Rio de Janeiro

Os bruzundangas

Fui “convidado” a ler “Os bruzundangtas“, de Lima Barreto (Editora Ática, 2012, 176 p.) como se fosse “O” livro-retrato do Brasil.
Já conhecia todo o enredo, mas foi bom ter a pausa para ler cada página, do livro escrito em 1917 e publicado pòstumamente em 1922.

Bem, o livro não me atingiu.
Há partes curiosas, e até engraçadas, mas a mágoa que o escriptor tinha do país parece mais esses blogueiros d’oje’m dia.
Reclama, reclama, reclama, mas não propõe nada.
Parece aquele peçonhal que diz que se “hindiguína” com a situação…

O livro é apresentado pelos críticos literários como um retrato do Brasil do início do século XX, mas é na verdade um livro futurista, que se parece demais com o Brasil do início do século XXI. Estancado.

É a cara escrita e escarrada do Rio de Janeiro que sempre vota no “diferente”, no “engraçado”.
Desde que a Guanabara foi extinta, votam em brizola, garotinho, cabral, maia, e todos os outros que têm A-sumido u pudê.
É também o ranço fluminense de que o Brasil é o Rio de Janeiro, e despreza tudo o que vem de outras partes.
O Brasil não conhece o Brasil“, como cantou Elis Regina; ou “Ficar de frente para o mar, de costas pro Brasil, não vai fazer desse lugar um bom país“, como cantou Milton Nascimento.

Lima Barreto demonstra em várias páginas um ódio pelo Barão do Rio Branco, que mais parece alguém que xinga por não ter passado no concurso – algo muito comum hoje em dia, passado um século.
Muito pertinentes, até hoje, são os comentários sobre a “nobreza dos doutores”.  Basta ver a regra de prisão especial para quem dispõe de título universitário.
Curioso ter mencionado no livro a grande “heroína” Anita Gari-baldes, figura que realmente não merecia estar na lista duzerói brazuquendangos. Há mulheres muito mais relevantes na história do país.
No Brasil, porém, o panteão de heróis é criado mais para valorizar os regionalismos de políticos. Talvez isso decorra da “opressão” fluminense.

A frustração de Lima Barreto nunca ter sido eleito para a academia de brasileira de números é visível em cada página.
Simples: pobre não entra se não tiver números que sirvam para patrocinar a candidatura! (ou cão ditadura)
A fama de um literato depende da editora que está por trás!
Gente muito melhor não entrou. E alguns nunca tentaram, diga-se de passagem, pois a ABL sempre foi um clubinho para cariocas ociosos.

Nesse contexto, Lima Barreto fez para si mesmo uma vida tão miserável que caía bêbado nas ruas de diferentes cidades.
Tal não ocorreu apenas por influência genética, mas sobretudo por conta do preconceito racial da sociedade carioca contra um mestiço.
Triste, mais do que qualquer outra coisa.
Virou causa e conseqüência do afastamento de Lima Barreto, em vida, do convívio com quem o admirava.
Embora reconhecido como escritor com muita capacidade, só depois de morto passou a ser considerado um autor “obrigatório”.

O livro, porém, não merece o pináculo da brasilidade, como pretendem os chatos de plantão.
Falta-lhe garra para ser uma obra inolvidável.

Pior foi ter lido a “edição educativa” da Ática.
Em uma das notas, por exemplo, “explica” que delfina era o título da herdeira do trono. Não, meus caros editores. Delfina era a mulher do delfim, ele sim herdeiro do trono francês, país onde a monarquia sempre tratou de impedir que mulheres ascendessem ao trono, aplicando a lei sálica, embora tivesse sido oficialmente abolida.
Na última capa, o resumo da vida de Lima Barreto conclui com “faleceu na cidade de Todos os Santos, em 1922”.  Todos os Santos é o nome do bairro, no subúrbio do Rio de Janeiro, vizinho ao Méier, como se pode perceber em outras partes do livro e na própria biografia disponível em todas as outras fontes – inclusive ao longo do livro.
Azar de quem se informou com base nas notas do editor.

