Japão

Confissões de uma Máscara

Confissões de uma máscara foi o primeiro romance escrito por Yukio Mishima (Círculo do Livro, 184 p., FR 12,00), em 1949, e narra em primeira pessoa a história de um jovem, desde a primeira infância até a adolescência em busca da maturidade em pleno final do catastrófico destino no Japão, ao final da Segunda Guerra, tomado por valores ocidentais.

Na primeira parte, a auto-observação de sua homossexualidade, e depois a valorização de um amor platônico pela irmã de um amigo, que busca compensar a perda dos valores tradicionais e as máscaras que são necessárias para a vida em sociedade.

A forma de escrita se altera nessas duas fases, uma que busca a discrição ao abordar um tema difícil para a sociedade da época, mais discreto e ao mesmo tempo mais agressivo, e a segunda com a tristeza de um país que se encaminha para a derrota.

Mishima transparece ao longo do livro os muitos aspectos de sua vida pessoal, que resultou, em 1970, no suicídio em busca da “honra”, muito relacionado aos valores militares.

A leitura é simples, concentrada na própria personagem do autor.
É mais importante por tratar dos aspectos psicológicos de Mishima e por ter sido a primeira experiência literária do escritor.

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A Lebre com Olhos de Âmbar

Quando eu estava na escola primária, na década de 1960, uma das coisas de que eu menos gostava, nas aulas de Linguagem, era a tal descrição.

Eu olhava para a imagem, e via um menino pescando em um córrego. Ponto final.

A professora (naquele tempo não era tia) dizia que eu tinha de descrever como era o calção, a camisa, a botina, a vara de pescar, a margem do córrego onde o menino estava sentado, a outra margem, a cor do céu, o formato de uma eventual nuvem, …. Tudo o que (para mim) era supérfluo era o que contava.

Ao ler A Lebra com Olhos de Âmbar, de Edmund de Waal (editora Intrínseca, tradução de Alexandre Barbosa de Souza, 2011, 320 p.), tive a impressão de que estava em uma daquelas aulas.

A história (real) poderia se concentrar na vida da família Ephrussi, de comerciantes judeus que fizeram coleção de miniaturas japonesas (netsuguês), que percorreram o Japão, a Áustria e a Inglaterra, antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial.

Mas não. o ceramista que escreveu o livro seguiu rigorosamente as orientações da professora de Linguagem.

A casa ficava em uma rua assim, tinha a fachada assado, as casas ao lado eram de outro estilo, a escadaria era… , o hall tinha móveis …, o andar de cima ….

Fiquei perdido no meio de tantas descrições.

E certamente o ceramista tinha muitos detalhes visuais para dar a tudo o que havia no cenário do livro.

Resultado: ao contrário da “crítica especializada”, achei o livro tedioso.

Prova de que contratar um “editor” pode dar bons resultados de venda, mas, dar ao livro o interesse que a indústria gráfica deseja, pode afastar uma outra parte do público leitor.

160 páginas poderiam dar conta do recado, pois, exceto o ponto de vista da família do autor, nem mesmo a parte histórica é algo que traga novidades, exceto o ponto de vista da família do autor. É apenas a descrição de cenas que foram mostradas em livros e em filmes.

 

Silêncio

Silêncio, de Shusaku Endo (Tusquets editores, traduzido do japonês para o inglês por William Johnston e daí para o português por Mário Vilela, 2017, 270 p., R$ R$ 37,00), foi escrito em 1966, e aborda a perseguição religiosa promovida no Japão, durante o século XVII, contra os cristãos que tinham sido convertidos por missionários portugueses anos antes.

O livro tem prefácio do cineasta Martin Scorsese, que dirigiu filme do mesmo nome em 2016.

Dois padres, Ferreira e Garpe, viajam de Goa para Macau e partem em viagem clandestina para o Japão, com o intuito de restabelecer o contato de Portugal com os cristãos convertidos nas décadas anteriores durante missão de São Francisco Xavier, iniciada em 1549, mas que passaram a ser perseguidos pelo novo governo do xogunato japonês, a partir de édito de expulsão de 1614.

Além disso, buscavam informações sobre um padre Rodrigues, que havia sido professor no seminário em Lisboa, de quem se dizia que havia feito a apostasia.

O romance baseia-se em fatos reais, mas não é um retrato histórico. Muitas datas e fatos aparecem corrigidos nas notas de rodapé do tradutor.

Descreve a vida das reclusas comunidades cripto-cristãs no Sul do Japão, e as muitas práticas de tortura a que eram submetidos para efetivarem a apostasia, bem como as traições realizadas por japoneses, que denunciavam inclusive parentes, em troca de recompensas.

Padre Ferreira, personagem principal, faz comparações entre ele mesmo, a apostasia, o flagelo de Jesus, e o papel de Judas.

Apesar do tema, o livro tem leitura fácil e desenvolve uma importante dúvida entre civilizações e culturas que, costumeiramente, consideram-se superiores a outras, tentando impor seus costumes e suas doutrinas.

 

 

 

Diário de um velho louco

Diário de um velho louco (tradução de Leiko Gotoda, Estação Liberdade, 2007, 208 p., R$ 21,00), de 1962, foi o último livro escrito por Jun’ichiro Tanizaki, que morreu em 1965.

Em formato de diário, conta a história de um septuagenário rico, que descreve a velhice, as doenças (e remédios), as relações com os parentes, os médicos, e, sobretudo, a relação com a nora.

