consumidor

Best-sellers odiados

Na conversa sobre fatos que gostaríamos de ter presenciado,
surgiu também a questão:

– Que best-seller você leu e se arrependeu?

As respostas imediatas foram:

  • 50 tons de cinza (E. L. James)
  • A Cabana (William P. Young)
  • O Código da Vinci (Dan Brown)
  • O Monge e O Executivo (James C. Hunter)
  • O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupéry)
  • O Perfume (Patrick Süskind)
  • O Segredo (Rhonda Byrne)

Da mesma forma, repassei a pergunta a meus contactos de internet, e obtive as seguintes respostas:

Li mais de uma vez o Pequeno Príncipe. É uma obra-prima, nada a ver com as porcarias dos best-sellers. O monge e o executivo me parece um ótimo livro, apesar de ter-se tornado best-seller. Os demais elencados me parecem indignos de constar na mesma lista.

Falou que é best-seller, fico longe.

Odiei de paixão: O Sol também se Levanta (Ernest Hemingway)

O Perfume me deixou com uma desagradável sensação de náusea e realmente não gostei nada. O Pequeno Príncipe já li, mas faz tantos anos que nem lembro mais. Na época gostei. Acho que há livros que devem ser lidos quando se é mais jovem, e que depois parecem idiotice.

É, A Cabana não consegui terminar de ler

Escapei de quase todos esses. Quase, porque li O Perfume pela metade.

O pequeno chatíssimo Príncipe“; o “Código” (da Vinci não merecia isso!); e o “Perfume“, que achei super idiota e nem terminei.

Meu marido levou 8 meses para conseguir ler O Código Da Vinci… …achou um saco. Foi presenteado por um médico colega dele da maçonaria!

A Cabana do Pai Tomás?

Dois best-sellers que adorei: O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault, ambos de Umberto Eco.

50 tons de cinza.

Não foram exatamente best-sellers, mas alguns clássicos da literatura universal, dos quais me arrependo:

  • Moby Dick, Herman Melville – intragável
  • As Pupilas do Senhor ReitorJúlio Dinis – insuportável
  • Almas Mortas – Nikolai Gogol – desolador
  • Os 120 Dias de Sodoma – Marquês de Sade – revolucionário, porém excessivamente escatológico.

De minha parte, esclareço que odeio as obras do “dão marronzinho”, fui quem incluiu O Perfume na lista ao alto, não li os demais, e
devo incluir um clássico: Guerra e Paz, do bobalhão do Leão Tolstói – aquele sujeito que falava de religiosidade, mas era o exemplo pessoal de canalhice com a própria família.

Você quer contribuir com sua opinião a respeito de um livro que tenha se arrependido de ter lido?

Preencha aí embaixo o quadro deixe um comentário, no canto inferior direito do post.

 

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feiras de livros

Li há uns poucos dias (mas não consigo mais encontrar o artigo), que as feiras de livros hoje em dia não servem para “incentivar a leitura” –
estão mais para desovar encalhes e para “celebrar celebridades”, nada que sirva para a literatura.
Alguém dentre vocês leu o artigo?
Sabe onde foi?

Guerra das Rosas – 1

Guerra das Rosas – 1 – Pássaro da Tempestade, de Conn Iggulden (Editora Record, 2014, 406 p., R$ 45,00) é um romance histórico que inicia uma coleção de três livros sobre o período histórico das lutas dinásticas entre York e Lancaster, na Inglaterra, enquanto ainda ocorria a Guerra dos Cem Anos, contra os franceses.

Como romance  histórico, conforme admite o próprio autor, o livro “cria” fatos a partir de suposições.
Na nota histórica no final o livro o próprio autor esclarece essas inserções.
Não raras vezes eventos paralelos, ocorridos com a população civil, como a fuga de ingleses dos territórios perdidos para os franceses, e a revolta popular no Kent, são mais interessantes do que os episódios dos conchavos e traições de cortesãos.
Há diálogos que são tão improváveis e mal escritos como se eu me propusesse a escrever um romance. Teria sido melhor manter a narrativa em terceiro pessoa do que inseri-los para “dar cor” ao romance.

Do prólogo, referente a 1377, o autor passa para o corpo do livro, em 1443, sem informações históricas que complementem o texto.

Ao iniciar a leitura, pesquisei na internet referências sobre o autor e a obra, e o que encontrei foram vários blogs que apenas reproduziam a resenha que havia sido divulgada pela editora quando do lançamento do livro.
Eu, como consumidor, me senti lesado.
Se não leu o livro, por favor, não o comente.

