literatura infantil

Emília

Emília, uma biografia não autorizada da Marquesa de Rabicó. Textos de Monteiro Lobato selecionados por Socorro Acioli e ilustrados por Wagner William, para montar uma biografia de importante personagem do pensamento brasileiro do início do século XX.
Casa da Palavra – Leya, 2014, 96 páginas,
Um livro muito interessante. Bem feito. Deveria ser obrigatória sua leitura.
MAS, como vivemos no Brasil, eu o comprei por R$ 10,00 em uma desova de livros encalhados, no hall de um shopping center.
Crianças precisam ser bobalizadas, e os professores não incentivam a leitura de autores brasileiros – “são muito difíceis“,  “cheios de preconceitos“…
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Contos de fadas

Terminei ontem à noite um curso de contos de fadas, dado por Tino Freitas.

Vocês pensam que conto de fadas é coisa para criança?

Pois estão mais do que equivocados.

No curso, aprendemos trocentas versões diferentes de cada conto,
– cada de um nós conhecia uma versão que diferia das outras –;

psicanálise por trás daquelas histórias (Erich Fromm, Jung, Bettelheim e Maria Louise von Franz);

papel da mulher (a xereta fofoqueira – Psiqué, Eva, Pandora), que viraram a mulher de Barba Azul, e outras tantas;

um dos contos mais conhecidos: Sansão e Dalila;

as parábolas já tinham a estrutura do conto de fadas, e havia o elemento mágico, no caso, os cabelos de Sansão;

A Bela e a Fera (a menina prometida em casamento para um velho horroroso, por quem ela desenvolve afeto);

Cinderela na China, Yeh-hsien (sapatinhos de chinesas, fetiche do ano 850);

Cinderela brasileira (norte de Minas) – uma festança de três dias no arraial;

Chapeuzinho Vermelho de Guimarães Rosa (A Menina da Fita Verde);

Chapeuzinho Vermelho masculino;

Branca de Neve no caixão e a história de Inês de Castro;

Os Três Porquinhos;

o urso que nos contos era pior do que os lobos;

Xerazade envelheceu, virou Mamãe Ganso e depois a vovó Dona Benta;

o espelho mágico da Branca de Neve;

as crianças enjeitadas porque os pais não tinham como alimentá-los (Rapunzel; Joãozinho e Mariazinha), afinal de contas, essa conversa de amor de família é invenção contemporânea;

e versões engraçadas de tudo isso,
como por exemplo:

– Vovó, qual é a senha do wifi?
– Pare de fazer tantas perguntas, minha netinha;

ou o grupo de internet de Cinderela, Bela Adormecida e Branca de Neve;

o primeiro porquinho era biólogo, por isso fez a casa de palha, o segundo frequentava as baladas e fez a casa de madeira, e o terceiro era empresário rico e fez a casa de alvenaria;

por que as princesas eram loiras?

por que a barba do Barba Azul era azul? afinal de contas, diz-se blue movie, blue talk, steak bleu;

por que os ogros eram chamados de ogros? (uigures –>húngaros)

e que, como não havia o politicamente hipócrita do corretinho, não era crime escrever que “o ogro comia pessoas como um macaco come castanhas”;

e mais as formas orais, as escritas, as adaptadas, o teatro, o cinema, as séries atuais na televisão.

Ah, sabia que existe um Tarot de personagens de Contos de Fadas?

Falamos no curso dos autores mais renomados:
Perrault, Grimm, Andersen, Oscar Wilde, Ítalo Calvino, e no Brasil Sílvio Romero, Monteiro Lobato, Tatiana Belinky;

e dos ilustradores que mudaram os livros de fadas:
Arthur Hackam, Edmund Dulce, Kay Nielsen, Harry Clark, Elenore Abbott, David Roberts, Rui de Oliveira, Anthony Browne, Kvéta Pskóva, Adolfo Serra e Salmo Dansa.

Não os conhece? Pesquise um pouco.

