poesia

Mário Quintana

Mário Quintana (Editora Nova Aguilar, 2005, 1020 p.).

Vocês certamente conhecem o

POEMINHO DO CONTRA
Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

 

Conhecem também?

  • Não deves acreditar nas respostas. As respostas são muitas e a tua pergunta é única e insubstituível.
  • Nem todos podem estar na flor da idade, é claro!
    Mas cada um está na flor da sua idade.
  • Se dependesse das mães, não haveria guerras!
    Mas as filhas preferem os soldados…
  • Confesso que até hoje só conheci dois sinônimos perfeitos: “nunca” e “sempre”.
  • Verdadeiro conto de horror:
    Um dia os homens descobriram que esses discos voadores estavam observando a vida dos insetos…
  • No mundo de hoje, para desconsolo dos descendentes de Sindbad e de Marco Polo, a única cor local das cidades famosas são os turistas.
  • A preguiça é a mãe do progresso.
    Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.
  • –  Quero propor-lhe uma troca de idéias…
    – Deus me livre!
  • Todos temos a mesma chance? Mas ainda me lembro que, pela década de 20, eu sonhava vier em Paris…
    e havia gente que já tinha nascido lá mesmo.
  • Não sei ao certo quem era ela, nem o que ela fez,
    mas tenho a certeza de que Dona Urraca foi um das princesas mais infelizes do mundo…
  • Quando alguém pergunta ao autor o que este quis dizer é porque um dos dois é burro.
  • O leão é um animal tão belo que ser devorado por ele é melhor do que ser devorado por um crocodilo…
    Diante da sua arremetida, bem sei que se pode morrer de puro medo… porém nunca de horror.
  • Dizem os comunistas que a religião é o ópio do povo; outros dizem que o ópio do povo é precisamente o comunismo;
    se pedissem a minha opinião, eu diria que o ópio do povo é o trabalho.
  • O que eles chamam de nossos defeitos é o que nós temos de diferente deles.
    Cultivemo-los, pois, com o maior carinho – esse nossos benditos defeitos.
  • Amigo é a criatura que escuta toas as nossas coisas sem aquela cara que parece estar dizendo:
    – E eu com isso?
  • Conversa de velho é cheia de parênteses e esses parênteses são cheios de parentes…
  • Tic-tac é uma mera ilusão auditiva, graças a qual a gente ouve sempre “tic-tac” e nunca “tac.tic”…
    Depois disso, como acreditar nos relógios? Ou na gente?
  • O verdadeiro crime de Oscar Wilde, jamais perdoado, foi que ele era profundo sem ser chato…
  • Os psiquiatras são incuráveis?
  • No mundo não há nada mais importante do que as políticos das cidades pequenas.
  • Se não fosse Van Gogh, o que seria do amarelo?
  • Por que ainda ninguém se lembrou de pintar uma mulher nua de óculos?
  • Esta nossa mania de pronunciar corretamente os nomes estrangeiros… O diabo é que para acertar por palpite, só não os pronunciamos como está escrito.  Em 35, no Rio, um sueco, meu companheiro de pensão, me garantiu que Nobel lá se diz Nobél mesmo e não aqui como nestes Brasis: o Prêmio Nóbel, a Coleção Nóbel. Em contrapartida, os estrangeiros não se dão ao mesmo trabalho conosco. Não, não estou me queixando… Eu até gozava imenso um amigo francês que me chamou imperturbàlmente de “Messiê Quintaná” anos a fio, até que um de nós morreu. Era um excelente homem: deve estar no Paraíso.
  • O bom dessas grandes civilizações é que um dia elas se acabam e tudo começa novamente.
  • A indiferença é a mais refinada forma de polidez.
  • Um dos motivos que me fazem acreditam em n0ssas origens extraterrestres é que  homem é o único animal que aprecia olhar os incêndios.
  • Lavoisier disse: Nada se perde; tudo muda de dono.
  • Clair de lune, chiaro de luna, claro de luna… jamais os franceses, os italianos, os espanhóis saberão mesmo o que seja o luar, que nós bebemos de um trago numa palavra só.
  • Os homens que se dedicam ao golfe são os que compensam por não terem jogado bolita quando meninos.
  • E por falar em compensação, as nossas mortes são noticiadas como nascimento pela imprensa do Outro Mundo.
  • Não gosto da arquitetura nova, porque a arquitetura nova não faz casas velhas. Não riam, por favor, que o poema é triste.
  • E mais este outro que já comentei em outro blog:

Espelho Mágico
L (cinqüenta)
Da Amizade entre Mulheres

Dizem-se amigas… Beijam-se… Mas qual
Haverá quem nisso creia?
Salvo se uma das duas, por sinal,
For muito velha, ou muito feia…

 

Mário Quintana tinha senso de humor e muita sensibilidade.
O livro contém os sonetos, as poesias menos quadradinhas, e aquelas famosas frases que preenchem tanto espaço na infernet.
Tratava igualmente da infância (dele e alheia), da morte, do quotidiano, dos poetas e das poesias.
Que delícia!