A impressão que Conn Iggulden me transmitiu foi a de que se trata de mais um escritor que pretende ganhar a vida, lançando livros a cada temporada.
Já havia escrito, no início da carreira literária, a coleção O Imperador, sobre a vida de Júlio César, e a história do general romano não foi exatamente a preocupação do romancista Iggulden.
Seu nome estará ausente de minha curiosidade no futuro.

Em uma classificação de até cinco estrelas, Guerras das Rosas fica com três.

Não vou poder falar mal desse livro…

Li um dos piores livros que já podia ter sido publicado no Brasil.
Não posso, porém, falar mal dele aqui para vocês.
Os herdeiros vão me processar.
A associação de magistrados vai me condenar por eu ter duvidado de Sua Omnisciência.

Assim funciona o Brasil…

Posso apenas comentar que se trata de um livro sobre história (no caso, devem ser historietas da imaginação senil do autor), e que o livro não deve ter passado por qualquer tipo de revisão – nem de estilo nem muito menos de conteúdo.

A única observação que posso fazer é que deve sido piada o autor afirmar que o Cerco da Lapa, durante a Revolução Federalista, ocorreu no Rio de Janeiro, e não no município paranaense. Um errinho bobo de pouco mais de 900 km, e eu implicando com isso…
Acho mesmo que eu posso não estar bem informado, e não me lembre que a manifestação de black-blocs pichadores nos Arcos da Lapa ficou conhecida como o Cerco da Lapa…

Pois é, será que a livraria que teve o descaso de colocar à venda esse livro, sem qualquer preocupação com o conteúdo, faria o reembolso, com juros e correção monetária, pelo que eu paguei? Ela não é a “melhor do país”? Não tem zilhões de empregados (perdão, colaboradores) especializados?

A liberdade de expressão serve para editoras, mas não para comentaristas de livros…
É o poder de quem tem mais dinheiro.

Oremos pelas pobres árvores derrubadas para produzir pasta de papel que foi  infectada com tinta,
para perpetuar as sandices do nobilíssimo autor que já virou nome de rua.

Sebos

Escrevi no post “Como um romance” um “procure em um sebo”, mas não sou muito fã desse tipo de lojas.

Aqui perto, por conta da proximidade da UnB, há uns tantos sebos. Seis, em uma conta rápida pelas quadras vizinhas.

Pequenos, grandes, organizados, bagunçados, limpos, sujos, onde somos bem atendidos, onde somos ignorados. Entro neles, dou uma espiada básica, mas raramente encontro algo de meu interesse, embora já tenham me servido para a busca de um título específico que queria dar a duas diferentes pessoas.

Em São Paulo, perto do antigo endereço de minha amiga Irene, há um bom sebo, mas com um abominável cheiro de ácaros que corrobora inteiramente minha tese de que livros não são feitos para ficar em prateleiras, depois de usados. Melhor serem dados a outra pessoa ou “esquecidos” em uma parada de ônibus.

Uma amiga minha, mão de vaca feito o mais duro dos pães, resolveu vender algumas centenas de livros do pai. Reclamou que lhe pagaram muito pouco por isso. Eu bem que alertei que não compensava e que seria muito mais “inteligente” dispor essas obras em diferentes lugares da cidade, conforme o assunto. Perto de hospital livros sobre saúde; livros de cIências sociais perto de escolas de segundo grau, etc.. Não, preguiçosa, acabou carregando uma malona com aquilo que o pai havia juntado durante anos, e se sentiu depois “roubada”. Não duvido que ela tenha precisado de um analgésico para dor lombar mais caro do que o que recebeu pelos livros…

Já ocorreu mais de uma vez de eu “ludibriar” o negociante. Uma pessoa interessada em vender livros fez cara de que não tinha gostado do preço oferecido pelo sebo, e eu, parado ao lado, perguntei quanto queria por aquela obra, pela qual eu tinha algum interesse. Paguei mais do que o sebo, menos do que eles depois venderiam, e tanto eu quanto o ex-proprietários ficamos satisfeitos.

Por falar em sebos, tenho de terminar a leitura de muitos que estão aqui nas prateleiras. Após minha morte, parentes que bem conheço não se intimidarão em lançar ao lixo reciclado o que tenho hoje. Dará a eles menos trabalho do que sair vendendo aos sebos.
Escolas “modernas” não gostam de livros fora do “desacordo ortográfico” que emburrece a população. Li muitos livros de meus pais escritos com PH e TH, uma das quatro ortografias com que convivi, e não apenas nunca me confundiram com o que eu estudava, que ainda era conforme a ortografia de 1943, como foram muito úteis quando aprendi outras línguas. Coisas da “pedagogice contemporânea”.