 

Anúncios

Millôr Definitivo

Li 5299 frases do Millôr, o livro com o subtítulo A bíblia do Caos. (L&PM, 536 p., 16a. edição, 2014, R$ 69,90), que inclui 157 frases escritas entre 1994 (1a. edição) a 2007 (15a. edição). No início o livro se chamava 5.142 frases.

Aparecem fábulas, hai-kus (“traduzidos” como hai-kais por algumas décadas, no jornalismo brasileir0), frases políticas, de comportamento, noticiário em geral, trechos de peças teatrais.

Com coluna jornalística, sempre nos mais importantes meio de comunicação da época (O Cruzeiro, Veja, IstoÉ, Pasquim, Jornal do Brasil) Millôr tinha a obrigação de ser “criativo” para justificar o salário.
Dessa forma, algumas são realmente geniais, e atemporais, outras são bem maisoumenoszinhas, muitas ficaram demasiadamente marcadas pelo tempo, e não deixam de constar umas tantas besteiras, que a gente lê e se pergunta: o quê?!
As páginas se sucedem sem muitas reações do leitor.

Ao final, convenci-me de que, apesar de toda a fama, ele era uma pessoa igualzinha a você ou a mim.
Apenas tinha tido a sorte de viver no meio dos cariôcos da Zona Sul, que não se mudaram quando a capital do país foi transferida, e passavam o tempo só para sentir saudade do tempo em que bajulavam políticos. Continuaram a ser os donos da cultura brasileira e passaram a endeusar o próprio umbigo e “genialidades” bem questionáveis do grupinho.

– Quem é você para fazer um comentário tão incisivo como esse?

– Alguém que teve a pachorra de ler tantas frases que recheavam jornais e revistas.
Duvido que você a tivesse.

O livro vale mais como um retrato da história do jornalismo brasileiro da segunda metade do século XX.

 

 

Apenas um herói

Apenas um herói (Daniel Frazão, Rocco, 2008, 207 p., R$ 5,00) é um livro de leitura fácil, bem “digestível”.
Conta em primeira pessoa a história de um eterno fracassado, que vive no Rio de Janeiro, e vai trabalhar em um necrotério, enquanto espera uma herança de um tio.

Só que o livro tem a marca de quem tem muita pretensão e pouca vivência, por isso não chega a apresentar nada de novo.
Não, há sim algo de novo: as cenas de sexo são apenas relatadas que existiram; não são, como fazem tantos autores contemporâneos, aulas de anatomia e fisiologia misturadas com “catecismos” de Carlos Zéfiro.

O autor escreve bem, com vocabulário que não é recheado de expressões locais ou de época, e sua a leitura é fluida, porém não deixa marcas.
Quem sabe outros livros de Daniel Frazão possam ter mais conteúdo. Ele tem técnica, o que lhe falta é assunto. Parece que escreveu “pela obrigação de ser escritor”.

Ao longo do texto, deparei-me com dois parágrafos que me agradaram muito, por destruir dois “mitos”contemporâneos urbanos:

Nunca gostei de antiguidade. Produto de gente fresca. Bugigangas sem valor, arrematadas por esposas entediadas e casais de homossexuais intelectualizados. Antiguidades não fazem parte do meu mundo, o pequeno mundo de quem tenta sobreviver na cidade grande.

Depois de muito esforço, achei um lugar adequado. Um restaurante escuro e pequeno, sem som ambiente. Sempre detestei aqueles odiáveis tecladistas sem talento, fabricados sob medida para as churrascarias e pizzarias. Prefiro o silêncio acima de qualquer outra coisa.

 

 

 

Inferno

Lògicamente não é o livro de Dan Brown, já que nunca mais perderei meu tempo com esse escrivinhador.

Trata-se de livro com o mesmo título, Inferno, escrito por Patrícia Melo em 2003 (Planeta DeAgostini, 2003, 368 p. R$ 16,90).

Durante a infância, o menino José Luís Reis, o Reizinho, morador de uma favela no Rio de Janeiro, larga a escola e torna-se “olheiro” de um traficante no morro em que vive. Torna-se um viciado que perambula pelas ruas e becos, com o amigo Fake, um rapper. Apesar da tentativa da mãe, a empregada doméstica dona Alzira, em conseguir um trabalho como office-boy, o menino volta ao meio dos crimes, e passa a ser, outra vez, um dos “soldados” do traficante, ficando amigo de Leitor, um marginal intelectualizado, que defende a descriminalização das drogas.

