Segunda Guerra Mundial

Confissões de uma Máscara

Confissões de uma máscara foi o primeiro romance escrito por Yukio Mishima (Círculo do Livro, 184 p., FR 12,00), em 1949, e narra em primeira pessoa a história de um jovem, desde a primeira infância até a adolescência em busca da maturidade em pleno final do catastrófico destino no Japão, ao final da Segunda Guerra, tomado por valores ocidentais.

Na primeira parte, a auto-observação de sua homossexualidade, e depois a valorização de um amor platônico pela irmã de um amigo, que busca compensar a perda dos valores tradicionais e as máscaras que são necessárias para a vida em sociedade.

A forma de escrita se altera nessas duas fases, uma que busca a discrição ao abordar um tema difícil para a sociedade da época, mais discreto e ao mesmo tempo mais agressivo, e a segunda com a tristeza de um país que se encaminha para a derrota.

Mishima transparece ao longo do livro os muitos aspectos de sua vida pessoal, que resultou, em 1970, no suicídio em busca da “honra”, muito relacionado aos valores militares.

A leitura é simples, concentrada na própria personagem do autor.
É mais importante por tratar dos aspectos psicológicos de Mishima e por ter sido a primeira experiência literária do escritor.

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Escombros e Caprichos – Contos Alemães

Conto é um gênero literário de narrativa pouco extensa, com número reduzido de personagens ou tipos, e uma unidade temporal.

Essa definição, aceita pela maior parte dos professores de literatura, do mundo todo, não foi levada em conta quando publicado Escombros e Caprichos – O Melhor do Conto Alemão no Século 20, organização de Rolf G. Renner e Marcelo Backes (L&PM, 400 p., 2004, R$ 54,00).

Dividido em nove partes, uma das quais dedicada exclusivamente a autoras (sexo feminino) em língua alemã, e as demais aproximadamente divididas em períodos históricos do Século XX (pré-Guerra, Entre-Guerras, nazismo, Guerra Fria, reunificação alemã), o livro contém, várias vezes, textos que não foram redigidos como contos – foram adaptados a partir de algum capítulo de romances!

O resultado é que a leitura torna-se vazia, oca, pois esses “contos” não se concluem, não foram pensados em algum que era “completo em si mesmo”.
Não raras vezes a leitura torna-se entediante, e não há a fácil (e agradável) passagem para o conto seguinte, como ocorre, de modo geral, em livros de contos.

A conclusão a que cheguei foi que, por capricho dos organizadores, sobraram escombros do que seria o retrato da literatura EM ALEMÃO no século XX.

Ah, só mais um detalhe: coche, como carro, avião, cinema, tem ASSENTO, não “acento” (página 123).

As Armas Secretas

Há um tempo comprei “As Armas Secretas”, de Julio Cortázar (Civilização Brasileira, 2012, 197 p., tradução e posfácio de Eric Nepomuceno), e na hora de guardá-lo descobri que havia um outro exemplar do mesmo livro que mofava na estante, comprado no Chile na década de 1980 – “Las Armas Secretas”, Editorial Nueva Imagen, México, 1984, 178 p.). Houve 35 anos de atraso para que o livro fosse editado no Brasil!

Nestes dias, fui ler e comparar os dois textos.
Li um conto em português, e o reli em espanhol.
Depois inverti: li o segundo conto em espanhol, e o reli em português.
O curioso resultado foi que li mais depressa quando em espanhol (apesar dos ácaros), sem contar que, apesar de a tradução ser correta, o original tinha muito mais “cheiro” de “contázar”  – (contázar = contos de Cortázar).

Tenho posição diferente da que o tradutor incluiu no posfácio sobre cada conto que constitui o livro, todos eles tendo Paris como cenário.
¶“Cartas de mamãe” tem o jeito de literatura fantástica, que os latino-americanos fizeram famosa há meio século.
¶“Os bons serviços” não necessita da impossível advertência à personagem principal, como sugere Eric Nepomuceno. A história mostra os diferentes enfoques sobre um mesmo fato, do ponto de vista de uma pessoa simples, e das tramas de pessoas do mundo dos negócios e manipuladoras.
¶“As babas do diabo” foi o conto que serviu de base para o filme Blow-Up, de Michelangelo Antonioni. Tal como o filme, a interpretação depende de cada leitor / de cada espectador.
¶“O perseguidor”, apontado por Nepomuceno como um divisor de águas, obra-prima, irretocável, escrito em memória de Charles Parker, pareceu-me apenas uma coisa: CHATO e longo demais. Talvez porque eu não tenha qualquer tipo de “culto” ao jazz, e por não me interessar por artistas viciados, seja em drogas, em conhaque ou em cigarro. Por mim, poderia ter se estendido por mil outras páginas e formar um livro à parte, fora dos contos que beiram o fantástico. Não faço parte dos “intelectuais” que fazem reverências a ídolos, apenas digo o que sinto ao ler um livro. “O perseguidor” não se aproxima dos outros contos do livro; ao contrário: destoa.
¶“As armas secretas”, por fim, gira ao redor de traumas não ditos e memórias mal formuladas de um casal de namorados, até que no final emerge uma explicação natural para o que ambos já tinham vivido e vivenciado, durante a II Guerra Mundial.