Machado de Assis e os professores que deveriam pular do Viaduto do Chá

Reproduzo o artigo de José Maria e Silva, originalmente publicado no jornal Opção, de Goiânia, e divulgado na coluna de Augusto Nunes na revista Veja, sobre a “professora” interessada em emburrecer a nação brasileira:

JOSÉ MARIA E SILVA

Localizado nas proximidades do Viaduto do Chá, que, desde a inauguração em 1892, se tornou, durante muitos anos, o principal cartão postal da cidade de São Paulo, o Vale do Anhangabaú será palco, em junho próximo, de um evento literário inusitado — um túnel construído não por concreto, mas por 60 mil livros. Trata-se do lançamento da nova edição de uma das mais importantes obras da língua portuguesa de todos os tempos, a novela O Alienista, de Machado de Assis, que, depois da morte do escritor em 1908, separou-se de Papéis A­vulsos, o volume de contos em que fora originalmente publicado em 1882, e se tornou um livro autônomo, traduzido em vários idiomas. Mas não se trata exatamente da obra-prima de Machado — o que o leitor vai encontrar nesse lançamento faraônico é uma adaptação de O Alienista, coordenada pela escritora Patrícia Secco e patrocinada pelo Ministério da Cultura, por intermédio da Lei Rouanet.

“Entendo por que os jovens não gostam de Machado de Assis. Os livros dele têm cinco ou seis palavras que não entendem por frase. As construções são muito longas. Eu simplifico isso”, disse Patrícia Secco, em 4 de maio último, numa entrevista ao jornalista Chico Felliti, da Folha de S. Paulo. Proprietária da Secco Assessoria Empresarial S/C Ltda., que juntamente com sua pessoa física já teve aprovados no Ministério da Cultura projetos que somam cerca de R$ 10 milhões captados, Patrícia Secco produz literatura infanto-juvenil em ritmo industrial, com mais de 200 títulos publicados, a maioria com temas da moda, como meio ambiente, direitos humanos e inclusão social. Com o propósito de facilitar a leitura de quatro clássicos da literatura brasileira, Secco pedira autorização ao Ministério da Cultura para captar R$ 1,53 milhão; por incrível que pareça, foi autorizada a captar R$ 1,45 milhão, ou seja, quase o montante que havia pedido para seu projeto. Na prática, conseguiu captar uma cifra milionária — R$ 1,039 milhão — para produzir dois livros a serem lançados num mesmo volume: O Alienista, de Machado de Assis, e A Pata da Gazela, de José de Alencar.

A princípio, a ideia de adaptar um clássico não é necessariamente condenável, especialmente se for para crianças. As adaptações de clássicos da literatura — começando pela Bíblia — devem ser tão antigas quanto o ato de ler. Em sua já clássica Uma História da Leitura, o argentino-canadense Alberto Man­guel conta que, em 1387, John de Trevisa, que estava traduzindo do latim para o inglês a epopeia Polychronicon, do monge beneditino Ranulf Higden (c. 1280-1364), resolveu fazê-lo não em versos, mas em prosa, pois sabia que o público já não queria ouvir uma recitação pública da obra (que, por sinal, se tornaria muito popular no século XV), preferindo lê-la diretamente. Da mesma forma, a Divina Comédia, de Dante Alighieri, originalmente escrita em versos, mereceu adaptações em prosa e versões condensadas para crianças, que exploram o viés aventureiro de sua viagem ao Inferno, Purgatório e Céu, transformando-o numa espécie de Julio Verne do espírito.

Uma das primeiras justificativas para se adaptar uma obra é, sem dúvida, sua extensão. Poucas crianças são capazes de ler um romance ou uma epopeia que se estende por mais de 500 páginas. A boa adaptação é uma espécie de resumo que tenta extrair a essência da obra sem desvirtuá-la. Carlos Heitor Cony, que adaptou diversos clássicos para o público infanto-juvenil, como Dostoievski, Melville, Mark Twain, Dumas, Gogol, Eça, Manoel An­tônio de Almeida e Julio Verne, ao ser indagado numa entrevista à revista “Cult” se reescrevia ou resumia os livros, respondeu: “Era uma condensação. Eu eliminava pontos mortos, alguns diálogos, detalhes técnicos. Deixava o texto mais denso. Mas preservava a história, o clima e principalmente a expectativa”. Cony foi taxativo: ”O bom adaptador não falseia o original”.

