O Estranho Caso do Cachorro Morto

O Estranho Caso do Cachorro Morto, de Mark Haddon (Record, 12a. edição, 2011, 288 p.,  tradução de Luzi Antonio Aguiar e Marisa Reis Sobral, R$ 18,00), é um pequeno romance surpreendente.
Não foi à toa que recebeu o Prêmio Whitbread de melhor livro do ano de 2003.

“Narrativa brilhante e engenhosa…  este livro não é sòmente um dos romances mais originais dos últimos tempos… ... …. .” – The Times, como consta da capa

O livro conta, em primeira pessoa, a história de um adolescente autista, que vive apenas com o pai no interior da Inglaterra, sonha em ser astronauta, e encontra um cachorro morto por um forcado.

A partir daí, decide descobrir quem havia matado o animal da casa em frente à sua, e vai juntando peças de que-bra-ca-be-ças, que no entanto o conduzem a outras descobertas mais sérias, como o fato de que a mãe não havia morrido, como lhe contara o pai, mas vivia em Londres com o marido da dona do cachorro morto.

Os capítulos vão se misturando com a narrativa do pequeno Sherlock, com suas memórias e com pensamentos da lógica matemática que ele aprecia, para ordenar sua mente autista, incapaz de compreender metáforas, ou expressões faciais – muito menos emojis.

Por exemplo, os capítulos do livro são numerados na seqüência dos números primos. 2, 3, 5, 7, 11, 13, 17, 19, … 233.

A linguagem do livro é rápida, a leitura é muito dinâmica, embora às vezes sobre para o leitor um pouco da angústia de ter de mergulhar no pensamento quase inflexível do rapaz.

Grande livro. Recomendo sua leitura, tanto pelo valor literário, como para poder alargar a visão do mundo em que vivemos.

 

 

 

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Tutaméia

Estou sumido do blogue.
Não estou sumido da leitura.
Ocorre que Tutaméia (Terceiras Estórias), de Guimarães Rosa, não é uma obra que possa ser comentada.
A leitura é lenta, não por ser difícil, mas porque em cada linha encontramos algo que merece ser matutado, um verdadeiro tratado de filosofia.
Humor sutil, pensamentos que conduzem a outros.
Tutaméia é uma verdadeira lição de vida.
Se ainda não o leu, comece hoje.
Talvez a vida não lhe seja tão longa para concluir a leitura.
E certamente a vida lhe será menos inteligente sem essa obra-prima.
O texto pode fàcilmente ser encontrado na internet, e baixado em pdf.

Silêncio

Silêncio, de Shusaku Endo (Tusquets editores, traduzido do japonês para o inglês por William Johnston e daí para o português por Mário Vilela, 2017, 270 p., R$ R$ 37,00), foi escrito em 1966, e aborda a perseguição religiosa promovida no Japão, durante o século XVII, contra os cristãos que tinham sido convertidos por missionários portugueses anos antes.

O livro tem prefácio do cineasta Martin Scorsese, que dirigiu filme do mesmo nome em 2016.

Dois padres, Ferreira e Garpe, viajam de Goa para Macau e partem em viagem clandestina para o Japão, com o intuito de restabelecer o contato de Portugal com os cristãos convertidos nas décadas anteriores durante missão de São Francisco Xavier, iniciada em 1549, mas que passaram a ser perseguidos pelo novo governo do xogunato japonês, a partir de édito de expulsão de 1614.

Além disso, buscavam informações sobre um padre Rodrigues, que havia sido professor no seminário em Lisboa, de quem se dizia que havia feito a apostasia.

O romance baseia-se em fatos reais, mas não é um retrato histórico. Muitas datas e fatos aparecem corrigidos nas notas de rodapé do tradutor.

Descreve a vida das reclusas comunidades cripto-cristãs no Sul do Japão, e as muitas práticas de tortura a que eram submetidos para efetivarem a apostasia, bem como as traições realizadas por japoneses, que denunciavam inclusive parentes, em troca de recompensas.

Padre Ferreira, personagem principal, faz comparações entre ele mesmo, a apostasia, o flagelo de Jesus, e o papel de Judas.

Apesar do tema, o livro tem leitura fácil e desenvolve uma importante dúvida entre civilizações e culturas que, costumeiramente, consideram-se superiores a outras, tentando impor seus costumes e suas doutrinas.

 

 

 

Sem-Cerimônia

Reli Sem-Cerimônia – diário de uma psicoterapia, o primeiro livro publicado por Sonia Manski (Editora Ágora, 2002, 263 p.).

Escrito na forma de um diário, o livro narra o dia a dia de uma mulher de 40 anos, judia, casada, com dois filhos, que decide começar a escrever, como acompanhamento do trabalho de psicoterapia que faz, enquanto sente as preocupações atinentes à obrigação de realizar o bar mitzvah do filho, sobre a pressão da família e da comunidade que a cerca.

