leitura

guia do mochileiro das galáxias

Há uns dias, tomei emprestado o Guia do Mochileiro das Galáxias – não deixe a terra sem ele, Douglas Adams, escrito por em 1979, (editora Sextante, tradução de Carlos Irineu da Costa e Paulo Henriques Britto, 204 p. , 2004).

Quem me emprestou, um jovem de seus 25 anos, disse que tinha sido o pior livro que já tinha lido, e que por conta dessa “obra prima” ele tinha “dado um tempo” em leituras.
Outras pessoas, da mesma idade, disseram que tinham achado o livro muito divertido, e que eu gostaria dele.

Bem, quase fiquei com a mesma impressão do dono do livro (a quem emprestei Na Prisão, de Kazuichi Hanawa). Não foi o pior livro que li em minha vida, porque já enfrentei coisas piores, em meus muitos mais anos de vida.
Que festival de nadas, esse guia do mochileiro. O pior é que fez sucesso e foi complementado por sei lá quantas seqüências, no pior estilo das obras de Rick Riordan.

Jovens merecem coisas muito melhores, para manterem o hábito (e o ato) da leitura. De outro modo, acabam acreditando em palavras mais ocas do que a de certos palestrantes profissionais.

 

 

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Laços de Família

Reli, com lentidão e prazer, Laços de Família, de Clarice Lispector (Rocco, 2000, 136 p., R$ 12,00).

Trata-se de uma coleção de contos que, na maior parte das vezes, foca algum aspecto de relações dentro de alguma família.

Não são exclusivamente contos “femininos”, textos com gênero, como Água Viva .

Há contos que são singelos, de leitura rápida, retratos do cotidiano dos anos ’50 no Rio de Janeiro.
Singeleza que não significa que esses contos não tenham beleza.

Outros são densos, angustiosos, sem definição temporal ou de lugar.
Nesse, sobretudo, vê-se que “Clarice é Clarice”, uma escritora de incrível complexidade.

 

Como um romance

Pràticamente não reparava nele, magro com suas 167 páginas, espremido com uma capa bege no meio de outros de cores mais fortes. Não sei quando o comprei, nem onde, nem quanto por ele foi pago. De repente, foi como se pulasse da prateleira para minha mão, e então comecei a ler “Como Um Romance”, escrito em 1992 por Daniel Pennac (Pennachioni, na verdade), traduzido para o “brasileirês” por Leny Werneck, e editado pela Rocco, em 1993.

Tão logo comecei a leitura, escrevi por e-mail (correio eletrônico, para os puristas) alertando-os

Você já leu “Como um romance”, de Daniel Pennac?
(Editora Rocco, tradução de Leny Werneck – existem outras traduções, inclusive para o lusitanês)
Sim?
Parabéns
Não?
Então leia logo, não faça como eu, que deixei o livro durante tanto tempo em uma prateleira.
Leia:
leitura obrigatória.
Só quem o tiver lido poderá saber o significado desse ensaio, escrito como um romance.
Procure no sebo, na livraria, peça emprestado, encomende na Amazon, xeroque de alguém (são 167 páginas).

Em seguida recebi algumas respostas:

1) Oi, Boppe
Acho que eu tenho na estante.
Se não estiver lá, vou correndo comprar.
1A) Encontrei Como um romance na estante.
Felizmente ainda estava lá.

2) Não. Vai me emprestar??

3) Resumo do livro “Como um romance” de Daniel Pennac (ÓTIMA DICA DE LEITURA!), por Daiane Matos …

Li o resumo e não gostei. Enfim, pretensão e água benta cada um usa quanto quiser.
Em seguida descobri outros resumos e comentários jorrando na internet, alguns deles melhores, mais claros e objetivos do que o postado pela princesa Daiane.

Pennacchioni não gosta de “leituras obrigatórias”. Azar dele. Acho que o livro tem de ser lido por todas as pessoas que se interessam por letras, sílabras, palavras, frases, pensamentos, … Talvez devesse ser lido pelos pais, ao lado do berço de seus bebês.