Facilitação de Machado nega o escritor

Infelizmente, Patrícia Secco falseia Machado de Assis. Além de lhe desfigurar o estilo, ela o emburrece. Sua adaptação é um retrocesso, que sacrifica até os avanços linguísticos do estilo machadiano, já ousadamente próximo da linguagem coloquial, numa antecipação das vanguardas do modernismo que só iriam se consolidar no Brasil quase meio século de-pois. A autora esqueceu-se de que Machado, assim como Borges, Beckett, Graciliano, não dá para ser adaptado em prosa sem que se perca a essência de sua arte. A obra machadiana é basicamente linguagem. Em seus romances, não há enredos rocambolescos nem profusão de personagens, como há em Homero, Cervantes e nos clássicos românticos. Mesmo O Alienista, talvez o enredo mais movimentado de toda a sua obra, depende substancialmente da linguagem, pois é nela que moram a argúcia e a ironia do conto.

Para justificar sua adaptação, Patrícia Secco recorre a afirmações demagógicas. “Estou horrorizada. É muito triste pensar que algumas pessoas acham que Machado de Assis, o mestre da literatura brasileira, não pode ser lido pelo sr. José, eletricista do bairro do Espinheiro, que, apesar de gostar de ler, não cursou mais que o primário, ou pelo Cristiano, faxineiro de uma farmácia de Boa Viagem, que não sabe nem mesmo o significado da palavra boticário”, disse a escritora-empresária à repórter Maria Fernanda Rodrigues, do Estadão, em matéria de 9 de maio último. Ora, quem disse que um faxineiro não pode compreender Machado de Assis? Se fosse assim, o próprio Machado — descendente de agregados e ex-escravos, somente com o ensino primário — nem existiria. Foi justamente porque em seu tempo não existia uma Patrícia Secco facilitando-lhe Camões, Vieira e Almeida Garrett que o Machadinho do Morro do Livramento embebeu-se dos clássicos, aprendeu francês sozinho e não apenas se tornou capaz de compreender os mestres da literatura universal como até mesmo se tornou um deles.

Com sua adaptação de O Alienista, a escritora-empresária Patrícia Secco destrói a universalidade da literatura de Machado de Assis com a pequenez ideológica da pedagogia de Paulo Freire. Foi o criador da “Pedagogia do Oprimido”, uma espécie de marxismo de autoajuda, quem consagrou a tese pedagógica de que o aprendizado é um epifenômeno das circunstâncias materiais e é somente a partir delas que se pode alfabetizar uma criança e despertar-lhe a consciência. O pedagogo brasileiro foi um grande admirador de Mao Tsé-Tung e, assim como o monstruoso comunista chinês mandava os lavradores arrancarem até as flores nativas, porque eram inúteis no universo do trabalho, Paulo Freire também arranca as palavras burguesas da cartilha do trabalhador, determinando a alfabetização a partir das tais “palavras geradoras”, como “tijolo”. É o que chamo de pedagogia análoga à escravidão — o filho do lavrador deve ter os olhos presos ao chão e está proibido de ouvir estrelas.

Patrícia Secco professa a mesma filosofia: se o faxineiro da farmácia não sabe o que é “boticário”, que se arranque então essa maldita palavra dos textos clássicos. Nunca ocorreu a ela que seria muito mais fácil, barato e respeitoso oferecer um dicionário ao faxineiro? Aliás, um trabalhador que resolva ler O Alienista — e isso está longe de ser raro — nem precisará de dicionário para descobrir o significado dessa palavra. O próprio conto, que sempre associa o boticário Crispim Soares a remédios, já lhe oferece a resposta. Além disso, tão logo veja a palavra no texto, o faxineiro irá se lembrar de que existe uma rede de perfumaria com esse nome e, por associação de ideias, poderá lembrar-se da palavra “botica” que pode ter ouvido a um parente mais velho. Caso não disponha de um dicionário em casa, o faxineiro machadiano sempre poderá consultar uma pessoa letrada de seu meio, parente ou um conhecido, que se não for capaz de sanar sua dúvida, saberá onde encontrar a resposta. Ou Patrícia Secco acha que só existe vida inteligente em seu meio social e que nas classes pobres não há ninguém capaz de trocar ideias com um faxineiro interessado em literatura?

