revisão

47 contos de Isaac Bashevis Singer

Concluí hoje a leitura de um dos melhores livros que desbravei nestes últimos tempos:

47 contos de Isaac Bashevis Singer (Companhia das Letras, 720p., 2004, R$ 31,00), com excelente prefácio de Moacyr Scliar.

Os contos são quase todos impregnados de indisfarçável caráter auto-bio-gráfico.
Como são contos, não cansa a leitura.
Cada um é cada um.
Dentre eles está Yentl, que foi tornado peça de teatro, em 1975, e depois filme, com Barbra Streisand, em 1983.

Há contos passados na Polônia sem data, relatos que ele ouvia durante a infância, outros na Polônia do início do século XX (período ainda sob domínio russo-austro-alemão), outros pré-Segunda Guerra Mundial.
Contos mais modernos se passam nos Estados Unidos – Nova York ou Flórida – no período pós-Segunda Guerra, ou em Israel, e até mesmo na Argentina.
Muitas palavras ou expressões estão em  iídiche, mas nada impossível de ser aprendido no glossário.

O que me surpreendeu foram as lições sobre o judaísmo.
Nunca imaginara que fossem tão tão tão supersticiosos!
Diabinhos, talismãs, amuletos, quebrantos, reencarnações, inferno (não eterno), e coisas do tipo em quase todos os capítulos.

Sem contar a tradição do casamento:
as casamenteiras saem para procurar “um bom partido” para ele e para ela.
Se não der certo, porém, nada mais fácil do que obter o divórcio.

Caramba, os judeus ashkenazim são muito mais complicados do que eu pensava…
Só não posso dizer isso a eles.

A tradução de José Roberto Siqueira parece ter sido feita por alguém que não mora no Brasil. Há termos que parecem demasiadamente com dicionários, e não com expressões da língua contemporânea.
A revisão, feita por Ana Maria Barbosa e Carmen S. da Costa também deixa a desejar. Curiosamente, são mais evidentes os erros em um conto que narra a história de um vizinho, que era revisor em um jornal iídiche em Nova York.

Descobri que há muito tempo, durante a adolescência, eu havia lido O Mago de Lublin (traduzido para o português por Rachel de Queiroz), livro escrito por Bashevis em 1960, mas o nome do autor não havia ficado registrado em minha memória – apenas o livro.
Gostei tanto de ler Bashevis, que já me municiei de outros dois livros de sua autoria: O Penitente, e Inimigos: Uma História de Amor, ambos publicados pela L&PM.

 

Não vou poder falar mal desse livro…

Li um dos piores livros que já podia ter sido publicado no Brasil.
Não posso, porém, falar mal dele aqui para vocês.
Os herdeiros vão me processar.
A associação de magistrados vai me condenar por eu ter duvidado de Sua Omnisciência.

Assim funciona o Brasil…

Posso apenas comentar que se trata de um livro sobre história (no caso, devem ser historietas da imaginação senil do autor), e que o livro não deve ter passado por qualquer tipo de revisão – nem de estilo nem muito menos de conteúdo.

A única observação que posso fazer é que deve sido piada o autor afirmar que o Cerco da Lapa, durante a Revolução Federalista, ocorreu no Rio de Janeiro, e não no município paranaense. Um errinho bobo de pouco mais de 900 km, e eu implicando com isso…
Acho mesmo que eu posso não estar bem informado, e não me lembre que a manifestação de black-blocs pichadores nos Arcos da Lapa ficou conhecida como o Cerco da Lapa…

Pois é, será que a livraria que teve o descaso de colocar à venda esse livro, sem qualquer preocupação com o conteúdo, faria o reembolso, com juros e correção monetária, pelo que eu paguei? Ela não é a “melhor do país”? Não tem zilhões de empregados (perdão, colaboradores) especializados?

A liberdade de expressão serve para editoras, mas não para comentaristas de livros…
É o poder de quem tem mais dinheiro.

Oremos pelas pobres árvores derrubadas para produzir pasta de papel que foi  infectada com tinta,
para perpetuar as sandices do nobilíssimo autor que já virou nome de rua.

Os Sonâmbulos

Os Sonâmbulos – Como eclodiu a Primeira Guerra Mundial (Christopher Clark, Companhia das Letras, 700 p., 2014, R$ 57,90; tradução de Berilo Vargas e Laura Teixeira Motta; revisão de Huendel Viana, Jane Pessoa e Ana Maria Barbosa) é um dos muitos livros que têm sido publicados para o mundo se lembrar de que a Primeira Guerra Mundial ainda não terminou. Tudo o que provocou, com o término do sistema dos impérios do século XIX, continua ainda a se adaptar.

