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O Vendedor de Passados

O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa (Gryphus, 2011, 200 + 8 páginas, R$ 21,00, no Sebo), é sem dúvida merecedor de um prêmio!

O livro mais CHATO que já li, desde que fui alfabetizado nesta encarnação!
Nem sei quantos meses eu me arrastei para concluir a leitura dessa obrada!

O começo curioso, com a participação de uma lagartixa da espécie osga, que recebeu o nome de Eulálio e vive na casa do albino Félix Ventura, em Luanda.
Outros personagens menos interessantes surgem, como José Buchmann, Ângela e Edmundo
Melhor seria se o livro se focasse na Velha Esperança, que arruma a casa no início do romance.

Narrado ora em terceira pessoa, ora pelo inFeliz desVenturado albino e ora pela filosófica lagartixa, o texto já se perde nessa experiência.

Para piorar, o livreto ganhou 64 páginas em branco e mais 8 iniciais, para que a editora pudesse chegar a 200 páginas e propusesse um preço mais elevado.

Procurei outros comentários e/ou críticas sobre o livro, e tampouco foram favoráveis (ou farofáveis).
Achei melhor colocar o link para a versão cinematográfica (brazuco-global), com os comentários dos leitores/visualizadores:

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-218155/criticas-adorocinema/

 

Silêncio

Silêncio, de Shusaku Endo (Tusquets editores, traduzido do japonês para o inglês por William Johnston e daí para o português por Mário Vilela, 2017, 270 p., R$ R$ 37,00), foi escrito em 1966, e aborda a perseguição religiosa promovida no Japão, durante o século XVII, contra os cristãos que tinham sido convertidos por missionários portugueses anos antes.

O livro tem prefácio do cineasta Martin Scorsese, que dirigiu filme do mesmo nome em 2016.

Dois padres, Ferreira e Garpe, viajam de Goa para Macau e partem em viagem clandestina para o Japão, com o intuito de restabelecer o contato de Portugal com os cristãos convertidos nas décadas anteriores durante missão de São Francisco Xavier, iniciada em 1549, mas que passaram a ser perseguidos pelo novo governo do xogunato japonês, a partir de édito de expulsão de 1614.

Além disso, buscavam informações sobre um padre Rodrigues, que havia sido professor no seminário em Lisboa, de quem se dizia que havia feito a apostasia.

O romance baseia-se em fatos reais, mas não é um retrato histórico. Muitas datas e fatos aparecem corrigidos nas notas de rodapé do tradutor.

Descreve a vida das reclusas comunidades cripto-cristãs no Sul do Japão, e as muitas práticas de tortura a que eram submetidos para efetivarem a apostasia, bem como as traições realizadas por japoneses, que denunciavam inclusive parentes, em troca de recompensas.

Padre Ferreira, personagem principal, faz comparações entre ele mesmo, a apostasia, o flagelo de Jesus, e o papel de Judas.

Apesar do tema, o livro tem leitura fácil e desenvolve uma importante dúvida entre civilizações e culturas que, costumeiramente, consideram-se superiores a outras, tentando impor seus costumes e suas doutrinas.

 

 

 

O Futuro da Humanidade

Emprestaram-me o livro O Futuro da Humanidade, de Augusto Cury, que é “a emocionante história de um médico e um mendigo em busca de um mundo melhor” (Arqueiro, 2005, 252 p.).

A primeira parte, que mostra a importância da filosofia para “humanizar” os médicos, é muito interessante.

A segunda parte, porém, vira um amontado de pieguices, na maioria das vezes recheada de clichês, como o doente judeu que ficou amigo do doente palestino.
O médico que só pensa no remédio.
A enfermeira que se torna uma nazistona e foge dos doentes.

Há partes muito interessantes, como a necessidade de unir psiquiatria e psicologia, mas como ele mesmo coloca, os interesses das duas categorias não se colocam com a mesma disposição. Afinal de contas, os conselhos profissionais (guildas) perderiam poder.

