sexo

Apenas um herói

Apenas um herói (Daniel Frazão, Rocco, 2008, 207 p., R$ 5,00) é um livro de leitura fácil, bem “digestível”.
Conta em primeira pessoa a história de um eterno fracassado, que vive no Rio de Janeiro, e vai trabalhar em um necrotério, enquanto espera uma herança de um tio.

Só que o livro tem a marca de quem tem muita pretensão e pouca vivência, por isso não chega a apresentar nada de novo.
Não, há sim algo de novo: as cenas de sexo são apenas relatadas que existiram; não são, como fazem tantos autores contemporâneos, aulas de anatomia e fisiologia misturadas com “catecismos” de Carlos Zéfiro.

O autor escreve bem, com vocabulário que não é recheado de expressões locais ou de época, e sua a leitura é fluida, porém não deixa marcas.
Quem sabe outros livros de Daniel Frazão possam ter mais conteúdo. Ele tem técnica, o que lhe falta é assunto. Parece que escreveu “pela obrigação de ser escritor”.

Ao longo do texto, deparei-me com dois parágrafos que me agradaram muito, por destruir dois “mitos”contemporâneos urbanos:

Nunca gostei de antiguidade. Produto de gente fresca. Bugigangas sem valor, arrematadas por esposas entediadas e casais de homossexuais intelectualizados. Antiguidades não fazem parte do meu mundo, o pequeno mundo de quem tenta sobreviver na cidade grande.

Depois de muito esforço, achei um lugar adequado. Um restaurante escuro e pequeno, sem som ambiente. Sempre detestei aqueles odiáveis tecladistas sem talento, fabricados sob medida para as churrascarias e pizzarias. Prefiro o silêncio acima de qualquer outra coisa.

 

 

 

Soumission

Soumission, de Michel Houellebecq (300 p., Flammarion, 2015, R$ 85,00).
O autor escreveu sobre o “risco islâmico” na civilização européia, antes que tivesse ocorrido a matança no Charlie Hebdo, e outras coisas do tipo, que já ocorreram depois.  O lançamento do livro, coincidentemente, ocorreu no mesmo dia do atentado.
Trata-se de um “romance visionário”, que alguns comentaristas comparam com os de Aldous Huxley ou de George Orwell.
Uma quinta parte do livro é para descrever quais foram as bebidas ou comidas que o professor-narrador quarentão ingeriu.
Uma terça parte é para narrar as trepadas que ele teve, com alunas, ou com moças da difícil vida fácil.
A parte essencial do livro é escrita para falar da islamização da Europa.
Bem, no final, com chefes de governo islamitas eleitos na França e na Bélgica, na década de 2020 a União Européia expande-se para a Turquia, Marrocos, Argélia, Tunísia, Egito e Líbano, no plano islâmico de restaurar o Império de César Augusto, com o comentário de “como era boa a Idade Média. O problema da Europa foi ter decaído tanto com o Renascimento… ”
O livro é visto como uma comparação entre a queda da república romana e sua substituição pelo império, e o fim dos valores europeus laicos que têm vigido nas “democracias” atuais.
Sorbonne (e Oxford) é privatizada e islamizada, subsidiada pela monarquia saudita (ou catari).
As mulheres passaram a ter de se vestir sòbriamente (outra vez), pràticamente não saem mais às ruas, têm os estudos limitados, não ocupam mais cargos de empregos (o que permite que os homens ganhem mais), o que, como conseqüência óbvia provoca a redução do desemprego.
Com a poligamia instaurada na Europa, os homens têm uma mulher mais velha para cuidar da casa, e outra, adolescente, para levar para a cama, e que sempre será uma adolescente mimada.
Bem, o livro é assustador, visto como uma perspectiva concreta para as próximas décadas,
e realmente dá nojo a gente ver o que fazem os políticos e os “intelectuais” para continuarem em suas boquinhas, mamatas, etcéteras, abrindo mão de qualquer afirmação que antes expressassem.
Essa é a parte mais importante, e que merece reflexão de todos nós:
o que eles podem fazer para salvar a própria pele, não importa o que seja mais ético e/ou necessário.
Críticos “intelectuais” e revistas com “perfil político” criticaram o livro, considerando-o a mais fraca das obras de Houllebecq.
Outros o elogiaram, pela capacidade de fazer ficção a partir de uma análise dos valores sociais contemporâneos.
De qualquer forma, acredito que valha a pena sua leitura com todos os ângulos de pontos de vista. Exatamente como as críticas contidas nas obras “futuristas” de Orwell ou Huxley.

