Rocco

Afirma Pereira

Li em poucas horas Afirma Pereira, de Antonio Tabucchi (Rocco, 1995, 125 p., tradução de Roberta Barni).

O livro do escritor italiano, que foi levado ao cinema, em 1995, com Marcello Mastroianni no papel do protagonista, narra a história de um jornalista que, em 1938, por 40 anos trabalhou como repórter policial, e depois de viúvo foi trabalhar como editor da seção de cultura de um pequeno vespertino lisboense, ligado apenas aos ideais católicos, sem afinidades com os fascismo que dominava vários países europeus.

Esse jornalista, Pereira, vive mergulhado nas lembranças do passado, na vida com a mulher tuberculosa, e tem por regra isolar-se do contexto político.
Encontra, porém, um jovem ítalo-português, Monteiro Rossi, que se oferece como estagiário na seção cultural. A impetuosidade de Rossi, dominado pela namorada marxista, é muito pueril e nada contribui em termos de trabalho com Pereira. A ligação entre ambos, porém, vai se transformando em uma abertura do jornalista com a realidade da ditadura salazarista, iniciando uma indisposição com o regime, e altera a obsessão de Pereira com a morte e o arrependimento, e inicia uma trajetória em busca da vida.

Essa trajetória se intensifica quando Pereira conhece, em uma clínica de tratamentos alternativos contra a obesidade, o doutor Cardoso, que o estimula a deixar Portugal e sua repressão, ostensiva e velada.

O verbete do filme na Wikipedia conta toda a história.

A linguagem do livro é muito ágil, sem floreios, adjetivações inúteis ou descrições de paisagens e de características de personagens, o que facilita e incentiva o leitor a logo concluir a leitura.

 

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Apenas um herói

Apenas um herói (Daniel Frazão, Rocco, 2008, 207 p., R$ 5,00) é um livro de leitura fácil, bem “digestível”.
Conta em primeira pessoa a história de um eterno fracassado, que vive no Rio de Janeiro, e vai trabalhar em um necrotério, enquanto espera uma herança de um tio.

Só que o livro tem a marca de quem tem muita pretensão e pouca vivência, por isso não chega a apresentar nada de novo.
Não, há sim algo de novo: as cenas de sexo são apenas relatadas que existiram; não são, como fazem tantos autores contemporâneos, aulas de anatomia e fisiologia misturadas com “catecismos” de Carlos Zéfiro.

O autor escreve bem, com vocabulário que não é recheado de expressões locais ou de época, e sua a leitura é fluida, porém não deixa marcas.
Quem sabe outros livros de Daniel Frazão possam ter mais conteúdo. Ele tem técnica, o que lhe falta é assunto. Parece que escreveu “pela obrigação de ser escritor”.

Ao longo do texto, deparei-me com dois parágrafos que me agradaram muito, por destruir dois “mitos”contemporâneos urbanos:

Nunca gostei de antiguidade. Produto de gente fresca. Bugigangas sem valor, arrematadas por esposas entediadas e casais de homossexuais intelectualizados. Antiguidades não fazem parte do meu mundo, o pequeno mundo de quem tenta sobreviver na cidade grande.

Depois de muito esforço, achei um lugar adequado. Um restaurante escuro e pequeno, sem som ambiente. Sempre detestei aqueles odiáveis tecladistas sem talento, fabricados sob medida para as churrascarias e pizzarias. Prefiro o silêncio acima de qualquer outra coisa.

 

 

 

Laços de Família

Reli, com lentidão e prazer, Laços de Família, de Clarice Lispector (Rocco, 2000, 136 p., R$ 12,00).

Trata-se de uma coleção de contos que, na maior parte das vezes, foca algum aspecto de relações dentro de alguma família.

Não são exclusivamente contos “femininos”, textos com gênero, como Água Viva .

Há contos que são singelos, de leitura rápida, retratos do cotidiano dos anos ’50 no Rio de Janeiro.
Singeleza que não significa que esses contos não tenham beleza.

Outros são densos, angustiosos, sem definição temporal ou de lugar.
Nesse, sobretudo, vê-se que “Clarice é Clarice”, uma escritora de incrível complexidade.

