mitologia

Did the Greeks believe in their Myths?

Did the Greeks believe in their myths? An Essay on the Constitutive Imagination, de Paul Veyne (The University of Chicago Press, 1988, 131 p., tradução do francês para o inglês de Paula Wissing, R$ 41,00) é um dos maiores engodos que já encontrei.

O tema é interessante, mas o ego maior do que o Olimpo do historiador francês estava ocupado demais em encher as páginas do livro com suas digressões intelectuais, que tornaram a leitura insuportàvelmente tediosa.

Veyne tratou muito pouco da História (que é sua área de atuação), e muito de …
de quê mesmo?

Nem sei. Para usar o “método” moderno, de tratar a História como uma inter-relação de fatos, inclusive os que virão dali a uns séculos, Veyne chega a falar de Nietzsche, Weber e Hitler!
Em cada um dos dez capítulos é possível encontrar uma ou outra frase que aborde a relação dos gregos com seus deuses míticos.

Ou seja, recheou as páginas com filosofices e psicologices que fugiram do tema, mas que certamente devem ter rendido ao autor muitos elogios vindos da panelinha acadêmica onde vive mergulhado em Paris. Se pelo menos fosse para se ater à filosofia clássica…

Ah, deve ter sido por isso que ele se esqueceu de falar da sociedade grega da Antigüidade.

 

em uma livraria

Estive ontem em uma livraria, dessas grandes, para “gente culta”, de uma rede espalhada por capitais “interessantes”.
Percorri com atenção os diversos corredores e suas muitas estantes.
Vi a preocupação (infantil) de colocar os “colaboradores” para que se obtenha uma disposição bonitinha, falsa feito nota de três reais impressa na Nigéria.
O conteúdo dos livros era digno do saudoso Febeapá.
Olhava nas estantes e só via “baixo-ajuda”, culinária, juvenis e mitologias (relacionadas a seriados de tv), “críticos” do óbvio, muitos livros escritos por sacerdotes, livros de viagens com muitas fotografias…

Quando encontrava algo que tinha valor literário, era sempre uma obra de antes de 1960, com uma encadernação que tentava justificar o preço exorbitante.
Vai que cola…
A maior parte das pessoas que freqüentam essas livrarias não sabem que pela metade do preço pode comprar o mesmo livro em um sebo (com a vantagem de ter sido impresso em uma ortografia que não é para analfabetos).
Não raras vezes, esses mesmos (bons) livros estão em domínio público e podem ser baixados na internet.
Olhei muito.
Até 1960 havia boas obras.
Em 1960 começa um declínio que se aprofunda a cada ano
De 1995 para cá, vinte anos de lixo.
Dos autores estrangeiros, ainda estão presos à famosa anticultura da era hippie, embora ideològicamente presos à URSS do tempo de Stalin.
Dos autores tupinambás, melhor esquecer que rabiscaram alguma coisa no computador…

Comentei depois com alguns amigos, e eles concordaram com minhas observações.
Acrescentaram, ainda, a mão de obra selecionada sem o mesmo esmero de antes. O que importa é mesmo a apresentação, e não o conteúdo.

As Máscaras de Deus – Mitologia Criativa

Em As Máscaras de Deus – Mitologia Criativa, Joseph Campbell (Editora Palas Athena, tradução de Carmen Fischer, ano 2010, 624 p.) trata da arte, e não da religião, por trás das mitologias.

Pintura, escultura, arquitetura, literatura, música, teatro, filosofia.
Igrejas românicas e góticas, Abelardo e Heloísa, Tristão e Isolda, Os Cavaleiros da Távola Redonda e a busca do Santo Graal, Dante Alighieri, Goethe, James Joyce, Thomas Mann, Leonardo da Vinci, Kant, Schopenhauer, Nietzsche, Freud, Wagner, Ionesco, Samuel Beckett.

Escrito em 1968, o livro algumas vezes ficou superado por descobertas mais recentes. Além disso, o autor não esconde o entusiasmo por certos autores, de quem havia se tornado amigo (sobretudo Heinrich Zimmer) e algumas idéias das obras que menciona (Tristão e Isolda ocupa pràticamente a metade do livro).

A leitura é interessante MAS tediosa.
Não raras vezes somos compelidos a saltar páginas.

O escopo da tetralogia As Máscaras de Deus (1959 a 1968) foi discutir a unidade dos mitos, e é posterior à obra O Herói com Mil Faces, de 1949, que trata da unidade do conceito de deus. Curiosamente, Campbell não mencionou em toda a obra os mitos e as religiões da África Negra.
Há críticos que consideram no trabalho de Campbell evidentes sinais de anti-semitismo e de preconceito contra os negros, o que me pareceu ser verdadeiro.

No fundo, o que permanece em mim é o conceito que aprendi há uns 15 anos com um monge budista velhinho:

– A maior diferença entre as religiões monoteístas do Oriente Médio e as outras, é que todas as demais existem para agradecer pela fartura que lhes é proporcionada pela Natureza, enquanto que os “povos do deserto” preocuparam-se mais com as lutas pela sobrevivência…

 

As Máscaras de Deus – Mitologia Ocidental

O quarto capítulo de As Máscaras de Deus – Mitologia Ocidental (terceiro volume da tetralogia de Joseph Campbell, Editora Palas Athena, tradução de Carmen Fischer, 1998, 472 p.) inicia-se com:

Felizmente não será necessário argumentar que os mitos gregos, célticos ou germânicos eram mitológicos. Os próprios povos sabiam que se tratava de mitos e os estudiosos europeus, ao lidar com eles, não se sentiram persuadidos pela idéia de que houvesse algo especialmente sagrado no tema.