Ele não leva em consideração que 8114% dos estudantes e formados em philosophia estão preocupados com “lutas de classes” e não com a natureza humana.

E acho que não sabe que a pior parte dos hospitais não são os médicos, nem os enfermeiros, nem os seguranças, nem o equipamento, nem os remédios.
São os “voluntários”. Gente que veste um jaleco ou avental e se torna ótóridade, para poder destratar à vontade os pacientes e os acompanhantes.
Isso nem a vã filosofia poderá corrigir.

Ainda não terminei a leitura.

Mas certamente vou ter as mesmas restrições que sempre tive contra esse tipo de livro de baixo-ajuda. Alta ajuda para quem recebe dinheiro com eles e com as palestras decorrentes.

21 de julho de 2017

Parte 2

Concluí a leitura.

De repente o livro adquire novamente fôlego, ao falar da indústria farmacêutica ditando regras na medicina (e nos pacientes e cobaias de tantas novas drogas, por isso mesmo chamadas de drogas), e também quando o personagem principal encontra uma aluna com quem trata a difícil relação entre as diferentes enfermidades ou estados mentais, com destaque na depressão.

Os questionamentos que são feitos nesses dois capítulos são realmente instigantes,

O livro, porém, retoma a pieguice de capítulos anteriores e parte para o clichê da pobre menina milionária, que sofre solidão no palácio em que vive. Parecia uma novela mexicana.

O autor do livro, porém, repete mais de uma vez aquela coisa de “coitadinhas das criancinhas da África”. Não sei se parecia madona ou joão malo jovi.
Sei que todos eles esquecem que o problema da África não é ter pobres, mas, bem o oposto, é ter os mais ultra-arqui-multi-milionários e perenes ditadores do planeta.
Em ordem alfabética: Angola, Burkina, Congo-Brazzaville, Eritréia, Etiópia, Gabão, Guiné,Guiné Equatorial, República Centro-Africana (aquele país que foi do Bokassa), Sudão, Zimbábue, sem contar países que depois da ditadura ficaram ainda piores, desgovernados, como Egito, Líbia e sobretudo Somália.
Certamente devo ter esquecido de alguns outros países africanos, e aqueles cujas ditaduras se fazem por meio da perenização de certos partidos nessas democracias (África do Sul, Botsuana, Congo-Kinshasa, Moçambique, Namíbia, ..).

Nesse bom mocismo do autor, de falar dos coitadinhos no planeta, ele esqueceu de falar dos médicos sem fronteira, aquela ongeira que leva jovens idealistas a curtir boas festas, na África, junto com funcionários internacionais do podre sistema onu.

E por falar em médicos sem fronteira, lembrei dos médicos brasileiros dessa ongice e dos técnicos em medicina que importamos de cuba, pois os nossos jalecos foram cuidar de suas preocupações em outras partes do mundo, enquanto a ditadura cubana emprestou para nós os profissionais de saúde que ficaram faltando.

Ah, e se você acha que ongices são coisas boas, sobretudo na saúde, é bom olhar nos sites e ver quantas cruzes vermelhas aqui na tupinambalândia foram assaltadas, nos últimos meses, por seus dirigentes, sem contar as várias demoníacas casas.
Sem caridade não há saúva-ação, não é mesmo?
Rouba-se de onde surge dinheiro.

A atingir os últimos três capítulos, que narram a festa de casamento, veio aquela sensação ruim de que o livro era apenas um espelho das fantasias de um dos piores canastrões que já houve no cinema:
Robin Williams, aquele chato que estragou tantos filmes “de humor” ou de “sentimento”.
Aquele cara que, apesar do filme Um Amor Além da Vida, não se preocupou em se suicidar (apesar dos desmentidos, um ano depois, da viúva, que arrumou uma desculpa de enfermidade física para o corpo que ela tinha mandado cremar, e naturalmente não pôde ser verificada a alegação da senhora viúva rica).
Excetuado “Babaca quase perfeito”, R. W. sempre foi um péssimo ator que interpretava personagens ainda piores.
Aliás, no filme que mencionei, do babaca quase perfeito, o mérito foi do pessoal da maquilagem, não do ator mais piegas que já surgiu na telona.
Augusto Cury sequer disfarçou a “fonte onde bebeu”, pois a bonita música de good-bye vietnam (what a wonderful world) é repetida vezes no livro.

