Planeta DeAgostini

Ripley Debaixo D’Água

Ripley Debaixo D’Água, de Patricia Highsmith (Planeta DeAgostini, 2004, 302 p., R$ 14,90), foi escrito em 1991, sendo um dos últimos livros da escritora, que morreu em 1995.
Sua obra literária teve início com Strangers in a Train (Pacto Sinistro, filmado por Alfred Hitchcock em 1951)

Foi também o último livro da série de cinco livros com o personagem Tom Ripley, um homicida amoral, ligado ao mundo dos marchands e das falsificações, que serviu de base para vários filmes.

Parece que a autora já havia incorporado a amoralidade do personagem, e forçou a mão para criar situações que deram solução à série de crimes de Ripley.
Tivesse sido escrito mais recentemente, haveria muitas passagens que não seriam aceitáveis, como o identificador de chamadas telefônicas, os exames de DNA para reconhecimento de cadáveres, e outros “detalhes” do tipo C.S.I.

Bem escrito, com boa ambientação, mas parece mesmo ter sido escrito para servir ao cinema, sem grande profundidade. A falta de profundidade vale até mesmo para o lago em que morrem afogados os “bandidos” que perseguiam Ripley.

Típico livro “ni fu ni fa” (nem cheira nem fede).

Os versos satânicos

Há alguns anos, comprei “versículos satânicos”, livro escrito em “lusitanês”, que ainda não era vendido no Brasil.
Dei para alguém sem ter chegado a lê-lo.

Depois, na coleção de grandes autores contemporâneos, recebi a versão brazuca.

Comecei a ler a obra magna e consegui chegar à metade do primeiro capítulo!

Perguntei a vários amigos:

Alguém aí leu o livro?
Vale a pena tentar?
Ou é chato mesmo, parecido com aquelas coisas escritas pelo Salamargo?
Devo insistir ou posso levar à mesquita que há aqui perto, para ser incinerado por algum imã?

Recebi algumas respostas – todas unânimes:
ninguém teve paciência para ler
e só conhecem gente que abandonou a leitura.

Pois podem me incluir:
já abandonei a leitura desse livro,
sem chegar a concluir o primeiro capítulo –
capitulei!

Como disse uma amiga,
por causa desse livro aquela arabada fez tanto escândalo?
falta de coisa melhor para fazer.

Não obstante, recomendo a quem puder que leia O Último Suspiro do Mouro, do mesmo autor Salman Rushdie.

 

Inferno

Lògicamente não é o livro de Dan Brown, já que nunca mais perderei meu tempo com esse escrivinhador.

Trata-se de livro com o mesmo título, Inferno, escrito por Patrícia Melo em 2003 (Planeta DeAgostini, 2003, 368 p. R$ 16,90).

Durante a infância, o menino José Luís Reis, o Reizinho, morador de uma favela no Rio de Janeiro, larga a escola e torna-se “olheiro” de um traficante no morro em que vive. Torna-se um viciado que perambula pelas ruas e becos, com o amigo Fake, um rapper. Apesar da tentativa da mãe, a empregada doméstica dona Alzira, em conseguir um trabalho como office-boy, o menino volta ao meio dos crimes, e passa a ser, outra vez, um dos “soldados” do traficante, ficando amigo de Leitor, um marginal intelectualizado, que defende a descriminalização das drogas.

A história percorre uns dez anos. José Luís sobe de grau na hierarquia do crime, e, antes de completar 18 anos, já matou várias pessoas, inclusive o chefe do tráfico naquela favela, tornando-se o líder comunitário e criminal.

A narrativa arrasta-se ao longo do livro, uma vez que assume ares de novela de televisão, com aquele Rio de Janeiro em que a Lagoa Rodrigo de Freitas é vizinha da Avenida Brasil. A maioria dos personagens degrada-se cada vez mais, enquanto as situações na favela (e suas vizinhas) apenas repetem o que já foi vivido sob outras lideranças.

O livro, que recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura quando lançado, é apenas mais um dos amontoados de clichês de romantização dos criminosos, tão ao gosto da imprensa. Há romances policiais de autores brasileiros muito mais interessantes do que este.

Ruído Branco

Ruído Branco, de Dom DeLillo (Planeta DeAgostini, 2004,  320 p., R$ 16,90) foi lançado em 1984, mesmo ano do acidente industrial que ocorreu em fábrica da Union Carbide em Bhopal, na Índia.

O livro narra a história de um professor universitário que vive com a família no Meio-Oeste americano, onde ele ensina hitlerologia, e a mulher cuida das  crianças, dá aulas de postura para velhos e faz trabalho voluntário de leitura para cegos. Os filhos são dos vários casamentos dele ou dela, alguns deles apenas de passagem entre uma vinda da casa dos outros pais.
A cidadezinha sofre um acidente industrial e precisa ser evacuada, com seus moradores confinados em centros sob controle do estado por quase duas semanas.

Tanto o marido como a mulher sofrem de preocupação com a possível morte de um deles, e isso se torna uma obsessão na vida de cada um. Ela utiliza clandestinamente um remédio experimental para aliviar o medo, e ele passa a fazer exames de saúde compulsivamente.