Censo de 1872 abalou a literatura brasileira

O psicólogo Yves de La Taille, professor da USP e autor do livro Limites, considera que os limites morais comportam três dimensões, uma das quais significa desafio — uma pessoa, além de respeitar limites em face dos direitos dos outros e de impor limites em defesa de sua intimidade, deve também superar limites, o que significa superar a si mesma, buscando a maturidade e a excelência. É tudo o que Pa­trí­cia Secco não quer do leitor, com sua simplificação dos clássicos. Nin­guém aprende sem esforço próprio, recebendo tudo de mão bei­jada. Graciliano Ramos começou a ser escritor quando se sentiu de­safiado pelas mesóclises da Carta de ABC, do lendário A­bí­lio César Borges, o Barão de Ma­caú­bas, que trazia a máxima “fala pouco e bem, ter-te-ão por al­guém”. A frase o levaria a indagar à sua meia-irmã Mocinha se “ter-te-ão” era um homem. Co­mo Mo­ci­nha, a adolescente se­mial­fabetizada que o ensinou a ler, também não tinha ideia do que fosse aquilo, o me­nino Gra­ci­li­ano, enfezado vi­vente das Alagoas, criado a cascudos e beliscões, teve que descobrir so­zinho, devorando, antes dos dez anos, a prosa romântica de José de A­lencar, bem mais distante da linguagem comum do que a linguagem coloquial de Machado de Assis.

Ao se dar conta da indignação que sua proposta suscitou no País, desde um abaixo-assinado contrário até artigos e editoriais — Patrícia Secco publicou na Folha de S. Paulo, no dia 13 de maio, uma defesa de sua adaptação. O título do artigo não poderia ser menos machadiano: “Machado não gostaria de permanecer desconhecido para quem não lê”. Que afirmação mais esdrúxula! Ma­chado, revolucionariamente, sabia-se texto e, como tal, sabia-se também de­pendente do leitor. Em sua tese Os Leitores de Machado de Assis (Editora da USP, 2004), o professor da USP Hélio de Seixas Guimarães chega a sustentar que a obra machadiana foi influenciada pelo Censo de 1872 (o primeiro realizado no Brasil e divulgado em 1876), ao revelar que apenas 18,6% da população livre e 15,7% da população total, incluindo escravos, sabiam ler e escrever. “A tomada de consciência da escassez de leitores, problema que se inscreve de maneira cada vez mais radical em seus romances, parece-me fator relevante para ajudar a guinada que o escritor imprimiu a sua carreira”, escreve Seixas Guimarães.

Mas Machado de Assis, como sociólogo e psicólogo nato, também estava preocupado com os que não sabem — ou não querem — ler, oferecendo-lhes não a literatura-texto, mas a literatura-instituição, encarnada na Academia Brasileira de Letras, que detém até o monopólio legal da língua, tão grande é a sua importância. Aliás, ao contrário do que pensa Patrícia Secco, isso torna Machado de Assis o escritor mais conhecido pelos que não sabem — ou não querem — ler, nomeando ruas e escolas e simbolizando as letras nacionais da mesma forma que o desgrenhado Be­ethoven simboliza a música para quem nunca pisou numa sala de concerto e só conhece da música erudita o eterno “tchan-tchan-tchan” da Quinta Sinfonia. No próprio modo de composição da ABL, que aceita políticos e notáveis travestidos de escritores (como o Barão do Rio Branco, Marco Maciel e Ivo Pitan­guy), Machado de Assis revelou toda sua engenharia político-institucional, dando à literatura brasileira uma dignidade social que ela jamais poderia alcançar numa nação de analfabetos se continuasse sendo produzida em bares, por uma despreocupada geração de boêmios.

E quando procurou fazer da literatura brasileira também uma instituição social descarnada do texto, capaz de chamar a atenção da sociedade por outros meios, Machado de Assis não estava pensando exatamente nas camadas populares da nação — estou certo de que ele pensava, sobretudo, na preguiçosa elite nacional, que, mesmo sabendo e podendo ler, não lia, nem em seu tempo, nem hoje. Machado estava consciente de que, mesmo entre as elites, eram poucos os que tinham o habito da leitura, tanto que seu grande amigo José de Alencar se queixava de que o público conhecia mais O Guarani pelo teatro do que pelo texto do romance em si. Portanto, Patrícia Secco revela todo o seu preconceito contra os pobres quando cita uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo mostrando que 58% dos brasileiros não leram nenhum livro nos últimos seis meses e, logo em seguida, afirma que, “por trás desses números existem rostos e vidas”, mas ao desvendá-los só se lembra de pessoas como “Seu Roberto, motorista de táxi, o Cristiano, caixa da farmácia da esquina, a Dona Nice, copeira do escritório”, pois, segundo ela, “eles são não leitores”.

