política

O Alienista

Fui a uma roda de leitura de O Alienista.
Utilizei uma edição de Contos-Uma Antologia de Machado de Assis, em dois volumes, publicada pela Companhia das Letras em 1998.

Curiosamente uma das pessoas imaginava que a obra se tratasse de um romance, e se frustrou com a falta de detalhes de paisagens e de características de personagens.

Outra ateve-se à questão de “raça” do autor, com visão do século XXI sobre quem escreveu a obra em um jornal de 1882, narrando um hipotético fato da vila de Itaguaí e o médico alienista Doutor Simão Bacamarte que vai lá viver, na época do vice-reino do Brasil.

Alguém destacou o papel de Dona Evarista, estéril e submissa.

Para mim, o eixo da história pareceu ser a relação poder-corrupção-dinheiro-falso moralismo, que circula entre o médico e a câmara de vereadores. Simão Bacamarte se parece muito com membros dos poderes políticos que, a todo momento, surgem como salvadores da pátria puros e incorruptíveis, sempre acusando “os outros”.

No total, as pessoas concordaram que a principal questão abordada no conto é do que se trata a saúde mental, e a visão positivista-cientificista da psiquiatria, que engatinhava na Europa no final do século XIX (Doutor Charcot, sucedendo o famoso Doutor Pinel), e que se envolveu com o direito de internação compulsória, muitas vezes justificada com interesses sucessórios de empresas ou famílias. Nisso, em O Alienista Machado de Assis faz uma profunda crítica, pela via da ironia sutil, do cientificismo exagerado e invasivo, que se instalou no Brasil (e no mundo).

Considero que O Alienista deve ser sempre mantido como recomendado a todos os brasileiros que têm esse hábito de saúde mental – a leitura.
Machado de Assis situa-se bem adiante do próprio tempo, um autor brasileiro visionário, profundamente crítico.

Deuses, faraós e o poder

Deuses, faraós e o poder – Legitimidade e Imagem do Deus Dinástico e do Monarca no Antigo Egito – 1550-1070 a.C – (Júlio César Mendonça Gralha, Barroso Produções Editoriais – UERJ, 2002, 190 p., R$ 25,00) é uma dissertação defendida em 2002 na Universidade Federal Fluminense.

Nela o autor aborda a religião e o poder imperial após a unificação dos antigos reinos do Alto e do Baixo Egito, e trata dos deuses locais, mantidos em seus cultos, durante as XVIII, XIX e XX dinastias.

Embora Ptá seja o deus criador, que nunca foi criado, que trouxe os seres vivos a partir da lama do rio Nilo, o culto a Ra (depois Amon-Ra), o deus primordial Sol predominava para governantes e sacerdotes, cabendo a Osíris as celebrações referentes aos mortos.
De Ptá os gregos criaram a palavra Aegypt, com que o país passou a ser conhecido no mundo europeu. Henoteísmo era a regra.

É explicada a importância da linhagem feminina na herança real (muitas vezes a rainha concebia um filho do espírito de um deus). Os deuses são justificativas para as dinastias.

O livro concentra o foco nas relações com hititas, assírios e babilônios, inclusive casamentos interdinásticos que traziam períodos sem guerras, e nos reinados da “faraona”  Hatshepsut, de Amenófis III, Amenófis IV (Akhenaton) e a rainha Nefertiti, e o auge sob Ramsés II. Trata das alterações da arquitetura que surgiram ao longo desse período, para atender às necessidades político-religiosas.
Naturalmente merece destaque a reforma religiosa monoteísta ordenada por Akhenaton, que foi posteriormente revogada por seus sucessores.

Nas muitas notas do texto, menciona-se que os dez mandamentos do judaísmo seriam uma forma reduzida das 42 confissões contidas no Livro dos Mortos.
Outra herança egípcia sobre a cultura judaica seria a subordinação do rei à divindade que lhe concede poder.

O livro é rico em fotografias e em ilustrações. Contém também muitos textos hieróglifos, com a respectiva tradução literal e o significado correspondente.

 

 

 

D. Maria I

D. Maria I, as perdas e as glórias da rainha que entrou para a história como “a louca”, de Mary del Piore (Benvirá, 2019, 215 p., R$ 31,90) é um livro sobre a vida a primeira rainha de Portugal, que viveu entre 1734 e 1816, e reinou a partir de 1777.

O livro é mal escrito. Algumas vezes a linguagem é rebuscada, copiando os escritos da época, e em outras parece mais um blog do século XXI. Nem sempre segue a ordem cronológica, para ajeitar por completo a presença de algum personagem.

