Companhia das Letras

Os Románov

Recebi “Os Románov 1613-1918“ (Simon Sebag Montefiore, Companhia das Letras, 2017, 906 p.), e fiquei entusiasmado.

Ledo engano.
Jornalista que pretende ser historiador tem de ser mais do que um reles escrevinhador de fofocas.
O livro parece um roteiro de novela mexicana, com muito sexo e doenças. Apenas isso.
Cheguei à página 383, início do século XIX, e desisti.

Descobri que muito pior do que os loucos de todo gênero foi a seqüência de imperadores que tentaram imitar os reis germânicos, sobretudo Pedro I e a alemoa Catarina II, denominados de os grandes.

O livro é uma pura coleção de curiosidades sobre as pessoas. Não fala nada sobre a sociedade, a política e a economia da Rússia imperial.
Certamente o autor supôs que esses dados destoariam do tom de revista sobre jêntchi famóza, que tem seu público,mas não exatamente entre leitores de História.

 

O Alienista

Fui a uma roda de leitura de O Alienista.
Utilizei uma edição de Contos-Uma Antologia de Machado de Assis, em dois volumes, publicada pela Companhia das Letras em 1998.

Curiosamente uma das pessoas imaginava que a obra se tratasse de um romance, e se frustrou com a falta de detalhes de paisagens e de características de personagens.

Outra ateve-se à questão de “raça” do autor, com visão do século XXI sobre quem escreveu a obra em um jornal de 1882, narrando um hipotético fato da vila de Itaguaí e o médico alienista Doutor Simão Bacamarte que vai lá viver, na época do vice-reino do Brasil.

Alguém destacou o papel de Dona Evarista, estéril e submissa.

Para mim, o eixo da história pareceu ser a relação poder-corrupção-dinheiro-falso moralismo, que circula entre o médico e a câmara de vereadores. Simão Bacamarte se parece muito com membros dos poderes políticos que, a todo momento, surgem como salvadores da pátria puros e incorruptíveis, sempre acusando “os outros”.

No total, as pessoas concordaram que a principal questão abordada no conto é do que se trata a saúde mental, e a visão positivista-cientificista da psiquiatria, que engatinhava na Europa no final do século XIX (Doutor Charcot, sucedendo o famoso Doutor Pinel), e que se envolveu com o direito de internação compulsória, muitas vezes justificada com interesses sucessórios de empresas ou famílias. Nisso, em O Alienista Machado de Assis faz uma profunda crítica, pela via da ironia sutil, do cientificismo exagerado e invasivo, que se instalou no Brasil (e no mundo).

Considero que O Alienista deve ser sempre mantido como recomendado a todos os brasileiros que têm esse hábito de saúde mental – a leitura.
Machado de Assis situa-se bem adiante do próprio tempo, um autor brasileiro visionário, profundamente crítico.

Um homem: Klaus Klump

Ganhei Um Homem: Klaus Klump, de Gonçalo M. Tavares (Companhia das Letras, 2007, 116 p.), foi publicado em Portugal em 2003 e editado no Brasil conforme a grafia portuguesa, e não sob as regras do desacordo ortográfico.

Narra um país em guerra, sob ocupação militar, em que os sons das armas se elevam inclusive aos da língua local.

Klaus Klump é membro de uma rica família, que tem como atividade editar livros contra a política e o sistema econômico, indiferente ao regime militar, até que sua amante é violentada por soldados, o que o leva a optar pela guerrilha, sendo contudo aprisionado.

Outros personagens se acercam à narrativa, ao longo de vários anos de guerra e posteriormente de paz, e ocupam a vida de Klaus.

Após o retorno da vida civil e democrática, como membro da classe abastada, Klaus assume a direção dos negócios familiares, abrindo mão dos ideais revolucionários que havia anteriormente assumido.

Durante o período de guerra, a narrativa é repetitiva e enfatiza as máquinas. Não pude deixar de sentir uma sombra das obras do realismo fantástico, escritas pelo goiano José J. Veiga durante as décadas de 1980 e 1990.
Terminada a guerra no romance de Gonçalo Tavares, a narrativa assume outra forma, de menos efeitos e de mais linearidade.

Não deixa uma impressão além da obviedade do comportamento humano.
Terei de ler outras obras do autor português para estar capacitado a opinar sobre que tipo de emoção ele deixou (ou não) em mim. Até agora pareceu déjà vu.

Cada homem é uma raça

Cada homem é uma raça, de Mia Couto (Companhia das Letras – 2015 – 200 p., R$ 39,90) contém 11 contos, originalmente publicados em 1990.

O grande escritor moçambicano mais uma vez destaca sua capacidade de criar cenários e palavras.

Os contos, porém, não diferem muito uns dos outros. A Rosa Caramela; Rosalinda a nenhuma; A princesa russa; O ex-futuro padre e sua pré-viúva; Mulher de mim; A lenda da noiva e do forasteiro; Os mastros do Paralém falam de um amor impossível entre uma mulher e um homem. São previsíveis.

O apocalipse privado de tio Geguê; e Sidney Poitier na barbearia de Firipe Beruberu foram os dois de que eu mais gostei.
Outros dois contos no livro são O Embodeiro que sonhava pássaros, bastante poético; e O pescador cego.

Concluí a leitura sem ter a mesma excelente impressão que havia tido com Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra;  e com Contos do nascer da Terra.