E sei que todos vocês gostam de conhecer o conto dos irmãos Grimm “o camundongo, o passarinho e a lingüiça” , que tanto parece com nossa estúpida realidade sindical brasileira.

http://www.grimmstories.com/pt/grimm_contos/o_rato_o_passaro_e_a_salsicha

Antes, já escrevi aqui no blog os posts que você pode rememorar:

https://outraveznarede.wordpress.com/2011/09/10/o-homem-que-calculava/

https://outraveznarede.wordpress.com/2012/06/17/contos-de-fadas-norte-americanos/

https://outraveznarede.wordpress.com/2014/03/22/os-grandes-contos-populares-do-mundo/

https://outraveznarede.wordpress.com/2014/07/30/as-mil-e-uma-noites/

https://outraveznarede.wordpress.com/2014/11/02/contos-dos-irmaos-grimm/

https://outraveznarede.wordpress.com/2016/03/15/falta-de-leitura/

Cuidado com a bruxa, com o lobo mau e com o príncipe encantado!

E, sobretudo, não converse no facebook com quem não conhece!

 

 

Haroun e o Mar de Histórias

Maroun e o Mar de Histórias, de Salman Rushdie (Companhia das Letras, 2005, formato de bolso, 262 p., R$ 21,00), foi escrito em 1990, como livro infanto-juvenil, para o autor explicar ao filho a situação vivida pela família, depois do decreto religioso de morte, pronunciado pelos malucos islâmicos do Irã contra o escritor indo-britânico, por conta de Versos Satânicos.

Um contador de histórias profissional, Rashid, conhecido como Xá do Blablablá, tem a família desestruturada, quando a mulher o abandona e foge com o vizinho. A depressão que segue impede que o contador mantenha sua rotina. É contratado para se apresentar em showmícios, em outras cidades, e viaja com o filho, Haroun, para as duas cidades. aonde chegam e conhecem pessoas muito estranhas e diferentes.

Haroun descobre um gênio que tentava sabotar o Rashid (que deveria se apresentar no dia seguinte), e sai em perseguição ao homenzinho. Com isso, cai em Kahani, outro satélite da Terra, escondido, dividido em um lado sempre iluminado e o outro sempre escuro, com seres que são inimigos entre si, os tagarelas e os calados, em analogia à divisão religiosa na Índia natal de Salman Rushdie.

A seqüência de novos personagens é muito curiosa, e rica em expressões visuais que remetem ao mundo “psicodélico”,  de seres coloridos e flutuantes. Peixes voadores com cabeça de cachorro, máquinas com formato de aves, jardins flutuantes, luzes nas águas, Máquinas Complicadas Demais Para Descrever (MCD+P/D) e muito mais.

O menino encontra o pai também neste satélite, e ambos primeiramente são tidos como espiões, e depois passam a ser os guias de duas divisões dos tagarelas, que lutarão contra os calados, que estão poluindo o Mar de Histórias.

O livro, naturalmente, tem final feliz – reconciliação entre tagarelas e mudos, deposição dos ditadores mudos que obrigavam as pessoas a usar zíper na boca, e, quando do regresso na cidade de origem, o fim da depressão de Rashid e o reencontro com a mulher que havia abandonado o lar.

A leitura é muito agradável. A tradução, de Isa Mara Lando, muito bem feita e com as explicações sobre a razão dos nomes e das palavras utilizados nessa obra de Rushdie, com inspiração no hindustani (hindi+urdu).

Rushdie comprova, nesta obra, sua grande habilidade de escritor que merece o sucesso que tem.
Pelo menos a que demonstrou em O Último Suspiro do Mouro.
Por isso, vou novamente tentar ler Os Versos Satânicos.
A lamentar temos os “ditadores mudos” do mundo islâmico que tentam calá-lo.

Contos dos Irmãos Grimm

Contos dos Irmãos Grimm, Editora Rocco , 2005, 310 p., R$ 46,00, prefácio de Clarissa Pinkola Estés, ilustrações de Arthur Rackham.

