Rússia

O Capote / O Retrato

O Capote – seguido de O Retrato – é um pequeno livro editado pela L&PM Pocket, com dois contos de Gogol (142 p., 2013, R$ 16,90).

Ambos os contos têm a característica de serem imbuídos do misticismo que sempre permeou a cultura russa. Fantasmas, demônios, e crises existenciais, convivem com o abuso de autoridade e a corrupção vigentes, nas épocas imperiais e posteriormente, no grande e burocrático país das estepes.

A leitura desse pequeno livro acrescenta algo no sempre destacado prestígio que a literatura russa ocupa no espaço internacional.
Vale muito a pena.

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Os Ortodoxos

A família de meu pai era ortodoxa antioquina, e confesso que nunca entendi o que os diferia do ramo materno católico. As diferenças pareciam ser na ênfase na Páscoa (em data diferente, conforme o calendário juliano), na persignação “invertida” (do ombro direito para o esquerdo), e poucas outras coisas, em geral relacionadas à liturgia de sacramentos.

Fui esclarecido com a leitura de Os Ortodoxos – O Oriente do Ocidente (Enrico Morino, editora Paulinas, tradução de Antonio Efro Feltrin, 2005, 126 p.), um interessante livro escrito por professor de História e Instituições da Igreja Ortodoxa na Universidade de Bolonha, Itália. E pela primeira vez vou me alongar, aqui no blog, no comentário sobre a leitura que tive de um livro.

Ao contrário do que sempre se divulga, não foi em 16 de julho de 1054, durante a liturgia matinal na nave da Igreja de Santa Sofia, que se materializou o tal Cisma que significou a divisão entre a Igreja Católica com sede em Roma e a Igreja Ortodoxa com sede em Constantinopla.

As duas igrejas já nasceram separadas. Uma sempre foi latina (romana) e a outra sempre foi grega (oriental). Eram duas civilizações distintas dentro do Império Romano, por mais proximidade que tivessem em alguns aspectos. Os latinos mesclaram-se com os povos germânicos; enquanto na parte oriental do Império foram os eslavos que predominaram.

Os latinos deturparam (e seus descendentes mantiveram) “o termo “bizantino” ao lugar-comum, de origem medieval de “grego infiel” (graeculus perfidus)”. [medieval é tudo o que ocorreu após a divisão do antigo Império Romano de César Augusto em duas partes, no século IV, até a destruição do Império Bizantino, em 1453]

O autor logo no início mostra que as diferenças eram bem maiores, “já que nas Cruzadas mascarava-se, com princípios humanitários, uma intenção hegemônica subjacente que comportava, na realidade, a destruição da civilização ortodoxa. O mesmo se repetiu quando as potências ocidentais aliaram-se ao Império Otomano na Guerra da Criméia (a do século XIX), e mais recentemente, na luta contra a Sérvia em favor de Kosovo. Sempre foi mais conveniente aos ocidentais aliar-se aos muçulmanos do que aos ortodoxos.

O autor mostra logo no início que “a Ortodoxia pode realmente definir-se, em nosso panorama cultural, como a grande desconhecida, ou talvez pior, como a grande pouco conhecida (com o agravante de que conhecer mal é muito pior do que não conhecer nada).”

A arquitetura de início já mostra de modo característico diferenças entre as duas formas de fé cristã. Nas igrejas ortodoxas “o altar está bem escondido, atrás da chamada iconóstase”, e “as imagens sagradas, os ícones, têm um estilo diferente e cumprem uma função totalmente diferente na liturgia.” “Quase paradoxalmente, nas duas igrejas (ortodoxa e católica), nas quais se realizam ritos com o mesmo valor teológico, apresentam-se como dois ambientes completamente hetereogêneos, enquantos outras duas (católica e protestante), nas quais se praticam ritos com pressupostos teológicos diferentes, são ambientalmente homogêneos” (ao menos nas igrejas protestantes mais tradicionais, como a anglicana e a luterana).