Nos Bastidores da Diplomacia

Recebi emprestado este livro de memórias do embaixador aposentado (ainda vivo) Vasco Mariz, intitulado Nos Bastidores da Diplomacia (Fundação Alexandre de Gusmão, 2013, 296 p.).

Há um lado curioso nas memórias de alguém nascido em 1921, e que esteve no serviço público de 1945 a 1987, período marcado pelo “glamour” de um Brasil que sonhava com Jóquei Clube, com o PSD (aquele que Juscelino herdou de Getúlio), com atrizes italianas, tendo o autor exercido atividades em diferentes países.

O autor, contudo, lança mão de modéstia zero, ao narrar fatos de importância pequena, que ele enxergou com lentes de aumento, e dos quais se declara partícipe importante, se não decisivo. Deixemos que a vaidade ocupe o lugar admissível para alguém de sua idade.

Breves relatos sobre algumas pessoas da história do século XX com quem o autor esteve, não raras vezes como acompanhante ocasional, mas que dão uma visão maior do aspecto humano dessas famosas figuras. Várias delas não merecem menção, de tão superficial o que é narrado no livro, mas algumas têm seus aspectos de contradição, ou de confirmação, do que foi cultivado pela imprensa em muitos anos. Tito, João Goulart, Tancredo Neves, San Tiago Dantas, Castelo Branco, Geisel, Roberto Campos, Ceausescu, Salvador Allende, Pinochet, Alfredo Stroessner, João Figueiredo e Lula.

Leitura fácil e ilustrativa de uma época, marcada por personagens um pouco mais interessantes do que o que temos como líderes mundiais atualmente.

Um típico livro nem sim, nem não.

Vinte Anos de Crise – 1919-1939

Demorei muito para reler Vinte Anos de Crise, um clássico da ciência política escrito por E. H. Carr  (Edward Hallet Carr) exatamente no início da Segunda Guerra Mundial.

Vinte Anos de Crise (Editora Universidade de Brasília, 2001, 312 p.) tem prefácio do professor Eiiti Sato (o mesmo que fez as notas de rodapé de Utopia, de Morus). O livro tenta explicar porque teorias políticas tão freqüentemente chocam-se com as realidade políticas. Os fracassos internacionalistas pós-Primeira Guerra Mundial conduziram à Segunda Guerra. A Primeira Guerra, muito mal resolvida pelo revanchista Tratado de Versalhes que a França impôs à Alemanha.

O livro, porém, não fala de fatos, e sim de teorias, e o pano de fundo é sempre a defasagem entre utopias, em geral de cunho rousseauniano, e a realidade. Ao contrário da Utopia de Morus, que era uma ditadura imperialista, os devaneios rousseanianos sobre “o bom selvagem” têm contribuído até hoje para grandes perversões políticas. A obsessão “intelectual” de que a realidade tem de se adaptar ao discurso de dirigentes politicos, mesmo que para isso “enfeitem” resultados. Se algo deu errado, a culpa é da realidade, não das idéias, marca do intelectual que sempre culpa o burocrata pelos erros que não admite ter cometido.

Um dos aspectos mais encarados por Carr, no livro, é o da teoria de “harmonia de interesses”, como se fosse possível que o “bem” de um grupo fosse se assimilar ao de outro grupo, bem distinto. A falsa teoria de “soma zero” que conduz à felicidade de todos.

O fracasso do mundo pós-Primeira Guerra em grande parte foi resultado dessa “harmonia”, que internacionalistas como Wilson tentaram impor na Sociedade (ou Liga) das Nações, [que lamentàvelmente ainda perdura com o rótulo de Organização das Nações Unidas, um gigantesco cabide de empregos que existe para si mesmo.]

Carr aponta que o realismo também tem suas muitas limitações, como a tendência a analisar a História com julgamentos morais, sem levar em conta que estes variam de época para época, como se fosse possível, com essa análise, atingir uma “previsão científica” dos acontecimentos políticos.

Interessantes os sub-capítulos em que o autor estuda a convergência entre poder militar na definição política, a separação entre economia e política (contrariando analistas marxistas), e a relação recíproca entre opinião e política, ora uma, ora a outra moldando o todo.  Versa também sobre interesses locais, específicos, em contraposição a interesses genéricos, nacionais. Fala dos tratados e do direito nos assuntos internacionais, que podem facilitar a obtenção de alterações pacíficas.