Fala do erotismo de alguém que se descreve como alguém que “continua vivo e não pode deixar de sentir atração pelo sexo oposto”.
Enquanto isso, o velho sai a procurar o túmulo que mandará construir para, em breve, guardar seus ossos.

A linguagem é sempre muito ágil, e tem muita ironia e sarcasmo do personagem com relação às pessoas que o cercam.

Por outras vezes, fala da aparente “dureza” que o velho tenta manter, mas que resvala em lágrimas, que esconde quando inquirido por seu estado de saúde.

Muito bom.

Ao contrário de Voragem, do mesmo autor e da mesma tradutora, neste livro, porém, não há muitas notas para explicar detalhes dos hábitos japoneses, como por exemplo peças da indumentária.

Nada grave. Podem perfeitamente ser sub-entendidos e passados por cima.
(sub por cima ?!)

 

 

 

 

As Máscaras de Deus – Mitologia Oriental

As Máscaras de Deus – Mitologia Oriental, de Joseph Campbell (Editora Palas Athena, tradução de Carmen Fischer, 1995, 446 p.) oferece uma leitura um pouco tediosa. São muitas as páginas em que reproduz integralmente algum texto mitológico, com pouca interpretação sobre ele.
No entanto, é muito interessante encontrar ao longo das muitas páginas a onipresença de serpentes em todas as mitologias e religiões, as “coincidências” entre mitos egípcios e persas, entre lendas sumérias e gregas, Enki e João Batista, deuses indianos e escandinavos, as “semelhanças” entre narrativas chinesas e da bíblia judaica (Noé, Lot) e também gregas (Hades), os deuses nascidos de virgens em todas essas regiões, as diversas lendas dos salvadores do mundo, etc..

Campbell trata brevemente do jainismo, primeira religião sem deus, e o compara com o zoroastrismo (anterior) e com o budismo (posterior).

Assinala que o milênio compreendido entre o ano 500 a.C. e 500 e.c. pode ser chamado de a época de ouro do pensamento, quando em todas as regiões civilizadas, simultâneamente, estabelecem-se as bases do mundo moderno.
O autor esclarece que Confúcio e Lao Tsé são seres tão míticos quanto Homero.
Não deixa de transparecer a preferência pelo budismo, quando fala das diversas religiões.

O livro ensina e demonstra que o atual hinduísmo (conhecido por bramanismo até a década de 1960), é uma adaptação da antiga religião da Índia após o aparecimento do budismo, e não é anterior a ele.
Demonstra também que o desaparecimento do budismo na Índia não é consequência desse ressurgimento, mas da implantação do islamismo na região de Bengala, com a decorrente expulsão dos monges para regiões do Sudeste asiático.
No final, Campbell relata diversos casos de tortura e extermínio que o governo comunista chinês perpetrou na região do Tibete, no início da década de 1950.

Este volume não traz muitas novidades em relação ao primeiro volume da tetralogia, e tampouco em comparação com outros autores.

 

Homens imprudentemente poéticos

Homens imprudentemente poéticos é o último lançamento de Valter Hugo Mãe (outubro de 2016 – Biblioteca Azul da Editora Globo, 190 p., R$ 44,00, ).

Um livro que descrevo como pesado igual a sopa de chumbo derretido no café da manhã, ou como um edredon (kakebuton; futon, em japonês) fabricado de tijolos de cromo (o mineral).
Dois japoneses vizinhos em um lugar pavoroso, ao lado da Floresta do Suicidas.
Um é pobre e faz leques de bambu, e o outro é miserável, faz tigelas e as pinta.
Um cuida de uma irmã cega, e o outro teve a mulher morta por um urso que invadiu a aldeia, e cultua o quimono da falecida.
Enquanto isso, um vizinho discretamente odeia o outro.

MAS o livro é poesia pura!
Você vai deslizando as páginas como se fossem os relatos mais doces do mundo.

O texto, porém, segundo a forma saramaguiana da escrita de Válter Mãe, sem pontos de interrogação, sem travessões, e com uma infinidade de frases muito curtas, pelo não uso de conjunções, – linguagem poética à parte no meio do texto em prosa – torna-se muitas vezes entediante, sobretudo na metade do livro.

Ressalto, porém, que a leitura deste livro é recomendável. Uma verdadeira obra de arte, como os leques de Itaro e os jardins cultivados por Saburo.

 

 

Eu sou um gato

Eu sou um gato, de Natsume Soseki (Estação Liberdade, 2008, 486 p., R$ 31,00, tradução de Jefferson José Teixeira) é um interessante romance escrito em 1905.

O Japão vivia a crise de inserir-se ao mundo ocidental, depois de séculos de isolamento, e estava em guerra contra a Rússia.

O cotidiano da família de um professor de inglês, em escola secundária de Tóquio, é narrado pelo gato que mora naquela casa.

Os humanos têm quatro patas, mas se dão ao luxo de utilizar apenas duas. Poderiam andar mais depressa se usassem todas, mas se contentam apenas com um par, deixando as restantes estupidamente penduradas como bacalhau postos a secar.

Conversas com ex-alunos, amigos, família, vizinhos, são observadas pelo gato que narra o livro.

Muitos temas que permeiam o texto são filosóficos, ou relacionados ao budismo. Podem ser às vezes um pouco longos e enfadonhos, mas nunca desinteressantes – sempre trazem alguma reflexão.

O final do livro é surpreendente.