história

Fernando Pessoa – O Cavaleiro de Nada

Obtido em um escambo literário, li há uns dois meses Fernando Pessoa – O Cavaleiro de Nada , de Elisa Lucinda (Editora Record, 2014, 410 p.), biografia daquele que é avaliado como o maior escritor da língua portuguesa.
A edição é muito bem elaborada (apesar da rebuscada letra Q), com fotos de documentos e de fotografias relacionados a F.P..

O texto intercala trechos de cartas, memórias e documentos,produzidos ao longo da vida de Fernando Pessoa (1888-1935), com escritos da jornalista autora da obra.
Aí está a questão. O livro tem cheiro e sabor inconfundíveis de análises produzidas no século XXI. Sobrou-me a sensação de ter sido enganado.

 

Os Románov

Recebi “Os Románov 1613-1918“ (Simon Sebag Montefiore, Companhia das Letras, 2017, 906 p.), e fiquei entusiasmado.

Ledo engano.
Jornalista que pretende ser historiador tem de ser mais do que um reles escrevinhador de fofocas.
O livro parece um roteiro de novela mexicana, com muito sexo e doenças. Apenas isso.
Cheguei à página 383, início do século XIX, e desisti.

Descobri que muito pior do que os loucos de todo gênero foi a seqüência de imperadores que tentaram imitar os reis germânicos, sobretudo Pedro I e a alemoa Catarina II, denominados de os grandes.

O livro é uma pura coleção de curiosidades sobre as pessoas. Não fala nada sobre a sociedade, a política e a economia da Rússia imperial.
Certamente o autor supôs que esses dados destoariam do tom de revista sobre jêntchi famóza, que tem seu público,mas não exatamente entre leitores de História.

 

Do Olimpo a Camelot

Do Olimpo a Camelot, um panorama da mitologia européia (David Leeming, Jorge Zahr Editor, tradução de Vera Ribeiro, 2004, 192 p., R$ 20,00) abarca os diversos mitos europeus, em capítulos divididos pelas sub-regiões geográficas do continente, geralmente co-relacionando as diversas culturas e seus respectivos mitos.

 

Trata bàsicamente da

  • mitologia grega (com destaque para o período minóico anterior à civilização helênica, cujos mitos são mais conhecidos),
  • mitologia romana (com destaque para a mitologia etrusca que, formação troiana, moldou Roma antes da influência helênica),
  • mitologia germânica (e nórdica-viking),
  • mitologia(s) báltica, eslava e balcânica (pouco conhecidas e muito relacionadas com mitos persas e indianos),
  • mitologia finlandesa e outras mitologias não-indo-européias, inclusive a civilização tartéssica onde hoje é Portugal, supostamente de origem fenícia, nos séculos VIII a V a.e.c., e os bascos.

 

Em conclusão aborda os padrões míticos europeus e hegemonia cristã (que assimilou os diversos mitos), que trata das

  • divindades européias e mitos da criação, com as várias versões do criador, o trapaceiro, a agricultura, o sacrificado que ressurge, a fertilidade,
  • herói mítico europeu (com rápidos comentários sobre a figura do super-herói germânico e sobre a “mão invisível do mercado” de Adam Smith).
  • os mitos filosóficos europeus e o mundo moderno, interessante capítulo que ligeriamente aborda Platão, Aristóteles, Freud, Jung e o big bang.

 

O livro inclui vários trechos de lendas que narram os infinitos mitos.
Interessante, porém de leitura não muito rápida, o livro merece ser conhecido.

 

Deuses, faraós e o poder

Deuses, faraós e o poder – Legitimidade e Imagem do Deus Dinástico e do Monarca no Antigo Egito – 1550-1070 a.C – (Júlio César Mendonça Gralha, Barroso Produções Editoriais – UERJ, 2002, 190 p., R$ 25,00) é uma dissertação defendida em 2002 na Universidade Federal Fluminense.

Nela o autor aborda a religião e o poder imperial após a unificação dos antigos reinos do Alto e do Baixo Egito, e trata dos deuses locais, mantidos em seus cultos, durante as XVIII, XIX e XX dinastias.

Embora Ptá seja o deus criador, que nunca foi criado, que trouxe os seres vivos a partir da lama do rio Nilo, o culto a Ra (depois Amon-Ra), o deus primordial Sol predominava para governantes e sacerdotes, cabendo a Osíris as celebrações referentes aos mortos.
De Ptá os gregos criaram a palavra Aegypt, com que o país passou a ser conhecido no mundo europeu. Henoteísmo era a regra.

É explicada a importância da linhagem feminina na herança real (muitas vezes a rainha concebia um filho do espírito de um deus). Os deuses são justificativas para as dinastias.

O livro concentra o foco nas relações com hititas, assírios e babilônios, inclusive casamentos interdinásticos que traziam períodos sem guerras, e nos reinados da “faraona”  Hatshepsut, de Amenófis III, Amenófis IV (Akhenaton) e a rainha Nefertiti, e o auge sob Ramsés II. Trata das alterações da arquitetura que surgiram ao longo desse período, para atender às necessidades político-religiosas.
Naturalmente merece destaque a reforma religiosa monoteísta ordenada por Akhenaton, que foi posteriormente revogada por seus sucessores.

