Prêmio Nobel

Demian

Demian, de Hermann Hesse, escrito em 1919, é tido como a auto-bio-graphia do famoso escriptor que, nas décadas de 1960 e 1970, tornou-se ícone dos movimentos pacifistas.

Li a 45a. edição brasileira, comemorativa dos cinqüenta anos do lançamento da obra em terras tupinambás. Editora Record, 2016, tradução e pós-fácio de Ivo Barroso, 194 p., R$ 32,90.

O livro narra a história de um garoto, Emil Sinclair, que tem dificuldades de relacionamento com os colegas na escola. Nesse contexto ele conhece Max Demian, que lhe expõe teorias sobre a capacidade das pessoas em praticar tanto o bem como o mal, chamado o Sinal de Caim, e que lhe fala de Abraxas, a divindade síntese de deus e do demônio.

Mais tarde, Sinclair conhece outros rapazes com quem troca conversas do mesmo tipo de religiosidade mística, um mais velho, o organista Pistórius, e outro da mesma idade, Knauer. O vínculo com Demian, contudo, sempre jaz e floresce na vida de Sinclair, como uma forma de amor platônico, que anos mais tarde também se transfere para a mãe de Demian, Eva.

Tudo no livro são narrativas de pensamentos, de sofrimentos, de vergonha, de sexualidade não resolvida, de estudos psicanalíticos, de idealizações e idealismos.

Ao final, a Guerra se impõe, pois para que algo nasça é preciso que alguma coisa morra…

 

 

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Inimigos: Uma História de Amor

Inimigos: Uma História de Amor (Enemies, a love story; Sonim, di Geshichte fun a Liebe, no original em iídiche), romance de Isaac Bashevis Singer (L&PM Pocket, 2001, 353 p., R$ 9,00, tradução de Carmen Vera Cirne Lima e Júlia Tettamanzy), é mais um interessante texto do autor polonês-americano. que também gerou filme (como Yentl), em 1989, dirigido por Paul Mazursky, com Ron Silver, Anjelica Huston, Lena Olin and Margaret Sophie Stein.

No final da década de 1940, em Nova York, um refugiado judeu divide-se com duas diferentes mulheres, Yadwiga, a empregada doméstica católica que o escondeu durante a Segunda Guerra Mundial, com quem se casou “por gratidão”, e Masha, a amante judia que vive com a mãe. Desloca-se do Brooklyn ao Bronx, levando vida dupla, até que chega Tamara, que era sua mulher antes da Guerra, e que tinha sido dada como morta.

A partir daí, o rodízio entre as diferentes esposas, levam ao aguçamento das neuroses de quem vive sob o fantasma da perseguição e do sofrimento – todos eles.

Um bom livro, que prende a atenção e deixa um clima de suspense em cada reviravolta que ocorre nos relacionamentos.

47 contos de Isaac Bashevis Singer

Concluí hoje a leitura de um dos melhores livros que desbravei nestes últimos tempos:

47 contos de Isaac Bashevis Singer (Companhia das Letras, 720p., 2004, R$ 31,00), com excelente prefácio de Moacyr Scliar.

Os contos são quase todos impregnados de indisfarçável caráter auto-bio-gráfico.
Como são contos, não cansa a leitura.
Cada um é cada um.
Dentre eles está Yentl, que foi tornado peça de teatro, em 1975, e depois filme, com Barbra Streisand, em 1983.

Há contos passados na Polônia sem data, relatos que ele ouvia durante a infância, outros na Polônia do início do século XX (período ainda sob domínio russo-austro-alemão), outros pré-Segunda Guerra Mundial.
Contos mais modernos se passam nos Estados Unidos – Nova York ou Flórida – no período pós-Segunda Guerra, ou em Israel, e até mesmo na Argentina.
Muitas palavras ou expressões estão em  iídiche, mas nada impossível de ser aprendido no glossário.

O que me surpreendeu foram as lições sobre o judaísmo.
Nunca imaginara que fossem tão tão tão supersticiosos!
Diabinhos, talismãs, amuletos, quebrantos, reencarnações, inferno (não eterno), e coisas do tipo em quase todos os capítulos.

Sem contar a tradição do casamento:
as casamenteiras saem para procurar “um bom partido” para ele e para ela.
Se não der certo, porém, nada mais fácil do que obter o divórcio.

Caramba, os judeus ashkenazim são muito mais complicados do que eu pensava…
Só não posso dizer isso a eles.