A história percorre uns dez anos. José Luís sobe de grau na hierarquia do crime, e, antes de completar 18 anos, já matou várias pessoas, inclusive o chefe do tráfico naquela favela, tornando-se o líder comunitário e criminal.

A narrativa arrasta-se ao longo do livro, uma vez que assume ares de novela de televisão, com aquele Rio de Janeiro em que a Lagoa Rodrigo de Freitas é vizinha da Avenida Brasil. A maioria dos personagens degrada-se cada vez mais, enquanto as situações na favela (e suas vizinhas) apenas repetem o que já foi vivido sob outras lideranças.

O livro, que recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura quando lançado, é apenas mais um dos amontoados de clichês de romantização dos criminosos, tão ao gosto da imprensa. Há romances policiais de autores brasileiros muito mais interessantes do que este.

Sangre de amor correspondido

Sangre de Amor Correspondido, de Manuel Puig (Seix Barral, 1982, 208 p.), foi escrito enquanto o autor de O Beijo da Mulher Aranha vivia no Rio de Janeiro.

Lembranças que se sucedem e se misturam, na vida de um jovem, da adolescência ao início da idade adulta, em uma vilazinha do Estado do Rio, em um subúrbio da cidade do Rio, e no interior de São Paulo, enquanto passa de estudante a pedreiro, eletricista e encanador.

Suas relações com namoradas e amantes, e o peso da relação com pai e mãe.

Um livro que poderia ser mais criativo. Seria também muito mais curto, se não abusasse de palavrões e de expressões como “verdad?” e “está claro?”, que, muitas vezes, tornam a leitura tediosa. O autor ficou devendo algo de mais qualidade.

O Cortiço

O Cortiço, do grande Aluisio Azevedo (Martin Claret, 2011, 240 p., R$ 14,90), deveria ser leitura obrigatória para todos os brasileiros de tempos em tempos.

Em primeiro lugar, porque a atualidade do romance naturalista, publicado pela primeira vez em 1890, é incontestável. Em segundo lugar, e não menos importante, é a oportunidade de encontrar um livro escrito em muito bem escrita língua  portuguesa, algo que parece em vias de desaparecimento.

Não é necessária a vulgaridade ou os erros grosseiros para retratar a linguagem popular, de classes urbanas mais baixas, como crêem alguns “escritores caça-níqueis” de hoje.

A mescla de interesses dos imigrantes portugueses no final do Império brasileiro, entre a tradição lusitana e os novos costumes encontrados no Brasil, a fusão de cores de pele (indevidamente qualificadas como raças humanas), a sexualidade, ao mesmo tempo explícita e oculta, que até hoje domina o comportamento dos brasileiros. Tudo isso exposto com clareza em personagens bem retratados pelo escritor. Uma obra-prima, como sempre qualificada por estudiosos da literatura brasileira.

Cheiro de Cadillac

Cheiro de Cadillac, de Virgilio Moretzsohn (Moreira) (Scipione  Cultural, 1988, 142 p., R$ 16,50), é uma coleção de contos / crônicas que se referem ao próprio autor, que há alguns anos aguardava a leitura em alguma prateleira.

Não há seqüência ou relação entre as crônicas. Tanto podem ser para narrar o cheiro de carro novo, no meio do saudosismo de Ipanema, ou para falar da fé católica romana do autor, ou para, em vários deles, descrever admiração por figuras famosas como Frank Sinatra, Gauguin, Van Gogh ou Fernando Pessoa.

Algo porém une todas as narrações: o excessivo uso de frases em inglês, francês ou latim. Por que não demonstrar erudição também em suaíli, finlandês e tâmil?

Há um excesso de citações sobre História ou tudo mais que demonstre erudição.

Uma pena. Nessa ânsia de se mostrar mais culto, mais zona sul, mais privilegiado do que outros, o autor tornou o livro aborrecido.

Isso não quer dizer que o que foi escrito seja ruim. Não se trata disso. Mas há uma sensação de que o autor exagerou na dose. Talvez se tivesse a metade das páginas fosse melhor aproveitado.