França

Viagem com um burro pelas Cevenas

Viagem com um burro pelas Cevenas, de Robert Louis Stevenson (Editora Carambaia, tradução de Cristian Clemente, projeto gráfico de ps2 arquitetura + design, 2016, 114 p., R$ 87,90!) foi-me emprestado por um amigo.¶ Confesso que de início estranhei a própria capa, que imita a pela de um burro cuja reprodução é impossível em scanner doméstico. ¶ Igualmente a diagramação das páginas da edição Carambaia tem sua marca com a utilização do sinal (¶) para indicar os parágrafos, com a disposição das páginas pares e ímpares alinhadas apenas à margem da folha, de modo que se forma na parte de junção das páginas um espaço tortuoso que imita o caminho sinuoso da viagem feita por Stevenson. ¶ Outra marca é o uso de anotações nas laterais das páginas em verde, que indicam a localidade da viagem que foi atingidas pelo autor. ¶ Páginas verdes trazem um mapa https://www.google.com.br/maps/dir/43150+Le+Monastier-sur-Gazeille,+Fran%C3%A7a/44.6019346,3.9362352/30270+Saint-Jean-du-Gard,+Fran%C3%A7a/@44.6015438,3.895066,13z/data=!4m15!4m14!1m5!1m1!1s0x47f5f5894efb2095:0x4093cafcbe7fbc0!2m2!1d3.994968!2d44.939996!1m0!1m5!1m1!1s0x12b4718941d5a91d:0x1c078824698cdbb0!2m2!1d3.8757119!2d44.0969719!3e0 (linik que o WordPress não quer que fique em verde, mas em vermelho), o índice, e textos explicativos adicionados pela editora ¶ O autor de A Ilha do Tesouro, O Médico e o Monstro, em Viagem com um burro pelas Cevenas narra a viagem de doze dias, em, 1878, para percorrer sozinho e a pé cerca de 150 quilômetros por uma região pobre no sul da França, entre Le Monastier sur Gazelle até Saint Jean du Garde. ¶ Nesse sentido, o livro fica em algo entre uma crônica e uma carta pessoal distribuída a seus amigos. ¶ Modestine é uma burra que Stevenson compra no início da viagem, mas com a qual o autor tem um relacionamento difícil, com muitas incompatibilidades, embora um vínculo de afeto seja sentido entre os dois seres ao final da jornada. ¶ Dorme às vezes em pequenas pousadas / estalagens, e outras vezes ao ar livre, escondendo-se de ladrões ¶ Filho de família escocesa estritamente protestante, Stevenson preocupa-se durante a viagem com a história de uma revolta protestante huguenote dos Camisards ocorrida em 1702 contra as perseguições ordenadas pelo rei Luís XIV, e com a convivência em paz mas com muita segregação que as duas comunidades mantêm um século e meio mais tarde. ¶ Visita e se hospeda em um mosteiro trapista, onde encontra um monge escocês e onde ao se despedir provoca a surpresa do abade, ao ver que as doações encaminhadas à Escócia não haviam servido para a conversão dos protestantes. ¶ A narrativa do texto mostra bem a variação do humor ao longo dos dias, tanto na paisagem rude como no relacionamento com moradores que vivem em isolamento, muito desconfiados de estranhos. ¶ O vocabulário é rico, e as descrições não fazem com que o relato seja monótono. Um livro que ainda hoje merece atenção pelo estilo e pela influência que teve em relatar paisagens e pessoas. Merece ser lido.

 

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O Americano Tranqüilo

O Americano Tranqüilo, de Graham Greene (Biblioteca Azul da Editora Globo, tradução de Cássio de Arantes Leite, 2016, 228 p., R$40,00) foi o livro do autor inglês de que mais gostei, dos que li ou vi transformados em filmes.

A trama do livro se passa durante a Guerra da Indochina, entre a França e suas colônias, no início da década de 1950 (concomitante com a Guerra da Coréia).

Logo no primeiro capítulo é assassinado o personagem fundamental, Pyle, que é um americano que trabalha na “missão econômica americana” em Saigon.

A narrativa é feita por um jornalista inglês, Thomas, que avança e retrocede no tempo, para contar a relação com o americano, que se apaixona pela amante vietnamita do britânico, Phuong.

Thomas comenta contìnuamente sua admiração pelos asiáticos, o desprezo pelos franceses, e a falta de refinamento dos americanos.

O livro é recheado de informações sobre a situação política e o envolvimento dos diversos grupos, regionais ou estrangeiros, religiosos, civis ou militares, que atuavam à época na Indochina.

A forma como é apresentado o texto é muito interessante, pois já se sabe no início o final do assunto, mas a necessidade de se conhecer tudo o que houve antes ou depois do assassinato do americano prende a atenção do leitor.

Recomendo a leitura.

100 Experiências Gastronômicas

100 Experiências Gastronômicas para se ter antes de morrer, de Stephen Downes (Editora Prumo, 2008, 215 p., tradução de Ana Carolina Mesquita) é um livro que levei bem mais do que 100 dias para concluir a leitura. Costumava ficar ao lado da cama, para ler na hora em que me deitava.

