Hans Christian Andersen

Contos de fadas

Terminei ontem à noite um curso de contos de fadas, dado por Tino Freitas.

Vocês pensam que conto de fadas é coisa para criança?

Pois estão mais do que equivocados.

No curso, aprendemos trocentas versões diferentes de cada conto,
– cada de um nós conhecia uma versão que diferia das outras –;

psicanálise por trás daquelas histórias (Erich Fromm, Jung, Bettelheim e Maria Louise von Franz);

papel da mulher (a xereta fofoqueira – Psiqué, Eva, Pandora), que viraram a mulher de Barba Azul, e outras tantas;

um dos contos mais conhecidos: Sansão e Dalila;

as parábolas já tinham a estrutura do conto de fadas, e havia o elemento mágico, no caso, os cabelos de Sansão;

A Bela e a Fera (a menina prometida em casamento para um velho horroroso, por quem ela desenvolve afeto);

Cinderela na China, Yeh-hsien (sapatinhos de chinesas, fetiche do ano 850);

Cinderela brasileira (norte de Minas) – uma festança de três dias no arraial;

Chapeuzinho Vermelho de Guimarães Rosa (A Menina da Fita Verde);

Chapeuzinho Vermelho masculino;

Branca de Neve no caixão e a história de Inês de Castro;

Os Três Porquinhos;

o urso que nos contos era pior do que os lobos;

Xerazade envelheceu, virou Mamãe Ganso e depois a vovó Dona Benta;

o espelho mágico da Branca de Neve;

as crianças enjeitadas porque os pais não tinham como alimentá-los (Rapunzel; Joãozinho e Mariazinha), afinal de contas, essa conversa de amor de família é invenção contemporânea;

e versões engraçadas de tudo isso,
como por exemplo:

– Vovó, qual é a senha do wifi?
– Pare de fazer tantas perguntas, minha netinha;

ou o grupo de internet de Cinderela, Bela Adormecida e Branca de Neve;

o primeiro porquinho era biólogo, por isso fez a casa de palha, o segundo frequentava as baladas e fez a casa de madeira, e o terceiro era empresário rico e fez a casa de alvenaria;

por que as princesas eram loiras?

por que a barba do Barba Azul era azul? afinal de contas, diz-se blue movie, blue talk, steak bleu;

por que os ogros eram chamados de ogros? (uigures –>húngaros)

e que, como não havia o politicamente hipócrita do corretinho, não era crime escrever que “o ogro comia pessoas como um macaco come castanhas”;

e mais as formas orais, as escritas, as adaptadas, o teatro, o cinema, as séries atuais na televisão.

Ah, sabia que existe um Tarot de personagens de Contos de Fadas?

Falamos no curso dos autores mais renomados:
Perrault, Grimm, Andersen, Oscar Wilde, Ítalo Calvino, e no Brasil Sílvio Romero, Monteiro Lobato, Tatiana Belinky;

e dos ilustradores que mudaram os livros de fadas:
Arthur Hackam, Edmund Dulce, Kay Nielsen, Harry Clark, Elenore Abbott, David Roberts, Rui de Oliveira, Anthony Browne, Kvéta Pskóva, Adolfo Serra e Salmo Dansa.

Não os conhece? Pesquise um pouco.

E sei que todos vocês gostam de conhecer o conto dos irmãos Grimm “o camundongo, o passarinho e a lingüiça” , que tanto parece com nossa estúpida realidade sindical brasileira.

http://www.grimmstories.com/pt/grimm_contos/o_rato_o_passaro_e_a_salsicha

Antes, já escrevi aqui no blog os posts que você pode rememorar:

https://outraveznarede.wordpress.com/2011/09/10/o-homem-que-calculava/

https://outraveznarede.wordpress.com/2012/06/17/contos-de-fadas-norte-americanos/

https://outraveznarede.wordpress.com/2014/03/22/os-grandes-contos-populares-do-mundo/

https://outraveznarede.wordpress.com/2014/07/30/as-mil-e-uma-noites/

https://outraveznarede.wordpress.com/2014/11/02/contos-dos-irmaos-grimm/

https://outraveznarede.wordpress.com/2016/03/15/falta-de-leitura/

Cuidado com a bruxa, com o lobo mau e com o príncipe encantado!

E, sobretudo, não converse no facebook com quem não conhece!

 

 

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Os Grandes Contos Populares do Mundo

Os Grandes Contos Populares do Mundo (Ediouro, 432 p., 2005) é uma das coletâneas organizadas por Flávio Moreira Garcia, responsável também por coleções sobre contos eróticos e contos de humor.

Pequenas histórias de lugares tão díspares quanto Afeganistão, Guatemala, Irlanda e Moçambique.

Histórias de mitologia, como os egípcios Osíris e Ísis, os gregos Édipo, O Rei Midas e O Minotauro, os bíblicos Sansão e Salomão e a Rainha de Sabá. Histórias clássicas como trechos de As Mil e Uma Noites (Ali Babá e Os Quarenta Ladrões, Sindbad o Marujo), uma versão adaptada de Romeu e Julieta (Shakespeare), O Barba Azul (Perrault), A Nova Roupa do Rei (Andersen), a lenda suíça de Guilherme Tell, e o humorístico português O Caldo de Pedra (conhecida história de como fazer uma sopa à base de uma pedra lavada).

Uma considerável parte dos 83 contos eu conhecia, e foi realmente gostoso ter a oportunidade de reler histórias que eu tinha conhecido na infância. Os ingleses João e O Pé de Feijão, e O Matador de Gigantes, o trabalho de Andersen sobre O Bravo Soldadinho de Lata (para mim era um soldadinho de chumbo), o turco O Relógio, de Khawajah Nasr Al-Din.

Para representar o Brasil, foram selecionados sete contos:

  • O Ciclo de Pedro Malazarte
  • Mãe d’Água
  • As Proezas de Macunaíma
  • O Princípio do Mundo
  • Xangô (adaptação da mitologia africana)
  • O Baile do Judeu (do amazonense Inglês de Sousa)
  • A Mboitatá, do gauchíssimo Simões Lopes Neto.

Aí vem a imensa grande enorme diferença. Os contos dos outros países têm cunho moral, mesmo quando os heróis aproveitam uma capacidade de esperteza para ludibriar inimigos. O resultado é que as histórias são feitas para ressaltar vantagens da honestidade, do trabalho, do respeito aos mais velhos.
Pois nos contos e lendas brasileiras, exceto a da Boitatá, prevalece a mentira, a falta de caráter, a trampa enganadora.
De Manunaíma, o herói sem nenhum caráter, não preciso comentar. Pedro Malazarte era apenas um Más Artes, O Baile do Judeu é a aparição do Boto, …
Uma amiga que é candomblecista baiana desmentiu essa versão de Xangô. Foi abrasileirado para tornar-se um aproveitador da primeira mulher, o que não ocorreria na lenda original africana.

Qualquer semelhança entre os contos e os povos não deve ser mera coincidência.

Ah, caso alguém não saiba: esperteza não é sinônimo de mau-caratismo.