Nos capítulos anteriores, o autor desmontou o mito de Moisés. Aliás, Sigmund Freud, já tinha feito isso, em Moisés e o Monoteísmo, que é citado em várias páginas do terceiro capítulo.

Foi também mencionado que a Torre de Babel é apenas o inverso do zigurate. Não para os homens subirem aos deuses, mas para os deuses descerem até os homens…

Logo no segundo capítulo, Maria é desconstruída, dadas suas semelhanças com outros mitos, como a egípcia Ísis, a frígia Pessinus, e outras lendas.

O livro, concluído em 1964, aborda as mitologias celtas, germânico-escandinavas, greco-latinas, zoroastrismo, judaísmo, cristianismo e suas vertentes, mitraísmo, islamismo, e conclui que a ciência estava a caminho de derrotar as religiões. Campbell deveria aguardar mais umas décadas, para ver o violento retorno de certas religiões e seitas…

Ah, Feliz Natal de 2017…
Dia Internacional do Comércio.
Embora muita gente venha com aquela conversa de que o solstício é dia do aniversário de mais um salvador da humanidade…Saoshyant, representado pelo Sol Invicto.

 

P.S. 31 de dezembro
Antes de morrer, Campbell pode não ter visto o recrudescimento fundamentalista do maometismo e do cristianismo, MAS viu o retorno dos mitos célticos e vikings,  a criação do rastafarianismo e toda a prole de cultos new age pseudo-hinduístas.

 

As Máscaras de Deus – Mitologia Primitiva

Terminei de reler o primeiro volume da tetralogia de Joseph Campbell As Máscaras de Deus, que trata da Mitologia Primitiva, publicado no Brasil pela Editora Palas Athena, em 1992, com 418 páginas e tradução de Carmen Fischer.

Campbell escreveu os livros de 1958 a 1968, tratando da Mitologia Primitiva, Mitologia Oriental, Mitologia Ocidental e Mitologia Criativa.
Ao contrário do que sugerem os títulos, não se trata de um trabalho sobre religiões, mas bàsicamente de antropologia, e das “coincidências” em todos os cantos do mundo redondo.

Mitos que são contados da mesma forma em épocas diferentes em lugares totalmente diferentes.
Uma tribo da Terra do Fogo tem mitos e mitologias iguais às de uma na África Oriental, que é igual à de uma tribo na Sibéria, que parece com o que contava uma outra sei lá onde.
Palavras que coincidem (ou se parecem) demais para dizer a mesma coisa, no Afeganistão ou no interior da América.
Instrumentos musicais rústicos idênticos na Península Balcânica ou na Floresta Amazônica.
Restos de homens e de caças em cavernas ou em lugares funerários.
O Sol e a Lua, ou em outras lugares, a Sol e o Lua, conforme se fixassem os rituais masculinos ou femininos do povo. (*)
A serpente com Eva, com os astecas, com os indianos, …
O sacrifício e a ressurreição de deuses heróicos em cada ilhota perdida do planeta.

(*) Sol é feminino em japonês e em alemão, enquanto que nessas duas línguas, Lua é masculino.

Não é um livro de leitura fácil (muito menos ler todos os quatro volumes), mas dá uma excelente visão do que têm sido os últimos muitos milênios, desde que a espécie humana se estabeleceu na crosta terrestre, recheada de mitos.

 

O Livro da Mitologia

O Livro da Mitologia (Thomas Bulfinch, Martin Claret, 2015, 534 p., tradução de Luciano Alves Meira, R$ 38,90) foi escrito em 1855.
Talvez seja por isso que contém tantos vícios, ao focar quase exclusivamente a mitologia greco-romana, que o próprio autor qualifica a Grécia como “pátria-mãe da mitologia clássica”.
Chega até mesmo a classificar a mitologia nórdica como um conjunto de superstições.
Não leva em conta, porém, que os deuses gregos tinham nomes gregos, e não latinos. Isso o autor simplesmente ignora em todo o livro… Na Grécia havia Zeus, não Júpiter!

Os diversos capítulos são permeados de trechos de poemas (em sua maioria de autores românticos) que fazem menção à mitologia grega. Cansa…

Dá rápidas pinceladas nas religiões egípcia e mesopotâmica, ignorando por completo que essas regiões foram berço de civilizações em tempos bem anteriores ao da Grécia clássica.

Irã e Índia são abordados muito superficialmente.

A antiga religião dos celtas é vista como um amontoado de rituais selvagens. Justamente a religião que, hoje em dia, mais interesse provoca no mundo anglo-americano… Embora eu ache essa onda “new age” muito “bem comportada” e apenas um reflexo de busca de valores étnicos das Ilhas Britânicas que andavam abandonados.

A leitura fica mais interessante e ágil quando se chegam aos capítulos em que se fala da mitologia nórdica. Apesar de a Valhala ter menos agitação do que o Olimpo.
Não obstante, o trecho sobre sua variante germânica é mais a reprodução de libretos de óperas de Wagner.

Resumindo: ôôôôoooooo livro chato!!!
Não foi à toa que me arrastei por quase três meses para conseguir concluir a leitura.
E que pouco acrescenta aos interessados em mitologia, que hoje em dia dispõem de muitas outras obras para consulta e pesquisa.
O valor do livro restinge-se à época em que foi escrito.

Ah, o glossário no final do livro esclarece muito menos do que se poderia esperar.

 

“Viva a censura”

Antes de me criticarem, leiam o artigo que inseri em meu outro blogue:

A Imbecilidade Humana NÃO Conhece Limites.

Se juízes, intelectuais, universitários, e outros tantos decidem o que se pode ou não ler, é melhor assumir que vivemos sob uma ditadura, a dos “bem intencionados”.
Não difere dos piores dogmas religiosos.