Sobre o que trata o livro? Sobre livros e leituras.
Primeiro leia-o. Depois, quem sabe, um dia conversaremos sobre o assunto.

Leitura como forma de ressocialização

24/11/2012 23h04 – Atualizado em 25/11/2012 00h00

Presos que lerem Dostoiévski terão pena reduzida em comarca de SC

Projeto da Vara Criminal de Joaçaba prevê redução de quatro dias da pena.
Proposta consiste na distribuição e leitura dos livros pelos apenados.

Géssica Valentini Do G1 SC

Detentos voluntários receberam um exemplar do livro, acompanhado de um dicionário (Foto: TJSC/Divulgação)
Detentos voluntários receberam um exemplar do livro, acompanhado de um dicionário (Foto: TJSC/Divulgação)

Um projeto da Vara Criminal de Joaçaba, no Oeste de Santa Catarina, prevê a redução de até quatro dias na pena de detentos que lerem obras clássicas, de autores como Fiódor Dostoiévski. A proposta, chamada ‘Reeducação do Imaginário’, é coordenada pelo juiz Márcio Umberto Bragaglia e iniciou na manhã desta sexta-feira (23).

De acordo com o Tribunal de Justiça (TJ) do estado, a proposta consiste na distribuição dos livros aos apenados da comarca. Posteriormente, magistrado e assessores vão realizar entrevistas. “Os participantes que demonstrarem compreensão do conteúdo, respeitada a capacidade intelectual de cada apenado, poderão ser beneficiados com a remição de quatro dias de suas respectivas penas”, explica o TJ.

Apenados receberam o livro na sexta-feira (23), em Joaçaba (Foto: TJSC/Divulgação)Apenados receberam o livro na sexta-feira (23), em Joaçaba (Foto: TJSC/Divulgação)

“O projeto visa a reeducação do imaginário dos apenados pela leitura de obras que apresentam experiências humanas sobre a responsabilidade pessoal, a percepção da imortalidade da alma, a superação das situações difíceis pela busca de um sentido na vida, os valores morais e religiosos tradicionais e a redenção pelo arrependimento sincero e pela melhora progressiva da personalidade, o que a educação pela leitura dos clássicos fomenta”, explicou o juiz Bragaglia.

O primeiro módulo prevê a leitura de ‘Crime e Castigo’, de Fiódor Dostoiévski. No segundo módulo, os apenados devem ler ‘O Coração das Trevas’, de Joseph Konrad. Depois, estão previstas obras de autores como William Shakespeare, Charles Dickens, Walter Scott, Camilo Castelo Branco, entre outros. Os livros serão adquiridos em edições de bolso, com verbas de transação penal destinadas ao Conselho da Comunidade.

Na manhã de sexta (24), os participantes do projeto, todos apenados voluntários do Presídio Regional de Joaçaba, receberam uma edição de ‘Crime e Castigo’, acompanhada de um dicionário de bolso. As avaliações estão previstas para ocorrer após 30 dias. Ainda conforme o TJ, o projeto tem o apoio do Ministério Público de Santa Catarina.

Platão e um ornitorrinco entram num bar…

Li em julho de 2009 “Platão e um ornitorrinco entram num bar“ (Plato and a Platypus Walk Into a Bar),  de Thomas Cathcart & Daniel Klein (Editora Objetiva, 2007), que tem ainda o subtítulo “A filosofia explicada com senso de humor” e que parece um livro muito mais velho do que o é, embora escrito, ou melhor, copyrighteado, em 2006.

O livro é formatado de modo a explicar a filosofia para quem não quer levar a sério as coisas sérias, como diz a maioria dos comentários que encontrei.

Existe porém algo que incomoda: as piadas já circularam pela internet muito antes de ela ter se popularizado no Brasil. Certamente não havia blogues, e eu não tinha uma lista com mais de 100 endereços eletrônicos diários quando li a maioria das piadinhas que estão inseridas no livro, para ilustrar as diversas escolas filosóficas.