 

Gore Vidal

Gore Vidal ((1925-2012) foi muito prolífico (e por que não também dizer promíscuo?), e sua produção artística inclui romances, ensaios, roteiros de filmes, peças de teatro, etc.

Em ordem cronológica da publicação, li:

  • A cidade e o pilar (1948)
  • À procura do rei (1950)
  • Verde escuro, vermelho vivo (1950)
  • O julgamento de Páris (1952)
  • Messias (1954)
  • Juliano (1964)
  • 1876 (1976)
  • Criação (1981)
  • Duluth (1983)
  • Império (1987)
  • Declínio e queda do império americano (ensaio) (1992)
  • Ao vivo do Calvário, o evangelho segundo Gore Vidal (1992) (Live from Golgotha, no original inglês)
  • Palimpsesto (memórias) (1995)
  • Um momento de louros verdes (não localizei o título original, nem a data da publicação), a maior parte delas (ou todas?) publicadas pela Rocco.

De que me lembro dessas obras? Pouco, retenho na memória menos do que o que eu tinha apreciado na época da leitura.

À procura do rei – lembro apenas que trata do resgate (ransom) por Ricardo Coração de Leão, aprisionado pelos franceses;
Verde escuro, vermelho vivo – algo que se passou na Guatemala;
Messias – sobre os tele-evangelistas.

De fato, só me lembro de

Juliano – romance histórico sobre o curto reinado do imperador romano (360-363), equivocadamente chamado de “o apóstata”, dado que ele nunca foi cristão, e não podia, portanto, ter recebido esse epiteto;
Criação – outro romance histórico, que versava sobre Ciro Espítama, um personagem fictício que teria sido um diplomata persa e conhecido pessoalmente Zoroastro (de quem Ciro seria neto), Sócrates, Buda (Gautama), Mahavira, Lao-tsé e Confúcio;
Ao vivo do Calvário – uma sátira de como teria sido uma transmissão televisiva do julgamento e da crucificação de Cristo, caso a tecnologia o permitisse;
Palimpsesto – chatíssimo, cheio de fofocas, intrigas, brigas de ódio, sobretudo com a mãe.

Na verdade, passado o tempo, vejo Gore Vidal como um bom escritor, de linguagem ágil, com dose de humor irreverente, mas muito parecido com o que são tantos colunistas de jornais e revistas, que gostam de se manter em evidência por meio de falsas polêmicas. Confundiu a vida (homo-sexual) e a política (do Partido Democrata) com a própria obra, por isso ela se tornou muito bem recebida, mas ao mesmo tempo de pouca profundidade: um típico produto de consumo.

 

 

Contos dos Irmãos Grimm

Contos dos Irmãos Grimm, Editora Rocco , 2005, 310 p., R$ 46,00, prefácio de Clarissa Pinkola Estés, ilustrações de Arthur Rackham.

Grimm, em alemão, significa ira.
Grim, em inglês, significa severo.
Grimace, em francês (e importado para o inglês), significa careta.
Os irmão Grimm (Jakob 1785-1863) e Wilhelm (1786-1859) levaram a sério o sobrenome.
Fizeram, entre 1812 e 1822, uma compilação de contos de fadas que mostraram uma série de princípios que demonstram o caráter das pessoas, em meio a mágicas e espertezas.

Lá estão, dentre os mais conhecidos, Chapèuzinho Vermelho, Branca de Neve, Gata Borralheira, Rapunzel, o Pequeno Polegar, Joãozinho e Mariazinha (Hansel e Gretel, ou seja Joãozinho e Margaridinha), em um total de 53 contos.

O livro não tem versões HollyooDisneyanas.
Cinderela (a gata borralheira) não tinha ratinhos, nem carruagem de abóbora, nem nada disso. Suas irmãs tiveram os olhos furados por pássaros, quando foram bisbilhotar o casamento com o príncipe.
A madrasta da Branca de Neve morreu obrigada pelo príncipe a dançar com sapatos de ferro aquecidos em brasa!
Rapunzel era uma adolescente mãe solteira, cujos pais a tinham trocado por comida com a vizinha bruxa que a criou .