Mais algumas diferenças pouco conhecidas por leigos católicos:

os Ortodoxos não têm o conceito de purgatório, “para expiação e posterior salvação; no Oriente ortodoxo existe a doutrina dos trânsitos aduaneiros, mediante os quais as almas, logo depois da morte, são postas à prova ou examinadas por vários vícios pelos demônios e defendidas pelos anjos.”;

a Igreja Ortodoxa não aceita o dogma católica da Imaculada Conceição de Maria. “Por causa de Adão todos herdaram a culpa, mas não as conseqüências, e, primeira dentre elas, a inclinação ao pecado. A Mãe de Deus nasce sem pecado original simplesmente porque assim todos nascem. Maria se livrou das conseqüências do pecado original, graças a uma disciplina interior austera.”;

na Igreja Ortodoxa a relação com a matéria é objeto de uma profunda consideração teológica. A encarnação do Filho de Deus, penhor e primícia da divinização do homem, consiste exatamente na paradoxal – inadmissível para todo espiritualismo – apropriação da matéria criada por parte do Deus criador. Nessa perspectiva, compreende-se a afirmação quase provocatória de São João Damasceno: “Não cessarei de prestar veneração à matéria, por meio da qual operou-se a minha salvação. Eu não venero a matéria, mas o Criador da matéria“. “Os muitos aspectos aparentemente materialistas da sua piedade não são expressão de uma fé ingênua e quase supersticiosa, mas o resultado de um refinamento extremamente refinado.”

Chegamos aí aos dois grandes símbolos que tanto caracterizam as igrejas ortodoxas, o ícone e as relíguias.

“O ícone, considerado não no seu valor histórico-artístico nem segundo os parâmetros estéticos, mas nos seus fundamentos teológicos, representa uma das mais formidáveis materializações do sagrado.” “A razão da proibição do Antigo Testamento “não farás imagens para ti” é atribuída à natureza espiritual de Deus e, portanto à absoluta impossibilidade de ser representado: toda tentativa nesse sentido teria sido uma caricatura blasfema do divino. Considerar esse estado de coisas ainda válido nos nossos tempos quereria dizer negar que com a encarnação Deus mesmo, assumindo uma natureza humana íntegra, tenha-se tornado voluntariamente representável.” “Por isso o ícone não é um retrato vivo de um defunto, mas a representação de um homem já transfigurado no processo de divinização.” “As convenções do ícone, por vezes surreais – pois não se limita a transgredir as mais comprovadas regras de perspectivas, mas apresenta uma perspectiva exatamente invertida -, têm a finalidade de afirmar a dimensão totalmente metaistórica e metafísica do mundo do qual o ícone quer ser o espelho fiel.”

“Ícones e relíquias representam, de maneira absolutamente paralela, duas formas de presença na ausência do Cristo e dos santos, duas modalidades por meio das quais o sagrado – nas religiões evoluídas é absolutamente imaterial – materializa-se, sem perder a prerrogativa intrínseca de transcendência.”

Mais uma informação sobre os símbolos: as velas. Elas são de cera natural amarelo-escura, diferindo das velas brancas de parafina dos católicos.

Em uma cerimônia religiosa, o fiel molha o dedo no azeite das lâmpadas. O jogo de luzes, o canto litúrgico, rigorosamente sem instrumentos musicais, apenas com a voz humana, e o uso abundante do incenso inebriante ao olfato, são instrumentos com os quais o fiel é chamado a participar de quase todos os sentidos.

Um capítulo trata da vida monacal, e outro sobre o sentido de “economia” (oikós) na Igreja, e suas implicações no matrimônio.

Na conclusão desses aspectos todos da Igreja Ortodoxa, transcrevo os ensinamentos de São Basílio e de São Cipriano: “Não pode ter Deus por Pai quem não teve a única e diferente Igreja por mãe”. Depende da legitimidade de quem administra os sacramentos sua validade, e não da intenção de quem os recebe.

Com relação ao livro, a escrita do autor é às vezes confusa, e isso não foi aliviado pelo tradutor ou pelo revisor. Não raras vezes, no meio de frases intercaladas em vírgulas, e de inúmeros apostos, encontra-se o sujeito de um período na terceira linha do texto. Adjuntos adverbiais são mal colocados no conjunto de palavras, havendo casos em que um adjunto temporal insere-se no meio de dois adjuntos de local. Isso torna a leitura muitas vezes enfadonha, pois é necessário ler e reler o texto para sua compreensão.

Além disso, aparecem ocasionalmente palavras que existem em italiano mas que em português não fazem sentido, como “asbúrgico”, para significar adjetivo referente à dinastia austríaca dos Habsburgos. Nem Houaiss nem Aurélio consignam essa palavra, apesar de eu já a ter encontrado em outras traduções do italiano para o português.