A tradução de José Roberto Siqueira parece ter sido feita por alguém que não mora no Brasil. Há termos que parecem demasiadamente com dicionários, e não com expressões da língua contemporânea.
A revisão, feita por Ana Maria Barbosa e Carmen S. da Costa também deixa a desejar. Curiosamente, são mais evidentes os erros em um conto que narra a história de um vizinho, que era revisor em um jornal iídiche em Nova York.

Descobri que há muito tempo, durante a adolescência, eu havia lido O Mago de Lublin (traduzido para o português por Rachel de Queiroz), livro escrito por Bashevis em 1960, mas o nome do autor não havia ficado registrado em minha memória – apenas o livro.
Gostei tanto de ler Bashevis, que já me municiei de outros dois livros de sua autoria: O Penitente, e Inimigos: Uma História de Amor, ambos publicados pela L&PM.

 

Hermann Hesse

Hermann Hesse, embora nascido em 1877 e ter morrido em 1962, pode ser considerado um autor contemporâneo, atual, pois fez muito sucesso com as “gerações Woodstock”.

Li, mais de uma vez, Sidarta, romance escrito em 1922, sobre um outro Sidarta, que teria vivido na época de Gautama, o Buda Histórico.

O jogo das contas de vidro, de 1943, é utopia que se desenrola no século XXV

Além disso li o conto Alma de Niño, na coletânea Cuentos Universales, sobre o qual comentei que Hesse Hesse é um escritor sempre preocupado com moral, com ética, no sentido profundo, religioso até, na descrição de comportamentos de um jovem que demora para atingir a maturidade (prenúncio do mundo do século XXI).

Hesse recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1946 e é, sob meu ponto de vista, um misto de romancista e profeta.

Infância

Terminei de ler Infância, de J. M. Coutzee (Companhia de Bolso, 2010, 150 p., R$ 20,00).

A “ficção auto-bio-gráfica” do próprio Coetzee, passada em diferentes áreas do Cabo Ocidental, é um amontoado de lembranças mal resolvidas de uma infância amarga em que o autor coloca-se como terceira pessoa, na década de 1940.

Foi possível a Coetzee mostrar um bom apanhado da África do Sul, sua incrível variedade de paisagens na geografia, a presença de etnias muito diferentes, tanto na origem geográfica quanto no tempo histórico, o que, em geral, é mal conhecido pela maioria dos estrangeiros (presos a estereótipos do politiquês correto e històricamente falho, tão cheios de pré-conceitos quanto os que são lançados contra os antigos governantes africânderes – afrikaners), a diversidade de línguas (atualmente onze são as línguas oficiais no país), a multiplicidade de igrejas. Um país de múltiplas faces, onde o autor auto-bio-grafado parece não se encaixar.

Nisso o livro foi uma viagem que pude refazer, por ter passado uma temporada na África austral, há cerca dee sete anos, e por ter visitado quase todos os lugares mencionados por Coetzee.

Contudo, foi outra vez uma decepção ler algo do mais falado escritor sul-africano! Alguns capítulos são de leitura ágil, prendem a atenção do leitor, enquanto que os seguintes podem ser arrastados, cheio de rodeios, viagens sem rumo.

A edição da “griffe”, como de hábito, é fraca. Por exemplo, menciona-se o Karoo pela primeira vez no livro na página 49, mas só adiante, depois de ser citado mais vezes, aparece na página 83 uma Nota do Editor para dizer que se trata de uma ” “região semidesértica da África do Sul”, cheia de flores, faltou também dizer. Provàvelmente o Editor e os revisores não tinham lido com atenção as páginas anteriores. A lombada da capa também é escrita com as letras de modo que o título não possa ser lido se estiver na posição horizontal.

Além de minhas lembranças reavivadas com os diversos capítulos, pude lembrar de minha primeira professora de Inglês:

to like significa gostar de; ninguém like of, e ninguém gosta sòzinho.

O pessoal da editora, pelo visto, não teve aulas com dona Gilberta. Não sabem que regência verbal existe tanto em inglês como em português.

A linguagem de Coetzee, no original, como tive a oportunidade de ler em Disgrace (mal traduzido para Desonra em português), não imita os erros gramaticais de personagens; usa em inglês a linguagem correta. Não foi o que ocorreu na tradução em português, que invàriavelmente ignorou a ênclise, que muitas vezes dá mais rapidez à frase, pela tonicidade no início. Muitas frases soariam melhor. O des-acordo ortográfico, tão precioso à editora, pouco me importa.