Ora, só eles? E quantos são leitores entre as elites econômica, social e política do País? Essa preocupação perpassa a obra de vários críticos ao longo do tempo, como José Ve­ríssimo, Sílvio Romero e Otto Maria Carpeaux, que se angustiavam com o grande número de profissionais liberais, como médicos, engenheiros, advogados, professores e outros profissionais de nível superior, que passam ao largo da literatura, limitando-se às leituras técnicas de suas respectivas áreas e reservando o tempo livre para outras formas de lazer, que nada têm a ver com as letras. Por isso, quando se pensa em pobre como sinônimo de não leitor, o que se quer, no fundo, é uma justificativa para arrancar dinheiro dos cofres públicos.

Simplificar livros agrava o problema da leitura

Linguagem difícil nunca foi o maior empecilho à leitura. Mário de Andrade, com seu espírito galhofeiro, disse que para se gostar de Machado de Assis é preciso já nascer velho. Eu vou mais longe: para se gostar de literatura é preciso envelhecer cedo. Por isso, o Eclesiastes diz que “o muito estudar enfado é da carne”. Em nenhuma época ou lugar, a leitura foi a mais popular das formas de lazer. A literatura é a mais reflexiva das artes e a maioria das pessoas abomina reflexão, que, para muitos, rima com depressão. Isso ocorre também com a música erudita. Quantas pessoas, ricas ou pobres, formadas ou não, tão logo se sentem tocadas por um concerto de Mozart, uma sonata de Beethoven, logo tendem a afastá-las dos ouvidos, pedindo uma “música alegre”, sob a alegação de que aquele tipo de música lhes provoca tristeza?

Creio que isso ocorre com qualquer povo, só que, no Brasil, fugir da reflexão como o diabo foge de cruz não é uma característica só das massas, mas também das elites. Uma frase de Machado de Assis talvez explique esse fenômeno: “A verdadeira ciência não é a que se incrusta para ornato, mas a que se assimila para nutrição”. Infelizmente, no Brasil, a educação nunca foi um meio de edificação intelectual e moral do indivíduo, como pregava Machado, mas um salvo-conduto para o sucesso social. Nas nações que levam a sério o conhecimento, o indivíduo primeiro busca o saber e, como consequência, conquista o diploma. No Brasil dá-se o contrário: o sujeito busca avidamente o diploma e, se sobrar tempo, vai à cata de algum conhecimento para fingir que não é de todo ignorante. Por isso, lê-se pouco no Brasil, mesmo entre a gente letrada: ler exige uma posição de sentido do espírito — que é cada vez mais rara numa nação que sempre desprezou o mérito.

Simplificar livros não resolve o problema — pelo contrário, agrava-o. Iniciativas como a de Patrícia Secco abastardam o povo brasileiro ao impedi-lo de conhecer o verdadeiro Machado de Assis, sufocado por uma montanha de 600 mil falsificações de sua obra. Nesta semana que passou, dormi menos de três horas por dia, em média, varando as madrugadas na comparação — linha por linha — da sagrada escritura de O Alienista de Machado de Assis com o apócrifo de mesmo nome da escritora Patrícia Secco. Ao cabo dessa ingente labuta (que Secco, toscamente, “traduziria” por “ao fim desse grande trabalho”), faço minha a indignação de Alcides Vilaça, professor da USP: “Apresentar como sendo de Machado de Assis uma mutilação bisonha de seu texto não devia dar cadeia?” Sim, devia dar cadeia, sobretudo para os tecnocratas do MEC que torraram mais de R$ 1 milhão dos cofres públicos nessa falsificação grosseira de Machado de Assis.

Machado de Assis para consumo próprio

Nem se pode chamar de adaptação esse trabalho de Patrícia Secco. Em sua arbitrária simplificação de O Alienista, com graves erros de interpretação de texto, a escritora-empresária embrutece o espírito do leitor ao falsear o estilo de Machado de Assis, descaracterizar seus personagens e descontextualizar sua obra. Segundo ela própria contou a Chico Felliti, da Folha, a equipe que “descomplica” o texto é formada “por um monte de gente” (expressão dela, segundo o jornalista), entre eles a própria escritora e “dois jornalistas amigos”. É como pegar pintores de parede num bar e levá-los para restaurar a Capela Sistina. O resultado não poderia ser pior. Onde Machado de Assis escreve: “Uma volúpia científica alumiou os olhos de Simão Bacamarte”; Patrícia Secco traduz: “Uma curiosidade científica iluminou os olhos de Simão Bacamarte”. Além de destruir a musicalidade da frase, a troca de palavras assassina o sentido do texto: “volúpia” tem uma forte conotação sexual, imprescindível para se compreender a paixão de Bacamarte pela ciência, algo que se perde completamente com a palavra “curiosidade”. Além do mais, palavras como “volúpia” e “alumiar” não precisam de tradução: a primeira pode ser lida na Bíblia ou ouvidas em homilias católicas e pregações evangélicas e a segunda, em que pese fazer parte do repertório clássico da língua, é perfeitamente compreensível para qualquer lavrador que nunca frequentou escola, mas sabe perfeitamente o que é uma candeia alumiando.

