policial

Rubem Fonseca

Rubem Fonseca é quase de outra geração – nasceu em 1925 – mas é um autor contemporâneo.
Psicólogo de formação universitária, e ex-investigador policial, é um dos autores mais premiados e sérios da atual literatura brasileira. Dele li:

  • 64 contos de Rubem Fonseca (2004)
  • A grande arte (1983) – romance policial
  • Bufo & Spallanzani (1986) – romance policial
  • Vastas emoções & pensamentos imperfeitos (1988) – romance que se passa sobre a marginália urbana e a violência carioca mas tem um trecho, passado na Europa, que é perfeitamente adaptado a mim mesmo:

“Você não quer ver museus?”
“Não.”
“Não quer ver a Nefertiti?”
“Não. Meu único interesse, em qualquer lugar, são as pessoas”.

Excelente na modelagem de personagens de todos os tipos. Um dos maiores escritores brasileiros do século XX, embora abominado por certos grupos religiosos.

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Ripley Debaixo D’Água

Ripley Debaixo D’Água, de Patricia Highsmith (Planeta DeAgostini, 2004, 302 p., R$ 14,90), foi escrito em 1991, sendo um dos últimos livros da escritora, que morreu em 1995.
Sua obra literária teve início com Strangers in a Train (Pacto Sinistro, filmado por Alfred Hitchcock em 1951)

Foi também o último livro da série de cinco livros com o personagem Tom Ripley, um homicida amoral, ligado ao mundo dos marchands e das falsificações, que serviu de base para vários filmes.

Parece que a autora já havia incorporado a amoralidade do personagem, e forçou a mão para criar situações que deram solução à série de crimes de Ripley.
Tivesse sido escrito mais recentemente, haveria muitas passagens que não seriam aceitáveis, como o identificador de chamadas telefônicas, os exames de DNA para reconhecimento de cadáveres, e outros “detalhes” do tipo C.S.I.

Bem escrito, com boa ambientação, mas parece mesmo ter sido escrito para servir ao cinema, sem grande profundidade. A falta de profundidade vale até mesmo para o lago em que morrem afogados os “bandidos” que perseguiam Ripley.

Típico livro “ni fu ni fa” (nem cheira nem fede).

Edgar Allan Poe – Contos policiais

Li (reli, em alguns casos) os contos policiais de Edgar Allan Poe (Editora Nova Aguilar, 2001).

Como escrevi em outro post:

Poe, tão reproduzido em filmes (muitos dos quais classe B) e tão copiado por outros escritores, tornou-se “café-com-leite”. Não impressiona tantos mais; algumas vezes chega a ser aborrecida sua leitura, por conta da previsibilidade. Inegável, porém, seu trabalho inovador. Se é tão copiado é porque ousou na criatividade.

 Allan Poe teve uma vida muito curta (1809-1849), e uma obra bem variada, inovadora e algumas vezes profunda no aspecto da ousadia.

Os contos que agora li foram os três de seu Dupin, o “pai” de Sherlock Holmes, dos personagens de Agatha Christie, e tantos outros, com sua mente analítica e ao mesmo tempo intuitiva, derrubadora de pré-conceitos de investigadores policiais:

  • Os Crimes da Rua Morgue (1841),
  • O Mistério de Maria Roget  (1842),
  • A Carta Furtada (1845) (não conhecia esse conto).

Não vou aqui contar as tramas dos contos. Alunos preguiçosos têm à disposição outros blogues para os trabalhos escolares.

  •  O Escaravelho de Ouro (1843) eu li, pela primeira vez, quando tinha 11 anos, e, por ser uma história baseada em um código secreto, a ser decifrado pelo personagem principal, encheu minha imaginação. Nunca esqueci o que Poe havia escrito.
  • Tu és o homem (1844) também foi novidade para mim. Nesse conto, em lugar do detetive, o próprio narrador monta uma forma de desmascarar um criminoso e, conseqüentemente, livrar da pena de morte um condenado injustamente.

