religião

Uma história politicamente incorreta da bíblia

Uma história politicamente incorreta da bíblia, de Robert J. Hutchinson (Agir, 2012, 248 p., tradução de Fabíola Moura, R$ 21,00) é qualquer coisa, menos polìticamente incorreto.

Deplorável.

Apenas uma obra de um cristão fanático que quer derrubar teses de outros autores, que contestam as lendas que envolvem a mitologia judaico-cristã, religião majoritária e visionária.

Não vou comentar mais do que isso.

Afastem de mim esse livro! (que até tem uma boa apresentação visual interna… )

 

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como virar Buda em cinco semanas

Que título longo: como virar Buda em cinco semanas – o caminho mais curto para a serenidade.
Foi assim que Giulio Cesare Giacobbe, Ph.D em psicologia, denominou seu livro (Best Seller, um ramo da editora Record, 2009, tradução de Carlota M. Xavier, 140 p.), escrito como auto-ajuda e auto-convencimento, após a morte do filho de 27 anos.

Fala sobre As Quatro Nobre Verdades e O Nobre Caminho Óctuplo da doutrina budista.
Até aí tudo bem, mas querer convencer o leitor de que o filho morto se tornou um buda, e que fazendo exercícios ràpidamente todos conseguirão fazer o mesmo, é simplesmente ultrapassar os limites do bom-senso.
Compreendo que o autor sinta a perda do filho, mas esse tipo de auto-convencimento se enfraquece quando surge com “fórmulas” para o “método científico” para a “presença da realidade”, no caso, a própria Itália do século XXI.

Admiro muito a filosofia budista, e o Dr. Giacobbe a resumiu bem, de forma, claro.
Não gostei, porém, desse tentativa de encontrar o caminho mais curto para receber uma graninha.
O livro ficou com “cheiro” de charlatanismo.

 

Os Ortodoxos

A família de meu pai era ortodoxa antioquina, e confesso que nunca entendi o que os diferia do ramo materno católico. As diferenças pareciam ser na ênfase na Páscoa (em data diferente, conforme o calendário juliano), na persignação “invertida” (do ombro direito para o esquerdo), e poucas outras coisas, em geral relacionadas à liturgia de sacramentos.

Fui esclarecido com a leitura de Os Ortodoxos – O Oriente do Ocidente (Enrico Morino, editora Paulinas, tradução de Antonio Efro Feltrin, 2005, 126 p.), um interessante livro escrito por professor de História e Instituições da Igreja Ortodoxa na Universidade de Bolonha, Itália. E pela primeira vez vou me alongar, aqui no blog, no comentário sobre a leitura que tive de um livro.

Ao contrário do que sempre se divulga, não foi em 16 de julho de 1054, durante a liturgia matinal na nave da Igreja de Santa Sofia, que se materializou o tal Cisma que significou a divisão entre a Igreja Católica com sede em Roma e a Igreja Ortodoxa com sede em Constantinopla.

As duas igrejas já nasceram separadas. Uma sempre foi latina (romana) e a outra sempre foi grega (oriental). Eram duas civilizações distintas dentro do Império Romano, por mais proximidade que tivessem em alguns aspectos. Os latinos mesclaram-se com os povos germânicos; enquanto na parte oriental do Império foram os eslavos que predominaram.

Os latinos deturparam (e seus descendentes mantiveram) “o termo “bizantino” ao lugar-comum, de origem medieval de “grego infiel” (graeculus perfidus)”. [medieval é tudo o que ocorreu após a divisão do antigo Império Romano de César Augusto em duas partes, no século IV, até a destruição do Império Bizantino, em 1453]

O autor logo no início mostra que as diferenças eram bem maiores, “já que nas Cruzadas mascarava-se, com princípios humanitários, uma intenção hegemônica subjacente que comportava, na realidade, a destruição da civilização ortodoxa. O mesmo se repetiu quando as potências ocidentais aliaram-se ao Império Otomano na Guerra da Criméia (a do século XIX), e mais recentemente, na luta contra a Sérvia em favor de Kosovo. Sempre foi mais conveniente aos ocidentais aliar-se aos muçulmanos do que aos ortodoxos.

O autor mostra logo no início que “a Ortodoxia pode realmente definir-se, em nosso panorama cultural, como a grande desconhecida, ou talvez pior, como a grande pouco conhecida (com o agravante de que conhecer mal é muito pior do que não conhecer nada).”