A impressão que fica é que Patrícia Secco e sua equipe traduziram Machado de Assis para consumo próprio. Ou alguém imagina que uma pessoa esforçada o suficiente para ler um livro não vai ser capaz de compreender, com a ajuda do contexto da obra, palavras e expressões como “congregar”, “atarantado”, “estatelar-se”, “pessoa de consideração”, “déspota”, “laudas”, “demanda”, “estar em erro”, “arruaças e clamores”, “vereança”, “eloquência”, “aritméticos”, “abono”, “vestuário”, “gaiato”, “intuito”, “oficiou”, “lusitana”, “juiz-de-fora” e outras do mesmo nível? Pois todas essas palavras foram substituídas por sinônimos catados arbitrariamente no dicionário sem levar em conta o contexto da obra muito menos o estilo do autor. Analisei minuciosamente a adaptação de Patrícia Secco e hei de voltar a ela. Mas já adianto: trata-se de um caso clínico de analfabetismo funcional, digno de ser recolhido às dependências da Casa Verde de Simão Bacamarte. Em vários momentos, Secco e sua equipe não conseguem compreender o que Machado diz com sua peculiar clareza e desvirtuam completamente o original.

Machado de Assis escreve: “Simão Bacamarte começou por organizar um pessoal de administração; e aceitando essa ideia ao boticário Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos”. Patrícia Secco deturpa: “Simão Bacamarte começou organizando um pessoal de administração. Convencendo o farmacêutico Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos”. Reparem no absurdo: a adaptadora transforma o alienista num subordinado do boticário, a quem precisa convencer sobre a necessidade de uma administração em seu próprio manicômio. Em outro trecho, o Padre Lopes diz: “Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo”. A adaptadora reescreve: “Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, prejudica o juízo”. Chega a ser inacreditável essa troca da popularíssima expressão “vira o juízo” por “prejudica o juízo”, um barbarismo que deve ter revirado o estômago do primeiro verme que roeu as frias carnes do defunto Brás Cubas!

Deturpando o enredo e a história

Machado conta que, como D. Evarista não conseguia ter filhos, o Dr. Simão Bacamarte “fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regímen alimentício especial”. Entretanto, “a ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência, — explicável, mas inqualificável, — devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes”. Qualquer dona de casa sem nenhum estudo compreende que D. Evarista, por amor à saborosa carne de porco de Itaguaí, não quis fazer a dieta proposta pelo marido e, por isso, não conseguiu ter filhos. Agora vejam a versão analfabeto-funcional de Patrícia Secco: “[Simão Bacamarte] acabou por indicar à mulher um regime alimentício especial. A ilustre dama, que deveria se alimentar exclusivamente com a carne de porco de Itaguaí, não atendeu aos conselhos do esposo. E, à sua teimosia — explicável, mas inqualificável — devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes”. Ela simplesmente está dizendo que o alienista receitou uma dieta de carne de porco à esposa, quando foi o contrário.

Mais adiante, quando descreve a revolta dos Canjicas contra a Casa Verde, Machado de Assis narra: “Os dragões pararam, o capitão intimou à multidão que se dispersasse; mas, conquanto uma parte dela estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro”. Patrícia Secco estropia o texto: “Os soldados pararam, o capitão intimou à multidão que se dispersasse. Mas, enquanto uma parte dela estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro”. A adaptadora não faz ideia da conjunção “conquanto” e, em vez de recorrer a “embora”, a traduz por “enquanto”, transformado Machado em analfabeto. No mesmo episódio, o escritor diz que o capitão dos “dragões” mandou “carregar contra os Canjicas”. Patrícia Secco traduz “carregar” (que, no contexto, significa “investir contra”) por “disparar”, sem perceber que os dragões — como os “Dragões da Independência” de hoje — usavam espadas e não armas de fogo. Com isso, o leitor de sua adaptação vai achar que Machado de Assis fazia realismo mágico: uma tropa mete fogo na multidão e essa multidão arrosta as balas, sem medo da morte.