O estilo de escrita desses contos muita vezes pode parecer rebuscado demais, tantas são as voltas dadas para se chegar à meta. Levando-se em conta que foram escritos há quase dois séculos, são mais do que inovadores. Estilo sem preocupação com irrelevantes descrições de paisagens românticas, sem considerações sobre personalidades doentias (tão comuns no realismo e no naturalismo que surgiriam mais tarde), utilizando bàsicamente a linguagem jornalística daquela época, com muito mais palavras do que a do jornalismo de hoje.
Algum outro autor fez tudo isso na primeira metade do século XIX?

Não foi à toa que deixou tantos “herdeiros” na literatura de outros países.

Inferno

Lògicamente não é o livro de Dan Brown, já que nunca mais perderei meu tempo com esse escrivinhador.

Trata-se de livro com o mesmo título, Inferno, escrito por Patrícia Melo em 2003 (Planeta DeAgostini, 2003, 368 p. R$ 16,90).

Durante a infância, o menino José Luís Reis, o Reizinho, morador de uma favela no Rio de Janeiro, larga a escola e torna-se “olheiro” de um traficante no morro em que vive. Torna-se um viciado que perambula pelas ruas e becos, com o amigo Fake, um rapper. Apesar da tentativa da mãe, a empregada doméstica dona Alzira, em conseguir um trabalho como office-boy, o menino volta ao meio dos crimes, e passa a ser, outra vez, um dos “soldados” do traficante, ficando amigo de Leitor, um marginal intelectualizado, que defende a descriminalização das drogas.

A história percorre uns dez anos. José Luís sobe de grau na hierarquia do crime, e, antes de completar 18 anos, já matou várias pessoas, inclusive o chefe do tráfico naquela favela, tornando-se o líder comunitário e criminal.

A narrativa arrasta-se ao longo do livro, uma vez que assume ares de novela de televisão, com aquele Rio de Janeiro em que a Lagoa Rodrigo de Freitas é vizinha da Avenida Brasil. A maioria dos personagens degrada-se cada vez mais, enquanto as situações na favela (e suas vizinhas) apenas repetem o que já foi vivido sob outras lideranças.

O livro, que recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura quando lançado, é apenas mais um dos amontoados de clichês de romantização dos criminosos, tão ao gosto da imprensa. Há romances policiais de autores brasileiros muito mais interessantes do que este.

Livros que li e que por alguma razão deixei de incluir no blog

Há muitos livros que li, e que por alguma razão deixei de incluir no blog.

Alguns porque eu os li há muito tempo, muitas vezes por obrigação de leitura escolar (do ginásio à faculdade), outros que li por conta do trabalho, e vários porque nem sei quando os li. No caso dos de leitura mais recente, a internet nem sempre deve ter colaborado.
Só que alguns desses livros mereceriam menção.
Como é impossível recordar todos eles, decidi fazer apenas uma pequena menção aos 41 livros que fazem parte da coleção Grandes Escritores da Atualidade, que a Editora DeAgostini publicou em 2003 e 2004, vendidos em bancas de revistas por R$ 16,90.
O primeiro deles é o excelente Abril Despedaçado, do albanês Ismail Kadaré, livro que na verdade já tinha lido anteriormente, em edição da grife dos livros caros. A história da obrigatória vingança entre famílias, até o desfecho esperado, tal como uma morte anunciada.

Outro é o delicioso Onde andará Dulce Veiga?, de Caio Fernando Abreu, que narra a história de uma antiga cantora famosa de rádio.

Também brasileiro é o romance policial Informações sobre a Vítima, de Joaquim Nogueira.

Também brasileiro e também romance policial é A Grande Arte, de Rubem Fonseca, que tive o prazer de ler na primeira metade da década de 1980.

Para concluir o trio de romances policiais brasileiros cito Bellini e a Esfinge, do músico e escritor Tony Bellotto muito bem montado em termos de trama.

Por alguma razão deixei de comentar Coelho corre, de John Updike. Talvez o coelho tenha fugido de minha memória. Um livro que não me deixou qualquer marca na memória.
Tentei certa vez ler As Bruxas de Eastwick, desse renomado autor, mas não consegui passar das trinta primeiras páginas.

Outro livro de autor americano: A Trilogia em Nova York, de Paul Auster, uma obra muito oscilante. Trechos muito ruins e outros bons. Deve ter sido por isso que nem cheguei a fazer comentários a respeito dessa obra.