O “renomado” (?!) crítico gastronômico australiano (Austrália?!), desses com coluna em jornal local (no caso, Melbourne), resolveu fazer um desses livros “numerais”- livro de 100. Enfileirou sua dose de esnobismo com diversas experiências gastronômicas que nada têm em comum.

Mantém típica dose de humor “superior”.  Caçoa de tudo e de todos, o que torna alguns capítulos muito engraçados. Essa mesma atitude, porém, esvazia vários outros.

Em alguns casos, Downes faz a descrição do preparo de certos pratos; em outros, apenas menciona o prazer que teve em degustar algo bem caseiro, típico em algum lugar (como o cuscuz argelino, ou o churrasco argentino). Perde-se no regionalismo “lá daquele canto do mundo”, na divisa entre o Vietnã e a Austrália, além, é claro, dos ensinamentos da sogra francesa.

O livro não mantém ritmo. SE não quisesse aproveitar a fórmula mágica de 100 (ou de 500 ou de 1000), e selecionasse apenas pela qualidade, a obra talvez não ultrapassasse 30 capítulos, e não seria publicado. Fica aí a sugestão para outra experiência para se ter antes de morrer.

Viagem ao Centro da Terra

Arrastei-me para ler Viagem ao Centro da Terra (L&PM Pocket, tradução de Renata Cordeiro, reimpressão de 2015, 239 p.), escrito em 1864/1867 por Jules Verne (ou Júlio, já abrasileirado).

Não que esse ícone da ficção científica seja ruim em termos de idéia, mas seus 45 curtos capítulos (parece um folhetim) não conseguiram gerar grande expectativa.

Resumos do livro podem ser encontrados abundantemente em toda a internet, inclusive versões em pdf. Por isso não vou me estender sobre esse aspecto.

Reconheço o trabalho de pesquisa científica que o autor teve, para discorrer sobre mineralogia e paleontologia ao longo de todo o livro, com todas as falhas comuns nessas ciências há 200 anos.  Essa pequena novela narrada pelo personagem Axel, porém, torna-se pouco a pouco enfadonha. Deve ainda ser acrescentado a isso a “ajuda da providência”, nada científica, de que abusa o autor em algumas passagens. Realmente um “ótimo roteiro” para filme classe B ou para telenovela.

Senhor revisor: o nome da menina virlandesa (Vierland, um distrito do sudeste de Hamburgo) é GraÜben, e não GrÄuben, como aparece em algumas páginas na segunda metade do livro. A pronúncia dessas duas formas de escrita é diferente.

Soumission

Soumission, de Michel Houellebecq (300 p., Flammarion, 2015, R$ 85,00).
O autor escreveu sobre o “risco islâmico” na civilização européia, antes que tivesse ocorrido a matança no Charlie Hebdo, e outras coisas do tipo, que já ocorreram depois.  O lançamento do livro, coincidentemente, ocorreu no mesmo dia do atentado.
Trata-se de um “romance visionário”, que alguns comentaristas comparam com os de Aldous Huxley ou de George Orwell.
Uma quinta parte do livro é para descrever quais foram as bebidas ou comidas que o professor-narrador quarentão ingeriu.
Uma terça parte é para narrar as trepadas que ele teve, com alunas, ou com moças da difícil vida fácil.
A parte essencial do livro é escrita para falar da islamização da Europa.
Bem, no final, com chefes de governo islamitas eleitos na França e na Bélgica, na década de 2020 a União Européia expande-se para a Turquia, Marrocos, Argélia, Tunísia, Egito e Líbano, no plano islâmico de restaurar o Império de César Augusto, com o comentário de “como era boa a Idade Média. O problema da Europa foi ter decaído tanto com o Renascimento… ”
O livro é visto como uma comparação entre a queda da república romana e sua substituição pelo império, e o fim dos valores europeus laicos que têm vigido nas “democracias” atuais.
Sorbonne (e Oxford) é privatizada e islamizada, subsidiada pela monarquia saudita (ou catari).
As mulheres passaram a ter de se vestir sòbriamente (outra vez), pràticamente não saem mais às ruas, têm os estudos limitados, não ocupam mais cargos de empregos (o que permite que os homens ganhem mais), o que, como conseqüência óbvia provoca a redução do desemprego.
Com a poligamia instaurada na Europa, os homens têm uma mulher mais velha para cuidar da casa, e outra, adolescente, para levar para a cama, e que sempre será uma adolescente mimada.
Bem, o livro é assustador, visto como uma perspectiva concreta para as próximas décadas,
e realmente dá nojo a gente ver o que fazem os políticos e os “intelectuais” para continuarem em suas boquinhas, mamatas, etcéteras, abrindo mão de qualquer afirmação que antes expressassem.
Essa é a parte mais importante, e que merece reflexão de todos nós:
o que eles podem fazer para salvar a própria pele, não importa o que seja mais ético e/ou necessário.
Críticos “intelectuais” e revistas com “perfil político” criticaram o livro, considerando-o a mais fraca das obras de Houllebecq.
Outros o elogiaram, pela capacidade de fazer ficção a partir de uma análise dos valores sociais contemporâneos.
De qualquer forma, acredito que valha a pena sua leitura com todos os ângulos de pontos de vista. Exatamente como as críticas contidas nas obras “futuristas” de Orwell ou Huxley.