Roberto Freire

O psiquiatra e escritor Roberto Freire (1927-2006), além de ter sido diretor de cinema e teatro, e autor de telenovela, ficou famoso por sua técnica de terapia chamada somaterapia, que se baseava no anarquismo e nas idéias de Wilhelm Reich.

De suas obras, li

  • o romance Coiote,
  • e os ensaios Ame e Dê Vexame e
  • Sem tesão não há solução.

Esses livros foram emprestados para várias pessoas, sobretudo mulheres maduras que, no final do século XX, queriam mais novidades.

O Buda do Subúrbio

Pois decidi “reler” O Buda do Subúrbio, de Hanif Kureishi (Planeta DeAgostini, 2004, 303 p., R$ 16,90), e descobri que eu, na realidade, não tinha concluído a leitura do livro, por conta de uma viagem.

Foi uma boa e grande surpresa. O livro, escrito em 1990, é ótimo.

Todo em primeira pessoa, conta a história de Karim (ou Cream, como lhe chamam), um rapaz filho de um imigrante indiano muçulmano e de uma inglesa, que vive em um subúrbio em Kent, e que se percebe sempre como uma pessoa “extra”, no sentido de que é inglês, sente-se inglês, mas é visto como um asiático pelas pessoas em geral.

O livro narra descobertas sexuais, profissionais, emocionais, de um adolescente até o início da vida adulta, centrado na vida dos anos 1970, com suas “revoluções” sociais e estéticas, além da onda mística de new age.

O pai envolve-se com uma mulher cujo marido está internado em um hospício, e que tem um filho pouco mais velho do que Karim. Este prefere viver com o pai e a madrasta, e deixa a mãe com o filho menor, Allie. Mudanças para Londres, e depois para os Estados Unidos, e retorno a Londres.

Personagens vão e voltam ao longo do livro, cuja narrativa é muito ágil, envolvente, e cheia de surpresas. Os tios paternos, a prima e o marido vagabundo, os tios maternos, colegas de escola, namoradas, Charlie, o filho da madrasta que se torna músico, e o mundo do teatro, ao qual Karim resolve se dedicar como ator.

Quando o livro termina, e Karim e Allie comentam que já estão a caminho dos 40 anos, é como se tudo tivesse acontecido em apenas alguns meses.

A forma como foi escrito O Buda do Subúrbio, sua linguagem, sua narrativa, os fatos que descreve, tudo isso faz do livro um dos melhores que li recentemente.

Morte Súbita

De repente, J. K. Rowling, a autora de Harry Potter, teve o polêmico lançamento de seu primeiro livro para “adultos”, Morte Súbita ( Nova Fronteira, 2012, R$ 49,90, 501 p. – Casual Vacancy, título original).

Quem disse, porém, que o livro não gira em torno de adolescentes e de suas famílias?

A aluna filha de uma prostituta viciada em heroína, o filho do diretor da escola, o filho de…, as filhas de… , são todos os personagens ao redor dos quais famílias mal conseguem disfarçar os problemas internos que carregam.

Com a súbita morte de um vereador do conselho de um vilarejo, começam a ocorrer disputas políticas para sua sucessão, e os interesses em conflito desencadeiam uma série de acusações entre os moradores de destaque da localidade, que servem de mote para vinganças de filhos adolescentes contra pais, em vários casos, ausentes.

Sexo, drogas, política, adultério e abandono. Mudaram um pouco as preocupações, mas na essência o tema gira em torno dos adolescentes, embora com linguagem para adultos.

Mais importante é o pano de fundo do vilarejo contra a sede municipal, e a rejeição da classe média abastada contra um bairro onde se concentram as pessoas que vivem da assistência social (bolsa-família), pichadores, jovens encapuzados, traficantes, e outros tipos humanos que fazem parte do nosso conhecido mundo urbano contemporâneo. Além disso, a questão generalizada da escassez de recursos para manter o estado de bem-estar social (welfare state) e as polêmicas locais sobre a manutenção ou não do instituto de recuperação de viciados.