Muito melhor do que aqueles pseudo-poetas de copabanana, que olharam para trás e viraram estátuas, como a mulher de Lot.
Aqueles que tiveram de mudar para o Rio de Janeiro, “para não serem provincianos”.
Ou outros, que já nascidos na então capital do país, só sabiam usar o diminutivo…

Mário Quintana vale a pena.
Mário Quintana (1906-1994), o velhinho que foi despejado do quarto de hotel onde morava, porque fizeram homenagem enquanto ele ainda estava vivo.

 

Sebinho – 30 Anos

mais fácil do que escrever e colocar as fotos,

é inserir o link para ver o que se fez na comemoração dos 30 anos de Sebinho – endereço mais do que renomado em Brasília.

boas imagens (e leitura)

https://bocadeconsumidor.wordpress.com/2015/10/31/sebinho-30-anos/

Meu Cântico Sertanejo

Ganhei há algum tempo Meu Cântico Sertanejo, de Felício de Souza (2000, publicado em Mairinque – SP, sem menção de editora, 112 p.), coleção de poemas de autoria de compositor sertanejo (que teria a tal classificação “sertanejo de raiz”, em contraposição ao atual “sertanejo universitário”), nascido em Botucatu.

O mais interessante dos textos é a criação de uma ortografia mais ou menos adequada à pronúncia tradicional do “caipirês”.
Por exemplo:

Meu ranchinho lá nú mato
Súfrendo grande martrato
Hoji vive abandonado
Ao relênto, na solidão,
Sem tê mais aquela feição
Que tinha nú passado! …

O menos interessante, e cansativo, é a menção repetida a temas religiosos em todos os poemas, ao deus do compositor e à mãe desse deus.

Literalmente cansativo, embora isso tivesse sido uma característica muito arraigada do habitante das zonas rurais e das pequenas cidades, até há algum tempo.

Caio Fernando Abreu

O primeiro livro de Caio Fernando Abreu (1948-1996) que li foi “Morangos Mofados“, do qual gostei bastante e me levou a me interessar em ler alguns de seus outros livros de contos:

  • O Ovo Apunhalado
  • Ovelhas Negras
  • Pedras de Calcutá
  • Triângulo das Águas,
  • além do romance Onde Andará Dulce Veiga?
  • e ter a coletânea Caio 3D: o essencial da década de 1970, que reúne, além de contos, também cartas e poesias.

Bom contista, bom seguidor da moda da época, de escrever tendo como pano de fundo o regime militar no Brasil, sem panfletagens, e com observações sociais que incluíam sexo e cotidiano dos personagens das cidades brasileiras.
Isso foram motivos mais do que suficientes para que Caio Fernando tenha sido incluído na relação dos principais escritores do final do século XX.
Afora isso, Caio Fernando foi o responsável por uma das traduções brasileiras que existem do famoso A Arte da Guerra, de Sun Tzu (existem outras – é bom salientar).
Certamente sua morte precoce interrompeu uma capacidade que ainda tinha muito para oferecer ao mundo da literatura brasileira.

A Divina Comédia

A Divina Comédia, de Dante Alighieri, Editora Landmark, 2005, 894 p., tradução de Vasco Graça Moura, edição bilíngüe.

Comecei há ler, há algum tempo, A Divina Comédia.
Um dos trabalhos mais comentados e elogiados dos últimos oito séculos.
Dante fez um trabalho e tanto em escrever aquilo tudo.
Solidificou uma língua popular que não existia até então na Itália, compreensível por todos (quase todos, suponho).
O ritmo dos versos não tem nada de rocambolesco, não oferece dificuldade para acompanhar, em italiano ou em português, é bom frisar.

O poema divide-se em três partes, Inferno, Purgatório e Paraíso, cada uma com 33 cantos, (além de um de introdução, no Inferno), que são subdivididos em nove círculos, e compõem 14.233 versos, escritos por Dante ao longo de quase 15 anos.
As estrofes mantêm, ao longo dos versos, um ritmo que nada tem de rocambolesco, não oferecem dificuldades para acompanhar, em italiano ou na tradução para o português.
Em várias passagens, Dante criou neologismos, a partir do latim, para inclusive dar um toque de humor ao texto.