Guerra das Rosas – 1

Guerra das Rosas – 1 – Pássaro da Tempestade, de Conn Iggulden (Editora Record, 2014, 406 p., R$ 45,00) é um romance histórico que inicia uma coleção de três livros sobre o período histórico das lutas dinásticas entre York e Lancaster, na Inglaterra, enquanto ainda ocorria a Guerra dos Cem Anos, contra os franceses.

Como romance  histórico, conforme admite o próprio autor, o livro “cria” fatos a partir de suposições.
Na nota histórica no final o livro o próprio autor esclarece essas inserções.
Não raras vezes eventos paralelos, ocorridos com a população civil, como a fuga de ingleses dos territórios perdidos para os franceses, e a revolta popular no Kent, são mais interessantes do que os episódios dos conchavos e traições de cortesãos.
Há diálogos que são tão improváveis e mal escritos como se eu me propusesse a escrever um romance. Teria sido melhor manter a narrativa em terceiro pessoa do que inseri-los para “dar cor” ao romance.

Do prólogo, referente a 1377, o autor passa para o corpo do livro, em 1443, sem informações históricas que complementem o texto.

Ao iniciar a leitura, pesquisei na internet referências sobre o autor e a obra, e o que encontrei foram vários blogs que apenas reproduziam a resenha que havia sido divulgada pela editora quando do lançamento do livro.
Eu, como consumidor, me senti lesado.
Se não leu o livro, por favor, não o comente.

A impressão que Conn Iggulden me transmitiu foi a de que se trata de mais um escritor que pretende ganhar a vida, lançando livros a cada temporada.
Já havia escrito, no início da carreira literária, a coleção O Imperador, sobre a vida de Júlio César, e a história do general romano não foi exatamente a preocupação do romancista Iggulden.
Seu nome estará ausente de minha curiosidade no futuro.

Em uma classificação de até cinco estrelas, Guerras das Rosas fica com três.

As Armas Secretas

Há um tempo comprei “As Armas Secretas”, de Julio Cortázar (Civilização Brasileira, 2012, 197 p., tradução e posfácio de Eric Nepomuceno), e na hora de guardá-lo descobri que havia um outro exemplar do mesmo livro que mofava na estante, comprado no Chile na década de 1980 – “Las Armas Secretas”, Editorial Nueva Imagen, México, 1984, 178 p.). Houve 35 anos de atraso para que o livro fosse editado no Brasil!

Nestes dias, fui ler e comparar os dois textos.
Li um conto em português, e o reli em espanhol.
Depois inverti: li o segundo conto em espanhol, e o reli em português.
O curioso resultado foi que li mais depressa quando em espanhol (apesar dos ácaros), sem contar que, apesar de a tradução ser correta, o original tinha muito mais “cheiro” de “contázar”  – (contázar = contos de Cortázar).

Tenho posição diferente da que o tradutor incluiu no posfácio sobre cada conto que constitui o livro, todos eles tendo Paris como cenário.
¶“Cartas de mamãe” tem o jeito de literatura fantástica, que os latino-americanos fizeram famosa há meio século.
¶“Os bons serviços” não necessita da impossível advertência à personagem principal, como sugere Eric Nepomuceno. A história mostra os diferentes enfoques sobre um mesmo fato, do ponto de vista de uma pessoa simples, e das tramas de pessoas do mundo dos negócios e manipuladoras.
¶“As babas do diabo” foi o conto que serviu de base para o filme Blow-Up, de Michelangelo Antonioni. Tal como o filme, a interpretação depende de cada leitor / de cada espectador.
¶“O perseguidor”, apontado por Nepomuceno como um divisor de águas, obra-prima, irretocável, escrito em memória de Charles Parker, pareceu-me apenas uma coisa: CHATO e longo demais. Talvez porque eu não tenha qualquer tipo de “culto” ao jazz, e por não me interessar por artistas viciados, seja em drogas, em conhaque ou em cigarro. Por mim, poderia ter se estendido por mil outras páginas e formar um livro à parte, fora dos contos que beiram o fantástico. Não faço parte dos “intelectuais” que fazem reverências a ídolos, apenas digo o que sinto ao ler um livro. “O perseguidor” não se aproxima dos outros contos do livro; ao contrário: destoa.
¶“As armas secretas”, por fim, gira ao redor de traumas não ditos e memórias mal formuladas de um casal de namorados, até que no final emerge uma explicação natural para o que ambos já tinham vivido e vivenciado, durante a II Guerra Mundial.