budismo

Silêncio

Silêncio, de Shusaku Endo (Tusquets editores, traduzido do japonês para o inglês por William Johnston e daí para o português por Mário Vilela, 2017, 270 p., R$ R$ 37,00), foi escrito em 1966, e aborda a perseguição religiosa promovida no Japão, durante o século XVII, contra os cristãos que tinham sido convertidos por missionários portugueses anos antes.

O livro tem prefácio do cineasta Martin Scorsese, que dirigiu filme do mesmo nome em 2016.

Dois padres, Ferreira e Garpe, viajam de Goa para Macau e partem em viagem clandestina para o Japão, com o intuito de restabelecer o contato de Portugal com os cristãos convertidos nas décadas anteriores durante missão de São Francisco Xavier, iniciada em 1549, mas que passaram a ser perseguidos pelo novo governo do xogunato japonês, a partir de édito de expulsão de 1614.

Além disso, buscavam informações sobre um padre Rodrigues, que havia sido professor no seminário em Lisboa, de quem se dizia que havia feito a apostasia.

O romance baseia-se em fatos reais, mas não é um retrato histórico. Muitas datas e fatos aparecem corrigidos nas notas de rodapé do tradutor.

Descreve a vida das reclusas comunidades cripto-cristãs no Sul do Japão, e as muitas práticas de tortura a que eram submetidos para efetivarem a apostasia, bem como as traições realizadas por japoneses, que denunciavam inclusive parentes, em troca de recompensas.

Padre Ferreira, personagem principal, faz comparações entre ele mesmo, a apostasia, o flagelo de Jesus, e o papel de Judas.

Apesar do tema, o livro tem leitura fácil e desenvolve uma importante dúvida entre civilizações e culturas que, costumeiramente, consideram-se superiores a outras, tentando impor seus costumes e suas doutrinas.

 

 

 

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Budismo sem crenças

Reli Budismo sem crenças – a consciência do despertar, de Stephen Batchelor (Palas Athena, 2005, 161 p., tradução de Carlos Alberto Inada), cumpre a proposta do título: explanar sobre um budismo agnóstico, sem mitos, sem divindades auxiliares. Não trata da história de Sidarta Gautama e da expansão da doutrina budista.

Batchelor, que exerceu o monasticismo tibetano na Índia e depois a linha zen, na Coréia, expõe os conceitos básicos de desligamento do ser humano do mundo de ilusões que o impede de “despertar”.

Aborda, dentre outros, aspectos da angústia, morte, determinação, integridade, transformação, vacuidade, compaixão, liberdade, imaginação.

A escrita não é repleta de termos que dificultam a leitura para leitores leigos, tentando exibir erudição para enganar, e muitas vezes apenas uma página pode ser lida como um todo.

Um livro pequeno, sério, muito mais interessante do que livros auto-ajuda mística que abundam em prateleiras de livrarias e sebos.

Link para versão em inglês, pdf, do livro:
https://terebess.hu/zen/mesterek/Buddhism-Without-Beliefs.pdf

As Máscaras de Deus – Mitologia Criativa

Em As Máscaras de Deus – Mitologia Criativa, Joseph Campbell (Editora Palas Athena, tradução de Carmen Fischer, ano 2010, 624 p.) trata da arte, e não da religião, por trás das mitologias.

Pintura, escultura, arquitetura, literatura, música, teatro, filosofia.
Igrejas românicas e góticas, Abelardo e Heloísa, Tristão e Isolda, Os Cavaleiros da Távola Redonda e a busca do Santo Graal, Dante Alighieri, Goethe, James Joyce, Thomas Mann, Leonardo da Vinci, Kant, Schopenhauer, Nietzsche, Freud, Wagner, Ionesco, Samuel Beckett.

Escrito em 1968, o livro algumas vezes ficou superado por descobertas mais recentes. Além disso, o autor não esconde o entusiasmo por certos autores, de quem havia se tornado amigo (sobretudo Heinrich Zimmer) e algumas idéias das obras que menciona (Tristão e Isolda ocupa pràticamente a metade do livro).

A leitura é interessante MAS tediosa.
Não raras vezes somos compelidos a saltar páginas.