Realmente o tema é bem atual, pode ser compreendido em qualquer parte do mundo, mas não se trata de algo que merecesse 500 páginas, com tantos personagens e, sobretudo, com tantos relatos de problemas familiares.

No fundo, J. K. Rowling manteve o interesse pelo enfoque na juventude, com pinceladas mais pesadas sobre o “caráter mau” dos adultos, com uma linguagem mais para o contrates do “branco e preto” do que para tons pastéis.

Pan América

Em 1970, um amigo me deu um exemplar da primeria edição de Pan América, de 1967, de José Agrippino de Paula. O livro pareceu-me demasiadamente aborrecido, não terminei sua leitura e dei-o ao fazer alguma mudança.

Há algum tempo, encontrei em uma loja a 3a. edição (Editora Papagaio, 2001, 258 p., R$ 25,00), comprei-o e deixei-o parado em alguma prateleira durante estes últimos anos.

Finalmente tive a curiosidade de lê-lo. Um amontoado de situações desconexas, que junta todo tipo de clichês da década de 1960. Famosos nomes de norte-americanos, como Marilyn Monroe e Joe Di Maggio, Elizabeth Taylor e Richard Burton, Burt Lancaster, Ella Fitzgerald, Cassius Clay, misturados com Che Guevara, soldados, guerrilheiros, policiais do DOPS, multidões de turistas, em capítulos repleto de chavões despejados em onirismo, e muitas (e tolas) cenas de sexo.

O prefácio da primeira edição, do físico Mario Schenberg (que consta também da terceira), salienta o livro como uma epopéia marcada pela obsessão erótica e pelo senso da destruição e do caos, encontrando semelhança com o cinema, quando este se torna mais mítico. O prefácio da terceira edição, de Caetano Veloso, enaltece o tropicalismo, sem contudo observar que o tropicalismo foi um movimento de “contra-cultura” brasileira, na realidade muito bem acomodado pelos patrocinadores da arte “contestatória” da década de 1960.

A leitura de Pan América mostrou-se um exemplo de que nem toda contestação se torna arte. Quanto ao tropicalismo, prefiro a recente declaração de Jards Macalé, que ao completar 70 anos disse que gostaria de viver outros setenta, para poder corrigir todos os erros que cometeu.

Lamentàvelmente os chamados “intelectuais” não gostam de perder sua aura, e se esforçam ao máximo para, vivendo em guetos, continuarem a ser mitificados pelos meios de comunicação e pelo público. José Agrippino já se havia recolhido desse meio, quando morreu em 2007. Seus discípulos, porém, ainda precisam dos paparicos do público que vive da contestação aparente de quem, na verdade, está com a vida ganha e bem acomodada no “sistema” que fingem desprezar.

As idéias no livro são datadas e ultrapassadas. A leitura de Pan América vale apenas para rever o que alguns grupos diziam há 40 anos. O livro tem mais valor histórico do que literário. É um retrato do que se qualificou como arte, simplesmente porque divergia das correntes majoritárias da época, fossem obrigações ou opções.

Inéditos

Há alguns dias, um senhor de seus trinta anos, enviou-me para ler e comentar quatro contos inéditos.
Por conta de serem inéditos, e de que estarão em um concurso literário, este ano, não vou citar seu nome, e tampouco falar sobre os contos.

Foi com muito prazer que os li, e pude fazer os comentários solicitados.
Muito mais prazer do que tantos romances de autores renomados, cuja leitura “não engata”.
Os contos inéditos têm muito mais inspiração do que a escrivinhação de tantos famosos, como já mencionei neste blogue, que apenas falam de suas frustrações sexuais sexagenárias ou septuagenárias.

Faço questão de externar minha alegria por saber que ainda há gente que gosta de escrever, e o faz de forma correta, com conhecimento da língua, e com conteúdo que vai além de palavrões ou de chavões sócio-políticos.
Espero, de verdade, que haja outros senhores (e senhoras) com essa propensão.