literatura

Fernando Pessoa – O Cavaleiro de Nada

Obtido em um escambo literário, li há uns dois meses Fernando Pessoa – O Cavaleiro de Nada , de Elisa Lucinda (Editora Record, 2014, 410 p.), biografia daquele que é avaliado como o maior escritor da língua portuguesa.
A edição é muito bem elaborada (apesar da rebuscada letra Q), com fotos de documentos e de fotografias relacionados a F.P..

O texto intercala trechos de cartas, memórias e documentos,produzidos ao longo da vida de Fernando Pessoa (1888-1935), com escritos da jornalista autora da obra.
Aí está a questão. O livro tem cheiro e sabor inconfundíveis de análises produzidas no século XXI. Sobrou-me a sensação de ter sido enganado.

 

O Alienista

Fui a uma roda de leitura de O Alienista.
Utilizei uma edição de Contos-Uma Antologia de Machado de Assis, em dois volumes, publicada pela Companhia das Letras em 1998.

Curiosamente uma das pessoas imaginava que a obra se tratasse de um romance, e se frustrou com a falta de detalhes de paisagens e de características de personagens.

Outra ateve-se à questão de “raça” do autor, com visão do século XXI sobre quem escreveu a obra em um jornal de 1882, narrando um hipotético fato da vila de Itaguaí e o médico alienista Doutor Simão Bacamarte que vai lá viver, na época do vice-reino do Brasil.

Alguém destacou o papel de Dona Evarista, estéril e submissa.

Para mim, o eixo da história pareceu ser a relação poder-corrupção-dinheiro-falso moralismo, que circula entre o médico e a câmara de vereadores. Simão Bacamarte se parece muito com membros dos poderes políticos que, a todo momento, surgem como salvadores da pátria puros e incorruptíveis, sempre acusando “os outros”.

No total, as pessoas concordaram que a principal questão abordada no conto é do que se trata a saúde mental, e a visão positivista-cientificista da psiquiatria, que engatinhava na Europa no final do século XIX (Doutor Charcot, sucedendo o famoso Doutor Pinel), e que se envolveu com o direito de internação compulsória, muitas vezes justificada com interesses sucessórios de empresas ou famílias. Nisso, em O Alienista Machado de Assis faz uma profunda crítica, pela via da ironia sutil, do cientificismo exagerado e invasivo, que se instalou no Brasil (e no mundo).

Considero que O Alienista deve ser sempre mantido como recomendado a todos os brasileiros que têm esse hábito de saúde mental – a leitura.
Machado de Assis situa-se bem adiante do próprio tempo, um autor brasileiro visionário, profundamente crítico.

Um homem: Klaus Klump

Ganhei Um Homem: Klaus Klump, de Gonçalo M. Tavares (Companhia das Letras, 2007, 116 p.), foi publicado em Portugal em 2003 e editado no Brasil conforme a grafia portuguesa, e não sob as regras do desacordo ortográfico.

Narra um país em guerra, sob ocupação militar, em que os sons das armas se elevam inclusive aos da língua local.

Klaus Klump é membro de uma rica família, que tem como atividade editar livros contra a política e o sistema econômico, indiferente ao regime militar, até que sua amante é violentada por soldados, o que o leva a optar pela guerrilha, sendo contudo aprisionado.

Outros personagens se acercam à narrativa, ao longo de vários anos de guerra e posteriormente de paz, e ocupam a vida de Klaus.

Após o retorno da vida civil e democrática, como membro da classe abastada, Klaus assume a direção dos negócios familiares, abrindo mão dos ideais revolucionários que havia anteriormente assumido.

Durante o período de guerra, a narrativa é repetitiva e enfatiza as máquinas. Não pude deixar de sentir uma sombra das obras do realismo fantástico, escritas pelo goiano José J. Veiga durante as décadas de 1980 e 1990.
Terminada a guerra no romance de Gonçalo Tavares, a narrativa assume outra forma, de menos efeitos e de mais linearidade.

Não deixa uma impressão além da obviedade do comportamento humano.
Terei de ler outras obras do autor português para estar capacitado a opinar sobre que tipo de emoção ele deixou (ou não) em mim. Até agora pareceu déjà vu.

Kyoto

Kyoto, de Yasunari Kawabata (Estação Liberdade, 2006, 256 p., tradução de Meiko Shimon, R$23,00) é uma obra, de 1960, que desenvolve uma história de duas irmãs gêmeas com vinte anos, na antiga capital japonesa, na década de 1960.

Na época, havia ainda entre os japoneses o preconceito contra gêmeos, por isso, ainda recém-nascida, uma das filhas – Chieko – havia sido abandonada na cidade, e criada como filha por um casal cujo marido é proprietário de uma tecelagem e confecção de quimonos, enquanto a outra – Naeko – é criada na pequena aldeia onde havia nascido, tendo os pais morrido logo.