O escopo da tetralogia As Máscaras de Deus (1959 a 1968) foi discutir a unidade dos mitos, e é posterior à obra O Herói com Mil Faces, de 1949, que trata da unidade do conceito de deus. Curiosamente, Campbell não mencionou em toda a obra os mitos e as religiões da África Negra.
Há críticos que consideram no trabalho de Campbell evidentes sinais de anti-semitismo e de preconceito contra os negros, o que me pareceu ser verdadeiro.

No fundo, o que permanece em mim é o conceito que aprendi há uns 15 anos com um monge budista velhinho:

– A maior diferença entre as religiões monoteístas do Oriente Médio e as outras, é que todas as demais existem para agradecer pela fartura que lhes é proporcionada pela Natureza, enquanto que os “povos do deserto” preocuparam-se mais com as lutas pela sobrevivência…

 

As Máscaras de Deus – Mitologia Oriental

As Máscaras de Deus – Mitologia Oriental, de Joseph Campbell (Editora Palas Athena, tradução de Carmen Fischer, 1995, 446 p.) oferece uma leitura um pouco tediosa. São muitas as páginas em que reproduz integralmente algum texto mitológico, com pouca interpretação sobre ele.
No entanto, é muito interessante encontrar ao longo das muitas páginas a onipresença de serpentes em todas as mitologias e religiões, as “coincidências” entre mitos egípcios e persas, entre lendas sumérias e gregas, Enki e João Batista, deuses indianos e escandinavos, as “semelhanças” entre narrativas chinesas e da bíblia judaica (Noé, Lot) e também gregas (Hades), os deuses nascidos de virgens em todas essas regiões, as diversas lendas dos salvadores do mundo, etc..

Campbell trata brevemente do jainismo, primeira religião sem deus, e o compara com o zoroastrismo (anterior) e com o budismo (posterior).

Assinala que o milênio compreendido entre o ano 500 a.C. e 500 e.c. pode ser chamado de a época de ouro do pensamento, quando em todas as regiões civilizadas, simultâneamente, estabelecem-se as bases do mundo moderno.
O autor esclarece que Confúcio e Lao Tsé são seres tão míticos quanto Homero.
Não deixa de transparecer a preferência pelo budismo, quando fala das diversas religiões.

O livro ensina e demonstra que o atual hinduísmo (conhecido por bramanismo até a década de 1960), é uma adaptação da antiga religião da Índia após o aparecimento do budismo, e não é anterior a ele.
Demonstra também que o desaparecimento do budismo na Índia não é consequência desse ressurgimento, mas da implantação do islamismo na região de Bengala, com a decorrente expulsão dos monges para regiões do Sudeste asiático.
No final, Campbell relata diversos casos de tortura e extermínio que o governo comunista chinês perpetrou na região do Tibete, no início da década de 1950.

Este volume não traz muitas novidades em relação ao primeiro volume da tetralogia, e tampouco em comparação com outros autores.

 

Maomé, uma biografia do profeta

Maomé, uma biografia do profeta, de Karen Armstrong (Companhia das Letras, 2002, 335 p., tradução de Andréia Guerini, Fabiano Seixas Fernandes, Walter Carlos Costa), foi escrito em 1994, como uma resposta politicamente correta à fatwa decretada em 1889 contra Salman Rushdie, por este ter escrito Os Versos Satânicos.

Karen Armstrong, ex-freira católica britânica (de família irlandesa) parece que “viajou na maionese” quando escreveu este livro, e a editora também o fez, com a publicação no Brasil em 2002 (pós-11 de Setembro), e me pergunto como será que seria a obra hoje, em 2016?

(entrevista de Karen Armstrong a Paulo Daniel Farhat, na Folha de São Paulo, em 2002)

Primeira pergunta:
por que hoje em dia se usa sempre o termo “muçulmano” ou “islamita”. Ficou “feio” dizer “maometano”, como se fazia, no Ocidente, até a década de 1960.
Quem segue Cristo não é cristão?
Os seguidores de Lutero não são luteranos?
Os de Calvino não são calvinistas?
Os de Buda não são budistas?
Os de Confúcio não são confucionistas?
Os de Alan Kardec não são kardecistas?
Então por que dizer “maometano” hoje em dia é tido como ofensivo?
Islã significa submissão, e muçulmano “submetido a deus”.
Mas a religião é de Maomé, oras pois…

Já li outros trabalhos da senhora Armstrong (Buda – uma biografia, 2001, Editora Objetiva;  Breve história do mito – Companhia das Letras, 2005; The Bible – the biography, Atlantic Books, 2007), e parece que a autora conseguiu não levar ao pé da letras as fontes utilizadas. Maomé, porém, não teve esse cuidado. Este sem dúvida foi o pior.