Ao longo dos meses em que se desenvolve o texto, outras preocupações são narradas, como a compra de um imóvel, o trabalho, e a necessidade que a narradora tem de se dedicar a escrever, colocando isso como um objetivo claro em sua vida.

A linguagem da autora é muito ágil, direta, “sem-cerimônia”. Muitos aspectos e costumes relacionados ao judaísmo são esclarecidos para os leitores goyim, de modo que oferece um bom sobrevôo da comunidade israelita no Brasil.

 

 

 

A Redoma de Vidro

A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath (The Bell Jar, Biblioteca Azul Editora Globo, tradução de Chico Mattoso, 2014, 280 p., R$ 21,00) é um romance semi-autobiográfico da escritora que cometeu suicídio um mês após sua publicação, em 1963.

Passando-se no início da década de 1950, narra a história de uma jovem bostoniana que vai a Nova York para fazer estágio em famosa revista de moda.
Terminado o estágio, volta para a casa da mãe e toma conhecimento de não ter sido aceita para um curso de redação, o que inicia um processo de profunda depressão, que culmina com sua internação em clínica onde sofre eletrochoques em um tratamento mal conduzido.

A dúvida entre ser obrigada a constituir família ou obter uma profissão, a questão da virgindade ainda vista como prioridade na época pré-revolução sexual, e outros tratamentos médicos psiquiátricos confundem ainda mais a jovem, que se sente respirando dentro de uma redoma de vidro.

Sylvia Plath tornou-se sinônimo de escritora maníaco-depressiva que termina por buscar o suicídio, sendo registrado como “efeito Sylvia Plath” o fenômeno de que escritores criativos são mais suscetíveis a doença mental.

A linguagem do romance é muito clara e bem expressa.
O assunto é bem abordado pela autora.

Merece a leitura.

 

Did the Greeks believe in their Myths?

Did the Greeks believe in their myths? An Essay on the Constitutive Imagination, de Paul Veyne (The University of Chicago Press, 1988, 131 p., tradução do francês para o inglês de Paula Wissing, R$ 41,00) é um dos maiores engodos que já encontrei.

O tema é interessante, mas o ego maior do que o Olimpo do historiador francês estava ocupado demais em encher as páginas do livro com suas digressões intelectuais, que tornaram a leitura insuportàvelmente tediosa.

Veyne tratou muito pouco da História (que é sua área de atuação), e muito de …
de quê mesmo?

Nem sei. Para usar o “método” moderno, de tratar a História como uma inter-relação de fatos, inclusive os que virão dali a uns séculos, Veyne chega a falar de Nietzsche, Weber e Hitler!
Em cada um dos dez capítulos é possível encontrar uma ou outra frase que aborde a relação dos gregos com seus deuses míticos.

Ou seja, recheou as páginas com filosofices e psicologices que fugiram do tema, mas que certamente devem ter rendido ao autor muitos elogios vindos da panelinha acadêmica onde vive mergulhado em Paris. Se pelo menos fosse para se ater à filosofia clássica…

Ah, deve ter sido por isso que ele se esqueceu de falar da sociedade grega da Antigüidade.

 

em uma livraria

Estive ontem em uma livraria, dessas grandes, para “gente culta”, de uma rede espalhada por capitais “interessantes”.
Percorri com atenção os diversos corredores e suas muitas estantes.
Vi a preocupação (infantil) de colocar os “colaboradores” para que se obtenha uma disposição bonitinha, falsa feito nota de três reais impressa na Nigéria.
O conteúdo dos livros era digno do saudoso Febeapá.
Olhava nas estantes e só via “baixo-ajuda”, culinária, juvenis e mitologias (relacionadas a seriados de tv), “críticos” do óbvio, muitos livros escritos por sacerdotes, livros de viagens com muitas fotografias…

Quando encontrava algo que tinha valor literário, era sempre uma obra de antes de 1960, com uma encadernação que tentava justificar o preço exorbitante.
Vai que cola…
A maior parte das pessoas que freqüentam essas livrarias não sabem que pela metade do preço pode comprar o mesmo livro em um sebo (com a vantagem de ter sido impresso em uma ortografia que não é para analfabetos).
Não raras vezes, esses mesmos (bons) livros estão em domínio público e podem ser baixados na internet.
Olhei muito.
Até 1960 havia boas obras.
Em 1960 começa um declínio que se aprofunda a cada ano
De 1995 para cá, vinte anos de lixo.
Dos autores estrangeiros, ainda estão presos à famosa anticultura da era hippie, embora ideològicamente presos à URSS do tempo de Stalin.
Dos autores tupinambás, melhor esquecer que rabiscaram alguma coisa no computador…

Comentei depois com alguns amigos, e eles concordaram com minhas observações.
Acrescentaram, ainda, a mão de obra selecionada sem o mesmo esmero de antes. O que importa é mesmo a apresentação, e não o conteúdo.