judaísmo

Sem-Cerimônia

Reli Sem-Cerimônia – diário de uma psicoterapia, o primeiro livro publicado por Sonia Manski (Editora Ágora, 2002, 263 p.).

Escrito na forma de um diário, o livro narra o dia a dia de uma mulher de 40 anos, judia, casada, com dois filhos, que decide começar a escrever, como acompanhamento do trabalho de psicoterapia que faz, enquanto sente as preocupações atinentes à obrigação de realizar o bar mitzvah do filho, sobre a pressão da família e da comunidade que a cerca.

Ao longo dos meses em que se desenvolve o texto, outras preocupações são narradas, como a compra de um imóvel, o trabalho, e a necessidade que a narradora tem de se dedicar a escrever, colocando isso como um objetivo claro em sua vida.

A linguagem da autora é muito ágil, direta, “sem-cerimônia”. Muitos aspectos e costumes relacionados ao judaísmo são esclarecidos para os leitores goyim, de modo que oferece um bom sobrevôo da comunidade israelita no Brasil.

 

 

 

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As Máscaras de Deus – Mitologia Criativa

Em As Máscaras de Deus – Mitologia Criativa, Joseph Campbell (Editora Palas Athena, tradução de Carmen Fischer, ano 2010, 624 p.) trata da arte, e não da religião, por trás das mitologias.

Pintura, escultura, arquitetura, literatura, música, teatro, filosofia.
Igrejas românicas e góticas, Abelardo e Heloísa, Tristão e Isolda, Os Cavaleiros da Távola Redonda e a busca do Santo Graal, Dante Alighieri, Goethe, James Joyce, Thomas Mann, Leonardo da Vinci, Kant, Schopenhauer, Nietzsche, Freud, Wagner, Ionesco, Samuel Beckett.

Escrito em 1968, o livro algumas vezes ficou superado por descobertas mais recentes. Além disso, o autor não esconde o entusiasmo por certos autores, de quem havia se tornado amigo (sobretudo Heinrich Zimmer) e algumas idéias das obras que menciona (Tristão e Isolda ocupa pràticamente a metade do livro).

A leitura é interessante MAS tediosa.
Não raras vezes somos compelidos a saltar páginas.

O escopo da tetralogia As Máscaras de Deus (1959 a 1968) foi discutir a unidade dos mitos, e é posterior à obra O Herói com Mil Faces, de 1949, que trata da unidade do conceito de deus. Curiosamente, Campbell não mencionou em toda a obra os mitos e as religiões da África Negra.
Há críticos que consideram no trabalho de Campbell evidentes sinais de anti-semitismo e de preconceito contra os negros, o que me pareceu ser verdadeiro.

No fundo, o que permanece em mim é o conceito que aprendi há uns 15 anos com um monge budista velhinho:

– A maior diferença entre as religiões monoteístas do Oriente Médio e as outras, é que todas as demais existem para agradecer pela fartura que lhes é proporcionada pela Natureza, enquanto que os “povos do deserto” preocuparam-se mais com as lutas pela sobrevivência…

 

As Máscaras de Deus – Mitologia Ocidental

O quarto capítulo de As Máscaras de Deus – Mitologia Ocidental (terceiro volume da tetralogia de Joseph Campbell, Editora Palas Athena, tradução de Carmen Fischer, 1998, 472 p.) inicia-se com:

Felizmente não será necessário argumentar que os mitos gregos, célticos ou germânicos eram mitológicos. Os próprios povos sabiam que se tratava de mitos e os estudiosos europeus, ao lidar com eles, não se sentiram persuadidos pela idéia de que houvesse algo especialmente sagrado no tema.

Nos capítulos anteriores, o autor desmontou o mito de Moisés. Aliás, Sigmund Freud, já tinha feito isso, em Moisés e o Monoteísmo, que é citado em várias páginas do terceiro capítulo.