O livro está bem montado, traduzido do toscano para o lusitano por Vasco Graça Moura, que por acaso morreu agora em maio.
Muito bem traduzido, cheíssimo de notas de rodapé, para explicar cada detalhe do que se passa naquelas estrofes.
Ao lado da tradução, há uma página com o texto original italiano, que muitas vezes é bem fácil de ler.
Confesso que fiquei com muita inveja do tradutor, pela capacidade dele não apenas de usar as palavras em português, para a poesia, mas por toda a capacidade de minuciar o que havia na intenção do autor toscano em pràticamente cada linha da obra.
Como invejoso pecador, segundo o julgamento de Dante, não irei ao céu.

 

NÃO OBSTANTE,
ainda assim é um livro chato.

Chato por conta da própria história.
Quer falar das fofocas de Florença, conte tudo em um romance!
Faça comentários em revistas ou em blogues!
Não precisa encher de versos e de centenas de personagens da Antigüidade para misturar tudo.
Como diz uma amiga, só mesmo professor de literatura para afirmar que a poesia é anterior à prosa. As pessoas começaram a cantar antes de aprender a falar?

Se fosse escrever a história do mensalão, Dante escolheria Nero para guiá-lo por Brasília, Belo Horizonte e São Paulo, e faria um monte de rodeios para dizer quem era quem, e porque estavam no inferno para pagar pelos pecados que não tinham sido punidos em vida. Não precisa falar do boitatá, da caapora, nem do saci, nem inserir Dom João VI, Joana Beltraneja ou Domitila de Castro, para explicar quais eram os crimes, caramba.

É fofoca demais! ATÉ para o meu gosto.
Já não gosto de poesia, mas o assunto por trás dos versos foi mais chato do que a poesia.
As disputas de poder, que eram contemporâneas a Dante, entre guelfos e gibelinos, a influência da Igreja na vida civil, as rivalidades entre o clero italiano e o clero francês, entre os reis franceses e os sacro-imperadores romano-germânicos, tudo recheado por fatos ou mitos da Antigüidade greco-romana, e questões teológicas judaico-cristãs.
Dante podia ter feito todo o trabalho sem se meter tanto na vida dos outros, de apontar tantos defeitos.
Aposto que ele está no inferno, por conta de ter sido tão enxerido. Fora o fato de ter se dado à petulância de ter sido recebido em audiência por Deus, lui-même.

Quando consegui superar a parte sobre Inferno, até deu para seguir com mais ligeireza (leveza e rapidez) o texto. Tanto o Purgatório como o Paraíso não pareciam tanto ser trama de filme de terror cheio de d-efeitos especiais. Eram mais fluidos, como deveria ser a luz do Paraíso. Só que eu já tinha perdido o interesse…
Ou seja, o Inferno teria sido propositadamente um inferno para ser lido, enquanto o Paraíso daria desejos de sublime ascensão do ser.
Nisso, Dante acertou em cheio com a obra!

Vocês já leram?
O que acharam?

Uma amiga, formada em Letras, comentou que tentou ler há muitos anos, mas não conseguiu ir adiante. Concordou comigo: é chato!
Um amigo respondeu que já tinha lido, todo, e também concordou comigo. O interesse foi mais pelo dialeto toscano que se consolidou no italiano padrão. Afora isso, meu amigo disse que se irritou com a visão dos pecados e os castigos impostos no Inferno. Em todo caso, concluiu, ele ainda tem paciência para ler os clássicos.

Importante: clássico tem de ser lido como clássico, e não como um textículo inventado por uma professora em busca de verbas, para reeditar, para alunos preguiçosos, autores de que ela não gosta.

Clássico por clássico, prosa é quase sempre mais agradável do que poesia, e romances em geral são menos chatos do que um calhamaço para ser declamado em versos.
Em A Divina Comédia, Dante super-dosou personagens e o uso de referências na poesia!
Imagino se fosse obrigatória aos atuais alunos brasileiros a leitura de Inferno! Haveria quebradeira de ônibus e de vitrines nas ruas.