Traduttore, traditore, embora no caso a traição seja à língua portuguesa, e não ao significado.

Dostoikévski – três vezes

Li simultâneamente três novelas da primeira fase de Fiódor Dostoiévski (Obra Completa – volume 2 – Editora Nova Aguilar – 2004).

  • Pobre Gente (1844-1846)
  • O Duplo (1845-1846)
  • A Granja de Stiepântchikovo e Os Seus Moradores (1859).

Ao contrário dos personagens planos de outros autores da mesma fase literária, os de Dostoiévski são cheios de nuances, e já no primeiro texto publicado (Pobre Gente), que tem o formato de uma coleção de cartas trocadas, ele foi aplaudido pela crítica da época, por se destacar como uma rica fonte de conflitos pessoais e interpessoais, que levaram Sigmund Freud a considerá-lo, mais tarde, o maior de todos os romancistas.

A variada “fauna humana”, miserável e cheia de fraquezas, que Dostoiévski descreve é algo raramente encontrado.
O leitor é levado a questionar que tipo de pessoa teria aquelas atitudes, e ao mesmo tempo identifica ao redor inúmeros comportamentos que tornam a vida ora mais interessante, ora mais difícil.
Não se limitam ao período da Rússia do século XIX, mas são uma coleção de fraquezas, de chantagens, de psicopatias, que vão muito além da crítica social.

Dostoiévski é mais do que um autor cuja leitura deveria ser obrigatória: é um dos pontos mais altos das literaturas de todos os tempos.

 

Guerra e Paz

Decretei guerra contra mim mesmo e me debrucei, durante dois meses, sobre Guerra e Paz , de Leão Tolstói (Editora Nova Aguilar, 1993, 1224 páginas dedicadas a esse texto).

Logo na primeira parte comentei que achava o livro chato, e apenas uma amiga me disse que tinha também se dedicado a ler a tão renomada “obra prima”.

Escrevi em mensagens de correio eletrônico:

  • Terminei a primeira parte de Guerra e Paz.
    Um monte de gente fútil foi a um monte de jantares idiotas.
    Seria só isso, se Pedro não tivesse amarrado um policial às costas de um urso e atirado ambos do alto de uma ponte em Moscou.
    Fim. Descobri por que os russos precisam dos patronímicos.
    Quem não se chama Mikhail se chama Ivan.
    Então você precisa saber se é o Mikhail Ivanovitch ou o Mikhail Mikhailovitch.tipo português:
    Joaquim Manuel e Manuel Joaquim.
    estás a ver? Agora os mancebos vão para a guerra, lutar contra os malvados e opressores franceses que cortavam cabeças de reis.
    Os velhos e a mulheres ficaram em Moscou e em Petersburgo para continuar as fofocas dos jantares idiotas.
  • Terminei a segunda parte de guerra e pás.
    Pás, com S mesmo, porque nessa segunda parte é só um monte de carroça de soldado e de carruagem de general atolando na lama.
    Tinham de pegar umas pás e limpar o caminho, para fazer valer a lustrada de botas que tinham caprichado no começo dessa parte. Se a primeira parte era fútil, a segunda não disse nada. Ainda bem que faltam só 1000 (mil) páginas para eu terminar a leitura. Pás já descobri o que significam,
    guerra é o que fazemos tentando ler essa “obra-sogra”.
  • Estou quase no fim do livro. Faltam só mil páginas.
  • Terceira parte:um monte de soldados correndo de um lado para outro
    três imperadores: o austríaco, o russo, e o usurpador corso
    um dos personagens do livro desaparece na batalha de Austerlitz
    Quarta parte:
    soldados tiram férias em Moscou
  • pior do que pensava
    não conta nada
    o cara virou carola, maçonizou-se, e foi visitar uns amigos
    o tsar e napoleinho encontraram-se no entre-guerras e trocaram juras de amor
    o livro não é muito bem escrito
    e a tradução não sabe usar ênclise e próclise
    a leitura fica mesmo só por conta de algumas curiosidades das velhas rússias

E tive como resposta:

Aleluia, você é a única pessoa que eu conheço que tem coragem de dizer isso. Acho o livro bem chatinho e o personagem do Pierre é simplesmente intragável.

