autobiografia

A Redoma de Vidro

A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath (The Bell Jar, Biblioteca Azul Editora Globo, tradução de Chico Mattoso, 2014, 280 p., R$ 21,00) é um romance semi-autobiográfico da escritora que cometeu suicídio um mês após sua publicação, em 1963.

Passando-se no início da década de 1950, narra a história de uma jovem bostoniana que vai a Nova York para fazer estágio em famosa revista de moda.
Terminado o estágio, volta para a casa da mãe e toma conhecimento de não ter sido aceita para um curso de redação, o que inicia um processo de profunda depressão, que culmina com sua internação em clínica onde sofre eletrochoques em um tratamento mal conduzido.

A dúvida entre ser obrigada a constituir família ou obter uma profissão, a questão da virgindade ainda vista como prioridade na época pré-revolução sexual, e outros tratamentos médicos psiquiátricos confundem ainda mais a jovem, que se sente respirando dentro de uma redoma de vidro.

Sylvia Plath tornou-se sinônimo de escritora maníaco-depressiva que termina por buscar o suicídio, sendo registrado como “efeito Sylvia Plath” o fenômeno de que escritores criativos são mais suscetíveis a doença mental.

A linguagem do romance é muito clara e bem expressa.
O assunto é bem abordado pela autora.

Merece a leitura.

 

Marcelo Rubens Paiva

Marcelo Rubens Paiva nasceu em 1959.
De sua obra li apenas:

  • Feliz Ano Velho (1981)
  • Blecaute (1986)
  • Bala na Agulha (1994)

O autobiográfico Feliz Ano Velho continua a ser a marca registrada do autor. Blecaute me chamou a atenção, pela visão apocalíptica de São Paulo, e Bala na Agulha foi um livro que sequer passou por minha vida, já que não deixou registro na memória; não consigo lembrar do que trata.
Teria sido um bom autor de ficção científica. Bastaria deixar de lado o proselitismo de esquerda.

O escritor na verdade continua mais famoso por conta de Rubens Paiva, seu pai, e das situações políticas que envolveram a família, na época do regime militar e até hoje.
Também é colunista no jornal Estadão, e tampouco leio seus artigos.
Rodrigo Constantino, contudo, os lê.

http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/tags/marcelo-rubens-paiva/

 

 

Nos Bastidores da Diplomacia

Recebi emprestado este livro de memórias do embaixador aposentado (ainda vivo) Vasco Mariz, intitulado Nos Bastidores da Diplomacia (Fundação Alexandre de Gusmão, 2013, 296 p.).

Há um lado curioso nas memórias de alguém nascido em 1921, e que esteve no serviço público de 1945 a 1987, período marcado pelo “glamour” de um Brasil que sonhava com Jóquei Clube, com o PSD (aquele que Juscelino herdou de Getúlio), com atrizes italianas, tendo o autor exercido atividades em diferentes países.

O autor, contudo, lança mão de modéstia zero, ao narrar fatos de importância pequena, que ele enxergou com lentes de aumento, e dos quais se declara partícipe importante, se não decisivo. Deixemos que a vaidade ocupe o lugar admissível para alguém de sua idade.

Breves relatos sobre algumas pessoas da história do século XX com quem o autor esteve, não raras vezes como acompanhante ocasional, mas que dão uma visão maior do aspecto humano dessas famosas figuras. Várias delas não merecem menção, de tão superficial o que é narrado no livro, mas algumas têm seus aspectos de contradição, ou de confirmação, do que foi cultivado pela imprensa em muitos anos. Tito, João Goulart, Tancredo Neves, San Tiago Dantas, Castelo Branco, Geisel, Roberto Campos, Ceausescu, Salvador Allende, Pinochet, Alfredo Stroessner, João Figueiredo e Lula.

Leitura fácil e ilustrativa de uma época, marcada por personagens um pouco mais interessantes do que o que temos como líderes mundiais atualmente.

Um típico livro nem sim, nem não.

Infância

Terminei de ler Infância, de J. M. Coutzee (Companhia de Bolso, 2010, 150 p., R$ 20,00).

A “ficção auto-bio-gráfica” do próprio Coetzee, passada em diferentes áreas do Cabo Ocidental, é um amontoado de lembranças mal resolvidas de uma infância amarga em que o autor coloca-se como terceira pessoa, na década de 1940.

