frases

Tutaméia

Estou sumido do blogue.
Não estou sumido da leitura.
Ocorre que Tutaméia (Terceiras Estórias), de Guimarães Rosa, não é uma obra que possa ser comentada.
A leitura é lenta, não por ser difícil, mas porque em cada linha encontramos algo que merece ser matutado, um verdadeiro tratado de filosofia.
Humor sutil, pensamentos que conduzem a outros.
Tutaméia é uma verdadeira lição de vida.
Se ainda não o leu, comece hoje.
Talvez a vida não lhe seja tão longa para concluir a leitura.
E certamente a vida lhe será menos inteligente sem essa obra-prima.
O texto pode fàcilmente ser encontrado na internet, e baixado em pdf.

Mário Quintana

Mário Quintana (Editora Nova Aguilar, 2005, 1020 p.).

Vocês certamente conhecem o

POEMINHO DO CONTRA
Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

 

Conhecem também?

  • Não deves acreditar nas respostas. As respostas são muitas e a tua pergunta é única e insubstituível.
  • Nem todos podem estar na flor da idade, é claro!
    Mas cada um está na flor da sua idade.
  • Se dependesse das mães, não haveria guerras!
    Mas as filhas preferem os soldados…
  • Confesso que até hoje só conheci dois sinônimos perfeitos: “nunca” e “sempre”.
  • Verdadeiro conto de horror:
    Um dia os homens descobriram que esses discos voadores estavam observando a vida dos insetos…
  • No mundo de hoje, para desconsolo dos descendentes de Sindbad e de Marco Polo, a única cor local das cidades famosas são os turistas.
  • A preguiça é a mãe do progresso.
    Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.
  • –  Quero propor-lhe uma troca de idéias…
    – Deus me livre!
  • Todos temos a mesma chance? Mas ainda me lembro que, pela década de 20, eu sonhava vier em Paris…
    e havia gente que já tinha nascido lá mesmo.
  • Não sei ao certo quem era ela, nem o que ela fez,
    mas tenho a certeza de que Dona Urraca foi um das princesas mais infelizes do mundo…
  • Quando alguém pergunta ao autor o que este quis dizer é porque um dos dois é burro.
  • O leão é um animal tão belo que ser devorado por ele é melhor do que ser devorado por um crocodilo…
    Diante da sua arremetida, bem sei que se pode morrer de puro medo… porém nunca de horror.
  • Dizem os comunistas que a religião é o ópio do povo; outros dizem que o ópio do povo é precisamente o comunismo;
    se pedissem a minha opinião, eu diria que o ópio do povo é o trabalho.
  • O que eles chamam de nossos defeitos é o que nós temos de diferente deles.
    Cultivemo-los, pois, com o maior carinho – esse nossos benditos defeitos.
  • Amigo é a criatura que escuta toas as nossas coisas sem aquela cara que parece estar dizendo:
    – E eu com isso?
  • Conversa de velho é cheia de parênteses e esses parênteses são cheios de parentes…
  • Tic-tac é uma mera ilusão auditiva, graças a qual a gente ouve sempre “tic-tac” e nunca “tac.tic”…
    Depois disso, como acreditar nos relógios? Ou na gente?
  • O verdadeiro crime de Oscar Wilde, jamais perdoado, foi que ele era profundo sem ser chato…
  • Os psiquiatras são incuráveis?
  • No mundo não há nada mais importante do que as políticos das cidades pequenas.
  • Se não fosse Van Gogh, o que seria do amarelo?
  • Por que ainda ninguém se lembrou de pintar uma mulher nua de óculos?
  • Esta nossa mania de pronunciar corretamente os nomes estrangeiros… O diabo é que para acertar por palpite, só não os pronunciamos como está escrito.  Em 35, no Rio, um sueco, meu companheiro de pensão, me garantiu que Nobel lá se diz Nobél mesmo e não aqui como nestes Brasis: o Prêmio Nóbel, a Coleção Nóbel. Em contrapartida, os estrangeiros não se dão ao mesmo trabalho conosco. Não, não estou me queixando… Eu até gozava imenso um amigo francês que me chamou imperturbàlmente de “Messiê Quintaná” anos a fio, até que um de nós morreu. Era um excelente homem: deve estar no Paraíso.
  • O bom dessas grandes civilizações é que um dia elas se acabam e tudo começa novamente.
  • A indiferença é a mais refinada forma de polidez.
  • Um dos motivos que me fazem acreditam em n0ssas origens extraterrestres é que  homem é o único animal que aprecia olhar os incêndios.
  • Lavoisier disse: Nada se perde; tudo muda de dono.
  • Clair de lune, chiaro de luna, claro de luna… jamais os franceses, os italianos, os espanhóis saberão mesmo o que seja o luar, que nós bebemos de um trago numa palavra só.
  • Os homens que se dedicam ao golfe são os que compensam por não terem jogado bolita quando meninos.
  • E por falar em compensação, as nossas mortes são noticiadas como nascimento pela imprensa do Outro Mundo.
  • Não gosto da arquitetura nova, porque a arquitetura nova não faz casas velhas. Não riam, por favor, que o poema é triste.
  • E mais este outro que já comentei em outro blog:

Espelho Mágico
L (cinqüenta)
Da Amizade entre Mulheres

Dizem-se amigas… Beijam-se… Mas qual
Haverá quem nisso creia?
Salvo se uma das duas, por sinal,
For muito velha, ou muito feia…

 

Mário Quintana tinha senso de humor e muita sensibilidade.
O livro contém os sonetos, as poesias menos quadradinhas, e aquelas famosas frases que preenchem tanto espaço na infernet.
Tratava igualmente da infância (dele e alheia), da morte, do quotidiano, dos poetas e das poesias.
Que delícia!

Muito melhor do que aqueles pseudo-poetas de copabanana, que olharam para trás e viraram estátuas, como a mulher de Lot.
Aqueles que tiveram de mudar para o Rio de Janeiro, “para não serem provincianos”.
Ou outros, que já nascidos na então capital do país, só sabiam usar o diminutivo…

Mário Quintana vale a pena.
Mário Quintana (1906-1994), o velhinho que foi despejado do quarto de hotel onde morava, porque fizeram homenagem enquanto ele ainda estava vivo.

 

Contos do nascer da Terra

livro010Contos do nascer da Terra, de Mia Couto (Companhia das Letras, 2014, 270 p,, R$ 21,00) contém 35 textos do renomado escritor moçambicano, um dos maiores expoentes da literatura em língua portuguesa contemporânea.

Em todos eles, a característica de criar palavras, a partir de dois conceitos que se somam ou se opõem, como O homem era um vidabundo, ou Minha água-natal, de freqüentemente alterar ditos e provérbios, como Não ata nem diz ata, e de formar frases com palavras de som assemelhado, como Um homem atravessou a calçada, desavultado vulto avulso.

Os contos muitas vezes relatam casos da relação entre pais e filhos, ou de casamentos desfeitos, de pessoas vítimas da guerra civil que marcou a fase da independência de Moçambique, ou são adaptações de fábulas africanas. Na verdade, preferi ler os contos criados do que as fábulas adaptadas, que se tornaram em geral sem forma nem formato, desenroladamente roliças.

A leitura dos contos é um constante exercício para os olhos e para as idéias do escritor e do leitor, para quem utiliza os neurônios subjacentes da linguagem.

Mia Côunto: leitura obrigatória.

 

Millôr Definitivo

Li 5299 frases do Millôr, o livro com o subtítulo A bíblia do Caos. (L&PM, 536 p., 16a. edição, 2014, R$ 69,90), que inclui 157 frases escritas entre 1994 (1a. edição) a 2007 (15a. edição). No início o livro se chamava 5.142 frases.