Depois parei de comentar até que terminasse a leitura das 15 partes, do epílogo e do apêndice (tudo obra de Tolstói).
Personagens sem conteúdo, tanto entre as figuras imperais e da alta patente militar, como entre os condes, camponeses e as outras classes sociais.
Os amores e romances são de dar sono, pois os amorosos românticos não têm qualquer conteúdo. José de Alencar dava de 20 a 0 nesses russos.
O que se salva são descrições de cenários de guerra, e as incontáveis superstições que os russos cultiva(va)m com todo carinho.
O epílogo também tem aspectos interessantes, para refletirmos sobre história e historiadores.

Padre Sérgio é muito mais interessante.

Bem, Tolstói não foi exatamente um exemplo de boa pessoa. A forma como tratou a mulher é um exemplo.
Não merece ser “divinizado” por “críticos”.  Afinal de contas, quantidade não é qualidade.
Posso avisar que não é porque o livro é “muito grande” que não gostei dele. Há muito tempo, quando li os seis volumes de O Visconde de Bragelone (terceira parte de Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas), não tive “sono”.

Como diria Shakespeare: much ado about nothing.

Os Sonâmbulos

Os Sonâmbulos – Como eclodiu a Primeira Guerra Mundial (Christopher Clark, Companhia das Letras, 700 p., 2014, R$ 57,90; tradução de Berilo Vargas e Laura Teixeira Motta; revisão de Huendel Viana, Jane Pessoa e Ana Maria Barbosa) é um dos muitos livros que têm sido publicados para o mundo se lembrar de que a Primeira Guerra Mundial ainda não terminou. Tudo o que provocou, com o término do sistema dos impérios do século XIX, continua ainda a se adaptar.

O autor australiano fez uma obra recheada de muita pesquisa, porém tem altos e baixos. Algumas análises trazem novas cores ao estudo da Grande Guerra. Em outras partes, o livro fica recheado de detalhes irrelevantes, e outros são pouco explorados. Há sub-capítulos entediantes.

Destaca a importância de um doentio nacionalismo sérvio como propulsor de crises na região. Fala dos “dois enfermos”: o Império Otomano, e o Império Habsburgo da Áustria-Hungria. Aponta o revanchismo francês contra o Império Alemão, depois da derrota de 1870-71. Mostra a política claudicante do envergonhado Império Russo, espremido na Europa e derrotado na Ásia. Parece pouco se preocupar com as ambições alemãs, e com a instabilidade emocional de um kaiser doente e confuso, em Berlim, nas relações com seus primos que estavam em outros tronos (Londres e São Petersburgo). Deixa às claras o comportamento (sempre) contraditório da Itália e da Romênia, bem como uma “tendência” à traição por parte da Hungria. Não se aprofunda na política britânica daquelas décadas.
O livro fala várias vezes da criação de um possível reino croata dentro do Império Habsburgo, para abrigar os eslavos do sul (iugo-eslavos) e conter a Sérvia, mas sequer menciona que Francisco José (ou Franz Josef, como preferirem) apoiava a criação de um reino na Boêmia, para abrigar os eslavos do norte.

Uma considerável parte do livro, no início, tem grande utilidade, ao apresentar ao leitor a questão balcânica, com reviravoltas tanto internas (o assassinato do rei sérvio e a mudança dinástica em 1903, que passou de uma casa real filo-austríaca, os Obrenovic’, a outra anti-Habsburgos, a dos Karadodjervic’ ), quanto externas (a Primeira e a Segunda Guerras dos Bálcãs – 1912 e 1913), com as alianças se modificando em tão pouco tempo.

