ortografia

Meu Cântico Sertanejo

Ganhei há algum tempo Meu Cântico Sertanejo, de Felício de Souza (2000, publicado em Mairinque – SP, sem menção de editora, 112 p.), coleção de poemas de autoria de compositor sertanejo (que teria a tal classificação “sertanejo de raiz”, em contraposição ao atual “sertanejo universitário”), nascido em Botucatu.

O mais interessante dos textos é a criação de uma ortografia mais ou menos adequada à pronúncia tradicional do “caipirês”.
Por exemplo:

Meu ranchinho lá nú mato
Súfrendo grande martrato
Hoji vive abandonado
Ao relênto, na solidão,
Sem tê mais aquela feição
Que tinha nú passado! …

O menos interessante, e cansativo, é a menção repetida a temas religiosos em todos os poemas, ao deus do compositor e à mãe desse deus.

Literalmente cansativo, embora isso tivesse sido uma característica muito arraigada do habitante das zonas rurais e das pequenas cidades, até há algum tempo.

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Sebos

Escrevi no post “Como um romance” um “procure em um sebo”, mas não sou muito fã desse tipo de lojas.

Aqui perto, por conta da proximidade da UnB, há uns tantos sebos. Seis, em uma conta rápida pelas quadras vizinhas.

Pequenos, grandes, organizados, bagunçados, limpos, sujos, onde somos bem atendidos, onde somos ignorados. Entro neles, dou uma espiada básica, mas raramente encontro algo de meu interesse, embora já tenham me servido para a busca de um título específico que queria dar a duas diferentes pessoas.

Em São Paulo, perto do antigo endereço de minha amiga Irene, há um bom sebo, mas com um abominável cheiro de ácaros que corrobora inteiramente minha tese de que livros não são feitos para ficar em prateleiras, depois de usados. Melhor serem dados a outra pessoa ou “esquecidos” em uma parada de ônibus.

Uma amiga minha, mão de vaca feito o mais duro dos pães, resolveu vender algumas centenas de livros do pai. Reclamou que lhe pagaram muito pouco por isso. Eu bem que alertei que não compensava e que seria muito mais “inteligente” dispor essas obras em diferentes lugares da cidade, conforme o assunto. Perto de hospital livros sobre saúde; livros de cIências sociais perto de escolas de segundo grau, etc.. Não, preguiçosa, acabou carregando uma malona com aquilo que o pai havia juntado durante anos, e se sentiu depois “roubada”. Não duvido que ela tenha precisado de um analgésico para dor lombar mais caro do que o que recebeu pelos livros…

Já ocorreu mais de uma vez de eu “ludibriar” o negociante. Uma pessoa interessada em vender livros fez cara de que não tinha gostado do preço oferecido pelo sebo, e eu, parado ao lado, perguntei quanto queria por aquela obra, pela qual eu tinha algum interesse. Paguei mais do que o sebo, menos do que eles depois venderiam, e tanto eu quanto o ex-proprietários ficamos satisfeitos.

Por falar em sebos, tenho de terminar a leitura de muitos que estão aqui nas prateleiras. Após minha morte, parentes que bem conheço não se intimidarão em lançar ao lixo reciclado o que tenho hoje. Dará a eles menos trabalho do que sair vendendo aos sebos.
Escolas “modernas” não gostam de livros fora do “desacordo ortográfico” que emburrece a população. Li muitos livros de meus pais escritos com PH e TH, uma das quatro ortografias com que convivi, e não apenas nunca me confundiram com o que eu estudava, que ainda era conforme a ortografia de 1943, como foram muito úteis quando aprendi outras línguas. Coisas da “pedagogice contemporânea”.

Objecto quase

Objecto quase, de José Saramago (Companhia das Letras, 1998, 134 p. R$ 17,00), é uma coleção de contos do realismo fantástico, composta em 1978. Constam do livro:

  • Cadeira
  • Embargo
  • Refluxo
  • Coisas
  • Centauro
  • Desforra.

A leitura é muito rápida, ao contrário do que costumam ser os indigestos romances do “badaladissíssimo” escriptor “nobelizado”.

O que mais me chamou a atenção foi que parecia, na maior parte do tempo,  que estava eu a ler algum livro de José J. Veiga, tantas as semelhanças de estilo e de conteúdo.

Por sua vez, é interessante como a griffe dos livros caros submeteu-se à orthographia do lusitano, quando outros autores são submetidos às revisões de pasteurização da escripta, como se os leitores fossem incapazes de ler o que esteja escripto fora dos padrões de diccionaristas e dos acadêmicos, escolhidos mais pelas características políticas do que literárias. Vale o mesmo comentário para os livros portugueses que vinham com a inscripção de que a venda no Brasil era-lhes proibida. Por conta desse absurdo tão absurdo, inventaram que precisamos de um desacordo orthographico, enquanto australianos e sul-africanos sequer prestam atenção se ingleses preferem theatre e americanos theater.

História do Império Bizantino

História do Império Bizantino, do professor brasileiro Mário Curtis Giordani, Editora Vozes, 304 p., 1997 (primeira edição em 1968), é um livro muito chato para se ler, mas muito interessante para se discutir e para servir de ponto de apoio para professores e estudiosos.