Na biografia de Buda, ela esclareceu um monte de coisas interessantes para destruir o mito. Sidarta Gautama não era um príncipe em um castelo, mas um aristocrata em uma pequena república (como mais tarde foi Veneza).
Na biografia de Maomé, ela recheia de situações poéticas e de êxtases para reforçar o visionário, reforça o tempo todo as lendas, como a do “velho que inundou a barba de tantas lágrimas, ao ouvir os versos recitados pelo profeta”.
Se o pequeno país de Sidarta era um descrito com termos adequados ao momento histórico, na biografia de Maomé Karen o coloca literalmente como um socialista que combateu o capitalismo de Meca! Usa mesmo essas palavras! Apesar de todo o tribalismo e sistema de clãs que ela repete em citar em cada página.

Ela coloca um saque a uma caravana como um acontecimento que demonstrou à seita que se iniciava a “revelação da vontade de deus – um princípio importante no monoteísmo histórico”, e páginas adiante compara as guerras tribais entre Medina e Meca com Moisés e a travessia do Mar Vermelho (e a morte dos egípcios).
No mesmo parágrafo, aponta que “se não se fizesse oposição militar a regimes tirânicos e repugnantes, o mal tomaria conta do mundo todo. Até os profetas, algumas vezes, foram compelidos a lutar e matar”… “em vez de ser uma religião dá a outra face, o islã luta contra a tirania e a injustiça”. – pois é, preciso comentar? Parece que o vírus da admiração dominava o cérebro da autora quando escreveu o livro.

A obra fala muitas vezes entre lutas entre judeus (sempre monoteístas) e os novos adoradores de um deus único. Parece admitir que isso é “uma sina do mundo”.   E os muçulmanos sempre foram tolerantes com os judeus, até a fundação do Estado de Israel, segundo ela… Acho que Karen não sabe a história do califado almôada em Andaluzia, no século XII.

O “amor” que Maomé tinha por todas suas esposas (inclusive a menina Aisha, de 9 anos), e por todas as meninas, é tão lindo como dizer da admiração que o “pai do pacifismo” Gandhi tinha quando se deitava com crianças.

Karen afirma que
“O véu não visava rebaixar as esposas de Maomé, mas era um símbolo de status superior. … Mais tarde, outras mulheres ficaram com ciúmes do status das esposas de Maomé e exigiram que lhes fosse permitido usar véu. … Hoje em dia, quando algumas muçulmanas resgatam a vestimenta tradicional, não é porque sofreram lavagem cerebral de uma religião chauvinista, mas porque consideram profundamente gratificante o retorno às próprias raízes culturais. É também, não raro, uma rejeição da atitude imperialista ocidental.“
Curioso que, atualmente, a maioria das freiras católicas não veja o uso do hábito como sinal de orgulho. Menos ainda por parte da sra. Armstrong.

“O Corão ensina que a guerra é sempre abominável. Os muçulmanos nunca devem começar as hostilidades, pois a única guerra justa é a de autodefesa, mas, uma vez engajados, devem lutar com absoluta confiança para conduzir a luta a um final o mais rápido possível.”

Acho que a autora precisava ler mais os noticiários internacionais, e talvez reformular o livro.
Afinal de contas, se em 2002 ela ainda não tinha sequer tomado conhecimento dos ataques em Nova York e Washington, o que será que ela tem a dizer das guerras na Síria e no Iraque, dos ditadores muçulmanos, dos atentados em San Bernardino, Boston, Madri, Paris 1 e 2, Bruxelas, Londres, Nairóbi 1 e 2, Dar-es-Salaam, Moscou (Teatro Dubrovka), Bali, praias na Tunísia, turistas no Egito, e outros “pequenos detalhes”, como Boko Haram?