Noto eu que, infelizmente, passado um século da Primeira Guerra Mundial, o pensamento internacional (e nacional) ainda prefere dar ouvidos a teorias, a utopias, a pensamentos ao estilo de Rousseau, e prefere esconder debaixo do tapete a vasta gama de objetivos que não têm como ser alcançados por meio de gestos de “bondade”. A ditadura do “polìticamente correto” que se instalou nos últimos anos, o “multiculturalismo” que tem gerado mais conflitos do que “harmonia de interesses”, e a manipulação da opinião pública solidificam meu ceticismo.

Só uma curiosidade: en passant, Carr comenta como Mussolini aproveitava idéias de Lênin para iludir a “classe trabalhadora” na Itália dos anos ’20 e ’30. E ainda há quem , hoje em dia, use sem conhecimento o adjetivo “fascista”.
Sobre esse assunto, recordo que vale a pena a leitura de Fascismo de Esquerda, que assombra ao mostrar as semelhanças entre Roosevelt e Hitler na manipulação da opinião pública.

O livro necessitava ter sido passado pelos olhos minuciosos de um bom revisor. São demasiado evidentes erros como uso inapropriado da mesóclise ou do infinitivo pessoal, o uso de advérbios de modo ecoando na mesma frase, e outras coisas que independem da tradução.

A volta para casa

Quando vi pela primeira vez em uma livraria A volta para casa, de Bernhard Schlink (Editora Record, 2009, 368 p.) seu preço era mais de R$ 40,00. Não o comprei naquela ocasião, mas esta semana eu o encontrei por R$ 9,90, na pilha de encalhes de uma loja. Certamente os editores e livreiros tinham pensado que, por ser do mesmo autor de O Leitor, podiam cobrar quanto quisessem. Vemos que não foi bem assim.

A volta para casa é um romance que narra a vida de um menino alemão, Peter, que passa férias com os avós suíços, revisores de editoras, e descobre trechos da história de um soldado que, durante a Segunda Guerra Mundial foge da Sibéria e retorna à Alemanha. Anos depois, percebe que a história poderia se referir a algum fato real, embora houvesse muitas contradições entre a narrativa e a realidade. Ao longo de muitos anos, por acaso ou propositalmente, o personagem principal vai montando as peças do quebra-cabeças que formam a verdadeira história do soldado narrado naquele texto, incompleto, que ele havia lido quando criança.

Misturando as aventuras do soldado com A Odisséia, Peter percebe que aquele soldado, na verdade, tratava-se de seu próprio pai, tido como morto em combate. Descobre-o como professor de filosofia do direito, em uma universidade dos Estados Unidos, e dá-se conta de quanto o autor daquele texto lido na infância era um mentiroso manipulador, que não devia receber mais sua atenção, e retorna à vida corriqueira na Alemanha, recém-reunificada.

O livro prende a atenção do leitor, na busca dos elos que permitirão montar todo o quadro da vida do soldado, enquanto avança a vida do próprio Peter. Não é uma obra indispensável, mas é curiosa. Aborda a evolução da Alemanha desde a derrota na Guerra, passando pela divisão em dois países e chegando à reunificação, e trata, com muita atenção, as dificuldades de relacionamentos de diferentes gerações e de casais.

Por outro lado, certamente era mais um assalto ao consumidor o preço anteriormente cobrado, pelo qual tive a sorte de não chegar a pagar.

A Milenária Presença de Judeus na Itália

“A Milenária Presença de Judeus na Itália – Resgatando a memória da imigração de judeus italianos no Brasil (1938-1941)”, de Anna Rosa Campagnano e Sema Petragnani (editora Atheneu, 2007, 332 p., R$ 117,00), divide-se em duas partes.

A primeira trata da presença de judeus na Itália, desde tempos pré-cristãos até o final da Segunda Guerra Mundial. Trata das relações com os diferentes países que surgiram na península italiana, desde o Império Romano, bem como em países próximos, que tiveram relação com êxodos de judeus para a Itália, decorrentes de perseguições na Espanha, na Alemanha e no Império Austro-Húngaro. Comenta as alterações provocadas pela Revolução Francesa e sua Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Trata, também, das relações entre a igreja católica e as comunidades judaicas, nos dois milênios.

A segunda parte aborda a emigração de judeus italianos para o Brasil, como alternativa de fuga às perseguições anti-semitas na Itália, que inclusive provocaram as deportações para campos de concentração nazistas, a formação de um agrupamento irônicamente chamado Colônia Mussolini, para marcar o motivo do exílio forçado no Brasil. Conclui com depoimentos de pessoas ou de famílias de italianos judeus que buscaram abrigo no Brasil, no período de 1938 a 1941. Curiosamente encontrei narrativas de três professores que tive, que eu ignorava serem judeus.

O livro é muito bem ilustrado, e incorpora muitas informações em geral desconhecidas, sobre preconceitos surgidos na Idade Média e que se estenderam até o século XX. Contra o texto, algumas traduções mal feitas do italiano para o português, e algumas falhas na revisão, mas que não comprometem as informações contidas no livro.

A lamentar, porém, o alto preço do livro, que difìcilmente pode ser considerado acessível.