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Coivaras

Coivaras, Morada além a mata (Nico Miranda, Sudográfica – Jataí GO, 2004, 94 p.,R$ 15,00) é um livro que oscila entre o fantástico, a doutrinação política, as tradições regionais, e uma boa dose de auto-propaganda.

Antes de ler o resto do artigo, sugiro que use o link e veja as definições da palavra Coivara. O autor utilizou apenas a definição do dicionário Aurélio, e ignorou todas as conseqüências dessa abominável prática que sempre assolou o interior do Brasil.

A narrativa se desenrola em um lugar do interior de Goiás, no século XXI (21), em um período de tempo que não é cronometrado.
Um jornalista (Kraus Victor) sai da cidade para entrevistar um outro (Simão Rodrigues), que há mais de uma década deixara o mundo civilizado para viver como eremita.
Nesse isolamento, ambos falam sobre um mundo ideal, “socialista”, “puro”, sem contaminação com os valores “do consumo”.
Ao longo do tempo, surgem outros personagens, que seriam “extra-terrenos”, e fazem parte do dia a dia de Simão, para espanto de Kraus.

A propaganda política é escancarada, com vários elogios ao “líder dos trabalhadores”, e muitas idéias de programa político esquerdista.
Por ter sido escrito em 2003, é claro que ignora toda a corrupção que o Brasil viu desmascarada de lá para cá.

Alguns pontos sobre “o resgate das tradições folclórica” são interessante, dando alguma visão de hábitos da população do Centro-Oeste do Brasil.

Citações ao próprio autor ocupam páginas inteiras do livro, enaltecendo seu trabalho de radialista “divulgador do folclore”.

A impressão final foi a de que li um devaneio de um “bicho-grilo” “iluminado”.
Seria “folclórico”, se não retratasse muitos brasileiros que ainda “vivem no sonho”.

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Eduardo VII

Eduardo VII, de André Maurois (Globo Livros, 2014, 303 p. R$ 49,90), foi escrito em 1933, mas só agora é publicado no Brasil, em função do centenário do início da Primeira Guerra Mundial (embora o Rei tenha morrido em 1910).
O título original inglês é Rei Eduardo VII e seu tempo, já o título brasileiro é Depois da Rainha Victoria, Edward VII.

Eduardo VII tinha já 54 anos, quando ascendeu ao trono, em sucessão a sua mãe, a famosa Rainha Vitória. Por isso, a parte inicial do livro trata de assuntos do reinado de Vitória, a mãezona do Império Britânico, e que era de certo modo também a avòzona do mundo todo.

Vitória, sob a influência do marido alemão Alberto (embora ele tenha morrido com apenas 44 anos), transformou a corte inglesa da futilidade das dinastias francesas (Bourbon, Orléans e Bonaparte) para um reinado voltado para a burguesia, deixando de fora a velha aristocracia.
Vitória governava para a classe média.
Pobres ela não sabia como eram, mas aristocratas ela atirou no lixo.

Eduardo Alberto, ainda príncipe de Gales, fez uma viagem oficial aos Estados Unidos, a primeira na história das relações entre os dois países, e foi tão adorado pelos americanos, que pediram que ele voltasse dali a uns anos para se candidatar a presidente dos EUA. Descobriram a frustração de serem uma reles republiqueta, coisa que se estendeu por todos os presidentes seguintes. Mesmo no enterro de Eduardo VII, em 1910, a presença do ex-presidente Theodore Roosevelt deu sinal de que as repúblicas eram países de segunda categoria no início do século XX.

Tinha aprendido com a mãe que o rei reina, não governa, mas tem (e exerce) o direito de saber,  direito de encorajar e o direito de advertir. Aliás, é assim que os ingleses funcionam até hoje.

O curto reinado de Eduardo VII, apenas nove anos, foi contudo marcado por muitas mudanças. As tradicionais disputas políticas entre Conservadores e Liberais adquirem o novo componente do Partido Trabalhista, fala-se muito do Home Rule na Irlanda, a mudança na composição da Câmara dos Lordes, para eliminar o poder de veto que ainda mantinha sobre decisões tomadas na Câmara dos Comuns, e o Rei jogou com muita habilidade no entendimento que buscava entre todas as partes. Também durante seu reinado ocorreram as manifestações em favor do voto feminino (as suffragettes), que passou a valer logo após o término da Grande Guerra.

