drama psicológico

Demian

Demian, de Hermann Hesse, escrito em 1919, é tido como a auto-bio-graphia do famoso escriptor que, nas décadas de 1960 e 1970, tornou-se ícone dos movimentos pacifistas.

Li a 45a. edição brasileira, comemorativa dos cinqüenta anos do lançamento da obra em terras tupinambás. Editora Record, 2016, tradução e pós-fácio de Ivo Barroso, 194 p., R$ 32,90.

O livro narra a história de um garoto, Emil Sinclair, que tem dificuldades de relacionamento com os colegas na escola. Nesse contexto ele conhece Max Demian, que lhe expõe teorias sobre a capacidade das pessoas em praticar tanto o bem como o mal, chamado o Sinal de Caim, e que lhe fala de Abraxas, a divindade síntese de deus e do demônio.

Mais tarde, Sinclair conhece outros rapazes com quem troca conversas do mesmo tipo de religiosidade mística, um mais velho, o organista Pistórius, e outro da mesma idade, Knauer. O vínculo com Demian, contudo, sempre jaz e floresce na vida de Sinclair, como uma forma de amor platônico, que anos mais tarde também se transfere para a mãe de Demian, Eva.

Tudo no livro são narrativas de pensamentos, de sofrimentos, de vergonha, de sexualidade não resolvida, de estudos psicanalíticos, de idealizações e idealismos.

Ao final, a Guerra se impõe, pois para que algo nasça é preciso que alguma coisa morra…

 

 

Ingmar Bergman

Ingmar Bergman (1918-2007) era diretor de cinema sueco. Mas, a editora Nórdica publicou os livros que se relacionam com os filmes, e eram muito bons.
Ao contrário de vários outros livros ou roteiros, o trabalho escrito era muito bem elaborado, e atendia o que havia de ser retratado na tela do cinema.
Poucos diretores de cinema tiveram essa boa sorte, pois muitas vezes o trabalho na tela era inferior ao feito em papel, ou vice-versa.
Fizeram parte desses trabalhos os livros / filmes:

  • Gritos e Sussurros
  • A hora do lobo
  • A hora do amor
  • O ovo da serpente
  • Sonata de outono.

Leitura simples, ágil, com o “gosto de angústia” que era marca registrada da filmografia de Bergman.
Não decepciona os fãs do diretor.

 

 

Dostoikévski – três vezes

Li simultâneamente três novelas da primeira fase de Fiódor Dostoiévski (Obra Completa – volume 2 – Editora Nova Aguilar – 2004).

  • Pobre Gente (1844-1846)
  • O Duplo (1845-1846)
  • A Granja de Stiepântchikovo e Os Seus Moradores (1859).

Ao contrário dos personagens planos de outros autores da mesma fase literária, os de Dostoiévski são cheios de nuances, e já no primeiro texto publicado (Pobre Gente), que tem o formato de uma coleção de cartas trocadas, ele foi aplaudido pela crítica da época, por se destacar como uma rica fonte de conflitos pessoais e interpessoais, que levaram Sigmund Freud a considerá-lo, mais tarde, o maior de todos os romancistas.

A variada “fauna humana”, miserável e cheia de fraquezas, que Dostoiévski descreve é algo raramente encontrado.
O leitor é levado a questionar que tipo de pessoa teria aquelas atitudes, e ao mesmo tempo identifica ao redor inúmeros comportamentos que tornam a vida ora mais interessante, ora mais difícil.
Não se limitam ao período da Rússia do século XIX, mas são uma coleção de fraquezas, de chantagens, de psicopatias, que vão muito além da crítica social.

Dostoiévski é mais do que um autor cuja leitura deveria ser obrigatória: é um dos pontos mais altos das literaturas de todos os tempos.

 

Sergio Y. Vai À América

Sergio Y. vai à América, de Alexandre Vidal Porto (2014, Companhia das Letras, 181 p., R$ 37,00) oferece uma leitura bem rápida.
Inclusive porque a própria formatação do livro inseriu muitas páginas apenas com o título dos capítulos, que se iniciam sempre em uma página ímpar – ou seja, há bem menos do que as 181 páginas. Além disso, alguns capítulos constituem-se de um único parágrafo. Evidentemente que se o livro tivesse um número menor de páginas, o preço de venda poderia ser mais baixo, mas não é essa a política da grife dos livros caros, como algumas vezes já comentei.
Como tantos outros livros, tem a característica da lombada que não permite leitura quando o livro é colocado em posição vertical. Por que essa moda entre os editores?

O livro trata a história de um psiquiatra paulistano que tem como um dos pacientes um rapaz de 17 anos, que um ano depois afirma já ter descoberto, na terapia, como deveria se comportar para superar a tristeza crônica que sentia. O jovem muda-se para Nova York, e o psiquiatra, mais tarde, casualmente encontra a mãe dele, que diz que o filho agradece muito por todo o trabalho feito pelo médico. Pouco depois, o médico sabe que o ex-paciente havia sido assassinado, aos 23 anos, em Nova York, e começa a buscar respostas para isso, deparando-se com dúvidas sobre sua própria atuação como profissional que antes não cogitava.

Quase toda a narrativa se desenvolve com o relato do médico sobre a própria terapia e por fatos que envolvem o psiquiatra e outras pessoas que tiveram contato com o ex-paciente, com um total de poucos personagens no livro. Não chega, portanto, a constituir um romance.