O autor australiano fez uma obra recheada de muita pesquisa, porém tem altos e baixos. Algumas análises trazem novas cores ao estudo da Grande Guerra. Em outras partes, o livro fica recheado de detalhes irrelevantes, e outros são pouco explorados. Há sub-capítulos entediantes.

Destaca a importância de um doentio nacionalismo sérvio como propulsor de crises na região. Fala dos “dois enfermos”: o Império Otomano, e o Império Habsburgo da Áustria-Hungria. Aponta o revanchismo francês contra o Império Alemão, depois da derrota de 1870-71. Mostra a política claudicante do envergonhado Império Russo, espremido na Europa e derrotado na Ásia. Parece pouco se preocupar com as ambições alemãs, e com a instabilidade emocional de um kaiser doente e confuso, em Berlim, nas relações com seus primos que estavam em outros tronos (Londres e São Petersburgo). Deixa às claras o comportamento (sempre) contraditório da Itália e da Romênia, bem como uma “tendência” à traição por parte da Hungria. Não se aprofunda na política britânica daquelas décadas.
O livro fala várias vezes da criação de um possível reino croata dentro do Império Habsburgo, para abrigar os eslavos do sul (iugo-eslavos) e conter a Sérvia, mas sequer menciona que Francisco José (ou Franz Josef, como preferirem) apoiava a criação de um reino na Boêmia, para abrigar os eslavos do norte.

Uma considerável parte do livro, no início, tem grande utilidade, ao apresentar ao leitor a questão balcânica, com reviravoltas tanto internas (o assassinato do rei sérvio e a mudança dinástica em 1903, que passou de uma casa real filo-austríaca, os Obrenovic’, a outra anti-Habsburgos, a dos Karadodjervic’ ), quanto externas (a Primeira e a Segunda Guerras dos Bálcãs – 1912 e 1913), com as alianças se modificando em tão pouco tempo.

O professor barbudinho (na pior acepção da palavra) adorou fazer comparações entre fatos da época e fatos futuros. Estranho, na História um fato costuma se basear no passado anterior, e não no futuro, embora possa vir a ter conseqüências. Por isso, muito mais coerente seria falar mais da Guerra Franco-Prussiana, das revoluções liberais de 1840/1860, do que da Guerra do Vietnã (que ele menciona mais de uma vez), do que a Crise dos Mísseis em Cuba, o episódio Irã-Contras, e outros fatos do tipo.
Se for para incluir eventos futuros em relação à Guerra, foi omitido que o nacionalismo sérvio fanático provocou, no final do século XX alguns dos piores episódios genocidas, sobretudo na Bósnia-Herzegovina. Kossovo só não se tornou outro campo de extermínio porque a comunidade internacional já estava preparada para impedir a reação da Sérvia, na passagem do século XX para o XXI.
Os anarquistas que, em 1898, tinham matado a imperatriz Sissi, não eram relevantes no painel da política européia (e mundial) naquela época? Só o grupo terrorista sérvio Mão Negra existia? (Terrorismo aproveitando-se de idealistas anarquistas, antes, e depois.)
A revolução bolchevista não viu uma faísca explosiva nos problemas da Marinha em Odessa, em 1905?
E a ascensão nazista? Não teve qualquer motivação na derrota alemã de 1918?

Trata o assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando, por um grupo de terroristas sérvios, como um evento comparável ao do Presidente John Kennedy, por mafiosos americanos. A morte de Kennedy por acaso provocou, além de estarrecimento, alguma guerra?
Concluir o livro comparando a Guerra com um romance policial de Agatha Christie, ainda que negando essa analogia, é indesculpável. Falta de respeito com todos os mortos, civis e militares.
Melhor seria deixar claro que a Guerra foi o resultado de um modelo fracassado de diplomacia, mais preocupado com forma do que com conteúdo das mensagens.

Clark preocupa-se com a sexualidade de alguns personagens. Omite alguns outros componentes, porém. No curto parágrafo em que menciona o caso do Coronel Redl, fala apenas da chantagem que o militar sofria por parte dos russos. Não menciona, porém, que a escolhe do militar homossexual como “bode expiatório” para o governo de Viena baseou-se, também, no fato de que os rutenos eram a minoria menos convulsiva de todas as que compunham o emaranhado de povos do Império.

