autores contemporâneos

Os contos de Lygia

Os contos de Lygia (Companhia das Letras; 2018; 750 p, R$ 100,00; posfácio de Walnice Nogueira Galvão) tem a reedição dos contos publicados nos vários livros de Lygia Fagundes Telles:

Antes do Baile Verde (18 contos) – 1970;

Seminário dos Ratos (13 contos) – 1977;

A Estrutura da Bolha de Sabão (8 contos) – 1991;

A Noite Escura e Mais Eu (9 contos) – 1995;

Invenção e Memória (15 contos) – 2000;

Um Coração Ardente (10 contos) – 2012;

e mais ainda contos esparsos ((12).

Lygia é, em minha opinião a mais importante contista brasileira.
Impossível não apreciar sua obra.

A edição da Companhia das letras caras, porém, não é prática. As 750 páginas ocupam um livro com espessura de 4,5 cm, e um peso 600 gramas.
O resultado é que o incômodo de se ler um livro de contos comme il faut, ou seja, refestelado na cama ou em uma poltrona, é uma tarefa quase hercúlea.

Uma pena – uma tristeza e um castigo.
Melhor seria dividir a obra em tomos, ou, quem sabe, procurar em sebos os vários livros, embora nesse caso não seriam incluídos os contos esparsos.

 

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em uma livraria

Estive ontem em uma livraria, dessas grandes, para “gente culta”, de uma rede espalhada por capitais “interessantes”.
Percorri com atenção os diversos corredores e suas muitas estantes.
Vi a preocupação (infantil) de colocar os “colaboradores” para que se obtenha uma disposição bonitinha, falsa feito nota de três reais impressa na Nigéria.
O conteúdo dos livros era digno do saudoso Febeapá.
Olhava nas estantes e só via “baixo-ajuda”, culinária, juvenis e mitologias (relacionadas a seriados de tv), “críticos” do óbvio, muitos livros escritos por sacerdotes, livros de viagens com muitas fotografias…

Quando encontrava algo que tinha valor literário, era sempre uma obra de antes de 1960, com uma encadernação que tentava justificar o preço exorbitante.
Vai que cola…
A maior parte das pessoas que freqüentam essas livrarias não sabem que pela metade do preço pode comprar o mesmo livro em um sebo (com a vantagem de ter sido impresso em uma ortografia que não é para analfabetos).
Não raras vezes, esses mesmos (bons) livros estão em domínio público e podem ser baixados na internet.
Olhei muito.
Até 1960 havia boas obras.
Em 1960 começa um declínio que se aprofunda a cada ano
De 1995 para cá, vinte anos de lixo.
Dos autores estrangeiros, ainda estão presos à famosa anticultura da era hippie, embora ideològicamente presos à URSS do tempo de Stalin.
Dos autores tupinambás, melhor esquecer que rabiscaram alguma coisa no computador…

Comentei depois com alguns amigos, e eles concordaram com minhas observações.
Acrescentaram, ainda, a mão de obra selecionada sem o mesmo esmero de antes. O que importa é mesmo a apresentação, e não o conteúdo.

feiras de livros

Li há uns poucos dias (mas não consigo mais encontrar o artigo), que as feiras de livros hoje em dia não servem para “incentivar a leitura” –
estão mais para desovar encalhes e para “celebrar celebridades”, nada que sirva para a literatura.
Alguém dentre vocês leu o artigo?
Sabe onde foi?

Rubem Fonseca

Rubem Fonseca é quase de outra geração – nasceu em 1925 – mas é um autor contemporâneo.
Psicólogo de formação universitária, e ex-investigador policial, é um dos autores mais premiados e sérios da atual literatura brasileira. Dele li:

  • 64 contos de Rubem Fonseca (2004)
  • A grande arte (1983) – romance policial
  • Bufo & Spallanzani (1986) – romance policial
  • Vastas emoções & pensamentos imperfeitos (1988) – romance que se passa sobre a marginália urbana e a violência carioca mas tem um trecho, passado na Europa, que é perfeitamente adaptado a mim mesmo:

“Você não quer ver museus?”
“Não.”
“Não quer ver a Nefertiti?”
“Não. Meu único interesse, em qualquer lugar, são as pessoas”.

Excelente na modelagem de personagens de todos os tipos. Um dos maiores escritores brasileiros do século XX, embora abominado por certos grupos religiosos.

Marcelo Rubens Paiva

Marcelo Rubens Paiva nasceu em 1959.
De sua obra li apenas:

  • Feliz Ano Velho (1981)
  • Blecaute (1986)
  • Bala na Agulha (1994)

O autobiográfico Feliz Ano Velho continua a ser a marca registrada do autor. Blecaute me chamou a atenção, pela visão apocalíptica de São Paulo, e Bala na Agulha foi um livro que sequer passou por minha vida, já que não deixou registro na memória; não consigo lembrar do que trata.
Teria sido um bom autor de ficção científica. Bastaria deixar de lado o proselitismo de esquerda.

O escritor na verdade continua mais famoso por conta de Rubens Paiva, seu pai, e das situações políticas que envolveram a família, na época do regime militar e até hoje.
Também é colunista no jornal Estadão, e tampouco leio seus artigos.
Rodrigo Constantino, contudo, os lê.

http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/tags/marcelo-rubens-paiva/

 

 

Ignacio de Loyola Brandão

Ignácio de Loyola Brandão nasceu em 1936. De seus muitos livros, li:

  • Zero
  • Não verás país nenhum
  • Noite inclinada
  • O verde violentou o muro.

De novo um autor que, no final do século XX, fez sucesso porque, jornalista, escrevia com o cenário dos “revolucionários” pós-1964. Lembro que O Verde versa sobre as memórias do próprio autor enquanto morou em Berlim, dividida pelo Muro da Infâmia, mas absolutamente nada me vem à lembrança quando penso em Zero e em Não Verás, exceto que bem negativistas e muito lidos e bem comentados pela esquerda caviar.

Vale a pena ver como estão as opiniões mais recentes do autor, nessa entrevista de 2012:

http://g1.globo.com/platb/maquinadeescrever/2012/02/03/loyola-estamos-virando-uma-imensa-cracolandia/
Acho que a visão pessimista acabou sendo fruto da esquerda que ele defendia, e não da direita que era abominada em 1980.

Desde 2005 é cronista no jornal O Estado de São Paulo, mas confesso que não leio seus artigos.

 

Caio Fernando Abreu

O primeiro livro de Caio Fernando Abreu (1948-1996) que li foi “Morangos Mofados“, do qual gostei bastante e me levou a me interessar em ler alguns de seus outros livros de contos:

  • O Ovo Apunhalado
  • Ovelhas Negras
  • Pedras de Calcutá
  • Triângulo das Águas,
  • além do romance Onde Andará Dulce Veiga?
  • e ter a coletânea Caio 3D: o essencial da década de 1970, que reúne, além de contos, também cartas e poesias.

Bom contista, bom seguidor da moda da época, de escrever tendo como pano de fundo o regime militar no Brasil, sem panfletagens, e com observações sociais que incluíam sexo e cotidiano dos personagens das cidades brasileiras.
Isso foram motivos mais do que suficientes para que Caio Fernando tenha sido incluído na relação dos principais escritores do final do século XX.
Afora isso, Caio Fernando foi o responsável por uma das traduções brasileiras que existem do famoso A Arte da Guerra, de Sun Tzu (existem outras – é bom salientar).
Certamente sua morte precoce interrompeu uma capacidade que ainda tinha muito para oferecer ao mundo da literatura brasileira.