A arquitetura de início já mostra de modo característico diferenças entre as duas formas de fé cristã. Nas igrejas ortodoxas “o altar está bem escondido, atrás da chamada iconóstase”, e “as imagens sagradas, os ícones, têm um estilo diferente e cumprem uma função totalmente diferente na liturgia.” “Quase paradoxalmente, nas duas igrejas (ortodoxa e católica), nas quais se realizam ritos com o mesmo valor teológico, apresentam-se como dois ambientes completamente hetereogêneos, enquantos outras duas (católica e protestante), nas quais se praticam ritos com pressupostos teológicos diferentes, são ambientalmente homogêneos” (ao menos nas igrejas protestantes mais tradicionais, como a anglicana e a luterana).

Mais algumas diferenças pouco conhecidas por leigos católicos:

os Ortodoxos não têm o conceito de purgatório, “para expiação e posterior salvação; no Oriente ortodoxo existe a doutrina dos trânsitos aduaneiros, mediante os quais as almas, logo depois da morte, são postas à prova ou examinadas por vários vícios pelos demônios e defendidas pelos anjos.”;

a Igreja Ortodoxa não aceita o dogma católica da Imaculada Conceição de Maria. “Por causa de Adão todos herdaram a culpa, mas não as conseqüências, e, primeira dentre elas, a inclinação ao pecado. A Mãe de Deus nasce sem pecado original simplesmente porque assim todos nascem. Maria se livrou das conseqüências do pecado original, graças a uma disciplina interior austera.”;

na Igreja Ortodoxa a relação com a matéria é objeto de uma profunda consideração teológica. A encarnação do Filho de Deus, penhor e primícia da divinização do homem, consiste exatamente na paradoxal – inadmissível para todo espiritualismo – apropriação da matéria criada por parte do Deus criador. Nessa perspectiva, compreende-se a afirmação quase provocatória de São João Damasceno: “Não cessarei de prestar veneração à matéria, por meio da qual operou-se a minha salvação. Eu não venero a matéria, mas o Criador da matéria“. “Os muitos aspectos aparentemente materialistas da sua piedade não são expressão de uma fé ingênua e quase supersticiosa, mas o resultado de um refinamento extremamente refinado.”

Chegamos aí aos dois grandes símbolos que tanto caracterizam as igrejas ortodoxas, o ícone e as relíguias.

“O ícone, considerado não no seu valor histórico-artístico nem segundo os parâmetros estéticos, mas nos seus fundamentos teológicos, representa uma das mais formidáveis materializações do sagrado.” “A razão da proibição do Antigo Testamento “não farás imagens para ti” é atribuída à natureza espiritual de Deus e, portanto à absoluta impossibilidade de ser representado: toda tentativa nesse sentido teria sido uma caricatura blasfema do divino. Considerar esse estado de coisas ainda válido nos nossos tempos quereria dizer negar que com a encarnação Deus mesmo, assumindo uma natureza humana íntegra, tenha-se tornado voluntariamente representável.” “Por isso o ícone não é um retrato vivo de um defunto, mas a representação de um homem já transfigurado no processo de divinização.” “As convenções do ícone, por vezes surreais – pois não se limita a transgredir as mais comprovadas regras de perspectivas, mas apresenta uma perspectiva exatamente invertida -, têm a finalidade de afirmar a dimensão totalmente metaistórica e metafísica do mundo do qual o ícone quer ser o espelho fiel.”

“Ícones e relíquias representam, de maneira absolutamente paralela, duas formas de presença na ausência do Cristo e dos santos, duas modalidades por meio das quais o sagrado – nas religiões evoluídas é absolutamente imaterial – materializa-se, sem perder a prerrogativa intrínseca de transcendência.”

Mais uma informação sobre os símbolos: as velas. Elas são de cera natural amarelo-escura, diferindo das velas brancas de parafina dos católicos.

Em uma cerimônia religiosa, o fiel molha o dedo no azeite das lâmpadas. O jogo de luzes, o canto litúrgico, rigorosamente sem instrumentos musicais, apenas com a voz humana, e o uso abundante do incenso inebriante ao olfato, são instrumentos com os quais o fiel é chamado a participar de quase todos os sentidos.

Um capítulo trata da vida monacal, e outro sobre o sentido de “economia” (oikós) na Igreja, e suas implicações no matrimônio.

Na conclusão desses aspectos todos da Igreja Ortodoxa, transcrevo os ensinamentos de São Basílio e de São Cipriano: “Não pode ter Deus por Pai quem não teve a única e diferente Igreja por mãe”. Depende da legitimidade de quem administra os sacramentos sua validade, e não da intenção de quem os recebe.