Bem, parando com digressões, e voltando ao livro, tinha de princípio suspeitado que fosse um livro de alta-ajuda para o autor. A própria capa já insinuava isso.
Após concluir a leitura, fiquei pensando se esse defeito preponderava sobre o restante do conteúdo.
Não, claro que é importante demais que se discuta o papel da “humanização” das “ciências”, o papel dos fármacos, a necessária fusão de cursos universitários.

Não só psiquiatria e psicologia, como abordado pelo médico psiquiatra autor do livro, mas também outras matérias que se necessitam e se rivalizam mùtuamente, como educação física e fisioterapia (e seus apêndices nutricionais), os cursos das chamadas fefechês (história, geografia, ciências sociais e outras similares), arquitetura e engenharia civil, e também os cursos de línguas (o método comparativo entre elas, que exige estudar gramática é muito mais eficaz e duradouro do que a mera decoreba de cools e kuhs nas escolas de idiomas.

Curioso que o médico tão correto e “humano”’ derrapa e demonstra não saber ainda que só existe uma raça de homens: a raça humana, as variações que existem são étnicas.

O autor vendeu mais de 20 milhões de exemplares de seus livros na tupinambalândia. Pois é. Certamente o doutor psiquiatra, que além disso saiu por aí dando palestras e participando de programas de televisão, deve ter recheado muito bem sua conta bancária.
Mas como, os banqueiros não são os malvados corruptos que estavam na festa do casamento retratada no livro?

Como se vê, o livro pode ser resumido em:
faça o que eu digo, e não o que eu faço.
Algo que me parece típico de de médico sedentário que fuma e enche a pança na churrascaria. Já me consultei com uns tantos assim.

22 de julho de 2017.

Relógio sem Ponteiros

Relógio sem Ponteiros, de Carson McCullers (Novo Século, 2011, tradução de Adriano Oliveira e revisão (?) de Fabrícia Romaniv e Rafael Varela, 255 p., R$ 10,00), é um romance muito interessante, que aborda o tema da segregação racial no Sul dos Estados Unidos, no início da segunda metade do século XX.

Um velho juiz sonha em ressuscitar a Confederação, sofre com o suicídio do único filho, há 17 anos, e vive com o neto que se sente atraído por um órfão negro, que o juiz emprega.

O farmacêutico da cidade padece de leucemia e vive em rancor, preso ao passado e sem qualquer tipo de afeto pelas pessoas que o cercam.

Toda a pequena cidade de Milan vive em decadência.

Os diálogos do livro são densos, contundentes.

O texto não perde tempo com descrição de paisagens que em nada interferem no desenrolar da trama.

Um livro muito interessante.

A revisão é que pecou bastante, sobretudo na primeiro parte.

Desconhecia a autora Carson McCullers, que viveu de 1917 a 1967, mas havia assistido o denso filme Os Pecados de Todos Nós, de 1967, dirigido por John Huston e estrelado por Elizabeth Taylor e Marlon Brando.

Carson deixou poucos livros, mas merece ser mais conhecida e divulgada.

Os Farsantes

Concluí a leitura de Os Farsantes, escrito por Graham Greene em 1966 (Biblioteca Azul da Editora Globo, 2016, traduçåo de Ana Maria Capovilla, 359 p., R$ 39,00).