Dessa forma, a sensação de algo passado, o déjà vu (ou déjà lu) incomoda. É difícil dar risada das velhas piadas que ainda circulam pela internet. É difícil dar risada das mesmas velhas piadas, mesmo que aplicadas a situações da história da filosofia. Nesse sentido, o livro perde seu objetivo, pois nem fica sério, nem vira gozação, é apenas mais uma repetição, ilustrativa.

Doações em geral – 2

Dois comentários fora da internet, de brasilienses, me contestaram, me afirmaram que escolas e bibliotecas públicas aceitam livros usados.

Não sei quando isso ocorreu com meus leitores, mas minha cunhada teve a experiência inversa, pois os livros foram recusados, sob a alegação de que estavam com a “ortografia antiga” e iriam “causar conflitos de aprendizado nas criANTAS”.

Como se os livros didáticos brasileiros fossem todos excelentes, muito bem revisados, não tivessem mapas errados (José Serra que o diga), como se o des-acordo ortográfico estivesse vigente em Portugal, como se todas as publicações fossem feitas exclusivamente na ortografia sarnenta, sem o período de convívio de três anos das formas do uso do hífen e dos acentos.

O país é rico, claro, por isso a escola que minha cunhada procurou pôde dar-se ao luxo de dispensar os livros que iam ser doados.

Além disso, quanto a regras ortográficas, é lógico que elas são sacro-santíssimas (com hífen e esses separados, pois quem gosta de SS é nazista), pois Monteiro Lobato e Saramago, por exemplo, sempre foram os mais fiéis seguidores de todas as regras gramaticais da escrita de suas épocas, para mencionar apenas alguns dos literatos menos conhecidos da língua portuguesa.

Decerto que as regras da Academia Brasileira de Letras, que conta em seu panteão com nomes tão relevantes como o grão-duque do Maranhão-e-Amapá e o doutor-em-cirurgia-plástica Ivo Pitanguy, são dogmas incontestáveis por nós, meros servos. Não contestamos, em absoluto!

De volta ao tema das doações, e ainda no aspecto livresco, retomo a pergunta levantada no tópico anterior pelo comentário do Fernando: “Livros são bens duráveis ou consumíveis? Dependendo da relação que você tem com este bem, pode definir sua relação com o mundo.”

Quem se aventura a dar uma resposta?

Uma real leitora

Em dezembro de 2008, li um livro pequeno e agradável, Uma real leitora, de Alan Bennett, Editora Record, 2008.

Fala de uma rainha Elisabete II que se torna leitora contumaz, a partir da descoberta de uma biblioteca ambulante que, às quartas-feiras, estaciona nos fundos do Palácio de Buckingham. Com mais e mais livros, as leituras de S.M. britânica começam a tornar-se um problema de estado, visto que ela deseja entabular conversas sobre literatura, autores e personagens com políticos ou súditos, nada afetos a esse novo interesse real, além de passar a perceber características nos funcionários, que até então lhe eram ocultas.

Interessante, sobretudo quando muita gente imagina que os livros serão substituídos pela internet e outros formatos de comunicação visual. O que duvido muito, pois inclusive a facilidade com que os modelos de equipamentos eletrônicos e os programas são descartados já torna por si um empecilho para que haja perpetuação das obras nos novos modelos. Ou alguém ainda tem e assiste VHS em casa? Você faz o back-up de seus arquivos de texto ou de imagens com a periodicidade que é requerida? Jogou fora quantos daqueles floppy discs? E dos pequenos disquetes? CDs gravados e trocados por pen-drives? Por outro lado, jogaria fora algum papiro, pergaminho, ou códice, caso possuísse algum?

Do livro, só faço restrição ao dispensável prefácio de Reinaldo Azevedo, e a uns erros de tradução imperdoáveis – como um certo A no lugar de HÁ, e um Tanna Touva que o tradutor teve preguiça de pesquisar para saber do que se tratava.