Com relação ao livro, a escrita do autor é às vezes confusa, e isso não foi aliviado pelo tradutor ou pelo revisor. Não raras vezes, no meio de frases intercaladas em vírgulas, e de inúmeros apostos, encontra-se o sujeito de um período na terceira linha do texto. Adjuntos adverbiais são mal colocados no conjunto de palavras, havendo casos em que um adjunto temporal insere-se no meio de dois adjuntos de local. Isso torna a leitura muitas vezes enfadonha, pois é necessário ler e reler o texto para sua compreensão.

Além disso, aparecem ocasionalmente palavras que existem em italiano mas que em português não fazem sentido, como “asbúrgico”, para significar adjetivo referente à dinastia austríaca dos Habsburgos. Nem Houaiss nem Aurélio consignam essa palavra, apesar de eu já a ter encontrado em outras traduções do italiano para o português.

Traduttore, traditore, embora no caso a traição seja à língua portuguesa, e não ao significado.

A Divina Comédia

A Divina Comédia, de Dante Alighieri, Editora Landmark, 2005, 894 p., tradução de Vasco Graça Moura, edição bilíngüe.

Comecei há ler, há algum tempo, A Divina Comédia.
Um dos trabalhos mais comentados e elogiados dos últimos oito séculos.
Dante fez um trabalho e tanto em escrever aquilo tudo.
Solidificou uma língua popular que não existia até então na Itália, compreensível por todos (quase todos, suponho).
O ritmo dos versos não tem nada de rocambolesco, não oferece dificuldade para acompanhar, em italiano ou em português, é bom frisar.

O poema divide-se em três partes, Inferno, Purgatório e Paraíso, cada uma com 33 cantos, (além de um de introdução, no Inferno), que são subdivididos em nove círculos, e compõem 14.233 versos, escritos por Dante ao longo de quase 15 anos.
As estrofes mantêm, ao longo dos versos, um ritmo que nada tem de rocambolesco, não oferecem dificuldades para acompanhar, em italiano ou na tradução para o português.
Em várias passagens, Dante criou neologismos, a partir do latim, para inclusive dar um toque de humor ao texto.

O livro está bem montado, traduzido do toscano para o lusitano por Vasco Graça Moura, que por acaso morreu agora em maio.
Muito bem traduzido, cheíssimo de notas de rodapé, para explicar cada detalhe do que se passa naquelas estrofes.
Ao lado da tradução, há uma página com o texto original italiano, que muitas vezes é bem fácil de ler.
Confesso que fiquei com muita inveja do tradutor, pela capacidade dele não apenas de usar as palavras em português, para a poesia, mas por toda a capacidade de minuciar o que havia na intenção do autor toscano em pràticamente cada linha da obra.
Como invejoso pecador, segundo o julgamento de Dante, não irei ao céu.

 

NÃO OBSTANTE,
ainda assim é um livro chato.

Chato por conta da própria história.
Quer falar das fofocas de Florença, conte tudo em um romance!
Faça comentários em revistas ou em blogues!
Não precisa encher de versos e de centenas de personagens da Antigüidade para misturar tudo.
Como diz uma amiga, só mesmo professor de literatura para afirmar que a poesia é anterior à prosa. As pessoas começaram a cantar antes de aprender a falar?

Se fosse escrever a história do mensalão, Dante escolheria Nero para guiá-lo por Brasília, Belo Horizonte e São Paulo, e faria um monte de rodeios para dizer quem era quem, e porque estavam no inferno para pagar pelos pecados que não tinham sido punidos em vida. Não precisa falar do boitatá, da caapora, nem do saci, nem inserir Dom João VI, Joana Beltraneja ou Domitila de Castro, para explicar quais eram os crimes, caramba.

É fofoca demais! ATÉ para o meu gosto.
Já não gosto de poesia, mas o assunto por trás dos versos foi mais chato do que a poesia.
As disputas de poder, que eram contemporâneas a Dante, entre guelfos e gibelinos, a influência da Igreja na vida civil, as rivalidades entre o clero italiano e o clero francês, entre os reis franceses e os sacro-imperadores romano-germânicos, tudo recheado por fatos ou mitos da Antigüidade greco-romana, e questões teológicas judaico-cristãs.
Dante podia ter feito todo o trabalho sem se meter tanto na vida dos outros, de apontar tantos defeitos.
Aposto que ele está no inferno, por conta de ter sido tão enxerido. Fora o fato de ter se dado à petulância de ter sido recebido em audiência por Deus, lui-même.

Quando consegui superar a parte sobre Inferno, até deu para seguir com mais ligeireza (leveza e rapidez) o texto. Tanto o Purgatório como o Paraíso não pareciam tanto ser trama de filme de terror cheio de d-efeitos especiais. Eram mais fluidos, como deveria ser a luz do Paraíso. Só que eu já tinha perdido o interesse…
Ou seja, o Inferno teria sido propositadamente um inferno para ser lido, enquanto o Paraíso daria desejos de sublime ascensão do ser.
Nisso, Dante acertou em cheio com a obra!