Foi possível a Coetzee mostrar um bom apanhado da África do Sul, sua incrível variedade de paisagens na geografia, a presença de etnias muito diferentes, tanto na origem geográfica quanto no tempo histórico, o que, em geral, é mal conhecido pela maioria dos estrangeiros (presos a estereótipos do politiquês correto e històricamente falho, tão cheios de pré-conceitos quanto os que são lançados contra os antigos governantes africânderes – afrikaners), a diversidade de línguas (atualmente onze são as línguas oficiais no país), a multiplicidade de igrejas. Um país de múltiplas faces, onde o autor auto-bio-grafado parece não se encaixar.

Nisso o livro foi uma viagem que pude refazer, por ter passado uma temporada na África austral, há cerca dee sete anos, e por ter visitado quase todos os lugares mencionados por Coetzee.

Contudo, foi outra vez uma decepção ler algo do mais falado escritor sul-africano! Alguns capítulos são de leitura ágil, prendem a atenção do leitor, enquanto que os seguintes podem ser arrastados, cheio de rodeios, viagens sem rumo.

A edição da “griffe”, como de hábito, é fraca. Por exemplo, menciona-se o Karoo pela primeira vez no livro na página 49, mas só adiante, depois de ser citado mais vezes, aparece na página 83 uma Nota do Editor para dizer que se trata de uma ” “região semidesértica da África do Sul”, cheia de flores, faltou também dizer. Provàvelmente o Editor e os revisores não tinham lido com atenção as páginas anteriores. A lombada da capa também é escrita com as letras de modo que o título não possa ser lido se estiver na posição horizontal.

Além de minhas lembranças reavivadas com os diversos capítulos, pude lembrar de minha primeira professora de Inglês:

to like significa gostar de; ninguém like of, e ninguém gosta sòzinho.

O pessoal da editora, pelo visto, não teve aulas com dona Gilberta. Não sabem que regência verbal existe tanto em inglês como em português.

A linguagem de Coetzee, no original, como tive a oportunidade de ler em Disgrace (mal traduzido para Desonra em português), não imita os erros gramaticais de personagens; usa em inglês a linguagem correta. Não foi o que ocorreu na tradução em português, que invàriavelmente ignorou a ênclise, que muitas vezes dá mais rapidez à frase, pela tonicidade no início. Muitas frases soariam melhor. O des-acordo ortográfico, tão precioso à editora, pouco me importa.

Por sua vez, nem todas as frases escritas em africânder (afrikaans) mereceram tradução para o português, pois não deve haver tradução para o inglês no original. Podiam ao menos ter merecido uma nota de rodapé, como o Karoo.

Por sorte, quando na África do Sul, como já comentei no artigo anterior, tive a sorte de ler livros de outros autores, e minha visão sobre o país foi muito mais ampliada, do que aos leitores que apenas conhecem Coetzee, seus prêmios de jornalista e o Nobel. Para mim fica consolidada a percepção de que Academia de Letras e Prêmio Nobel são apenas galardões políticos, não méritos efetivos.

Lá sou amigo do rei

Lá sou amigo do rei, de Carlos Marques (Editora Geração, 2012, 264 p., R$ 39,90) conta as aventuras auto-bio-gráficas marco-polianas do jornalista, que foi da revista Manchete, da UNESCO, perseguido político, etc. e tal.

O livro oferece leitura bastante ágil. Termina com rapidez. Os temas são, de algum modo, curiosidades sobre o Brasil e fatos internacionais, de 1960 a 1999.

Como dito no próprio livro, um “Forrest Gump” brasileiro, que esteve presente em diversos fatos históricos. Castelo Branco, Fidel Castro, Geisel, Isabelita de Perón, a princesa Cristina de España (a mesma que hoje em dia é investigada por corrupção, com o marido), François Mitterand, Glauber Rocha, João Paulo II, Pelé, Salvador Dalí, etc., etc., etc., etc., etc., etc…

Sempre com visão esquerdista, porém, o autor adjetiva demais várias situações. Além disso, exagera no ego hiper-inflado. Isso o faz parecer mais um papagaio de pirata, e não um protagonista.

Essas falhas terminam por tirar relevância da obra, e a leitura do livro, no final, parece mais um artigo de revista de sala de espera de dentista. Algo para passar o tempo.
Influência da velha revista Manchete, talvez.