O livro é escrito em primeira pessoa, com Brown, com um cidadåo inglês nascido em Monte Carlo, educado por jesuîtas, que herda da måe um hotel em Porto Príncipe e logo em seguida vivencia a ditadura de François Duvalier, o Papa Doc, e seus cruéis tontons macoutes.

Dentre os personagens, há a mulher de um embaixador sul-americano, que se torna amante do narrador.
Essa personagem, porém, nåo tem uma característica marcante – ao contrário da personagem feminina de O Americano Tranquilo.
Sua inserçåo em todos os capítulos nada traz de importante no restante da trama, que inclui rebeldes haitianos de vários espectros políticos e de diferentes níveis sociais, um ex-candidato à presidência dos Estados Unidos, um aventureiro inglês (Jones), que cria em torno de si a lenda de ter lutado contra os japoneses na Birmânia, e tenta contrabandear armas para rebeldes.
A leitura nessas partes do romance-adultério acaba se tornando um pouco arrastada, e quase nada contribuiu para o texto, pois o foco é a tentativa de deposiçåo do Papa Doc (que morreu no poder em 1971 e ainda deixou como legado ao Haiti seu filho Baby Doc).

O livro serviu de base para filme com o mesmo nome, de 1967, estrelado por Richard Burton, Elizabeth Taylor, Alec Guiness e Peter Ustinov.

Os Farsantes nåo é o melhor livro que já li de Graham Greene.

Wayne de Gotham

Batman sempre foi um super-herói de que gostei; talvez meu preferido. Arquimilionário, sem super-poderes (apenas a refinada “trecnologia“), e com um mordomo que resolve todos os problemas. Criado em 1939, por Bill Finger e Bob Kane, Batman é muito melhor do que aqueles outros super-heróis, em geral de classe média, cheios de mutações e também de fraquezas.

Wayne de Gotham, de Tracy Hickman (Leya – Casa da Palavra, 2013, tradução de Edmundo Barreiros, 270 p., R$ 15,00) é um livro que conta a história de Batman de outro modo: a oscilação entre a vida atual e o passado, das décadas de 1950/60, com o “império” multinacional de “beneficência” no submundo da pesquisas genéticas, de alterações de comportamento, agências secretas, e a tal “luta contra o crime”, que o avô e o pai de Bruce Wayne tinham fundado em Gotham City.

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A escrita prende a atenção do leitor, a ligeiras mudanças de parágrafos dão a nítida visão do que seriam cenas de ação nos filmes.
Não é, contudo, algo que conseguirá superar a inabalável versão de humor do seriado Batman e Robin, protagonizada por Adam West e Burt Ward, sem dúvida melhor do que qualquer filme sombrio (gótico) sobre o homem-morcego.

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Inimigos: Uma História de Amor

Inimigos: Uma História de Amor (Enemies, a love story; Sonim, di Geshichte fun a Liebe, no original em iídiche), romance de Isaac Bashevis Singer (L&PM Pocket, 2001, 353 p., R$ 9,00, tradução de Carmen Vera Cirne Lima e Júlia Tettamanzy), é mais um interessante texto do autor polonês-americano. que também gerou filme (como Yentl), em 1989, dirigido por Paul Mazursky, com Ron Silver, Anjelica Huston, Lena Olin and Margaret Sophie Stein.

No final da década de 1940, em Nova York, um refugiado judeu divide-se com duas diferentes mulheres, Yadwiga, a empregada doméstica católica que o escondeu durante a Segunda Guerra Mundial, com quem se casou “por gratidão”, e Masha, a amante judia que vive com a mãe. Desloca-se do Brooklyn ao Bronx, levando vida dupla, até que chega Tamara, que era sua mulher antes da Guerra, e que tinha sido dada como morta.

A partir daí, o rodízio entre as diferentes esposas, levam ao aguçamento das neuroses de quem vive sob o fantasma da perseguição e do sofrimento – todos eles.

Um bom livro, que prende a atenção e deixa um clima de suspense em cada reviravolta que ocorre nos relacionamentos.