Por sua vez, nem todas as frases escritas em africânder (afrikaans) mereceram tradução para o português, pois não deve haver tradução para o inglês no original. Podiam ao menos ter merecido uma nota de rodapé, como o Karoo.

Por sorte, quando na África do Sul, como já comentei no artigo anterior, tive a sorte de ler livros de outros autores, e minha visão sobre o país foi muito mais ampliada, do que aos leitores que apenas conhecem Coetzee, seus prêmios de jornalista e o Nobel. Para mim fica consolidada a percepção de que Academia de Letras e Prêmio Nobel são apenas galardões políticos, não méritos efetivos.

duas vezes África

Estou lendo um livro de John Maxwell Coetzee, Infância, que comentarei nos próximos dias, e me lembrei de sua obra mais conhecida no Brasil, Desonra, que eu tive a oportunidade de ler quando estive na própria África austral, com o título original Disgrace (Penguin Books, 1999, 218 p.)

Procurei se havia alguma anotação minha sobre esse livro e essa leitura, e encontrei apenas um comentário, que escrevi em dezembro de 2007, com as observações:

Terminei de ler um livro chamado “Disgrace”, de J. M. Coetzee (1999), um sul-africano com vários prêmios. Mas o livro é fraquinho, não me impressionou. Fala de uma branca sul-africana estuprada por um grupo de negros na fazendola onde ela mora com o pai, um ex-professor universitário babaca, que perdeu o emprego porque transava com as alunas.

Lógico que isso significa que eu não gostei da obra. Para quem quiser outros comentários, sugiro a wikipedia, com http://en.wikipedia.org/wiki/Disgrace_%28novel%29

Certamente a confraria dos escritores jornalistas tem opinião diferente do que a minha, mero leitor que não é pago para elogiar quem quer que seja.

Por outro lado, naquele mesmo mês de 2007, li também

Dark Star Safari (Houghton Mifflin, 2002), do americano Paul Theroux, que conta a viagem que ele fez de Al-Qahira (Egito) a Kaapstad (Suid-Afrika), em uma viagem de reencontro com a África, depois de ter morado no Maláui. Como ele xinga a situação africana, que só piora, gostei muito. Pelo menos ele tem a visão crítica de que paternalismo de países ricos não resolve nada, enquanto existem ONGs ladronas e políticos africanos ainda mais ladrões.
Trabalho voluntário? Hahaha. Picaretagem que ilude alguns trouxas para o trabalho pesado.
Diplomacia? Que besteira. Os diplomatas sempre têm de fingir otimismo.
Por essas, o gringo acabou por ter minha simpatia.

Ao checar o verbete sobre o autor na mesma Wikipedia, encontrei ainda mais motivos para concordar com ele:

Theroux has been critical of Bono, Brad Pitt, and Angelina Jolie as “mythomaniacs, people who wish to convince the world of their worth.” He has also asserted that “the impression that Africa is fatally troubled and can be saved only by outside help—not to mention celebrities and charity concerts—is a destructive and misleading conceit”.

Faltou incluir nessa frase do verbete a deplorável Madonna.

Bem, duas visões bem diferentes da África. A “triste” porque não deu certo, e a “triste” porque nunca vai dar certo.

Objecto quase

Objecto quase, de José Saramago (Companhia das Letras, 1998, 134 p. R$ 17,00), é uma coleção de contos do realismo fantástico, composta em 1978. Constam do livro:

  • Cadeira
  • Embargo
  • Refluxo
  • Coisas
  • Centauro
  • Desforra.

A leitura é muito rápida, ao contrário do que costumam ser os indigestos romances do “badaladissíssimo” escriptor “nobelizado”.

O que mais me chamou a atenção foi que parecia, na maior parte do tempo,  que estava eu a ler algum livro de José J. Veiga, tantas as semelhanças de estilo e de conteúdo.

Por sua vez, é interessante como a griffe dos livros caros submeteu-se à orthographia do lusitano, quando outros autores são submetidos às revisões de pasteurização da escripta, como se os leitores fossem incapazes de ler o que esteja escripto fora dos padrões de diccionaristas e dos acadêmicos, escolhidos mais pelas características políticas do que literárias. Vale o mesmo comentário para os livros portugueses que vinham com a inscripção de que a venda no Brasil era-lhes proibida. Por conta desse absurdo tão absurdo, inventaram que precisamos de um desacordo orthographico, enquanto australianos e sul-africanos sequer prestam atenção se ingleses preferem theatre e americanos theater.