Fica porém a dica para sempre se procurar uma obra de Mia Couto, para descansar os olhos e exercitar o cérebro.

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra

livro009Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra é um interessante romance de Mia Couto (Companhia das Letras, 2009, 262 p., R$ 26,00).
Narra a história de Mariano, jovem que mora na cidade e é chamado para o funeral do avô Dito Mariano, na pequena aldeia de Ilha-do-Chão, à margem do Rio Madzimi. Ali ele reencontra o pai Fulano Malta, os tios Abstinêncio e Ultímio, a avó Dulcineusa, a tia-avó Admirança, a gorda cunhada da avó Miserinha, o português Padre Nunes, e o médico goês Amílcar Mascarenha. Vai sendo levado às lembranças de sua mãe Mariavilhosa, que se afogara no rio.

No rio se passam as histórias das pessoas da aldeia, o porto, a corrupção dos agentes do governo, o tráfico de drogas, as bebidas.
Na casa do avô, chamada Nyumba-Kaya, junção da palavra “casa” nas línguas do Norte e do Sul,  já com partes em ruínas, desenrola-se um funeral que demora para ser realizado, com o teto arrancado para que o velório não a poluísse de maus fluidos.
Cartas psicografas vão sendo encontradas por Mariano, e ele paulatinamente ele descobre segredos da família, e de outras pessoas da Ilha-do-Chão.

Uma soma de frustrações, de (auto-)enganos, desejos e adultérios percorre as páginas do livro.
Nos últimos dos vinte e dois capítulos, um tom mais de lirismo na prosa começa a permear o romance, de modo a chegar a uma conclusão sobre a vida daquelas pessoas no tempo e naquela terra.

Uma leitura recomendável, um excelente exercício mental para quem percorre suas páginas.

 

Contos do nascer da Terra

livro010Contos do nascer da Terra, de Mia Couto (Companhia das Letras, 2014, 270 p,, R$ 21,00) contém 35 textos do renomado escritor moçambicano, um dos maiores expoentes da literatura em língua portuguesa contemporânea.

Em todos eles, a característica de criar palavras, a partir de dois conceitos que se somam ou se opõem, como O homem era um vidabundo, ou Minha água-natal, de freqüentemente alterar ditos e provérbios, como Não ata nem diz ata, e de formar frases com palavras de som assemelhado, como Um homem atravessou a calçada, desavultado vulto avulso.

Os contos muitas vezes relatam casos da relação entre pais e filhos, ou de casamentos desfeitos, de pessoas vítimas da guerra civil que marcou a fase da independência de Moçambique, ou são adaptações de fábulas africanas. Na verdade, preferi ler os contos criados do que as fábulas adaptadas, que se tornaram em geral sem forma nem formato, desenroladamente roliças.

A leitura dos contos é um constante exercício para os olhos e para as idéias do escritor e do leitor, para quem utiliza os neurônios subjacentes da linguagem.

Mia Côunto: leitura obrigatória.

 

47 contos de Isaac Bashevis Singer

Concluí hoje a leitura de um dos melhores livros que desbravei nestes últimos tempos:

47 contos de Isaac Bashevis Singer (Companhia das Letras, 720p., 2004, R$ 31,00), com excelente prefácio de Moacyr Scliar.

Os contos são quase todos impregnados de indisfarçável caráter auto-bio-gráfico.
Como são contos, não cansa a leitura.
Cada um é cada um.
Dentre eles está Yentl, que foi tornado peça de teatro, em 1975, e depois filme, com Barbra Streisand, em 1983.

Há contos passados na Polônia sem data, relatos que ele ouvia durante a infância, outros na Polônia do início do século XX (período ainda sob domínio russo-austro-alemão), outros pré-Segunda Guerra Mundial.
Contos mais modernos se passam nos Estados Unidos – Nova York ou Flórida – no período pós-Segunda Guerra, ou em Israel, e até mesmo na Argentina.
Muitas palavras ou expressões estão em  iídiche, mas nada impossível de ser aprendido no glossário.

O que me surpreendeu foram as lições sobre o judaísmo.
Nunca imaginara que fossem tão tão tão supersticiosos!
Diabinhos, talismãs, amuletos, quebrantos, reencarnações, inferno (não eterno), e coisas do tipo em quase todos os capítulos.

Sem contar a tradição do casamento:
as casamenteiras saem para procurar “um bom partido” para ele e para ela.
Se não der certo, porém, nada mais fácil do que obter o divórcio.

Caramba, os judeus ashkenazim são muito mais complicados do que eu pensava…
Só não posso dizer isso a eles.

A tradução de José Roberto Siqueira parece ter sido feita por alguém que não mora no Brasil. Há termos que parecem demasiadamente com dicionários, e não com expressões da língua contemporânea.
A revisão, feita por Ana Maria Barbosa e Carmen S. da Costa também deixa a desejar. Curiosamente, são mais evidentes os erros em um conto que narra a história de um vizinho, que era revisor em um jornal iídiche em Nova York.

Descobri que há muito tempo, durante a adolescência, eu havia lido O Mago de Lublin (traduzido para o português por Rachel de Queiroz), livro escrito por Bashevis em 1960, mas o nome do autor não havia ficado registrado em minha memória – apenas o livro.
Gostei tanto de ler Bashevis, que já me municiei de outros dois livros de sua autoria: O Penitente, e Inimigos: Uma História de Amor, ambos publicados pela L&PM.