P.S. Como hábito, dei o livro após a leitura. A amiga que o recebeu comentou que achou o autor muito curioso, pois ele não esconde os inúmeros fracassos pessoais dos leitores, nem os profissionais nem os pessoais. Um ponto positivo para alguém que eu mencionei ter o ego hiper-inflado.

Os melhores contos de Mário de Andrade

Os melhores contos de Mário de Andrade (Global Editora, 1988, 173p., R$ 15,00), conforme seleção de Telê Ancona Lopes, contém os seguintes textos:

  • O Besouro e a Rosa
  • Caim, Caim e o Resto
  • Pia Não Sofre? Sofre
  • Briga das Pastoras
  • Nelson
  • O Ladrão
  • O Poço
  • Foi Sonho
  • Túmulo, Túmulo, Túmulo
  • Vestida de Preto
  • O Peru de Natal
  • Frederico Paciência
  • Tempo da Camisolinha,

alguns dos quais escancaradamente auto-bio-gráficos.

Chamou-me a atenção o fato de que, embora as narrativas sejam do tipo que se lê sem tédio, a linguagem, ao contrário, não condiz com aquilo que se esperaria de um dos formadores do modernismo brasileiro. Não são raras as vezes em que, buscando um “purismo popular”, as palavras parecem forçadas. Em outros contos, os volteios com os elementos das frases parecem mais com o gongorismo do que com o que seria um modernismo. Quando se tenta imitar a linguagem do “paulistanês” das décadas de 1930/1940, ela não se parece com o que diziam os primeiros paulistanos que eu escutei, no mesmo bairro da Lapa que serve de ambiente para mais de um conto da coletânea. Ou seja, aquilo que consta em uma das orelhas, de autoria de Manuel Bandeira, sobre Mário de Andrade ter sido “o brasileiro que mais se esforçou na tarefa de “patrializar” nossa terra”, na verdade soa artificial, muito mais uma sophistificação intelectual, reforçada pelas inúmeras revisões a que o próprio autor submetia cada texto. “Muitas vezes, levava anos a fio neste trabalho, com uma insatisfação desesperada e uma implacável minúcia” (Antônio Cândido, em outra orelha do livro).

Confesso que nunca li “Macunaima”- apenas vi a peça e o filme, portanto não posso opinar sobre a forma como está escrita a mais conhecida obra de Mário de Andrade. Li, porém, anteriormente, outros contos e crônicas de Mário de Andrade.

A leitura desses “melhores contos”, selecionados pela professora da USP, fez-me lembrar o que cantava Peggy Lee: “Is that all there is?” “Isso é tudo?” Ou, em outras palavras, “É só isso?”

Morte em Veneza & Tonio Kröger

Li estes dias o livro que contém as duas famosas novelas escritas por Thomas Mann: Morte em Veneza & Tonio Kröger (Editora Nova Fronteira, 2000).

Morte em Veneza me impressionou, porque à medida que ia lendo, parecia que estava revendo o famoso filme de Luchino Visconti, de 1971.
Bom para o livro e, mais ainda, para o filme, que soube ser tão fiel à obra inicial.
Fuçando algo sobre o autor, li que, segundo a viúva de Thomas Mann, o livro foi baseado em fato verídico que o casal tinha vivenciado em Veneza, quando se impactaram em ver o “Tadzio” de carne e osso em um hotel.
Você não viu o filme? Não conhece a história? Bem, lamento informar que o protagonista que tinge os cabelos para se parecer mais jovem morre no final… O outro, loiro, viveu bastante, apesar de ser sempre qualificado de “enfermiço” no livro.

Tonio Kröger também se baseia em partes da vida de Thomas Mann, com linguagem rápida e precisa.
Gostei de ler este texto de Mann, que narra o desenvolvimento etário e alguns deslocamentos pela Europa do Norte do autor. Gostei, sobretudo, de uma frase no último capítulo: “O que resultou (da mistura de pai nórdico e de mãe exótica) foi: um burguês que se extraviou na arte, um boêmio com saudades do bom berço, um artista de consciência pesada“, exatamente como tantas outras pessoas pelo mundo.

Agora, vou tentar encontrar um exemplar de Confissões do impostor Félix Krull, romance de Th. Mann que li em 1970.
Naquela época (logo depois de Gutembergue haver inventado a imprensa, no pensamento de alguns navegadores de interlenta que acreditam que o mundo só começou a existir depois que eles nasceram…) gostei do livro. Quero ver se a impressão continuaria positiva, passados mais de 40 anos.