Muito interessante o sub-capítulo sobre a imprensa e a opinião pública, ao mostrar que a diplomacia, como faz até hoje, aproveita-se de matérias pagas para motivar política externa dos respectivos países, e que recortes de jornais eram o fundamento das “análises”.

O livro apresenta imprecisões, não sei se decorrentes do texto original ou se da tradução brasileira.
Frases com possibilidade de dupla interpretação:
“A pior mácula do governo austríaco na Bósnia-Herzegovina era a deploravelmente baixa taxa de analfabetismo e frequência escolar, pior até que a da Sérvia. “
Altas taxas de analfabetismo são elogiáveis? Ou sempre são deploráveis? Li a frase dos dois modos.

Em outro capítulo, o que quer dizer:
“a dinâmica era diferente, mas análoga”  ?

Existe, mais de uma vez, confusão entre Eslavônia e Eslovênia, no texto e em mapa. A primeira fica a leste da Croácia, próxima da Sérvia e da Hungria, ao passo que a segunda situa-se a oeste da Croácia, vizinha da Itália e da Áustria.
Erro do autor ou da tradução?

Não existe regra para a utilização dos topônimos, Adrianópolis aparece sempre com o nome que foi dado pelos turcos em 1924: Edirne. A mesma confusão ocorre com diversos outros nomes:
Kirk-Kilise / Kirklareli / Lozengrad;
Bitola / Monastir;
Ragusa / Dubrovnik;
Scutari / Shkodër (inclusive há um erro de digitação, com um horrível Scurati no texto).
Salônica ou Tessalônica?
Um pouco de cada.

A mesma confusão vale para antropônimos. Eduardo VII foi sucedido por George V.
A palavra alemã Schloss mais de uma vez aparece no original, sem a correspondente tradução para o português: castelo.
Ah, and last but not least: substantivos terminados em X em português são invariáveis no plural: fênix, ônix, tórax (e por que não também incluir xerox e fax?). Português e inglês não compartilham as mesmas regras.

Infância

Terminei de ler Infância, de J. M. Coutzee (Companhia de Bolso, 2010, 150 p., R$ 20,00).

A “ficção auto-bio-gráfica” do próprio Coetzee, passada em diferentes áreas do Cabo Ocidental, é um amontoado de lembranças mal resolvidas de uma infância amarga em que o autor coloca-se como terceira pessoa, na década de 1940.

Foi possível a Coetzee mostrar um bom apanhado da África do Sul, sua incrível variedade de paisagens na geografia, a presença de etnias muito diferentes, tanto na origem geográfica quanto no tempo histórico, o que, em geral, é mal conhecido pela maioria dos estrangeiros (presos a estereótipos do politiquês correto e històricamente falho, tão cheios de pré-conceitos quanto os que são lançados contra os antigos governantes africânderes – afrikaners), a diversidade de línguas (atualmente onze são as línguas oficiais no país), a multiplicidade de igrejas. Um país de múltiplas faces, onde o autor auto-bio-grafado parece não se encaixar.

Nisso o livro foi uma viagem que pude refazer, por ter passado uma temporada na África austral, há cerca dee sete anos, e por ter visitado quase todos os lugares mencionados por Coetzee.

Contudo, foi outra vez uma decepção ler algo do mais falado escritor sul-africano! Alguns capítulos são de leitura ágil, prendem a atenção do leitor, enquanto que os seguintes podem ser arrastados, cheio de rodeios, viagens sem rumo.

A edição da “griffe”, como de hábito, é fraca. Por exemplo, menciona-se o Karoo pela primeira vez no livro na página 49, mas só adiante, depois de ser citado mais vezes, aparece na página 83 uma Nota do Editor para dizer que se trata de uma ” “região semidesértica da África do Sul”, cheia de flores, faltou também dizer. Provàvelmente o Editor e os revisores não tinham lido com atenção as páginas anteriores. A lombada da capa também é escrita com as letras de modo que o título não possa ser lido se estiver na posição horizontal.

Além de minhas lembranças reavivadas com os diversos capítulos, pude lembrar de minha primeira professora de Inglês:

to like significa gostar de; ninguém like of, e ninguém gosta sòzinho.

