Autor: boppë

Paulistano desnaturalizado. goiano por opção. Arredio a multidões. Adoro o trema - tanto que o incorporei a meu nome, tal como fez o pai das irmãs Brontë. Profissão: aposentado. Ocupação: internauta.

Histórias ou Contos de Outrora – Charles Perrault

Histórias ou Contos de Outrora – Charles Perrault, (Martin Claret, tradução Renata Cordeiro, ilustrações Rafael Nunes Cerveglieri, prefácio de Aurora Gebra Ruiz Álvarez, 2015, 126 p, R$ 39,00) contém

  • A Bela Adormecida no bosque
  • Chapèuzinho Vermelho
  • Barba Azul
  • O Mestre Gato ou o Gato de Botas
  • As Fadas
  • Cinderela ou o sapatinho de vidro
  • Riquete do topete
  • O Pequeno Polegar
  • Pele de Asno (adaptação em prosa dos versos de Perrault)
  • Os Desejos rídiculos. (em versos).

Como enunciado no prefácio, a tradução e a adaptação não se colocam como as versões de Walt Disney, que, ao contrário das histórias originais. não se preocuparam com a inserção das “moralidades” de cada conto, como apareciam na literatura do Renascimento.

Os contos não contêm detalhes escatológicos que surgem em algumas versões, sendo de modo básico uma forma de ensinar ao público infantil valores e comportamentos, e menos uma análise psicológica.

O livro tem capa dura, e cada conto é precedido de uma bem feita ilustração.
A tradução preocupa-se em mostrar jogos de palavras e dubiedades que constam do original francês.

O preço demonstra que uma boa edição não necessàriamente faz com que os preços tenham de ser estratosféricos, como costuma ocorrer com algumas editoras de letras caras.

 

Anúncios

Os contos de Lygia

Os contos de Lygia (Companhia das Letras; 2018; 750 p, R$ 100,00; posfácio de Walnice Nogueira Galvão) tem a reedição dos contos publicados nos vários livros de Lygia Fagundes Telles:

Antes do Baile Verde (18 contos) – 1970;

Seminário dos Ratos (13 contos) – 1977;

A Estrutura da Bolha de Sabão (8 contos) – 1991;

A Noite Escura e Mais Eu (9 contos) – 1995;

Invenção e Memória (15 contos) – 2000;

Um Coração Ardente (10 contos) – 2012;

e mais ainda contos esparsos ((12).

Lygia é, em minha opinião a mais importante contista brasileira.
Impossível não apreciar sua obra.

A edição da Companhia das letras caras, porém, não é prática. As 750 páginas ocupam um livro com espessura de 4,5 cm, e um peso 600 gramas.
O resultado é que o incômodo de se ler um livro de contos comme il faut, ou seja, refestelado na cama ou em uma poltrona, é uma tarefa quase hercúlea.

Uma pena – uma tristeza e um castigo.
Melhor seria dividir a obra em tomos, ou, quem sabe, procurar em sebos os vários livros, embora nesse caso não seriam incluídos os contos esparsos.

 

A casa de Virginia W.

A casa de Virginia W., de Alicia Giménez Bartlett (Ediouro, 272 p., R$ 21,00, 2005, título original Una habitación ajena, tradução de Joana Angélica d’Avila Melo) é um misto de romance e ensaio, com a inserção de trechos dos diários (autênticos) da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941) e da cozinheira Nelly Boxall (1890-1965), que trabalhou, de 1916 a 1934, com Virginia e seu marido Leonard (1880-1969).

Fiz a leitura no “modo diário”, a conta gotas, o que também deu oportunidade para permear com leituras sobre outros personagens e sobre o grupo de Bloomsbury,que reunia intelectuais e artistas do início do século XX na inglaterra, e como burgueses trabalhistas e socialistas fabianos condenavam e desprezavam os valores…  … burgueses da era vitoriana.

Nelly tem a capacidade de análise que faltou a sua colega Lottie Hope, que não questionava a incoerência entre o que era pregado pelo casal Woolf, em palestras e livros, e a atitude de indisposição com as classes inferior, o zé povinho, e o desconforto que lhes era oferecido nas próprias residências.

A escritora espanhola compõe em “la habitación ajena” (um dormitório na casa de outrem, em uma tradução livre) um retrato da falta de liberdade das empregadas domésticas nas casas de seus empregadores, fazendo a mixagem dos diários, de fatos daquelas décadas, e textos que foram inseridos para dar a movimentação de romance ao livro, e explicar os comportamentos sexuais do grupo de “vanguardistas”.

Um livro agradável e útil.

 

O Vendedor de Passados

O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa (Gryphus, 2011, 200 + 8 páginas, R$ 21,00, no Sebo), é sem dúvida merecedor de um prêmio!

O livro mais CHATO que já li, desde que fui alfabetizado nesta encarnação!
Nem sei quantos meses eu me arrastei para concluir a leitura dessa obrada!

O começo curioso, com a participação de uma lagartixa da espécie osga, que recebeu o nome de Eulálio e vive na casa do albino Félix Ventura, em Luanda.
Outros personagens menos interessantes surgem, como José Buchmann, Ângela e Edmundo
Melhor seria se o livro se focasse na Velha Esperança, que arruma a casa no início do romance.

Narrado ora em terceira pessoa, ora pelo inFeliz desVenturado albino e ora pela filosófica lagartixa, o texto já se perde nessa experiência.

Para piorar, o livreto ganhou 64 páginas em branco e mais 8 iniciais, para que a editora pudesse chegar a 200 páginas e propusesse um preço mais elevado.