Diferente disso foi O Buda de Subúrbio, do anglo-paquistanês Hanif Kureishi, um livro que me agradou e que relerei daqui a algum tempo.

Achei petulante Se um viajante numa noite de inverno, de Ítalo Calvino. O tipo de livro que quer demonstrar que o autor é inteligente, e que seus leitores também o são.

Concluí, dessa forma, que ainda me restam doze livros da coleção, para eu ler. Sem contar aqueles que não quis terminar e outros que quero reler em outra ocasião.

Dan Brown

Já tinha comentado mais de uma vez que não tinha lido, e tampouco tinha interesse em ler, O Código Da Vinci, quando comentei sobre a leitura de O problema com Deus, e também O que a bíblia não nos contou.

Bem, caiu-me às mãos a tal edição especial ilustrada do livro mais famoso de Dan Brown (Sextante, 2005, 400 p.), e comecei a lê-lo. Foi impossível, porém. Cheguei à página 200 e desisti.
Um dos piores livros já escritos na galáxia, que bem podia ter sido transformado em história em quadrinhos, pois teria mais sentido e ainda justificaria o sucesso imerecido que teve.
O pior é que um mundaréu de gente acredita nessas lendas.

Escrevi sobre isso para uns amigos, e recebi de volta o comentário:

Tb não entendi o pq de tanta coisa com esse livro. Mas aí, vc viaja pelo mundo visitando livrarias que vendem “obras” do paulocoelho (escrevo assim de propósito) e entende tudo. Povo besta.

Mais besta, ainda, pois tem-se que Inferno, do mesmo Dan Brown, encabeça a lista dos mais vendidos, atualmente, no Brasil. Os mesmos personagens de história em quadrinhos, dessa vez avacalhando Dante Alighieri!

Volto aos meus livros de Literatura ou de História, com maiúsculas, que aproveito melhor meu tempo.
Em termos de romances policiais, há autores muito melhores, inclusive no Brasil, como já tive a oportunidade de comentar aqui algumas vezes.

Quando éramos órfãos

Quando éramos órfãos (Planeta DeAgostini, 2003, 393 p., R$ 16,90) é uma obra do escritor britânico Kazuo Ishiguro. Sim, britânico, apesar do nome e de ter nascido no Japão.

O livro narra, em primeira pessoa, a história de um homem inglês que passou parte da infância em Xangai, quando a cidade chinesa era dividida em setores internacionais, e quando os ingleses auferiam lucros fantásticos com o tráfico de ópio, para entorpecer os chineses, de modo que a comunidade internacional dominasse o país, sem necessitar ter os gastos que normalmente tinham de ser assumidos com as colônias tradicionais.

As recordações de Christopher Banks, esse personagem principal, estendem-se de 1930 a 1958. Nele misturam-se a tenra infância, o período em que, órfão, vai viver na Inglaterra com uma tia, a vida profissional como detetive, o retorno a Xangai (já durante a guerra entre Japão e China, que antecedeu a II Guerra Mundial, e com as lutas entre o exército nacionalista de Chiang Ka-Chek, e o movimento comunista de Mao Tsé-Tung, além de vários outros exércitos mercenários de líderes chineses de segundo plano), e a vida no início de sua velhice.

Quando criança, Christopher vive o desaparecimento do pai, seguido depois pelo da mãe, que ele acredite que se tratassem de casos de seqüestros, motivados pelo envolvimento dos ingleses tanto no tráfico de ópio quanto nas campanhas contra isso. Isso o leva a fazer da vida de detetive uma profissão, na qual obtém algum sucesso.

O livro, contudo, como o próprio autor mencionou, não é sua obra-prima. Muito bem escrito, e com descrições muito boas do ambiente que Christopher percebe a seu redor, a trama, contudo, perde-se em inconsistências. Há uma profusão de confusões que o personagem quer acreditar como fatos verdadeiros, que enfraquecem o texto.

Uma leitura agradável, desde o ponto de vista formal, mas um pouco frágil no que se refere ao desenrolar da história.

Vale, porém, um alerta: o tráfico de drogas, como uma forma de dominação de populações, é uma política que se utiliza ao longo da história.