Uma das admiráveis qualidades do conto O Alienista é o cuidado com que a história aparece nele. Machado de Assis preocupa-se com os mínimos detalhes históricos e escreve que Simão Bacamarte era “o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas”. Patrícia Secco corrige para “Espanha”, sem fazer a menor ideia de que, na época colonial em que se passa a história, a Espanha era oficialmente chamada de “Reino das Espanhas”. Em outro trecho, Machado diz que, para D. Evarista, ver o Rio de Janeiro “equivalia ao sonho do hebreu cativo”, sintetizando nessa expressão a sensação de exílio e confinamento que a acanhada Itaguaí produzia no espírito frívolo da mulher de Bacamarte. Patrícia Secco estraga a imagem, substituindo “hebreu cativo” por “judeu cativo”. Ela confunde os hebreus que se tornaram escravos no Egito e foram libertados por Moisés com os filhos da tribo de Judá que, já na terra prometida de Canaã, séculos depois, emprestariam o nome de sua tribo para todo o povo eleito. Se ao citar Dante, Machado tivesse dito, com precisão histórica, “poeta florentino”, não tenho dúvida de que Patrícia Secco iria corrigir para “poeta italiano”. Aliás, numa das raras e lacônicas notas de rodapé, a adaptadora faz isso: ela diz que Averrois é um filósofo e poeta “hispano-árabe”. É o mesmo que chamar Santo Agostinho de filósofo romano-argelino.

Por que Patrícia Secco e sua equipe cometem essa profusão de erros de extrema gravidade ao adaptar o conto de Machado de Assis? Sem dúvida, porque não estão à altura da tarefa. No fundo, a escritora e seus amigos jornalistas, a cada vez que buscam um sinônimo para um termo ou expressão do conto, estão traduzindo a obra para eles próprios e não para o eletricista, o faxineiro, o motorista de táxi, que precisam menos do que eles dessa facilitação. Para se ter uma ideia do quanto é absurda essa adaptação, Machado empregou o termo “transeuntes” e a adaptadora achou por bem substituí-lo pela expressão “os que por ali passavam”. Imagino Patrícia Secco ouvindo uma rádio AM do interior na década de 70, quando o Brasil era muito menos escolarizado do que hoje. Ela ficaria pasmada (ou “espantada” conforme sua tradução de Machado) ao se dar conta de que um dos grandes sucessos de Tonico & Tinoco, dedicado por peões de fazenda às suas respectivas namoradas, era a canção O Gondoleiro do Amor, um poema de Castro Alves, cantado pela dupla caipira ao som de violinos. Saudosos tempos em que uma dupla de lavradores elevava o povo até Castro Alves; hoje, gente como Patrícia Secco faz é rebaixar o povo quando dá a ele um Machado de Assis no nível de si mesma.

Vamos emburrecer a nação brasileira!

Uma figura, que não sei como qualificar, decidiu que uzalunu naum teim qi studá palavra defíssis nus dissionaru.

É, a senhora Patrícia Secco vai reescrever clássicos da literatura brasileira, para torná-los acessíveis a todos os burros e, sobretudo, aos preguiçosos que não sabem consultar dicionário (em papel ou na internet). Como aparece na matéria da Folha de São Paulo, “sagacidade” virou “esperteza”, por exemplo.
Não, minha senhora, não é ischpérto emburrecer a população!

Como talvez não tenha se interessado em estudar outras línguas, dona Patricinha nunca observou que, em outros países, livros de escritores considerados clássicos, editados para estudantes, são publicados com notas de rodapé que dão o significado de palavras menos usuais, e com explicações sobre fatos e/ou personagens menos conhecidos desse público a que se dirige esse tipo de trabalho didático.

A tal “escritora” não sabe que cultura adquire-se com experiência, com leitura, com visitas a centros de estudo. Ou será que é nas ruas, em festas funks? Nem sei mais, confundi-me.

Nada como a inversão de valores para chegar aos resultados desejados por certos grupos:

VAMOS EMBURRECER A NAÇÃO BRASILEIRA!

VAMOS NIVELAR TUDO POR BAIXO!

Sem essa, não vai dar certo.

Se já perdemos o bonde da história com relação a outros países que, em 1960, eram mais atrasados do que nós, como Coréia do Sul, Índia, e outros mais, que investiram em educação, daqui a 20 anos teremos sido convertidos, com projetos como o dessa inqualificável, em algo no nível do Tchad ou do Haiti. Esse projeto político pode interessar a alguns grupos.