Nas muitas notas do texto, menciona-se que os dez mandamentos do judaísmo seriam uma forma reduzida das 42 confissões contidas no Livro dos Mortos.
Outra herança egípcia sobre a cultura judaica seria a subordinação do rei à divindade que lhe concede poder.

O livro é rico em fotografias e em ilustrações. Contém também muitos textos hieróglifos, com a respectiva tradução literal e o significado correspondente.

 

 

 

Deus reconhecerá os seus

Deus reconhecerá os seus: a história secreta dos cátaros, de Maria Nazareth Alvim Barros (Rocco, 2007, 256p. R$ 35,00) aborda um tema importante, como o extermínio dos cátaros / albigenses, nos séculos XII e XIII, por ordem do papa Inocêncio e sob as rédeas de Arnaud Almaric (traduzido por Arnaldo Amauri pela autora) e de Simon V de Montfort, contra os condes e outros senhores feudais do Sul da França, o que resultou na expansão e ocupação dos governos de Paris sobre aquela região da Europa.

O genocídio desses cristãos ordenado pelo Vaticano, em conluio com Filipe II Augusto, também teve como objetivo eliminar o apoio que setores cristãos prestavam aos judeus.

A ordem aos soldados e mercenários era: na dúvida, matem todos, pois Deus reconhecerá os seus para perdoá-los.

Certamente um dos piores períodos da glamourizada história da França.

A leitura, porém, é mais incômoda do que os fatos narrados.
A autora fez um livro de história repleto de adjetivos, que o tornam um romance sem diálogos, porém aborda superficialmente o pensamento gnóstico dualista dos albigenses, preocupando-se mais em narrar batalhas e tramas diplomáticas que permearam a cruzada.

Dicionário das Religiões

Dicionário das Religiões, é uma obra póstuma (1990) de Mircea Eliade (1971-1986) organizada por Ioan Petru Couliano (1950-1991) (WMF Martins Fontes, 2019, 344 p., R$ 84,90, tradução de Ivone Castilho Benedetti, revisão de Maria Ermantina Galvão), baseada nos três volumes da História das Religiões (1969-1985).

Dividido em 33 capítulos, organizados geogràficamente ou em ordem alfabética das variedades, aborda definições de religiões, desde a pré-história, todos seguidos de uma bibliografia sobre o respectivo tema.
Em muitos casos, os capítulos têm apenas duas ou quatro páginas (Austrália, Canaã, Celtas, Hititas, …), sem aprofundamento.
Outros, como o budismo, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo, ocupam várias páginas e subcapítulos.

De modo geral, há mais uma relação de nomes relacionados a cada religião do que a identificação de seus significados.

Vários temas sequer são mencionados (fé Bahai, doutrina de Alan Kardec, movimento Rajneesh).

De modo geral, os capítulos mais longos preocupam-se com o platonismo e com o neoplatonismo em seu pensamento, e na maioria dos verbetes as relações e semelhanças entre as diferentes religiões mal são levantadas.

Uma obra que não atinge o objetivo de esclarecer as muitas “coincidências” entre as diversas denominações religiosas.
Obras como o Dicionário das Religiões, de John R. Hinnells (1984), ou Pequena História das Grandes Religiões, de Félicien Challaye (1947) são muito mais elucidativas.

Cabe, por fim, observar a fraca revisão do texto.

D. Maria I

D. Maria I, as perdas e as glórias da rainha que entrou para a história como “a louca”, de Mary del Piore (Benvirá, 2019, 215 p., R$ 31,90) é um livro sobre a vida a primeira rainha de Portugal, que viveu entre 1734 e 1816, e reinou a partir de 1777.

O livro é mal escrito. Algumas vezes a linguagem é rebuscada, copiando os escritos da época, e em outras parece mais um blog do século XXI. Nem sempre segue a ordem cronológica, para ajeitar por completo a presença de algum personagem.

Traz, porém, as necessárias dúvidas sobre a saúde mental de qualquer pessoa (segundo a autora, com a colaboração do doutor Sávio Santos Silva)).

– como se sentiria uma pessoa que a cada mês via morrer um parente próximo?

– como reagiria uma pessoa cercada da pior laia de fanáticos religiosos, que só falavam “das delícias” de queimar no inferno sob a imperdoável presença de um deus onipotente?

– como era a vida de alguém que, no início do século XIX, chegou aos 81 anos?

Ficar isolada do mundo foi um alívio para a velhinha de bom coração, que se preocupou em reinar para corrigir os inumeráveis abusos do antigo ministro de seu pai, José I, o famoso marquês de Pombal, e que sinceramente se envolvia com o povo, forma como  via sua missão de governar.

O defeito dela foi ter sido rainha de um Portugal já ofuscado por outras potências européias.
Tivesse nascido na Alemanha ou na Inglaterra e teria entrado para a história como uma grande governante.

Foi melhor e mais lúcida do que os presidentes que o Brasil teve nos últimos cento e trinta anos.

Que vida difícil teve a senhora rainha!
Médicos da pior espécie, padres fofoqueiros, ministros incompetentes, parentes.
Duvido que outros governantes tivessem tido a honestidade e a dedicação que teve em sua vida dona Maria I, a piedosa.