O pessoal da editora, pelo visto, não teve aulas com dona Gilberta. Não sabem que regência verbal existe tanto em inglês como em português.

A linguagem de Coetzee, no original, como tive a oportunidade de ler em Disgrace (mal traduzido para Desonra em português), não imita os erros gramaticais de personagens; usa em inglês a linguagem correta. Não foi o que ocorreu na tradução em português, que invàriavelmente ignorou a ênclise, que muitas vezes dá mais rapidez à frase, pela tonicidade no início. Muitas frases soariam melhor. O des-acordo ortográfico, tão precioso à editora, pouco me importa.

Por sua vez, nem todas as frases escritas em africânder (afrikaans) mereceram tradução para o português, pois não deve haver tradução para o inglês no original. Podiam ao menos ter merecido uma nota de rodapé, como o Karoo.

Por sorte, quando na África do Sul, como já comentei no artigo anterior, tive a sorte de ler livros de outros autores, e minha visão sobre o país foi muito mais ampliada, do que aos leitores que apenas conhecem Coetzee, seus prêmios de jornalista e o Nobel. Para mim fica consolidada a percepção de que Academia de Letras e Prêmio Nobel são apenas galardões políticos, não méritos efetivos.

Chagas de Luz

Recebi de uma parente um livro espírita, religião que ela segue, sobre os internos nos leprosários de São Paulo na primeira metade do século XX – Chagas de Luz (Edison Carneiro e Manuel dos Santos Soares, Editora Aliança, 2012, 320 p.).
Um deles é o leprosário de Santo Ângelo, onde ainda há gente que foi internada compulsòriamente e que perdeu contato com o mundo, e preferiu continuar morando lá. Já lá se vão mais de 70 anos. Crianças que pràticamente nunca conheceram o mundo fora dos limites da “colônia”.

O livro narra a participação de algumas pessoas interessantes. Uma delas é a da deputada Conceição da Costa Neves (Conceição Santa Maria em certa época de casamento), ex-atriz eleita como a primeria mulher na assembléia de São Paulo, que lutou para denunciar os abusos que ocorriam nesses locais onde os doentes eram isolados.
Outra presença no livro é a de Ademar de Barros, o famoso Rouba Mas Faz I, sempre eleito pelos paulistas.

Eu não imaginava de que existissem tantos leprosários em São Paulo. Nem que houvesse médicos tão canalhas, que ainda por cima mereceram título de “servidor público emérito”.
Gente assintomática era internada compulsòriamente em nome da saúde pública, com base nos critérios desses “médicos oniscientes”. Esses internos morriam por falta de cuidados nos campos de concentração implantados pelo Getúlio Vargas e seus seguidores. A lepra tinha de ser necessàriamente uma doença sem cura e que levasse à morte, nos conceitos desses médicos corruptos, que pululavam no serviço público e abominavam as pesquisas científicas que contrariassem seus dogmas. A história de terem derrubado a estátua do médico-diretor do campo de concentração de Santo Ângelo parece a derrubada da estátua do Sadam Hussein.

Importante: o livro tem fotos e cita as fontes históricas, de forma a permitir a confirmação dos relatos abomináveis de uma época não tão distante de nós. Por isso pode ser lido como um importante relato histórico, vivenciado por um dos autores (Manuel dos Santos Soares). Isso supera de longe qualquer restrição que algum leitor possa ter com relação ao aspecto da religião no livro.

A revisora do livro, Arlete Genari, esteve preocupada com a acentuação exigida no des-acordo ortográfico, mas esqueceu de algumas regras básicas da língua portuguesa, como a de que o verbo HAVER, impessoal, não flexiona no pretérito perfeito. Se Há e Havia, então Houve, jamais o erro abominável de “houveram”.

O internacionalismo vaticano e a nova ordem mundial

O internacionalismo vaticano e a nova ordem mundial: a diplomacia pontifícia da Guerra Fria aos nossos dias, de Anna Carletti (FUNAG, 2012, 228 p.), supre uma lacuna nos livros sobre a igreja católica, ao tratar de sua diplomacia, as relações com outros países, com organismos internacionais e também com outras igrejas. Logo no início faz uma interessante apresentação das muitas instituições que auxiliam o papado na condução da igreja e nos assuntos internos e externos do Vaticano.