Segundo a ex-freira, a a culpa de termos uma visão oposta é da igreja católica.
Claro, é sempre ela a malvada que deturpou o pensamento da humanidade
(desde a pré-história, segundo alguns).

Reproduzo o último parágrafo do livro:
“O fato é que o islã e o Ocidente compartilham uma tradição comum. Os muçulmanos a reconhecem desde o tempo do profeta Maomé, mas isso é algo que o Ocidental não consegue aceitar. Hoje, alguns muçulmanos começam a se voltar contra as culturas do Povo do Livro que os humilhou e desprezou. Elas começam a islamizar seu novo ódio. A amada figura do profeta Maomé tornou-se central nos últimos embates entre os islã e o Ocidente durante o caso Salman Rushdie. Se os muçulmanos precisam, hoje em dia, de uma compreensão mais apurada de nossas tradições e instituições ocidentais, nós, no Ocidente, precisamos nos desvencilhar de nosso antigo preconceito. Talvez um bom ponto de partida seja a figura de Maomé, um homem complexo e apaixonado, que por vezes tomou atitudes para nós difíceis de aceitar, mas foi um homem genial e fumdpou uma religião e uma tradição cultural baseada não na espada – apesar do mito ocidental [e de tudo que foi narrado no próprio livro de Karen Armstrong] – e cujo nome, “islã”, quer dizer paz e reconciliação.”

Bem, em algumas páginas anteriores a autora relata os últimos dias do profeta, e da angustiante dor de cabeça.
Que pena que naquela época, e naquela região, não houvesse equipamentos para uma tomografia e outros exames, que fossem capaz de examinar o crânio que “trouxe mensagem de paz ao mundo”…

Em algumas parte do livro, Karen coloca o monoteísmo como uma necessidade “da evolução dos homens”, para sair do tribalismo.
Para mim, reforçou a fé no panteão de deuses de klingons, romulanos, wookiees (como Chewbacca), pois estou cansado desse antropocentrismo pobre de planeta que os alemães chamam de Erde.

como virar Buda em cinco semanas

Que título longo: como virar Buda em cinco semanas – o caminho mais curto para a serenidade.
Foi assim que Giulio Cesare Giacobbe, Ph.D em psicologia, denominou seu livro (Best Seller, um ramo da editora Record, 2009, tradução de Carlota M. Xavier, 140 p.), escrito como auto-ajuda e auto-convencimento, após a morte do filho de 27 anos.

Fala sobre As Quatro Nobre Verdades e O Nobre Caminho Óctuplo da doutrina budista.
Até aí tudo bem, mas querer convencer o leitor de que o filho morto se tornou um buda, e que fazendo exercícios ràpidamente todos conseguirão fazer o mesmo, é simplesmente ultrapassar os limites do bom-senso.
Compreendo que o autor sinta a perda do filho, mas esse tipo de auto-convencimento se enfraquece quando surge com “fórmulas” para o “método científico” para a “presença da realidade”, no caso, a própria Itália do século XXI.

Admiro muito a filosofia budista, e o Dr. Giacobbe a resumiu bem, de forma, claro.
Não gostei, porém, desse tentativa de encontrar o caminho mais curto para receber uma graninha.
O livro ficou com “cheiro” de charlatanismo.

 

O Zen na Arte de Conduzir a Espada

O Zen na Arte de Conduzir a Espada, de Reinhard Kammer (editora Pensamento, 1978, 112 p.) foi um desses livros que, além do tédio, não deixou muitas outras lembranças.

Uma, porém, o desejo do autor de, em um livro sobre Zen, manter o elogio à “filosofia” confucionista, colocando em segundo nível o budismo e também o taoísmo. Estranho.

Sobre o confucionismo, tenho a dizer que é a “fôrça propulsora” da “paciência chinesa“, aquela que há milênios subjuga o povo a qualquer tirano que esteja no poder.

Logo na página 12 do livro, nota da tradutora brasileira Alayde Mutzenbecher observa:

Os comentários referentes ao Budismo, em todo o livro, são preconceituosos em sua maioria, pois a escola confucionista nutria grande rivalidade em relação aos budistas na época em que o texto foi redigido.