Foi também mencionado que a Torre de Babel é apenas o inverso do zigurate. Não para os homens subirem aos deuses, mas para os deuses descerem até os homens…

Logo no segundo capítulo, Maria é desconstruída, dadas suas semelhanças com outros mitos, como a egípcia Ísis, a frígia Pessinus, e outras lendas.

O livro, concluído em 1964, aborda as mitologias celtas, germânico-escandinavas, greco-latinas, zoroastrismo, judaísmo, cristianismo e suas vertentes, mitraísmo, islamismo, e conclui que a ciência estava a caminho de derrotar as religiões. Campbell deveria aguardar mais umas décadas, para ver o violento retorno de certas religiões e seitas…

Ah, Feliz Natal de 2017…
Dia Internacional do Comércio.
Embora muita gente venha com aquela conversa de que o solstício é dia do aniversário de mais um salvador da humanidade…Saoshyant, representado pelo Sol Invicto.

 

P.S. 31 de dezembro
Antes de morrer, Campbell pode não ter visto o recrudescimento fundamentalista do maometismo e do cristianismo, MAS viu o retorno dos mitos célticos e vikings,  a criação do rastafarianismo e toda a prole de cultos new age pseudo-hinduístas.

 

As Máscaras de Deus – Mitologia Oriental

As Máscaras de Deus – Mitologia Oriental, de Joseph Campbell (Editora Palas Athena, tradução de Carmen Fischer, 1995, 446 p.) oferece uma leitura um pouco tediosa. São muitas as páginas em que reproduz integralmente algum texto mitológico, com pouca interpretação sobre ele.
No entanto, é muito interessante encontrar ao longo das muitas páginas a onipresença de serpentes em todas as mitologias e religiões, as “coincidências” entre mitos egípcios e persas, entre lendas sumérias e gregas, Enki e João Batista, deuses indianos e escandinavos, as “semelhanças” entre narrativas chinesas e da bíblia judaica (Noé, Lot) e também gregas (Hades), os deuses nascidos de virgens em todas essas regiões, as diversas lendas dos salvadores do mundo, etc..

Campbell trata brevemente do jainismo, primeira religião sem deus, e o compara com o zoroastrismo (anterior) e com o budismo (posterior).

Assinala que o milênio compreendido entre o ano 500 a.C. e 500 e.c. pode ser chamado de a época de ouro do pensamento, quando em todas as regiões civilizadas, simultâneamente, estabelecem-se as bases do mundo moderno.
O autor esclarece que Confúcio e Lao Tsé são seres tão míticos quanto Homero.
Não deixa de transparecer a preferência pelo budismo, quando fala das diversas religiões.

O livro ensina e demonstra que o atual hinduísmo (conhecido por bramanismo até a década de 1960), é uma adaptação da antiga religião da Índia após o aparecimento do budismo, e não é anterior a ele.
Demonstra também que o desaparecimento do budismo na Índia não é consequência desse ressurgimento, mas da implantação do islamismo na região de Bengala, com a decorrente expulsão dos monges para regiões do Sudeste asiático.
No final, Campbell relata diversos casos de tortura e extermínio que o governo comunista chinês perpetrou na região do Tibete, no início da década de 1950.

Este volume não traz muitas novidades em relação ao primeiro volume da tetralogia, e tampouco em comparação com outros autores.

 

O Penitente

O Penitente, de Isaac Bashevis Singer (L&PM Pocket, tradução de Jimi Joe, 1998, 166 p., R$ 9,50), é um daqueles livros que agarramos e não largamos enquanto não terminar a leitura.

Narra a história, datada em 1969, de um encontro entre o próprio autor e um americano bem sucedido que emigrara para Israel, fugindo das próprias frustrações e auto-avaliações.

Publicado em capítulos em 1973, em jornal iídiche, e como livro em 1983, o livro tem a atualidade dos dias de hoje. Parece descrever fatos da semana que acaba de ter transcorrido.