Vocês já leram?
O que acharam?

Uma amiga, formada em Letras, comentou que tentou ler há muitos anos, mas não conseguiu ir adiante. Concordou comigo: é chato!
Um amigo respondeu que já tinha lido, todo, e também concordou comigo. O interesse foi mais pelo dialeto toscano que se consolidou no italiano padrão. Afora isso, meu amigo disse que se irritou com a visão dos pecados e os castigos impostos no Inferno. Em todo caso, concluiu, ele ainda tem paciência para ler os clássicos.

Importante: clássico tem de ser lido como clássico, e não como um textículo inventado por uma professora em busca de verbas, para reeditar, para alunos preguiçosos, autores de que ela não gosta.

Clássico por clássico, prosa é quase sempre mais agradável do que poesia, e romances em geral são menos chatos do que um calhamaço para ser declamado em versos.
Em A Divina Comédia, Dante super-dosou personagens e o uso de referências na poesia!
Imagino se fosse obrigatória aos atuais alunos brasileiros a leitura de Inferno! Haveria quebradeira de ônibus e de vitrines nas ruas.

Disse que não gosto de poesias, que sempre prefiro a prosa.
A Divina Comédia, livro que tentei ler, confirmou essa minha predileção. Utilizo a expressão “que tentei ler”, pois confesso que, em muitos cantos, de Purgatório e de Paraíso, preferi ler as notas de rodapé do tradutor, e depois dar uma passada de olhos nos versos. Já tinha perdido o interesse na totalidade da obra. A poesia era excelente, mas o tema subjacente tinha feito minha mente desviar-se para outros assuntos.
Tenho certeza, porém, de que não farei nova tentativa de ler os 100 cantos, não importa qual a edição.

Incoerência de minha parte? Critico os “adaptadores” para a linguagem “funk” se eu mesmo não tive a paciência de ler uma poesia?
Tentei. Tentei e aprendi muita coisa sobre mitologia, a língua portuguesa, o latim, a história do mundo. Não me contentei em chamar “sagacidade” de “ischpertêza”. E não corro atrás de verbas e de fama, une “toute petite” énorme différence.

A quem ainda não teve a experiência, fica o desafio.
Se tiver lido, ou se conseguir ler no futuro, avise-me.

A Nova Ordem Ecológica

A Nova Ordem Ecológica, do filósofo francês Luc Ferry (Editora Difel, 2009, 250 páginas), é um livro intrigante.

Demonstra o lado perigoso do ecoterrorismo que se imbui diàriamente nas mentes, sobretudo através das ONGs (boa parte delas Muito-Governamentais), e do Jornalismo engajado (e remunerado). Discorre sobre o sério risco de regredirmos a um estado inquisitorial que vigorava antes de termos adquirido, com a Revolução Francesa, os Direitos Humanos, e voltarmos a um direito baseado na Natureza divina.

O autor mostra a obscena ligação entre os Verdes (atuais) e as legislações editadas por Hitler em 1933, 1934 e 1935, algo de que os Verdes não gostam nem um pouco que seja mencionado. Como é que aquele homem, que gostava tanto de animais e da natureza romântica, pôde mandar praticar atos de crueldade contra seres humanos tão marcantes na História?

[Em Fascismo de Esquerda, Jonah Goldberg, Editora Record, 2009, 545 p., há dois subcapítulos sobre Fascismo Verde e A Cultura Nazista do Orgânico, que abordam essa “coincidência”.]

Questiona a posição dos ecochatos de pleitearem valores e direitos a minerais, por exemplo, tal como já ocorreu, recentemente, nos Estados Unidos. Mas, se os minerais não se manifestam, esses valores e direitos não são gerados a partir de idéias antropocêntricas? Como uma ONG pode saber o que é melhor para um rochedo em uma montanha? Só mesmo com distorcidos valores fundamentalistas.

Nesse princípio radical, uma bactéria tem os mesmos direitos à vida que uma criança.

Aí reside o grande perigo dos Verdes e de todo o movimento ecológico: o fim da democracia, com o ressurgimento, no mundo ocidental, de valores teológico-políticos.

No fundo, fascistas são nossos amiguinhos da esquerda festiva, camuflados de verdes.

[Mais um livro para ser lido. E você que ainda não o fez, procure Aquecimento Global: Ciência ou Religião?, do professor da UnB Gustavo M. Baptista.]