O autor assinala que o tanto que se fala mal da Idade Média é por preconceito e, sobretudo, por falta de pesquisar fontes históricas da época, e não fofoquinhas de autores renascentistas e barrocos, que tinham todo o interesse em falar mal da I.M.

Alguns capítulos são de um tédio atroz, com uma relação tão extensa de nomes, que mais parece uma lista telefônica. Muitos dados e nenhuma análise.

Outros capítulos, porém, possuem bons comentários e demonstram que os bizantinos são de extrema importância para a história do mundo contemporâneo, pois foram o meio de ligação da Antigüidade clássica com o mundo árabe, da tradição cristã com os pensadores da Grécia antiga.

Um período não de mil anos de trevas, como se costuma dizer levianamente, mas de muita filosofia, de forte importância no direito e na justiça, uma fonte de artes que foi desmerecida por detratores vinculados ao renascimento e ao barroco, e uma civilização que teve papel fundamental no processo de integração dos povos eslavos com o resto do mundo. Um povo que tinha conhecimentos científicos que foram utilizados em universidades ocidentais até o século XVIII.

Só uma dica: quantas pessoas foram mortas nas atrocidades de mil anos da Idade Média? Quantas pessoas foram mortas nas atrocidades do maravilhosa e sublime século XX, que na verdade se restringiu mais ou menos de 1910 a 1990? Pois é, já dá para ver quem são os bárbaros, os atrasados, etc..

O livro é mal escrito, mas com o valor de mostrar quantos conceitos equivocados temos sobre um longo período da História, muito mal estudado e muito mal comentado.

Curioso que a edição de 1997 mantém a mesma ortografia que era vigente em 1968, quando o livro foi primeiramente publicado. Um ortografia muito mais lógica e coerente do que a que nos foi imposta no século XXI.

Desacordo ortográfico, o livro

Desacordo ortográfico (R$ 27,00) é o título de um livro da gaúcha não editora, de 2009, que, organizado por Reginaldo Pujol Filho, reúne contos e algumas poesias de vários escritores contemporâneos brasileiros, portugueses e africanos, e mantém as diferenças da escrita local de cada um dos países, tal como a necessidade do vocabulário as requer.

Os brasileiros Luís Fernando Veríssimo, Altair Martins, Maria Valéria Rezende, Manoel de Barros, Cardoso, Reginaldo Pujol Filho, Xico Sá e Marcelino Freire, alternam-se com os portugueses Patrícia Reis, Luís Filipe Cristóvão, Patrícia Portela, Rita Tombarda Duarte, João Pedro Duarte, Gonçalo M. Tavares, com os angolanos Luandino Vieira, Ondjaki e Pepetela, com os moçambicanos Rogério Manjate e Nelson Saúte, e também com a representante de São Tomé e Príncipe Olinda Beja.

É notável a diferença de estilos. Os brasileiros, ao recorrer ao quase-pornográfico sem constrangimento (e exceder da fórmula, talvez na busca da cura de alguma frustração e insatisfação em muitas atividades); os portugueses, abusando da forma para atingir o conteúdo; e os africanos, com a simplicidade do que lhes é quotidiano.

Fico com os africanos, pela expressão e sinceridade.

Doações em geral – 2

Dois comentários fora da internet, de brasilienses, me contestaram, me afirmaram que escolas e bibliotecas públicas aceitam livros usados.

Não sei quando isso ocorreu com meus leitores, mas minha cunhada teve a experiência inversa, pois os livros foram recusados, sob a alegação de que estavam com a “ortografia antiga” e iriam “causar conflitos de aprendizado nas criANTAS”.

Como se os livros didáticos brasileiros fossem todos excelentes, muito bem revisados, não tivessem mapas errados (José Serra que o diga), como se o des-acordo ortográfico estivesse vigente em Portugal, como se todas as publicações fossem feitas exclusivamente na ortografia sarnenta, sem o período de convívio de três anos das formas do uso do hífen e dos acentos.

O país é rico, claro, por isso a escola que minha cunhada procurou pôde dar-se ao luxo de dispensar os livros que iam ser doados.

Além disso, quanto a regras ortográficas, é lógico que elas são sacro-santíssimas (com hífen e esses separados, pois quem gosta de SS é nazista), pois Monteiro Lobato e Saramago, por exemplo, sempre foram os mais fiéis seguidores de todas as regras gramaticais da escrita de suas épocas, para mencionar apenas alguns dos literatos menos conhecidos da língua portuguesa.

Decerto que as regras da Academia Brasileira de Letras, que conta em seu panteão com nomes tão relevantes como o grão-duque do Maranhão-e-Amapá e o doutor-em-cirurgia-plástica Ivo Pitanguy, são dogmas incontestáveis por nós, meros servos. Não contestamos, em absoluto!

De volta ao tema das doações, e ainda no aspecto livresco, retomo a pergunta levantada no tópico anterior pelo comentário do Fernando: “Livros são bens duráveis ou consumíveis? Dependendo da relação que você tem com este bem, pode definir sua relação com o mundo.”

Quem se aventura a dar uma resposta?