Leitura obrigatória. Imprescindível que se leia a Nota do Autor que conclui o livro, com o ponto de vista de Bashevis Singer distoando do personagem.

47 contos de Isaac Bashevis Singer

Concluí hoje a leitura de um dos melhores livros que desbravei nestes últimos tempos:

47 contos de Isaac Bashevis Singer (Companhia das Letras, 720p., 2004, R$ 31,00), com excelente prefácio de Moacyr Scliar.

Os contos são quase todos impregnados de indisfarçável caráter auto-bio-gráfico.
Como são contos, não cansa a leitura.
Cada um é cada um.
Dentre eles está Yentl, que foi tornado peça de teatro, em 1975, e depois filme, com Barbra Streisand, em 1983.

Há contos passados na Polônia sem data, relatos que ele ouvia durante a infância, outros na Polônia do início do século XX (período ainda sob domínio russo-austro-alemão), outros pré-Segunda Guerra Mundial.
Contos mais modernos se passam nos Estados Unidos – Nova York ou Flórida – no período pós-Segunda Guerra, ou em Israel, e até mesmo na Argentina.
Muitas palavras ou expressões estão em  iídiche, mas nada impossível de ser aprendido no glossário.

O que me surpreendeu foram as lições sobre o judaísmo.
Nunca imaginara que fossem tão tão tão supersticiosos!
Diabinhos, talismãs, amuletos, quebrantos, reencarnações, inferno (não eterno), e coisas do tipo em quase todos os capítulos.

Sem contar a tradição do casamento:
as casamenteiras saem para procurar “um bom partido” para ele e para ela.
Se não der certo, porém, nada mais fácil do que obter o divórcio.

Caramba, os judeus ashkenazim são muito mais complicados do que eu pensava…
Só não posso dizer isso a eles.

A tradução de José Roberto Siqueira parece ter sido feita por alguém que não mora no Brasil. Há termos que parecem demasiadamente com dicionários, e não com expressões da língua contemporânea.
A revisão, feita por Ana Maria Barbosa e Carmen S. da Costa também deixa a desejar. Curiosamente, são mais evidentes os erros em um conto que narra a história de um vizinho, que era revisor em um jornal iídiche em Nova York.

Descobri que há muito tempo, durante a adolescência, eu havia lido O Mago de Lublin (traduzido para o português por Rachel de Queiroz), livro escrito por Bashevis em 1960, mas o nome do autor não havia ficado registrado em minha memória – apenas o livro.
Gostei tanto de ler Bashevis, que já me municiei de outros dois livros de sua autoria: O Penitente, e Inimigos: Uma História de Amor, ambos publicados pela L&PM.

 

Associação Judaica de Polícia

Associação Judaica de Polícia, de Michael Chaban (Companhia das Letras, 2009, 472 p., tradução de Luiz A. de Araújo, revisão técnica de George Schlesinger) é um livro que já tentei ler algumas vezes.

Não adianta, não consigo chegar à centésima página.

O texto é chaterrésimo, parece que está sempre começando. Nada se desenrola. Fica sempre nas preliminares.

Hoje este livro sairá da estante e irá – literalmente – para uma lixeira em uma parada de ônibus aqui perto do apartamento.

Até já tentei vendê-lo em um sebo, mas não aceitaram. Disseram que já tem o suficiente desse livro “tão celebrado”.

Prova contumaz de que comentários de “jornalistas especializados” do The Guardian, Associated Press, International Herald Tribune e Esquire nunca devem ser levados em consideração quando se pretende algo parecido com literatura, e não apenas com o ego inflado de “intelectuais”, que pretendem ser engraçadinhos.

Ah, o livro se passa em um hipotético país judeu instalado no Alasca, de língua iídiche, depois de o território israelita ter sido inteiramente ocupado pelos vizinhos árabes.
Zero à esquerda é pouco. Aliás, parece que depois do primeiro zero houve uma vírgula, de tão ruim.