realismo fantástico

O Capote / O Retrato

O Capote – seguido de O Retrato – é um pequeno livro editado pela L&PM Pocket, com dois contos de Gogol (142 p., 2013, R$ 16,90).

Ambos os contos têm a característica de serem imbuídos do misticismo que sempre permeou a cultura russa. Fantasmas, demônios, e crises existenciais, convivem com o abuso de autoridade e a corrupção vigentes, nas épocas imperiais e posteriormente, no grande e burocrático país das estepes.

A leitura desse pequeno livro acrescenta algo no sempre destacado prestígio que a literatura russa ocupa no espaço internacional.
Vale muito a pena.

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47 contos de Isaac Bashevis Singer

Concluí hoje a leitura de um dos melhores livros que desbravei nestes últimos tempos:

47 contos de Isaac Bashevis Singer (Companhia das Letras, 720p., 2004, R$ 31,00), com excelente prefácio de Moacyr Scliar.

Os contos são quase todos impregnados de indisfarçável caráter auto-bio-gráfico.
Como são contos, não cansa a leitura.
Cada um é cada um.
Dentre eles está Yentl, que foi tornado peça de teatro, em 1975, e depois filme, com Barbra Streisand, em 1983.

Há contos passados na Polônia sem data, relatos que ele ouvia durante a infância, outros na Polônia do início do século XX (período ainda sob domínio russo-austro-alemão), outros pré-Segunda Guerra Mundial.
Contos mais modernos se passam nos Estados Unidos – Nova York ou Flórida – no período pós-Segunda Guerra, ou em Israel, e até mesmo na Argentina.
Muitas palavras ou expressões estão em  iídiche, mas nada impossível de ser aprendido no glossário.

O que me surpreendeu foram as lições sobre o judaísmo.
Nunca imaginara que fossem tão tão tão supersticiosos!
Diabinhos, talismãs, amuletos, quebrantos, reencarnações, inferno (não eterno), e coisas do tipo em quase todos os capítulos.

Sem contar a tradição do casamento:
as casamenteiras saem para procurar “um bom partido” para ele e para ela.
Se não der certo, porém, nada mais fácil do que obter o divórcio.

Caramba, os judeus ashkenazim são muito mais complicados do que eu pensava…
Só não posso dizer isso a eles.

A tradução de José Roberto Siqueira parece ter sido feita por alguém que não mora no Brasil. Há termos que parecem demasiadamente com dicionários, e não com expressões da língua contemporânea.
A revisão, feita por Ana Maria Barbosa e Carmen S. da Costa também deixa a desejar. Curiosamente, são mais evidentes os erros em um conto que narra a história de um vizinho, que era revisor em um jornal iídiche em Nova York.

Descobri que há muito tempo, durante a adolescência, eu havia lido O Mago de Lublin (traduzido para o português por Rachel de Queiroz), livro escrito por Bashevis em 1960, mas o nome do autor não havia ficado registrado em minha memória – apenas o livro.
Gostei tanto de ler Bashevis, que já me municiei de outros dois livros de sua autoria: O Penitente, e Inimigos: Uma História de Amor, ambos publicados pela L&PM.

 

Lygia Fagundes Telles

Lygia Fagundes Telles é a grande escritora paulista que nasceu em 1923, cuja leitura me dá prazer, com seus contos que não raras vezes têm um recheio de humor negro. Tal como José J. Veiga, tem sua boa dose de crítica social e de realismo fantástico.
Vários de seus livros foram também traduzidos para línguas diversas, como inglês, italiano, polonês e sueco.

De seus vários livros, menciono:

  • Ciranda de pedra (romance – 1954, adaptado depois para telenovela)
  • Antes do baile verde (contos -1970)
  • As meninas (romance – 1973)
  • Seminário de ratos (contos – 1977)
  • Venha ver o pôr do sol, e outros contos (contos – 1987).

 

 

 

José J. Veiga

José J. Veiga foi o mestre do realismo fantástico no Brasil. Viveu de 1915 a 1999, e seu nome hoje está registrado em uma estrada pela qual não raras vezes viajo, que liga Goiânia a Corumbá de Goiás, sua pequena cidade natal, onde coincidentemente nasceu, no mesmo ano de 1915, o escritor (e acadêmico) Bernardo Élis.
Precedeu, sem o oba-oba dos outros, o realismo fantástico que depois foi tão divulgado por escritores dos países hispânicos.