Disse que não gosto de poesias, que sempre prefiro a prosa.
A Divina Comédia, livro que tentei ler, confirmou essa minha predileção. Utilizo a expressão “que tentei ler”, pois confesso que, em muitos cantos, de Purgatório e de Paraíso, preferi ler as notas de rodapé do tradutor, e depois dar uma passada de olhos nos versos. Já tinha perdido o interesse na totalidade da obra. A poesia era excelente, mas o tema subjacente tinha feito minha mente desviar-se para outros assuntos.
Tenho certeza, porém, de que não farei nova tentativa de ler os 100 cantos, não importa qual a edição.

Incoerência de minha parte? Critico os “adaptadores” para a linguagem “funk” se eu mesmo não tive a paciência de ler uma poesia?
Tentei. Tentei e aprendi muita coisa sobre mitologia, a língua portuguesa, o latim, a história do mundo. Não me contentei em chamar “sagacidade” de “ischpertêza”. E não corro atrás de verbas e de fama, une “toute petite” énorme différence.

A quem ainda não teve a experiência, fica o desafio.
Se tiver lido, ou se conseguir ler no futuro, avise-me.

A Queda de Artur

A Queda de Artur, de J. R. R. Tolkien (Martins Fontes, 2013, 286 p., R$ 32,00), é simplesmente uma delícia para se ler.

Obra incompleta do grande filólogo, mais conhecido por “O Senhor dos Anéis” e por “O Hobbit”, Tolkien escreveu o texto em forma de poesia dos bardos antigos. A aliteração que se declamava na Idade Média busca ritmo nas consoantes tônicas (ou vogais, em certos casos), e não nas rimas das vogais finais.

Tolkien nunca concluiu a obra, que foi editada pelo filho Christopher Tolkien.

O livro contém o texto original em inglês, nas páginas pares, e ao lado a tradução aliterada para o português feita por Ronald Eduard Kyrmse.

Vou acrescentar aqui dois links sobre o livro, para quem quiser mais informações:

1) O Épico Inacabado de Tolkien, do especialista John Garth,

2) O Inesgotável Baú de J. R. R. Tolkien (revista Época).

Não dá para eu comentar mais sobre isso.

Vou apenas apresentar alguns versos da poesia aliterada feita por Tolkien. (coloco letras maiúsculas para ressaltar a aliteração)

In her Blissful Bower   on Bed of silver

Softly slept She   on Silken pillows

with Long hair Loosend,   Lightly breathing,

in Fragrant dreams   Fearless wandering,

of Pity and rePentance   no Pain feeling

in the Courts of Camelot   Queen and peerless,

Queen unGuarded.   Cold blew the wind.

His Bed was Barren;   there Black phantoms

of deSire unSated   and Savage fury

in his Brain had Brooded   till Bleak morning.

-=-=-=-=-

FeLiz na saLeta,    em Leito de prata

em maCios traveSSeiros   de Seda ela dorme,

os tranÇados Soltos,    em suSSurros respira

e Vaga enVolta   no perFume dos sonhos,

não se arrePende, sem Pena,     não a Pica dor nenhuma,

na Cômoda Corte   de Camelot é rainha,

desampaRada sobeRana.    A aRagem sopra fria.

Ele Dorme em lrito esTéril.   FanTasmas negros

de deSejo insaCiado   e inSólita fúria

assalTaram-lhe a vonTAde   na maTina enfadonha.

(alterado conforme o comentário inserido pelo próprio Ronald Kyrmse)

Um brevíssimo comentário: a língua galesa (do País de Gales) mantém a estrutura de “combinar” os sons das consoantes em cada frase.

 

Autores na infernet

Sempre, sempre, sempre a mesma coisa.

Diaporamas infernetosos que circulam por aí, com frases melosas, daquelas que fazem mal a diabéticos, ou com frases até obscenas, atribuídas a algum escritor famoso.

Vinicius, Fernando Pessoa, Veríssimo, Benedetti, García Márquez, Neruda, Borges, Woody Allen, sei lá quem mais.
A gente pesquisa na interlenta e os erros aparecem lá, multiplicados pelas pessoas que nunca se preocuparam em buscar as fontes originais.
Você pesquisa em livros autênticos, de papel, tinta e letras, com capa, contra-capa e lombada, e verifica que o texto nunca existiu na obra daquele autor.

Que sacanagem com o escritor fazem esses abestalhados que não têm coragem para assinar, mas acham-se geniais ao atribuir o texto a um famoso.

Quando eu tiver morrido, espero não “ver” circular por aí algum texto atribuído a mim.
Juntarei as cinzas para puxar as pernas do maledetto que tiver feito isso.

A imbecilidade du çerizumanu não tem limites.
A infernet multiplika uz hêrrus.