Grimm, em alemão, significa ira.
Grim, em inglês, significa severo.
Grimace, em francês (e importado para o inglês), significa careta.
Os irmão Grimm (Jakob 1785-1863) e Wilhelm (1786-1859) levaram a sério o sobrenome.
Fizeram, entre 1812 e 1822, uma compilação de contos de fadas que mostraram uma série de princípios que demonstram o caráter das pessoas, em meio a mágicas e espertezas.

Lá estão, dentre os mais conhecidos, Chapèuzinho Vermelho, Branca de Neve, Gata Borralheira, Rapunzel, o Pequeno Polegar, Joãozinho e Mariazinha (Hansel e Gretel, ou seja Joãozinho e Margaridinha), em um total de 53 contos.

O livro não tem versões HollyooDisneyanas.
Cinderela (a gata borralheira) não tinha ratinhos, nem carruagem de abóbora, nem nada disso. Suas irmãs tiveram os olhos furados por pássaros, quando foram bisbilhotar o casamento com o príncipe.
A madrasta da Branca de Neve morreu obrigada pelo príncipe a dançar com sapatos de ferro aquecidos em brasa!
Rapunzel era uma adolescente mãe solteira, cujos pais a tinham trocado por comida com a vizinha bruxa que a criou .

Jakob e Wilhelm (como os antigos) nos contos, castigavam os maus, (como ocorri na vida real), algo que Walt Disney retirou das histórias.
Prêmios a quem demonstra dignidade no caráter, e castigo aos trapaceiros, e, sobretudo, aos invejosos.

Quanto à introdução da psicanalista junguiana Clarissa Pinkola Estés, deveria ter sido dividida em introdução e conclusão. Uma parte falando do que são contos, a forma como trabalharam Jakob e Wilhelm, e sobre o prazer da leitura e da narração para crianças [ver Como um romance]. Ao final do livro, caberia a análise do conteúdo, sem indispor prèviamente o leitor ao que poderá encontrar nos contos.

As històrinhas são violentas? As crianças podem se assustar?
Ainda bem! Hoje em dia boa parte das crianças urbanizadas perderam essa noção.
Criança faz as maiores barbaridades e surgem os defensores dos coitadinhos.
Criança mata e dá risada para o repórter na tv.
Adolescente faz planos para o namorado matar os pais dela, para receber a herança.
Fica tudo por isso mesmo? São seres puros e inocentes? Não têm hormônios conduzindo a cabeça e o comportamento?
Por sua vez, não há tantos pais que despejam bebês recém-nascidos em lixeiras, ou os vendem? Por que isso não pode ser contado em contos de fadas?
Foi exatamente o que os Irmãos Grimm fizeram.
Fizeram-no justamente para mostrar que pode haver algumas pessoas que, por pureza, esperteza ou trabalho, se dão melhor do que outras que querem apenas desfrutar as vantagens da beleza física ou o dinheiro fácil que veio sem trabalho. Clarissa Pinkola Estés deveria ter colocado essa parte da análise como uma conclusão.

 

Os Grandes Contos Populares do Mundo

Os Grandes Contos Populares do Mundo (Ediouro, 432 p., 2005) é uma das coletâneas organizadas por Flávio Moreira Garcia, responsável também por coleções sobre contos eróticos e contos de humor.

Pequenas histórias de lugares tão díspares quanto Afeganistão, Guatemala, Irlanda e Moçambique.

Histórias de mitologia, como os egípcios Osíris e Ísis, os gregos Édipo, O Rei Midas e O Minotauro, os bíblicos Sansão e Salomão e a Rainha de Sabá. Histórias clássicas como trechos de As Mil e Uma Noites (Ali Babá e Os Quarenta Ladrões, Sindbad o Marujo), uma versão adaptada de Romeu e Julieta (Shakespeare), O Barba Azul (Perrault), A Nova Roupa do Rei (Andersen), a lenda suíça de Guilherme Tell, e o humorístico português O Caldo de Pedra (conhecida história de como fazer uma sopa à base de uma pedra lavada).