O professor barbudinho (na pior acepção da palavra) adorou fazer comparações entre fatos da época e fatos futuros. Estranho, na História um fato costuma se basear no passado anterior, e não no futuro, embora possa vir a ter conseqüências. Por isso, muito mais coerente seria falar mais da Guerra Franco-Prussiana, das revoluções liberais de 1840/1860, do que da Guerra do Vietnã (que ele menciona mais de uma vez), do que a Crise dos Mísseis em Cuba, o episódio Irã-Contras, e outros fatos do tipo.
Se for para incluir eventos futuros em relação à Guerra, foi omitido que o nacionalismo sérvio fanático provocou, no final do século XX alguns dos piores episódios genocidas, sobretudo na Bósnia-Herzegovina. Kossovo só não se tornou outro campo de extermínio porque a comunidade internacional já estava preparada para impedir a reação da Sérvia, na passagem do século XX para o XXI.
Os anarquistas que, em 1898, tinham matado a imperatriz Sissi, não eram relevantes no painel da política européia (e mundial) naquela época? Só o grupo terrorista sérvio Mão Negra existia? (Terrorismo aproveitando-se de idealistas anarquistas, antes, e depois.)
A revolução bolchevista não viu uma faísca explosiva nos problemas da Marinha em Odessa, em 1905?
E a ascensão nazista? Não teve qualquer motivação na derrota alemã de 1918?

Trata o assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando, por um grupo de terroristas sérvios, como um evento comparável ao do Presidente John Kennedy, por mafiosos americanos. A morte de Kennedy por acaso provocou, além de estarrecimento, alguma guerra?
Concluir o livro comparando a Guerra com um romance policial de Agatha Christie, ainda que negando essa analogia, é indesculpável. Falta de respeito com todos os mortos, civis e militares.
Melhor seria deixar claro que a Guerra foi o resultado de um modelo fracassado de diplomacia, mais preocupado com forma do que com conteúdo das mensagens.

Clark preocupa-se com a sexualidade de alguns personagens. Omite alguns outros componentes, porém. No curto parágrafo em que menciona o caso do Coronel Redl, fala apenas da chantagem que o militar sofria por parte dos russos. Não menciona, porém, que a escolhe do militar homossexual como “bode expiatório” para o governo de Viena baseou-se, também, no fato de que os rutenos eram a minoria menos convulsiva de todas as que compunham o emaranhado de povos do Império.

Muito interessante o sub-capítulo sobre a imprensa e a opinião pública, ao mostrar que a diplomacia, como faz até hoje, aproveita-se de matérias pagas para motivar política externa dos respectivos países, e que recortes de jornais eram o fundamento das “análises”.

O livro apresenta imprecisões, não sei se decorrentes do texto original ou se da tradução brasileira.
Frases com possibilidade de dupla interpretação:
“A pior mácula do governo austríaco na Bósnia-Herzegovina era a deploravelmente baixa taxa de analfabetismo e frequência escolar, pior até que a da Sérvia. “
Altas taxas de analfabetismo são elogiáveis? Ou sempre são deploráveis? Li a frase dos dois modos.

Em outro capítulo, o que quer dizer:
“a dinâmica era diferente, mas análoga”  ?

Existe, mais de uma vez, confusão entre Eslavônia e Eslovênia, no texto e em mapa. A primeira fica a leste da Croácia, próxima da Sérvia e da Hungria, ao passo que a segunda situa-se a oeste da Croácia, vizinha da Itália e da Áustria.
Erro do autor ou da tradução?

Não existe regra para a utilização dos topônimos, Adrianópolis aparece sempre com o nome que foi dado pelos turcos em 1924: Edirne. A mesma confusão ocorre com diversos outros nomes:
Kirk-Kilise / Kirklareli / Lozengrad;
Bitola / Monastir;
Ragusa / Dubrovnik;
Scutari / Shkodër (inclusive há um erro de digitação, com um horrível Scurati no texto).
Salônica ou Tessalônica?
Um pouco de cada.

A mesma confusão vale para antropônimos. Eduardo VII foi sucedido por George V.
A palavra alemã Schloss mais de uma vez aparece no original, sem a correspondente tradução para o português: castelo.
Ah, and last but not least: substantivos terminados em X em português são invariáveis no plural: fênix, ônix, tórax (e por que não também incluir xerox e fax?). Português e inglês não compartilham as mesmas regras.

Eduardo VII

Eduardo VII, de André Maurois (Globo Livros, 2014, 303 p. R$ 49,90), foi escrito em 1933, mas só agora é publicado no Brasil, em função do centenário do início da Primeira Guerra Mundial (embora o Rei tenha morrido em 1910).
O título original inglês é Rei Eduardo VII e seu tempo, já o título brasileiro é Depois da Rainha Victoria, Edward VII.