Traz, porém, as necessárias dúvidas sobre a saúde mental de qualquer pessoa (segundo a autora, com a colaboração do doutor Sávio Santos Silva)).

– como se sentiria uma pessoa que a cada mês via morrer um parente próximo?

– como reagiria uma pessoa cercada da pior laia de fanáticos religiosos, que só falavam “das delícias” de queimar no inferno sob a imperdoável presença de um deus onipotente?

– como era a vida de alguém que, no início do século XIX, chegou aos 81 anos?

Ficar isolada do mundo foi um alívio para a velhinha de bom coração, que se preocupou em reinar para corrigir os inumeráveis abusos do antigo ministro de seu pai, José I, o famoso marquês de Pombal, e que sinceramente se envolvia com o povo, forma como  via sua missão de governar.

O defeito dela foi ter sido rainha de um Portugal já ofuscado por outras potências européias.
Tivesse nascido na Alemanha ou na Inglaterra e teria entrado para a história como uma grande governante.

Foi melhor e mais lúcida do que os presidentes que o Brasil teve nos últimos cento e trinta anos.

Que vida difícil teve a senhora rainha!
Médicos da pior espécie, padres fofoqueiros, ministros incompetentes, parentes.
Duvido que outros governantes tivessem tido a honestidade e a dedicação que teve em sua vida dona Maria I, a piedosa.

A casa de Virginia W.

A casa de Virginia W., de Alicia Giménez Bartlett (Ediouro, 272 p., R$ 21,00, 2005, título original Una habitación ajena, tradução de Joana Angélica d’Avila Melo) é um misto de romance e ensaio, com a inserção de trechos dos diários (autênticos) da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941) e da cozinheira Nelly Boxall (1890-1965), que trabalhou, de 1916 a 1934, com Virginia e seu marido Leonard (1880-1969).

Fiz a leitura no “modo diário”, a conta gotas, o que também deu oportunidade para permear com leituras sobre outros personagens e sobre o grupo de Bloomsbury,que reunia intelectuais e artistas do início do século XX na inglaterra, e como burgueses trabalhistas e socialistas fabianos condenavam e desprezavam os valores…  … burgueses da era vitoriana.

Nelly tem a capacidade de análise que faltou a sua colega Lottie Hope, que não questionava a incoerência entre o que era pregado pelo casal Woolf, em palestras e livros, e a atitude de indisposição com as classes inferior, o zé povinho, e o desconforto que lhes era oferecido nas próprias residências.

A escritora espanhola compõe em “la habitación ajena” (um dormitório na casa de outrem, em uma tradução livre) um retrato da falta de liberdade das empregadas domésticas nas casas de seus empregadores, fazendo a mixagem dos diários, de fatos daquelas décadas, e textos que foram inseridos para dar a movimentação de romance ao livro, e explicar os comportamentos sexuais do grupo de “vanguardistas”.

Um livro agradável e útil.

 

A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande

Encontrei alguns elogios a respeito de Yuri Vieira e procurei em uma livraria alguma obra sua. A única à venda era “A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande” (Editora Record, 2017, 306 p., R$ 44,90).

O livro seria uma coleção de contos, todos porém interligados ao personagem advogado que lhe dá nome.

Os contos têm os seguintes títulos:

  1. O machista feminista – uma longa divagação sobre um ilusionista que finge ser extra-terrestre e fala da invasão islâmica na Europa em um boteco de Vila Madalena;
  2. O Prompt de Comando ou A sábia ingenuidade do Dr. João Pinto Grande – sobre bullying e racismo;
  3. A teologia da maconha – a respeito de um casal e o vizinho policial;
  4. O pedinte do metrô – uma enxurrada de moralismo do personagem principal em uma viagem de metrô;
  5. A menina branca – o uso excessivo das comunidades sociais e a violência na periferia de São Paulo;
  6. Amarás ao teu vizinho – uma discussão entre ex-vizinhos durante jantar na casa de um ex-militar sérvio; somada à filosofia de um bêbado da vizinhança;
  7. A Satoshi o que é de Satoshi (somente para nerds e geeks) –outra longa divagação, dessa vez sobre bitcoins e a possibilidade de corrupção da justiça, durante um almoço de pizza e cerveja (péssima escolha para um almoço, por sinal, mas normal para o mau gosto gastronômico dos paulistanos).