Procurei outros comentários e/ou críticas sobre o livro, e tampouco foram favoráveis (ou farofáveis).
Achei melhor colocar o link para a versão cinematográfica (brazuco-global), com os comentários dos leitores/visualizadores:

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-218155/criticas-adorocinema/

 

Viagem com um burro pelas Cevenas

Viagem com um burro pelas Cevenas, de Robert Louis Stevenson (Editora Carambaia, tradução de Cristian Clemente, projeto gráfico de ps2 arquitetura + design, 2016, 114 p., R$ 87,90!) foi-me emprestado por um amigo.¶ Confesso que de início estranhei a própria capa, que imita a pela de um burro cuja reprodução é impossível em scanner doméstico. ¶ Igualmente a diagramação das páginas da edição Carambaia tem sua marca com a utilização do sinal (¶) para indicar os parágrafos, com a disposição das páginas pares e ímpares alinhadas apenas à margem da folha, de modo que se forma na parte de junção das páginas um espaço tortuoso que imita o caminho sinuoso da viagem feita por Stevenson. ¶ Outra marca é o uso de anotações nas laterais das páginas em verde, que indicam a localidade da viagem que foi atingidas pelo autor. ¶ Páginas verdes trazem um mapa https://www.google.com.br/maps/dir/43150+Le+Monastier-sur-Gazeille,+Fran%C3%A7a/44.6019346,3.9362352/30270+Saint-Jean-du-Gard,+Fran%C3%A7a/@44.6015438,3.895066,13z/data=!4m15!4m14!1m5!1m1!1s0x47f5f5894efb2095:0x4093cafcbe7fbc0!2m2!1d3.994968!2d44.939996!1m0!1m5!1m1!1s0x12b4718941d5a91d:0x1c078824698cdbb0!2m2!1d3.8757119!2d44.0969719!3e0 (linik que o WordPress não quer que fique em verde, mas em vermelho), o índice, e textos explicativos adicionados pela editora ¶ O autor de A Ilha do Tesouro, O Médico e o Monstro, em Viagem com um burro pelas Cevenas narra a viagem de doze dias, em, 1878, para percorrer sozinho e a pé cerca de 150 quilômetros por uma região pobre no sul da França, entre Le Monastier sur Gazelle até Saint Jean du Garde. ¶ Nesse sentido, o livro fica em algo entre uma crônica e uma carta pessoal distribuída a seus amigos. ¶ Modestine é uma burra que Stevenson compra no início da viagem, mas com a qual o autor tem um relacionamento difícil, com muitas incompatibilidades, embora um vínculo de afeto seja sentido entre os dois seres ao final da jornada. ¶ Dorme às vezes em pequenas pousadas / estalagens, e outras vezes ao ar livre, escondendo-se de ladrões ¶ Filho de família escocesa estritamente protestante, Stevenson preocupa-se durante a viagem com a história de uma revolta protestante huguenote dos Camisards ocorrida em 1702 contra as perseguições ordenadas pelo rei Luís XIV, e com a convivência em paz mas com muita segregação que as duas comunidades mantêm um século e meio mais tarde. ¶ Visita e se hospeda em um mosteiro trapista, onde encontra um monge escocês e onde ao se despedir provoca a surpresa do abade, ao ver que as doações encaminhadas à Escócia não haviam servido para a conversão dos protestantes. ¶ A narrativa do texto mostra bem a variação do humor ao longo dos dias, tanto na paisagem rude como no relacionamento com moradores que vivem em isolamento, muito desconfiados de estranhos. ¶ O vocabulário é rico, e as descrições não fazem com que o relato seja monótono. Um livro que ainda hoje merece atenção pelo estilo e pela influência que teve em relatar paisagens e pessoas. Merece ser lido.

 

Histórias que os jornais não contam

Histórias que os jornais não contam, de Moacyr Scliar (L&PM, 2018, 158 p, R$ 34,90), foi um dos livros que mais tempo levei para conseguir ler.

 

Sempre gostei de ler Scliar, podem checar meus outros posts sobre livros de sua autoria.

Por isso comprei o livro no dia 1º de setembro, imediatamente comecei a ler, e levei três meses para conseguir chegar à última página

 

Logo no início é divertido ver pequenas notas de jornais serem transformadas em uma crônica, em geral cheia de ironia.

A fórmula, porém, logo se esgota, torna-se repetitiva.
Nem uma delas acaba se fixando na lembrança.

 

Uma pena, um martírio.

 

A Vida Louca da MPB

A Vida Louca da MPB, de Ismael Caneppele (Leya, 2015, 205 p.), é uma coleção de biografias de importantes músicos brasileiros do século XX, todos já mortos (uma das condições para inclusão na obra).

O livro está disponível para download em PDF pela própria editora.

O texto e crítico, traz muitos detalhes pouco conhecidos dos artistas, algum humor, e oferece uma leitura ágil.

São retratados em A Vida Louca:

  • Carmen Miranda
  • Noel Rosa
  • Mário Reis
  • Orlando Silva
  • Dalva de Oliveira
  • Nelson Cavaquinho
  • Vinicius de Morais
  • Maysa
  • Wilson Simonal
  • Tim Maia
  • Raul Seixas
  • Sérgio Sampaio
  • Itamar Assumpção
  • Júlio Barroso
  • Cazuza
  • Renato Russo
  • Cássia Eler.

Diferentes estilos, artistas com trajetórias que têm em comum o valor musical, o sucesso e a fama, e histórias recheadas de sexo, drogas e iluminações, como consta do texto.

As fontes mencionadas, humanas e bibliográficas, merecem respeito.

A maior falha, em minha opinião, é que faz comparações para o futuro. Ou seja, diz quem foram outros artistas influenciados pelos músicos mencionados, mas não diz quais foram as influências passadas que eles tiveram na formação.