Eduardo VII tinha já 54 anos, quando ascendeu ao trono, em sucessão a sua mãe, a famosa Rainha Vitória. Por isso, a parte inicial do livro trata de assuntos do reinado de Vitória, a mãezona do Império Britânico, e que era de certo modo também a avòzona do mundo todo.

Vitória, sob a influência do marido alemão Alberto (embora ele tenha morrido com apenas 44 anos), transformou a corte inglesa da futilidade das dinastias francesas (Bourbon, Orléans e Bonaparte) para um reinado voltado para a burguesia, deixando de fora a velha aristocracia.
Vitória governava para a classe média.
Pobres ela não sabia como eram, mas aristocratas ela atirou no lixo.

Eduardo Alberto, ainda príncipe de Gales, fez uma viagem oficial aos Estados Unidos, a primeira na história das relações entre os dois países, e foi tão adorado pelos americanos, que pediram que ele voltasse dali a uns anos para se candidatar a presidente dos EUA. Descobriram a frustração de serem uma reles republiqueta, coisa que se estendeu por todos os presidentes seguintes. Mesmo no enterro de Eduardo VII, em 1910, a presença do ex-presidente Theodore Roosevelt deu sinal de que as repúblicas eram países de segunda categoria no início do século XX.

Tinha aprendido com a mãe que o rei reina, não governa, mas tem (e exerce) o direito de saber,  direito de encorajar e o direito de advertir. Aliás, é assim que os ingleses funcionam até hoje.

O curto reinado de Eduardo VII, apenas nove anos, foi contudo marcado por muitas mudanças. As tradicionais disputas políticas entre Conservadores e Liberais adquirem o novo componente do Partido Trabalhista, fala-se muito do Home Rule na Irlanda, a mudança na composição da Câmara dos Lordes, para eliminar o poder de veto que ainda mantinha sobre decisões tomadas na Câmara dos Comuns, e o Rei jogou com muita habilidade no entendimento que buscava entre todas as partes. Também durante seu reinado ocorreram as manifestações em favor do voto feminino (as suffragettes), que passou a valer logo após o término da Grande Guerra.

Fora isso, se o reinado de Vitória foi o império do trem, Eduardo VII deu início ao império da bicicleta e do automóvel. Jorge V, mais tarde, veria o império do avião.

As relações de amizade que mantinha, desde quando ainda Príncipe de Gales, serviram para acomodar muito do trabalho de diplomacia a que ele se interessava, com outros monarcas europeus, bem como com os presidentes franceses. Inspirou a aproximação com a França e com a Rússia, promovendo a Entente Cordiale, que se contrapôs à Tríplice Aliança montada pela Alemanha, pela Áustria-Hungria e, na época, a Itália.

As relações com o sobrinho, o Kaiser Guilherme II, porém, sempre foram cheias de desconfiança, e foram tornando mais difíceis as que envolviam seus países.

Por acaso tenho lido outros artigos, que agora vêm sendo publicados por conta dos cem anos da Grande Guerra, e parece haver unanimidade em que o comportamento psicològicamente doentio do Kaiser foi decisivo para o desencadeamento do conflito. Segundo alguns autores, não houve sequer uma II Guerra, pois aquela primeira nunca chegou a ser concluída.

Nisso erram historiadores marxistas, que insistem em que a economia é a causa de todos os arranques e de todas as alterações. Podem contribuir para o surgimento de cenários propícios, mas figuras execráveis como Napoleinho, o Kaiser, Stálin e Hitler deram o tom final para que a História tomasse rumos desastrosos. Sem eles, até mesmo os desastres econômicos teriam sido menores. Pessoas têm sim um poder muito grande de modificar rumos de povos.

Ah, só um lembrete: fumar faz mal à saúde.

Esquerda Caviar

Esquerda Caviar – A hipocrisia dos artistas e intelectuais progressistas no Brasil e no mundo (Rodrigo Constantino, Editora Record, 2013, 423 p., R$ 42,00) caiu perfeitamente para muitos parentes, amigos, conhecidos e ex-colegas de trabalho. Confesso que eu algumas partes fui ao espelho e fiz um mea culpa.

O livro divide-se em três partes, a primeira das quais muito bem fundamentada, com muitas pensadores de um lado e do outro contrapostos, para que se possa ver com nitidez o quanto são ridículos, sujos, imbecilizantes e outras coisas mais, esses modismos hipócritas da correção política, das “minorias” no domínio da sociedade, e toda a “bondade rousseauniana” das leis que moldam as pessoas em robozinhos.