À medida em que o livro avança, perde o humor que o autor soubera inserir nos capítulos iniciais, e torna-se apenas um amontado de frases e de situações clichês sobre mortes, que não ocorrem.

O título do livro refere-se ao conjunto de sons que se somam em uma cidade.

A tradução Paulo Henriques Britto deixa a desejar. Contém palavras inventadas desnecessàriamente (e algumas vezes até mesmo rejeitadas ao longo do livro), e desconhece a conjugação de verbos no modo subjuntivo.

O Buda do Subúrbio

Pois decidi “reler” O Buda do Subúrbio, de Hanif Kureishi (Planeta DeAgostini, 2004, 303 p., R$ 16,90), e descobri que eu, na realidade, não tinha concluído a leitura do livro, por conta de uma viagem.

Foi uma boa e grande surpresa. O livro, escrito em 1990, é ótimo.

Todo em primeira pessoa, conta a história de Karim (ou Cream, como lhe chamam), um rapaz filho de um imigrante indiano muçulmano e de uma inglesa, que vive em um subúrbio em Kent, e que se percebe sempre como uma pessoa “extra”, no sentido de que é inglês, sente-se inglês, mas é visto como um asiático pelas pessoas em geral.

O livro narra descobertas sexuais, profissionais, emocionais, de um adolescente até o início da vida adulta, centrado na vida dos anos 1970, com suas “revoluções” sociais e estéticas, além da onda mística de new age.

O pai envolve-se com uma mulher cujo marido está internado em um hospício, e que tem um filho pouco mais velho do que Karim. Este prefere viver com o pai e a madrasta, e deixa a mãe com o filho menor, Allie. Mudanças para Londres, e depois para os Estados Unidos, e retorno a Londres.

Personagens vão e voltam ao longo do livro, cuja narrativa é muito ágil, envolvente, e cheia de surpresas. Os tios paternos, a prima e o marido vagabundo, os tios maternos, colegas de escola, namoradas, Charlie, o filho da madrasta que se torna músico, e o mundo do teatro, ao qual Karim resolve se dedicar como ator.

Quando o livro termina, e Karim e Allie comentam que já estão a caminho dos 40 anos, é como se tudo tivesse acontecido em apenas alguns meses.

A forma como foi escrito O Buda do Subúrbio, sua linguagem, sua narrativa, os fatos que descreve, tudo isso faz do livro um dos melhores que li recentemente.

Despedida em Veneza

Despedida em Veneza, de Louis Begley (Planeta DeAgostini, 2004, R$ 16,90, 222 p. – Mistler’s Exit, título original), foi escrito em 1998, e narra a história de um grande empresário do mundo da publicidade de Nova York, que descobre estar com câncer e decide viajar a Veneza, para ficar a sós e pensar na vida – passado, presente e futuro.

O livro gira em torno do personagem principal, Mistler, e suas lembrança com o pai, a amante francesa deste, a mulher e o filho que pouco vê, a vida profissional em Nova York, e o encontro casual em Veneza com pessoas conhecidas.

Todo escrito em terceira pessoa, embora se trate de narrativa de primeira pessoa, o livro oferece leitura ágil, está bem traduzido, e dá pinceladas do mundo de gente rica, preocupada ou fútil, e a tomada de personalidades escondidas pelas próprias pessoas, o que foi vivido pelo próprio autor do livro, que com a mãe viveu na Polônia ocupada pelos nazistas fingido serem católicos.

As histórias vão se alternando entre lembranças da juventude, o início da carreira profissional e a vida aos 60 anos do personagem Mistler. O livro, embora escrito em 1998, não é datado, mas percebe-se que se passa na década de 1980, uma época do mundo com fax, e ainda sem internet, com valores em transição.

Não é uma obra imperdível, mas Despedida em Veneza não desaponta o leitor.

Sobre Heróis e Tumbas

Há mais de duas semanas comecei a ler Sobre Heróis e Tumbas, de Ernesto Sabato (Planeta DeAgostini, 2003, 623 p., R$ 16,90) , e até agora só consegui chegar à página 188 (30% do total). Tem parecido uma carroça atolada.

O livro fala da paixão entre os adolescentes Martín e Alejandra. A cada capítulo, mais e mais enrolação de conversas intermináveis, de falatório. A longa caracterização dos jovens é dispensável e aborrecida, sem contribuir com algo mais concludente. Não se chega a lugar algum.

No entanto, o livro foi classificado como um dos cem melhores romances do século XX em língua espanhola.

Prefiro, muito muito muito mais, El túnel, realmente uma obra de primeira categoria, do mesmo autor.

Se um dia eu for um velho aposentado, com tempo sobrando, talvez eu retome a leitura desses  heróis, enquanto relembrar o passado, como vô Pancho e outros personagens secundários.

Certamente há outros livros em minhas estantes que me ensinarão muito mais. Por essa razão, por enquanto, vou deixar para os críticos que adulam tudo o que se faz em espanhol, como o máximo da literatura do século XX, que aproveitem suas tumbas.