Confesso que não gostei dos capítulos.
O texto na maior parte é recheado com a preocupação em “escrever certinho”. Sobretudo certinho demais para diálogos.

Os capítulos teòricamente não têm data (embora sejam muito bem datados na contemporaneidade), mas a descrição geográfica é excessiva.
Parece que o autor considera que os assuntos abordados são exclusividade de São Paulo, e não de qualquer outra cidade do Brasil (ou do mundo).
Surpreendente, para alguém que já viveu em diferentes cidades e países.
Já que não o livro não tem data, que tal se não tivesse endereço?
Haveria a eliminação de aborrecidos detalhes sobre o trajeto em automóvel, por exemplo.

Ao longo do texto, Yuri Vieira recheia o desenrolar dos contos com a exposição de suas idéias políticas – nem sempre com muita clareza.

A futura leitura de outra obra poderá me dar uma visão mais clara sobre minha opinião a respeito de Yuri.

Silêncio

Silêncio, de Shusaku Endo (Tusquets editores, traduzido do japonês para o inglês por William Johnston e daí para o português por Mário Vilela, 2017, 270 p., R$ R$ 37,00), foi escrito em 1966, e aborda a perseguição religiosa promovida no Japão, durante o século XVII, contra os cristãos que tinham sido convertidos por missionários portugueses anos antes.

O livro tem prefácio do cineasta Martin Scorsese, que dirigiu filme do mesmo nome em 2016.

Dois padres, Ferreira e Garpe, viajam de Goa para Macau e partem em viagem clandestina para o Japão, com o intuito de restabelecer o contato de Portugal com os cristãos convertidos nas décadas anteriores durante missão de São Francisco Xavier, iniciada em 1549, mas que passaram a ser perseguidos pelo novo governo do xogunato japonês, a partir de édito de expulsão de 1614.

Além disso, buscavam informações sobre um padre Rodrigues, que havia sido professor no seminário em Lisboa, de quem se dizia que havia feito a apostasia.

O romance baseia-se em fatos reais, mas não é um retrato histórico. Muitas datas e fatos aparecem corrigidos nas notas de rodapé do tradutor.

Descreve a vida das reclusas comunidades cripto-cristãs no Sul do Japão, e as muitas práticas de tortura a que eram submetidos para efetivarem a apostasia, bem como as traições realizadas por japoneses, que denunciavam inclusive parentes, em troca de recompensas.

Padre Ferreira, personagem principal, faz comparações entre ele mesmo, a apostasia, o flagelo de Jesus, e o papel de Judas.

Apesar do tema, o livro tem leitura fácil e desenvolve uma importante dúvida entre civilizações e culturas que, costumeiramente, consideram-se superiores a outras, tentando impor seus costumes e suas doutrinas.

 

 

 

em uma livraria

Estive ontem em uma livraria, dessas grandes, para “gente culta”, de uma rede espalhada por capitais “interessantes”.
Percorri com atenção os diversos corredores e suas muitas estantes.
Vi a preocupação (infantil) de colocar os “colaboradores” para que se obtenha uma disposição bonitinha, falsa feito nota de três reais impressa na Nigéria.
O conteúdo dos livros era digno do saudoso Febeapá.
Olhava nas estantes e só via “baixo-ajuda”, culinária, juvenis e mitologias (relacionadas a seriados de tv), “críticos” do óbvio, muitos livros escritos por sacerdotes, livros de viagens com muitas fotografias…

Quando encontrava algo que tinha valor literário, era sempre uma obra de antes de 1960, com uma encadernação que tentava justificar o preço exorbitante.
Vai que cola…
A maior parte das pessoas que freqüentam essas livrarias não sabem que pela metade do preço pode comprar o mesmo livro em um sebo (com a vantagem de ter sido impresso em uma ortografia que não é para analfabetos).
Não raras vezes, esses mesmos (bons) livros estão em domínio público e podem ser baixados na internet.
Olhei muito.
Até 1960 havia boas obras.
Em 1960 começa um declínio que se aprofunda a cada ano
De 1995 para cá, vinte anos de lixo.
Dos autores estrangeiros, ainda estão presos à famosa anticultura da era hippie, embora ideològicamente presos à URSS do tempo de Stalin.
Dos autores tupinambás, melhor esquecer que rabiscaram alguma coisa no computador…

Comentei depois com alguns amigos, e eles concordaram com minhas observações.
Acrescentaram, ainda, a mão de obra selecionada sem o mesmo esmero de antes. O que importa é mesmo a apresentação, e não o conteúdo.