Ao contrário do que o título sugere, a obra inicia seu estudo com as relações entre o papado e o Império Bizantino, estendendo-se pela história da Europa Ocidental, de Carlos Magno (século VIII) à unificação italiana, quando desapareceram os Estados Pontifícios (1870), e o papa declarou-se “prisioneiro do Vaticano”.

Naturalmente enfatiza o período que se seguiu a essa data, marcando com detalhes o pontificado de todos os papas desde então. Demonstra a influência canônica de Leão XIII e de Pio X, o período internacionalmente conturbado que coincidiu com o reinado de Bento XV, a seqüência dos papados conservadores de Pio XI e Pio XII (relação com o nazi-fascismo), até a reviravolta produzida pela renovação trazida com João XXIII, Paulo VI e o curtíssimo período de João Paulo I. Fala do longo reinado de João Paulo II e do atual período de Bento XVI, concluindo:

Bento XVI luta contra o que ele considera um inimigo invisível, mas presente: o relativismo. Mesmo apresentando elementos de continuidade em relação ao seu predecessor, o pontificado de Bento XVI abandonou a teatralidade dos gestos de João Paulo II, privilegiando tons mais sóbrios, que chamam a atenção mais pelo conteúdo de seus discursos do que pelos gestos do pontífice. O diálogo até discreto com pequenos grupos parece ser a estratégia preferida do papa-professor.

Eu, particularmente, sempre preferi a racionalidade de Ratzinger ao emocionalismo de Wojtyla.

O livro precisaria, contudo, ter tido uma melhor revisão. Mais de uma vez surge a informação – errada – de que “o primeiro papa estrangeiro foi Adriano VI, eleito em 1523”. Em primeiro lugar, o que é estrangeiro? Pedro, que eu me lembre, era da Galiléia, e não tinha cidadania romana. Entre ele e Adriano houve papas africanos, sírios, franceses, espanhóis, etc.. Então, entre Adriano VI e João Paulo II deve-se dizer que o flamengo foi o último papa não italiano antes de Wojtyla.

Em mais de uma vez, também, a autora confunde Núncio/Embaixador DE com Núncio/Embaixador EM.

Erros de regência também são encontrados com freqüência maior do que a desejável em uma obra acadêmica. Não comprometem o conteúdo do livro, mas deixam a desejar com relação à acuidade da obra.

Filhos de Sarajevo

Filhos de Sarajevo – Convivendo com os fantasmas da guerra, de Bruno Marfinati (Mundo Editorial, 2010, 142 p.), é um livro que mais de uma vez me provocou problemas com leitores que não gostam de críticas, apenas de elogios.

Não se pode pode dizer que o livro teve mal trabalho de revisão. Alguém se sente ofendido com isso.

Por isso, o texto integral sobre meu comentário sobre este livro está protegido por senha, que me poderão ser requisitadas por leitores sem o espírito de mimimi, típico da new generation que não admite críticas contrárias a eles mesmo.
Sabe como é, a tal “liberdade de expressão” só é válida quando a favor dos jornalistas, quando usada por “reles mortais” ela tem de ser combatida.
Se não eles já vêm com aquelas coisas de “processar” quem ousou ir contra suas opiniões e seus textos mal escritos e pior revisados.

No próprio livro há um trecho interessantíssimo, testemunho de uma criança, que ressalto:

“não entendo nada de política e nunca seria uma política nem jornalista

Enquanto isso, prefira o livro como-o-soldado-conserta-o-gramofone, que foi escrito sem a intenção de ser documento jornalístico, mas tem muito mais conteúdo.E aos ofendidos, sugiro que leiam críticas muito mais profundas sobre outros livros, de romancistas ou de historiadores renomados.

As crianças da Sarajevo da guerra já têm agora 20 anos de idade. Muitas delas foram mutiladas, traumatizadas, abandonadas ou separadas dos pais, agora já nem tão crianças, mas jovens adolescentes que viram e sentiram o cheiro da morte ao lado.Outras são crianças que nasceram depois do término da guerra (e do genocídio), que conhecem a história da estupidez humana por narrações dos pais e avós.

Este livro versa sobre um tema importante, sem dúvida, mas muitos aspectos interessantes sobre o assunto foram ignoradas no trabalho de Bruno Marfinati. Parece que foi escrito mais como uma curiosidade, sem o devido preparo. Deixa a impressão de que um viajante descobriu coisas interessantes durante um passeio, quando não seria exatamente essa a intenção prévia. Já li artigos melhores sobre a Bósnia-Herzegovina…