William Shakespeare

Os Grandes Contos Populares do Mundo

Os Grandes Contos Populares do Mundo (Ediouro, 432 p., 2005) é uma das coletâneas organizadas por Flávio Moreira Garcia, responsável também por coleções sobre contos eróticos e contos de humor.

Pequenas histórias de lugares tão díspares quanto Afeganistão, Guatemala, Irlanda e Moçambique.

Histórias de mitologia, como os egípcios Osíris e Ísis, os gregos Édipo, O Rei Midas e O Minotauro, os bíblicos Sansão e Salomão e a Rainha de Sabá. Histórias clássicas como trechos de As Mil e Uma Noites (Ali Babá e Os Quarenta Ladrões, Sindbad o Marujo), uma versão adaptada de Romeu e Julieta (Shakespeare), O Barba Azul (Perrault), A Nova Roupa do Rei (Andersen), a lenda suíça de Guilherme Tell, e o humorístico português O Caldo de Pedra (conhecida história de como fazer uma sopa à base de uma pedra lavada).

Uma considerável parte dos 83 contos eu conhecia, e foi realmente gostoso ter a oportunidade de reler histórias que eu tinha conhecido na infância. Os ingleses João e O Pé de Feijão, e O Matador de Gigantes, o trabalho de Andersen sobre O Bravo Soldadinho de Lata (para mim era um soldadinho de chumbo), o turco O Relógio, de Khawajah Nasr Al-Din.

Para representar o Brasil, foram selecionados sete contos:

  • O Ciclo de Pedro Malazarte
  • Mãe d’Água
  • As Proezas de Macunaíma
  • O Princípio do Mundo
  • Xangô (adaptação da mitologia africana)
  • O Baile do Judeu (do amazonense Inglês de Sousa)
  • A Mboitatá, do gauchíssimo Simões Lopes Neto.

Aí vem a imensa grande enorme diferença. Os contos dos outros países têm cunho moral, mesmo quando os heróis aproveitam uma capacidade de esperteza para ludibriar inimigos. O resultado é que as histórias são feitas para ressaltar vantagens da honestidade, do trabalho, do respeito aos mais velhos.
Pois nos contos e lendas brasileiras, exceto a da Boitatá, prevalece a mentira, a falta de caráter, a trampa enganadora.
De Manunaíma, o herói sem nenhum caráter, não preciso comentar. Pedro Malazarte era apenas um Más Artes, O Baile do Judeu é a aparição do Boto, …
Uma amiga que é candomblecista baiana desmentiu essa versão de Xangô. Foi abrasileirado para tornar-se um aproveitador da primeira mulher, o que não ocorreria na lenda original africana.

Qualquer semelhança entre os contos e os povos não deve ser mera coincidência.

Ah, caso alguém não saiba: esperteza não é sinônimo de mau-caratismo.

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Caçadas de Pedrinho

Como uma desconhecida ONG entrou com pedido de retirada do livro Caçadas de Pedrinho, escrito pelo notável Monteiro Lobato em 1933, sob a acusação de incentivar racismo, temos de expressar:

Monteiro Lobato tem de ser retirado do túmulo e ser preso.

Onde já se viu, em plena década de 1930, sob a vigência da ditadura de Entulho, alguém escrever algo tão politicamente incorreto quanto um livro que trata afrodescendentes de pretos (como faz o IBGE em seus trabalhos), que não menciona em nenhum livro se Tia Anastácia e Tio Barnabé recebiam salário para morar no latifúndio improdutivo da senhora Dona Benta?

Realmente esse ongueiros têm de reescrever a história. Não é possível admitir que em pleno século 21 uma obra literária retrate como era o passado.

Vamos retirar os livros naturalistas,
como O Afrodescendente Miscigenado, e A Moradia Coletiva, ambos de Aluísio Azevedo, das possibilidades que os alunos de hoje em dia têm de saber como se vivia na virada do século XIX para o século XX. Isso é uma blasfêmia contra o igualitarismo que vemos hoje em dia.

Vamos também retirar romances como “As Vitimas Algozes“, de um tal Joaquim Manuel de Macedo, com suas perspectivas pré-abolição, que não se coadunam com NOSSA realidade.

É um horror permitir que se divulgue o passado!

Afinal de contas, o mundo hipocritamente mal-resolvido de hoje é muito melhor.
As favelas se tornaram comunidades, as caçadas são proibidas (menos nos caríssimos safáris da África), e os lotes do MST e das comunidades indígenas e dos quilombolas existem para ser negociados livremente no  mercado imobiliário.

Temos de reescrever já o passado!

Que conversa é essa de, na Bíblia, mencionarem incesto (em vários trechos, diga-se de passagem), de reis que praticavam o sexo fora do casamento, de escravizar os derrotados, e outros absurdos mais?
Vamos já proibir a Bíblia!

E nada de se contar histórias como a de Hans Staden, e tantos outros mais, que relataram fatos, obviamente fictícios, de que as comunidades indígenas praticassem o canibalismo. Que calúnia!

Há um tal de Dom Quixote, então, que caçoa impunemente de um cidadão que não pôde fazer no Sistema Único de Saúde a operação para superar a obesidade mórbida.

Uma outra obra abominável, que necessita ser retirada de nossas bibliotecas, é Otelo, escrita por um anglo-saxão opressor, que coloca a mulher em condição de inferioridade, e sem dúvida estimula o racismo, ao pressupor uma incapacidade do general mouro de perceber as tramóias que lhe haviam sido montadas pelo pérfido ariano Iago, e conseqüentemente age por impulsos destrutivos.

Sem contar, que no caso dos livros escritos pelo neto do Visconde de Tremembé, ele faz menção clara a um alucinógeno usado pelas crianças, o pó de pirlimpimpim, que não pode de forma alguma continuar a ser de conhecimento público, pois o Estatuto do Criminoso Adolescente claramente proíbe essas apologias.

Isso sem mencionar o absurdo de uma boneca se casar com um leitão, em flagrante caso de zoofilia, e de uma menina de nariz pequeno ser levada ao casamento com um príncipe do Reino de Águas Claras, em um abominável caso de pedofilia.

Por fim, professor e família não têm nada de dar explicações sobre o contexto em que as diversas obras foram escritas e publicadas. Afinal de contas, as “creamssas” têm de pesquisar tudo sozinhas na infernet. Qualquer outra coisa é manifestamente censura dos adultos sobre a livre manifestação do pensamento infanto-juvenil. Que coisa horrível… As “creamssas” sofrerão danos cerebrais e de conduta permanentes, se puderem conhecer esse tal de passado, em que as pessoas não tinham o mínimo respeito mútuo.

Infelizmente temos de tolerar absurdos como o dessa gente, que quer apagar o passado, eliminar obras literárias, esvaziar a cabeça das crianças e impedir que os pensamentos se formem… Triste. Estamos sob a ditadura sentimental de pessoas superficiais e opacas intelectualmente.

Aqueles que não lembram o passado, estão condenados a repeti-lo. (George Santayana)