Uma considerável parte dos 83 contos eu conhecia, e foi realmente gostoso ter a oportunidade de reler histórias que eu tinha conhecido na infância. Os ingleses João e O Pé de Feijão, e O Matador de Gigantes, o trabalho de Andersen sobre O Bravo Soldadinho de Lata (para mim era um soldadinho de chumbo), o turco O Relógio, de Khawajah Nasr Al-Din.

Para representar o Brasil, foram selecionados sete contos:

  • O Ciclo de Pedro Malazarte
  • Mãe d’Água
  • As Proezas de Macunaíma
  • O Princípio do Mundo
  • Xangô (adaptação da mitologia africana)
  • O Baile do Judeu (do amazonense Inglês de Sousa)
  • A Mboitatá, do gauchíssimo Simões Lopes Neto.

Aí vem a imensa grande enorme diferença. Os contos dos outros países têm cunho moral, mesmo quando os heróis aproveitam uma capacidade de esperteza para ludibriar inimigos. O resultado é que as histórias são feitas para ressaltar vantagens da honestidade, do trabalho, do respeito aos mais velhos.
Pois nos contos e lendas brasileiras, exceto a da Boitatá, prevalece a mentira, a falta de caráter, a trampa enganadora.
De Manunaíma, o herói sem nenhum caráter, não preciso comentar. Pedro Malazarte era apenas um Más Artes, O Baile do Judeu é a aparição do Boto, …
Uma amiga que é candomblecista baiana desmentiu essa versão de Xangô. Foi abrasileirado para tornar-se um aproveitador da primeira mulher, o que não ocorreria na lenda original africana.

Qualquer semelhança entre os contos e os povos não deve ser mera coincidência.

Ah, caso alguém não saiba: esperteza não é sinônimo de mau-caratismo.

Asterix entre os Pictos

Fui querer me distrair e comprei “Asterix entre os Pictos” (Jean-Yves Ferri, desenhos de Didier Conrad, Editora Record, 48 p., R$ 28,00), primeiro livro do personagem gaulês que surgiu após a morte do autor Goscinny e a aposentadoria do co-autor Uderzo, com todos os personagens da velha aldeia que já conhecemos.

Não deu. A melhor homenagem da dupla Ferri e Conrad teria sido deixar a obra tal como era originalmente.

Faltou humor, faltou sutileza, faltaram insinuações que ferissem o abominável polìticamente correto de hoje, marcas das historietas anteriores.

Gosta de Astérix? (prefiro na forma original francesa, e adoptada na Lusitânia, com o acento agudo sobre o E)

Melhor reler as obras antigas.

A Queda de Artur – 2a. parte

O livro A Queda de Artur divide-se em duas partes. A primeira é o poema aliterado de J.R.R.Tolkien, a segunda é  um estudo de Christopher Tolkien sobre a tradição arturiana.

Nessa segunda parte, Tolkien Filho explica trechos do poema, compara-o com textos de outros escritos sobre a lenda do Rei Artur, e faz algumas considerações de caráter geográfico e histórico sobre a lenda, mostrando contradições no conjunto de versões sobre esse personagem.

Já fui um “arturiano de carteirinha”. Li, no passado, muitos livros e vi muitos filmes sobre o Rei Artur, sempre com a curiosidade de encontrar alguma nota de historicidade. Christopher demonstra por escrito quantos enxertos foram sendo metidos em uma lenda que tentava dar caráter nacionalista a um herói que, para os diversos governantes, era conveniente ter existido, ao menos nas narrativas.

No fundo, o que encontramos é uma versão européia do Samba do Afrodescendente Psìquicamente Alterado, de Stanislaw Ponte Preta.

Artur, Guinevere, Lancelot, Gawain, Mordred, Utar Pendragon, Camelot, Avalon, Merlin e Morgana. Nomes tão populares quanto Branca de Neve, Cinderela, Joãozinho e Mariazinha, o Lobisomem, o Reino das Águas Claras e a Maga Patolójika. Ou, se preferirem, como Dom Quixote e Sancho Pança.

A segunda parte do livro é de leitura mais lenta, uma vez que não depende do ritmo da poesia medieval, mas nem por isso deixa de ser interessante a exposição de tantas contradições, acumuladas ao longo dos séculos.