O livro narra as muitas festas de caráter religioso, budista ou xintoísta, que marcavam estações do ano ou outros eventos de ordem natural.

Em uma dessas festividades as duas irmãs vêem-se pela primeira vez, e a partir daí desenvolvem uma relação de amizade afetuosa mas muito formal, dadas as diferenças sociais que haviam marcado a criação de ambas.

Uma obra literária muito lírica, na descrição da natureza e das festas tradicionais, com passagens em torno de Chieko e seus amigos, e da vida cheia de frustrações do empresário que a adotou.

Uma boa leitura.

 

 

As mais belas coisas do mundo

As mais belas coisas do mundo, de Valter Hugo Mãe (ilustrações de Nino Cals, 48 p., R$ 49,90, Biblioteca Azul O Globo, 2019) é um pequeno livro de contos, em que um neto pequeno narra a convivência com o avô.

Os pequenos textos, intercalados pelas ilustrações, tem uma linguagem simples, um pouco bucólica, que envolve o leitor pela poesia em prosa.

Terminada a leitura, nota-se que o pequeno livro tem sensações, e não idéias, como pano de fundo.
Parece uma experiência de auto-ajuda literária.

 

D. Maria I

D. Maria I, as perdas e as glórias da rainha que entrou para a história como “a louca”, de Mary del Piore (Benvirá, 2019, 215 p., R$ 31,90) é um livro sobre a vida a primeira rainha de Portugal, que viveu entre 1734 e 1816, e reinou a partir de 1777.

O livro é mal escrito. Algumas vezes a linguagem é rebuscada, copiando os escritos da época, e em outras parece mais um blog do século XXI. Nem sempre segue a ordem cronológica, para ajeitar por completo a presença de algum personagem.

Traz, porém, as necessárias dúvidas sobre a saúde mental de qualquer pessoa (segundo a autora, com a colaboração do doutor Sávio Santos Silva)).

– como se sentiria uma pessoa que a cada mês via morrer um parente próximo?

– como reagiria uma pessoa cercada da pior laia de fanáticos religiosos, que só falavam “das delícias” de queimar no inferno sob a imperdoável presença de um deus onipotente?

– como era a vida de alguém que, no início do século XIX, chegou aos 81 anos?

Ficar isolada do mundo foi um alívio para a velhinha de bom coração, que se preocupou em reinar para corrigir os inumeráveis abusos do antigo ministro de seu pai, José I, o famoso marquês de Pombal, e que sinceramente se envolvia com o povo, forma como  via sua missão de governar.

O defeito dela foi ter sido rainha de um Portugal já ofuscado por outras potências européias.
Tivesse nascido na Alemanha ou na Inglaterra e teria entrado para a história como uma grande governante.

Foi melhor e mais lúcida do que os presidentes que o Brasil teve nos últimos cento e trinta anos.

Que vida difícil teve a senhora rainha!
Médicos da pior espécie, padres fofoqueiros, ministros incompetentes, parentes.
Duvido que outros governantes tivessem tido a honestidade e a dedicação que teve em sua vida dona Maria I, a piedosa.

Histórias ou Contos de Outrora – Charles Perrault

Histórias ou Contos de Outrora – Charles Perrault, (Martin Claret, tradução Renata Cordeiro, ilustrações Rafael Nunes Cerveglieri, prefácio de Aurora Gebra Ruiz Álvarez, 2015, 126 p, R$ 39,00) contém

  • A Bela Adormecida no bosque
  • Chapèuzinho Vermelho
  • Barba Azul
  • O Mestre Gato ou o Gato de Botas
  • As Fadas
  • Cinderela ou o sapatinho de vidro
  • Riquete do topete
  • O Pequeno Polegar
  • Pele de Asno (adaptação em prosa dos versos de Perrault)
  • Os Desejos rídiculos. (em versos).

Como enunciado no prefácio, a tradução e a adaptação não se colocam como as versões de Walt Disney, que, ao contrário das histórias originais. não se preocuparam com a inserção das “moralidades” de cada conto, como apareciam na literatura do Renascimento.

Os contos não contêm detalhes escatológicos que surgem em algumas versões, sendo de modo básico uma forma de ensinar ao público infantil valores e comportamentos, e menos uma análise psicológica.

O livro tem capa dura, e cada conto é precedido de uma bem feita ilustração.
A tradução preocupa-se em mostrar jogos de palavras e dubiedades que constam do original francês.

O preço demonstra que uma boa edição não necessàriamente faz com que os preços tenham de ser estratosféricos, como costuma ocorrer com algumas editoras de letras caras.