Foram vários os livros de J. Veiga que li:

  • Os cavalinhos de Platiplanto (1959)
  • A Hora dos Ruminantes (1966)
  • A Estranha Máquina Extraviada (1967)
  • Sombras de Reis Barbudos (1972)
  • De Jogos e Festas (1980)
  • Torvelinho Dia e Noite (1985)

e tenho aqui comigo

Os Melhores Contos de J. J. Veiga, seleção de Aderaldo Castelo editada e publicada pela Global Editora em 1989.

Vários de seus livros foram traduzidos e publicados em outros países.
A “gringalhada” pôde conhecer o texto complexo, pleno de críticas sociais e ao mesmo tempo lírico.

É um de meus escritores favoritos.

Abaixo, três fotos de Corumbá de Goiás:

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As Armas Secretas

Há um tempo comprei “As Armas Secretas”, de Julio Cortázar (Civilização Brasileira, 2012, 197 p., tradução e posfácio de Eric Nepomuceno), e na hora de guardá-lo descobri que havia um outro exemplar do mesmo livro que mofava na estante, comprado no Chile na década de 1980 – “Las Armas Secretas”, Editorial Nueva Imagen, México, 1984, 178 p.). Houve 35 anos de atraso para que o livro fosse editado no Brasil!

Nestes dias, fui ler e comparar os dois textos.
Li um conto em português, e o reli em espanhol.
Depois inverti: li o segundo conto em espanhol, e o reli em português.
O curioso resultado foi que li mais depressa quando em espanhol (apesar dos ácaros), sem contar que, apesar de a tradução ser correta, o original tinha muito mais “cheiro” de “contázar”  – (contázar = contos de Cortázar).

Tenho posição diferente da que o tradutor incluiu no posfácio sobre cada conto que constitui o livro, todos eles tendo Paris como cenário.
¶“Cartas de mamãe” tem o jeito de literatura fantástica, que os latino-americanos fizeram famosa há meio século.
¶“Os bons serviços” não necessita da impossível advertência à personagem principal, como sugere Eric Nepomuceno. A história mostra os diferentes enfoques sobre um mesmo fato, do ponto de vista de uma pessoa simples, e das tramas de pessoas do mundo dos negócios e manipuladoras.
¶“As babas do diabo” foi o conto que serviu de base para o filme Blow-Up, de Michelangelo Antonioni. Tal como o filme, a interpretação depende de cada leitor / de cada espectador.
¶“O perseguidor”, apontado por Nepomuceno como um divisor de águas, obra-prima, irretocável, escrito em memória de Charles Parker, pareceu-me apenas uma coisa: CHATO e longo demais. Talvez porque eu não tenha qualquer tipo de “culto” ao jazz, e por não me interessar por artistas viciados, seja em drogas, em conhaque ou em cigarro. Por mim, poderia ter se estendido por mil outras páginas e formar um livro à parte, fora dos contos que beiram o fantástico. Não faço parte dos “intelectuais” que fazem reverências a ídolos, apenas digo o que sinto ao ler um livro. “O perseguidor” não se aproxima dos outros contos do livro; ao contrário: destoa.
¶“As armas secretas”, por fim, gira ao redor de traumas não ditos e memórias mal formuladas de um casal de namorados, até que no final emerge uma explicação natural para o que ambos já tinham vivido e vivenciado, durante a II Guerra Mundial.

Objecto quase

Objecto quase, de José Saramago (Companhia das Letras, 1998, 134 p. R$ 17,00), é uma coleção de contos do realismo fantástico, composta em 1978. Constam do livro:

  • Cadeira
  • Embargo
  • Refluxo
  • Coisas
  • Centauro
  • Desforra.

A leitura é muito rápida, ao contrário do que costumam ser os indigestos romances do “badaladissíssimo” escriptor “nobelizado”.

O que mais me chamou a atenção foi que parecia, na maior parte do tempo,  que estava eu a ler algum livro de José J. Veiga, tantas as semelhanças de estilo e de conteúdo.

Por sua vez, é interessante como a griffe dos livros caros submeteu-se à orthographia do lusitano, quando outros autores são submetidos às revisões de pasteurização da escripta, como se os leitores fossem incapazes de ler o que esteja escripto fora dos padrões de diccionaristas e dos acadêmicos, escolhidos mais pelas características políticas do que literárias. Vale o mesmo comentário para os livros portugueses que vinham com a inscripção de que a venda no Brasil era-lhes proibida. Por conta desse absurdo tão absurdo, inventaram que precisamos de um desacordo orthographico, enquanto australianos e sul-africanos sequer prestam atenção se ingleses preferem theatre e americanos theater.