Jakob e Wilhelm (como os antigos) nos contos, castigavam os maus, (como ocorri na vida real), algo que Walt Disney retirou das histórias.
Prêmios a quem demonstra dignidade no caráter, e castigo aos trapaceiros, e, sobretudo, aos invejosos.

Quanto à introdução da psicanalista junguiana Clarissa Pinkola Estés, deveria ter sido dividida em introdução e conclusão. Uma parte falando do que são contos, a forma como trabalharam Jakob e Wilhelm, e sobre o prazer da leitura e da narração para crianças [ver Como um romance]. Ao final do livro, caberia a análise do conteúdo, sem indispor prèviamente o leitor ao que poderá encontrar nos contos.

As històrinhas são violentas? As crianças podem se assustar?
Ainda bem! Hoje em dia boa parte das crianças urbanizadas perderam essa noção.
Criança faz as maiores barbaridades e surgem os defensores dos coitadinhos.
Criança mata e dá risada para o repórter na tv.
Adolescente faz planos para o namorado matar os pais dela, para receber a herança.
Fica tudo por isso mesmo? São seres puros e inocentes? Não têm hormônios conduzindo a cabeça e o comportamento?
Por sua vez, não há tantos pais que despejam bebês recém-nascidos em lixeiras, ou os vendem? Por que isso não pode ser contado em contos de fadas?
Foi exatamente o que os Irmãos Grimm fizeram.
Fizeram-no justamente para mostrar que pode haver algumas pessoas que, por pureza, esperteza ou trabalho, se dão melhor do que outras que querem apenas desfrutar as vantagens da beleza física ou o dinheiro fácil que veio sem trabalho. Clarissa Pinkola Estés deveria ter colocado essa parte da análise como uma conclusão.

 

Como um romance

Pràticamente não reparava nele, magro com suas 167 páginas, espremido com uma capa bege no meio de outros de cores mais fortes. Não sei quando o comprei, nem onde, nem quanto por ele foi pago. De repente, foi como se pulasse da prateleira para minha mão, e então comecei a ler “Como Um Romance”, escrito em 1992 por Daniel Pennac (Pennachioni, na verdade), traduzido para o “brasileirês” por Leny Werneck, e editado pela Rocco, em 1993.

Tão logo comecei a leitura, escrevi por e-mail (correio eletrônico, para os puristas) alertando-os

Você já leu “Como um romance”, de Daniel Pennac?
(Editora Rocco, tradução de Leny Werneck – existem outras traduções, inclusive para o lusitanês)
Sim?
Parabéns
Não?
Então leia logo, não faça como eu, que deixei o livro durante tanto tempo em uma prateleira.
Leia:
leitura obrigatória.
Só quem o tiver lido poderá saber o significado desse ensaio, escrito como um romance.
Procure no sebo, na livraria, peça emprestado, encomende na Amazon, xeroque de alguém (são 167 páginas).

Em seguida recebi algumas respostas:

1) Oi, Boppe
Acho que eu tenho na estante.
Se não estiver lá, vou correndo comprar.
1A) Encontrei Como um romance na estante.
Felizmente ainda estava lá.

2) Não. Vai me emprestar??

3) Resumo do livro “Como um romance” de Daniel Pennac (ÓTIMA DICA DE LEITURA!), por Daiane Matos …

Li o resumo e não gostei. Enfim, pretensão e água benta cada um usa quanto quiser.
Em seguida descobri outros resumos e comentários jorrando na internet, alguns deles melhores, mais claros e objetivos do que o postado pela princesa Daiane.

Pennacchioni não gosta de “leituras obrigatórias”. Azar dele. Acho que o livro tem de ser lido por todas as pessoas que se interessam por letras, sílabras, palavras, frases, pensamentos, … Talvez devesse ser lido pelos pais, ao lado do berço de seus bebês.

Sobre o que trata o livro? Sobre livros e leituras.
Primeiro leia-o. Depois, quem sabe, um dia conversaremos sobre o assunto.