linguagem

Pré-história

Pré-história, do autor inglês Chris Gosden (L&PM Pocket, 158 p., 2012, R$ 15,00), é um livro que nos dá algumas informações sobre o período da humanidade sem registros escritos que fogem o padrão a que fomos habituados.

Quando é a pré-história? Em qualquer momento. A maior parte dos indígenas da América sempre viveu na pré-história, apenas com tradições orais para manter vivas algumas lembranças. O mesmo vale para povos africanos ou da Oceania. Todas as informações materiais sobre eles só podem obtidas a partir de vestígios arqueológicos, que conduzem a teorias, diferentemente da história de povos que já deixaram o cenário mundial, como assírios, egípcios, ou outros que ainda permanecem, como chineses ou povos da península indiana.

Muitas das informações sobre como viviam esses povos é obtida a partir de vestígios como restos de algum vestuário, a cerâmica, a utilização de metais ou de ossos usados como armas. Igualmente relevantes, porém, são os vestígios de alimentos, animais ou vegetais, que dão traços de sociedades mais patriarcais ou matriarcais, mais nômades ou mais sedentárias. Restos funerários, e eventuais adornos, também são fontes de informações / especulações sobre o modo de vida dos humanos.

No caso dos neandertais, nossos primos, mas não antepassados, pode-se saber que, dadas as características físicas, não possuíam o mesmo estilo de linguagem oral dos homo sapiens. O autor coloca, com humor, que provàvelmente a linguagem de desenvolveu mais para fazer fofocas do que para assuntos muito elaborados, tal como é utilizada até hoje pelos humanos.

Um conceito, pràticamente tabu, que o autor desmonta, é o das floras autóctones na Oceania, pois pode-se afirmar hoje em dia que os  habitantes que partiram da Papua Nova Guiné (onde viveu o último povo pré-histórico a ter contacto, já no século XX, com os “civilizados”) para as ilhas da Oceania a leste, levavam consigo as plantas que conheciam, para com elas moldar a paisagem de “paraísos” como a Polinésia Francesa do modo que lhes pudessem dar a noção de que mantinham a relação com a terra de origem. Nada mais falso do que supor que eles tivessem  a preocupação “ecológica” de “preservação” de espécies nativas, sem a “contaminação” de outras transplantadas. O ambiente servia ao humano.

O livro às vezes torna-se um pouco lento, na descrição de sítios arqueológicos, mas na maior parte da obra a leitura é ágil e até mesmo divertida.

A pré-história não é um período tão distante de nós nem, muito menos, desinteressante.

Férias Secretas

Férias secretas, da belga Maud Frère, foi escrito em 1956. Li sua 2a. edição da tradução brasileira (Edgar Magalhães), feita pela saudosa Editôra Brasiliense em 1962, dentro da coleção “Jovens do Mundo Todo”.

Livro para adolescentes (*), narra em primeira pessoa a história de um garoto francês que, driblando os planos da família, viaja escondido para passar férias na antiga fazenda do avô, que havia sido vendida após sua morte.

O livro até consegue prender a atenção de leitores de qualquer idade. A tradução, contudo, foi feita para contrariar o vocabulário de qualquer adolescente, mesmo em 1962 (ou em 1956). Isso certamente prejudica o livro, pois não consegue manter empatia entre o narrador e o leitor.

Alguma criança ou jovem diria, hoje ou há 60 anos: “anelávamos ser como ele”? Ou usaria a forma “mouta”, para dizer “fique na moita”, ao pedir o silêncio de um colega? Isso e mais uma porção de preciosismo da tradução de nomes de frutas ou de pássaros, que inexistem no Brasil e não interessam na compreensão do texto – palavras que apenas retardam o entendimento. Não parece que o livro tivesse sido escrito para adolescentes do século XX (e possìvelmente também do início do século XXI).

Pior, porém, foi encontrar em sites da internet que o exemplar do livro (da mesma edição que eu li) está à venda por R$ 38,00!  Isso é um roubo. Ainda bem que a prática de escambo de livros, e das doações, tem se disseminado por todo o Brasil.

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(*) do tempo em que a adolescência um dia terminava, e não se arrastava pelo resto da vida adulta.

Os melhores contos de Mário de Andrade

Os melhores contos de Mário de Andrade (Global Editora, 1988, 173p., R$ 15,00), conforme seleção de Telê Ancona Lopes, contém os seguintes textos:

  • O Besouro e a Rosa
  • Caim, Caim e o Resto
  • Pia Não Sofre? Sofre
  • Briga das Pastoras
  • Nelson
  • O Ladrão
  • O Poço
  • Foi Sonho
  • Túmulo, Túmulo, Túmulo
  • Vestida de Preto
  • O Peru de Natal
  • Frederico Paciência
  • Tempo da Camisolinha,

alguns dos quais escancaradamente auto-bio-gráficos.

Chamou-me a atenção o fato de que, embora as narrativas sejam do tipo que se lê sem tédio, a linguagem, ao contrário, não condiz com aquilo que se esperaria de um dos formadores do modernismo brasileiro. Não são raras as vezes em que, buscando um “purismo popular”, as palavras parecem forçadas. Em outros contos, os volteios com os elementos das frases parecem mais com o gongorismo do que com o que seria um modernismo. Quando se tenta imitar a linguagem do “paulistanês” das décadas de 1930/1940, ela não se parece com o que diziam os primeiros paulistanos que eu escutei, no mesmo bairro da Lapa que serve de ambiente para mais de um conto da coletânea. Ou seja, aquilo que consta em uma das orelhas, de autoria de Manuel Bandeira, sobre Mário de Andrade ter sido “o brasileiro que mais se esforçou na tarefa de “patrializar” nossa terra”, na verdade soa artificial, muito mais uma sophistificação intelectual, reforçada pelas inúmeras revisões a que o próprio autor submetia cada texto. “Muitas vezes, levava anos a fio neste trabalho, com uma insatisfação desesperada e uma implacável minúcia” (Antônio Cândido, em outra orelha do livro).

Confesso que nunca li “Macunaima”- apenas vi a peça e o filme, portanto não posso opinar sobre a forma como está escrita a mais conhecida obra de Mário de Andrade. Li, porém, anteriormente, outros contos e crônicas de Mário de Andrade.

A leitura desses “melhores contos”, selecionados pela professora da USP, fez-me lembrar o que cantava Peggy Lee: “Is that all there is?” “Isso é tudo?” Ou, em outras palavras, “É só isso?”

O Mulato

Depois de ter lido uma mensagem eletrônica com expressões e gírias do Brasil de 2011, para compensar, mergulhei-me na leitura de O Mulato, escrito por Aluísio Azevedo em 1881 (L&PM Pocket, 330 p., 2011, R$ 14,90).

É impressionante como o livro ainda tem muita atualidade. Problemas da corrupção no Brasil, o coronelismo, a interferência da igreja em todos os assuntos, racismo – disfarçado ou assumido, trabalho degradante, violência e crimes “sem solução” judiciária.

Tendo sido o primeiro romance naturalista escrito no Brasil, o livro ainda mantém um pouco das características românticas, como a linearidade dos personagens – ou bons ou maus. A linguagem e o tema, porém, fazem esta obra merecer lugar destacado no quadro da literatura brasileira.

Tem mesmo de ser leitura obrigatória – sobretudo para quem só sabe se expressar com as gírias de 2011…