Aparecem fábulas, hai-kus (“traduzidos” como hai-kais por algumas décadas, no jornalismo brasileir0), frases políticas, de comportamento, noticiário em geral, trechos de peças teatrais.

Com coluna jornalística, sempre nos mais importantes meio de comunicação da época (O Cruzeiro, Veja, IstoÉ, Pasquim, Jornal do Brasil) Millôr tinha a obrigação de ser “criativo” para justificar o salário.
Dessa forma, algumas são realmente geniais, e atemporais, outras são bem maisoumenoszinhas, muitas ficaram demasiadamente marcadas pelo tempo, e não deixam de constar umas tantas besteiras, que a gente lê e se pergunta: o quê?!
As páginas se sucedem sem muitas reações do leitor.

Ao final, convenci-me de que, apesar de toda a fama, ele era uma pessoa igualzinha a você ou a mim.
Apenas tinha tido a sorte de viver no meio dos cariôcos da Zona Sul, que não se mudaram quando a capital do país foi transferida, e passavam o tempo só para sentir saudade do tempo em que bajulavam políticos. Continuaram a ser os donos da cultura brasileira e passaram a endeusar o próprio umbigo e “genialidades” bem questionáveis do grupinho.

– Quem é você para fazer um comentário tão incisivo como esse?

– Alguém que teve a pachorra de ler tantas frases que recheavam jornais e revistas.
Duvido que você a tivesse.

O livro vale mais como um retrato da história do jornalismo brasileiro da segunda metade do século XX.

 

 

Autores na infernet

Sempre, sempre, sempre a mesma coisa.

Diaporamas infernetosos que circulam por aí, com frases melosas, daquelas que fazem mal a diabéticos, ou com frases até obscenas, atribuídas a algum escritor famoso.

Vinicius, Fernando Pessoa, Veríssimo, Benedetti, García Márquez, Neruda, Borges, Woody Allen, sei lá quem mais.
A gente pesquisa na interlenta e os erros aparecem lá, multiplicados pelas pessoas que nunca se preocuparam em buscar as fontes originais.
Você pesquisa em livros autênticos, de papel, tinta e letras, com capa, contra-capa e lombada, e verifica que o texto nunca existiu na obra daquele autor.

Que sacanagem com o escritor fazem esses abestalhados que não têm coragem para assinar, mas acham-se geniais ao atribuir o texto a um famoso.

Quando eu tiver morrido, espero não “ver” circular por aí algum texto atribuído a mim.
Juntarei as cinzas para puxar as pernas do maledetto que tiver feito isso.

A imbecilidade du çerizumanu não tem limites.
A infernet multiplika uz hêrrus.

Platão e um ornitorrinco entram num bar…

Li em julho de 2009 “Platão e um ornitorrinco entram num bar“ (Plato and a Platypus Walk Into a Bar),  de Thomas Cathcart & Daniel Klein (Editora Objetiva, 2007), que tem ainda o subtítulo “A filosofia explicada com senso de humor” e que parece um livro muito mais velho do que o é, embora escrito, ou melhor, copyrighteado, em 2006.

O livro é formatado de modo a explicar a filosofia para quem não quer levar a sério as coisas sérias, como diz a maioria dos comentários que encontrei.

Existe porém algo que incomoda: as piadas já circularam pela internet muito antes de ela ter se popularizado no Brasil. Certamente não havia blogues, e eu não tinha uma lista com mais de 100 endereços eletrônicos diários quando li a maioria das piadinhas que estão inseridas no livro, para ilustrar as diversas escolas filosóficas.

Dessa forma, a sensação de algo passado, o déjà vu (ou déjà lu) incomoda. É difícil dar risada das velhas piadas que ainda circulam pela internet. É difícil dar risada das mesmas velhas piadas, mesmo que aplicadas a situações da história da filosofia. Nesse sentido, o livro perde seu objetivo, pois nem fica sério, nem vira gozação, é apenas mais uma repetição, ilustrativa.