O capítulo sobre as origens da esquerda caviar, ou liberal limousine (EUA), champagne socialist (Inglaterra), radical chic (Itália), ou simplesmente a velha conhecida “esquerda festiva” dos centros acadêmicos, trata de vinte variantes: oportunismo hipócrita, narcisismo, elite culpada, tédio, histeria, racionalização, preguiça mental, ópio dos intelectuais, alienação, insegurança e covardia, medo, nihilismo, síndrome de Estocolmo, ressentimento, infantilidade, romantismo, desprezo popular, arrogância fatal, sede pelo poder, ignorância. Em seguida, fala sobre o duplipensar, ou seja, alterar o significado de palavras para que elas se encaixem ao pensamento polìticamente correto e hipócrita, e conclui essa primeira parte com o viés da imprensa.

A segunda parte menciona algumas das bandeiras que a esquerda caviar gosta de empunhar: a obsessão anti-americana, o ódio a Israël, o culto ao multiculturalismo (e ao Islã), os pacifistas, o mito Che Guevara, a ilha presídio de Cuba, os melancias (verde por fora e vermelho por dentro), os clichês de justiça social, os preconceitos dos que não têm preconceitos, as minorias, e a juventude utópica.

A terceira parte aborda alguns santos de pau oco, que ganham muito dinheiro às custas de propagandas e campanhas em prol da falsidade, e do escamoteio do estilo de vida desses mesmos santos: Obama, Gandhi, John Lennon, Noam Chomsky, Paul Krugman, Michael Moore, Sting, Al Gore, Peter Singer, John Kerry, Ted Kennedy, Bill Clinton, George Soros, Harrison Ford, Leonardo DiCaprio, Cameron Díaz, Robert Redford, Brad Pitt, Angelina Jolie, George Clooney, Barbra Streisand, Richard Gere, James Cameron, John Travolta, Bruce Springsteen, Oliver Stone, Whoopi Goldberg, Jack Nicholson, Matt Damon, Gérard Depardieu, Ben Affleck, Sean Penn, Bono Malo Vox, Oprah Winfrey, Benicio del Toro, Oscar Niemeyer, Chico Buarque, Luís Fernando Veríssimo, Wagner Moura, Eduardo Matarazzo Suplicy ex-Smith de Vasconcelos, Chico Alencar, Luciano Huck. Fora isso, muitos outros nomes são assinalados durante as duas partes anteriores, como Gilberto Gil, Fernanda Montenegro,
Desde o início do livro, Rodrigo Constantino salienta que não coloca em xeque o valor artístico das pessoas, mas a contradição entre o que dizem polìticamente e o estilo de vida que levam.

Não dá para concordar com tudo o que Rodrigo Constantino colocou no livro. Falar do Tibete como “vítima” é um tanto quanto “esquerdismo caviar” de muita gente que ignora que a região SEMPRE foi parte do império chinês, que NUNCA foi um país independente, que em 1911 deputados tibetanos fizeram parte da assembléia constituinte republicana chinesa (ou seja, eram parte da China), e que o que deixa o dalai lama indignado não é o domínio chinês, mas a perda do poder feudal que ele e seu clero exerciam sobre 85% da população tibetana que vivia em regime de servidão, para atender 10% de sacerdotes.
Só no finzinho do livro RC lembrou de juntar Mr. Richard Gere e Mr. Tenzin Gyatso no mesmo cesto de artistas festivos, caviarescos e champanhotes.

Interessante a menção final, de luz no fim do túnel, ao citar a mudança de opinião de Ferreira Gullar, enojado com o que seus antigos colegas “socialistas” têm feito nos últimos 90 anos. Um mar de sangue e um sem fim de prisões a quem os contrariar. Pena que o livro tenha sido escrito em 2013, e não tenha tido a oportunidade de incluir o que Eduardo Galeano disse em Brasília sobre “Veias Abertas da América-Latina”:

“Hoje não gostaria de reler o livro. Não me sinto mais ligado a esse livro como era. Quando escrevi, tinha 19, 20 anos. As veias abertas da América Latina tinha de ser um livro de economia política mas eu não tinha o conhecimento necessário para isso. A realidade mudou muito e eu também mudei”.