Deixando propositadamente algumas dúvidas sobre o trabalho do médico e a real personalidade do paciente, o livro pode ser fàcilmente “digerido” em ocasiões de mente relaxada e de ócio.
O autor desenvolveu um texto bem direto, sem expressões rebuscadas que queiram insinuar intelectualismo ou o uso de expressões da moda. É verdade que a descrição e as razões do assassinato não são muito convincentes. A se lamentar sèriamente foi apenas a escolha da editora.

Marcoré

Marcoré, de Antonio Olavo Pereira (Arqueiro, 2013, 224 p., R$ 29,90) foi escrito em 1957, e ganhou naquele ano o Prêmio de Romance da Academia Brasileira de Letras.

Narrado em primeira pessoa, conta a história de um oficial-maior de um cartório em uma cidade do interior de São Paulo. Vive com a mulher e os sogros, e já beirando os 40 anos o casal tem o único filho, Marco Aurélio, que mais tarde será chamado de Marcoré por uma das babás, e prossegue a narrativa até o começo da adolescência do filho, já com personagens mortos ou afastados, pessoas da cidade que se mesclam no imenso fofocal típico de seres humanos.

No entanto, tudo no romance psicológico pode ser resumido à incapacidade do personagem em se relacionar com a sogra, com a mãe, com uma das irmãs, com a amante, com o funcionário do cartório, com o padre, com as fofoqueiras de turno, e com o afastamento que gradativamente o filho também impõe ao relacionamento com o pai.

O livro pretende falar de melancolia, porém prende-se demasiadamente a negativar todas as pessoas. O personagem principal, em seus pensamentos, vê que apenas os mortos estão bem, enquanto que todas as pessoas vivas são frustradas como ele. Sim, a realidade é assim mesmo, as pessoas envelhecem e em geral perdem o brilho da juventude.

O texto não é arrastado, mas a linguagem, o vocabulário, os pensamentos, remetem muito mais a romances de 1910 e 1920. Fica longe do que era a literatura de 1950.
O autor, contudo, era irmão de José Olympio, o da editora com o mesmo nome. Claro pois que a máfia dos escritores e dos intelectuais da ABL enalteceu as qualidades do romance. São, como sabemos, tão “isentos” de interesses quanto os empresários dos cartéis de ônibus no Brasil.A atual edição, pela Arqueiro, é feita por descendentes da família, em comemoração ao centenário do nascimento do autor.
Sem dúvida mais uma peça no quadro de um mundo à parte, de “artistas e pensadores”. Um romance típico para pessoas que querem “sensibilizar-se”, algo que hoje em dia é muito valorizado por quem tem apenas relacionamentos virtuais e polìticamente corretos, e por isso mesmo sem profundidade.
Não é uma obra ruim, mas não contribui com nada para o futuro do leitor. Parece de fato um livro para uma tarde chuvosa durante as férias, não obstante “a crítica” positiva que recebeu.

O cerne da questão (com P.S.)

O cerne da questão, de Graham Greene (Editora Globo, 2007, 396 p., R$ 30,60), é um romance que demorei várias semanas para concluir a leitura. Em algumas partes ela fluía ràpidamente, em outras, rastejava.

O livro narra a história de um major da polícia colonial britânica, em Freetown, Serra Leoa, durante a Segunda Guerra Mundial, que vive uma relação fria com a mulher, tem princípios católicos rígidos para a convivência com os outros brancos da cidade, e que se apaixona por uma jovem viúva, de quem se torna amante.

Os personagens têm suas várias facetas psicológicas expostas ao longo dos capítulos, porém, muitos dos diálogos são tediosos. Conversas do tipo “você me ama?”, ou “quero ser seu amigo”  são pouco convincentes. Mais parecem frases de um folhetim do século XIX.

A história de frustrações e de pesadas recordações não chega a empolgar. Dos quatro livros que li de Graham Greene, este foi o que menos me agradou, menos até do que Nosso Homem em Havana, que me pareceu um chavão da Guerra Fria. Preferi, ao ler, O Fator Humano e O Poder e a Glóriadois livros cuja leitura recomendo.

P.S. 13 de junho – No livro há um trecho muito interessante, que quero destacar:

O desespero é o preço que pagamos por nos comprometermos com uma meta impossível.
É, dizem, o pecado imperdoável, mas um pecado que nunca é cometido pelos corruptos ou pelos maus.
Eles sempre têm esperança.
Nunca atingem aquele estado paralisante que é o conhecimento do fracasso absoluto.
Só os homens de boa vontade carregam sempre no coração essa capacidade de danação.

El túnel

Estava a ler “El túnel”, de Ernesto Sábato (Editora de Bolsillo Seix Barral, 1986, Santiago de Chile).

O livro, escrito em 1948, é considerado um dos mais importantes no estilo drama psicológico. Prende o leitor com as dúvidas do pintor que se obceca por uma mulher que vê em uma exposição de seus quadros, já que ela é a única pessoa capaz de perceber que, em determinada obra, a essência está em uma janela no canto da tela, e não no restante da pintura. Obsessão obcecativa que leva o pintor a matar a principal personagem feminina, como ele já expõe no início do livro.

Tive de completar a leitura do livro em extratos disponíveis na internet. Antes de concluir a leitura, perdi o livro durante uma recente viagem que fiz.

Se você, porém, tiver a oportunidade de ter um exemplar em suas mãos (não sei como seria a tradução para o português), leia-o. Um grande livro de um notável escritor.

Sem dúvida os argentinos são muito melhores para tragédias e dramas do que os brasileiros.