretudo por conta do preconceito racial da sociedade carioca contra um mestiço.
Triste, mais do que qualquer outra coisa.
Virou causa e conseqüência do afastamento de Lima Barreto, em vida, do convívio com quem o admirava.
Embora reconhecido como escritor com muita capacidade, só depois de morto passou a ser considerado um autor “obrigatório”.

O livro, porém, não merece o pináculo da brasilidade, como pretendem os chatos de plantão.
Falta-lhe garra para ser uma obra inolvidável.

Pior foi ter lido a “edição educativa” da Ática.
Em uma das notas, por exemplo, “explica” que delfina era o título da herdeira do trono. Não, meus caros editores. Delfina era a mulher do delfim, ele sim herdeiro do trono francês, país onde a monarquia sempre tratou de impedir que mulheres ascendessem ao trono, aplicando a lei sálica, embora tivesse sido oficialmente abolida.
Na última capa, o resumo da vida de Lima Barreto conclui com “faleceu na cidade de Todos os Santos, em 1922”.  Todos os Santos é o nome do bairro, no subúrbio do Rio de Janeiro, vizinho ao Méier, como se pode perceber em outras partes do livro e na própria biografia disponível em todas as outras fontes – inclusive ao longo do livro.
Azar de quem se informou com base nas notas do editor.

 

O Capote / O Retrato

O Capote – seguido de O Retrato – é um pequeno livro editado pela L&PM Pocket, com dois contos de Gogol (142 p., 2013, R$ 16,90).

Ambos os contos têm a característica de serem imbuídos do misticismo que sempre permeou a cultura russa. Fantasmas, demônios, e crises existenciais, convivem com o abuso de autoridade e a corrupção vigentes, nas épocas imperiais e posteriormente, no grande e burocrático país das estepes.

A leitura desse pequeno livro acrescenta algo no sempre destacado prestígio que a literatura russa ocupa no espaço internacional.
Vale muito a pena.