Fora isso, se o reinado de Vitória foi o império do trem, Eduardo VII deu início ao império da bicicleta e do automóvel. Jorge V, mais tarde, veria o império do avião.

As relações de amizade que mantinha, desde quando ainda Príncipe de Gales, serviram para acomodar muito do trabalho de diplomacia a que ele se interessava, com outros monarcas europeus, bem como com os presidentes franceses. Inspirou a aproximação com a França e com a Rússia, promovendo a Entente Cordiale, que se contrapôs à Tríplice Aliança montada pela Alemanha, pela Áustria-Hungria e, na época, a Itália.

As relações com o sobrinho, o Kaiser Guilherme II, porém, sempre foram cheias de desconfiança, e foram tornando mais difíceis as que envolviam seus países.

Por acaso tenho lido outros artigos, que agora vêm sendo publicados por conta dos cem anos da Grande Guerra, e parece haver unanimidade em que o comportamento psicològicamente doentio do Kaiser foi decisivo para o desencadeamento do conflito. Segundo alguns autores, não houve sequer uma II Guerra, pois aquela primeira nunca chegou a ser concluída.

Nisso erram historiadores marxistas, que insistem em que a economia é a causa de todos os arranques e de todas as alterações. Podem contribuir para o surgimento de cenários propícios, mas figuras execráveis como Napoleinho, o Kaiser, Stálin e Hitler deram o tom final para que a História tomasse rumos desastrosos. Sem eles, até mesmo os desastres econômicos teriam sido menores. Pessoas têm sim um poder muito grande de modificar rumos de povos.

Ah, só um lembrete: fumar faz mal à saúde.

O Castelo de Papel

O Castelo de Papel, de Mary del Priore (Rocco, 2013, 317 p., R$ 29,90), faz parte dos títulos sobre a monarquia brasileira escritos pela historiadora (A Carne e o Sangue; Condessa de Barral; O príncipe maldito).

O livro tem falhas de revisão, em datas e em palavras estrangeiras, mas é bem municiado de informações. A forma de escrever, porém, soa às vezes exageradamente coloquial, com excesso de frases de uma só palavra.

Ao tratar da vida da Princesa Isabel e do Conde d’Eu, são retratadas várias décadas da história do Brasil. D. Pedro II, o Banana, é apresentado sempre como um sujeito “cinzento”, alguém cuja coloração é sempre desconhecida, que não compartilhava idéias e que não aceitava opiniões alheias. Isabel preocupava-se apenas com a família e com a religião, e dizia ostensivamente que tinha aversão aos assuntos políticos, e preferia ir às lojas ou às audições de música. Gastão de Orléans, o Conde d’Eu, era, aos olhos dos políticos brasileiros, um estrangeiro demasiadamente liberal, e nunca foi aceito pela sempre xenófoba sociedade brasileira.

À parte o traçado da personalidade dessas figuras do Império, temos partidos políticos sem qualquer credibilidade, uma capital do país que se opunha aos interesses das províncias, um conjunto de figuras políticas de baixa qualificação e de pior estatura moral, que apenas buscavam proteger o interesse pessoal, mudavam de lado com a maior facilidade, e atacavam os adversários de forma muito baixa. De positivo, uma época em que a imprensa teve liberdade de expressão como nunca em qualquer outro período do Brasil.

O resultado é desalentador. Vemos que os mesmos temas de mais de um século e meio não foram resolvidos, porque outros D. Pedros IIs estiveram à frente do país, ou porque algumas Isabéis acreditam que conseguirão por força de algum milagre solucioná-los. Sempre os mesmos temas: desigualdade social, educação e saúde, transportes e comunicações.

Um livro que dá uma visão bem menos adocicada do final do Império, e que deve ser lido com outras obras de outros autores, para melhor situar o cidadão brasileiro sobre o que nos antecedeu e o que se seguiu. Indico a biografia de D. Pedro II escrita por José Murilo de Carvalho.