contos

O Alienista

Fui a uma roda de leitura de O Alienista.
Utilizei uma edição de Contos-Uma Antologia de Machado de Assis, em dois volumes, publicada pela Companhia das Letras em 1998.

Curiosamente uma das pessoas imaginava que a obra se tratasse de um romance, e se frustrou com a falta de detalhes de paisagens e de características de personagens.

Outra ateve-se à questão de “raça” do autor, com visão do século XXI sobre quem escreveu a obra em um jornal de 1882, narrando um hipotético fato da vila de Itaguaí e o médico alienista Doutor Simão Bacamarte que vai lá viver, na época do vice-reino do Brasil.

Alguém destacou o papel de Dona Evarista, estéril e submissa.

Para mim, o eixo da história pareceu ser a relação poder-corrupção-dinheiro-falso moralismo, que circula entre o médico e a câmara de vereadores. Simão Bacamarte se parece muito com membros dos poderes políticos que, a todo momento, surgem como salvadores da pátria puros e incorruptíveis, sempre acusando “os outros”.

No total, as pessoas concordaram que a principal questão abordada no conto é do que se trata a saúde mental, e a visão positivista-cientificista da psiquiatria, que engatinhava na Europa no final do século XIX (Doutor Charcot, sucedendo o famoso Doutor Pinel), e que se envolveu com o direito de internação compulsória, muitas vezes justificada com interesses sucessórios de empresas ou famílias. Nisso, em O Alienista Machado de Assis faz uma profunda crítica, pela via da ironia sutil, do cientificismo exagerado e invasivo, que se instalou no Brasil (e no mundo).

Considero que O Alienista deve ser sempre mantido como recomendado a todos os brasileiros que têm esse hábito de saúde mental – a leitura.
Machado de Assis situa-se bem adiante do próprio tempo, um autor brasileiro visionário, profundamente crítico.

As mais belas coisas do mundo

As mais belas coisas do mundo, de Valter Hugo Mãe (ilustrações de Nino Cals, 48 p., R$ 49,90, Biblioteca Azul O Globo, 2019) é um pequeno livro de contos, em que um neto pequeno narra a convivência com o avô.

Os pequenos textos, intercalados pelas ilustrações, tem uma linguagem simples, um pouco bucólica, que envolve o leitor pela poesia em prosa.

Terminada a leitura, nota-se que o pequeno livro tem sensações, e não idéias, como pano de fundo.
Parece uma experiência de auto-ajuda literária.

 

Os cem menores contos brasileiros do século

Os cem menores contos brasileiros do século, organizado por Marcelino Freire (editora Atelie, 2018), é uma coletânea de pequenos textos com até cinqüenta letras, como se escritos no Twitter.
Nem todos são contos, e boa parte seqüência sequer passa de frases falando de homicídios ou de suicídios, que mais retratam a banalização de assuntos sobre violência, que toma conta da enpreimça “tupinambá”.
Um pequeno livro, em todos os sentidos, inteiramente dispensável.

Histórias ou Contos de Outrora – Charles Perrault

Histórias ou Contos de Outrora – Charles Perrault, (Martin Claret, tradução Renata Cordeiro, ilustrações Rafael Nunes Cerveglieri, prefácio de Aurora Gebra Ruiz Álvarez, 2015, 126 p, R$ 39,00) contém

  • A Bela Adormecida no bosque
  • Chapèuzinho Vermelho
  • Barba Azul
  • O Mestre Gato ou o Gato de Botas
  • As Fadas
  • Cinderela ou o sapatinho de vidro
  • Riquete do topete
  • O Pequeno Polegar
  • Pele de Asno (adaptação em prosa dos versos de Perrault)
  • Os Desejos rídiculos. (em versos).

Como enunciado no prefácio, a tradução e a adaptação não se colocam como as versões de Walt Disney, que, ao contrário das histórias originais. não se preocuparam com a inserção das “moralidades” de cada conto, como apareciam na literatura do Renascimento.

Os contos não contêm detalhes escatológicos que surgem em algumas versões, sendo de modo básico uma forma de ensinar ao público infantil valores e comportamentos, e menos uma análise psicológica.

O livro tem capa dura, e cada conto é precedido de uma bem feita ilustração.
A tradução preocupa-se em mostrar jogos de palavras e dubiedades que constam do original francês.

O preço demonstra que uma boa edição não necessàriamente faz com que os preços tenham de ser estratosféricos, como costuma ocorrer com algumas editoras de letras caras.

 

Os contos de Lygia

Os contos de Lygia (Companhia das Letras; 2018; 750 p, R$ 100,00; posfácio de Walnice Nogueira Galvão) tem a reedição dos contos publicados nos vários livros de Lygia Fagundes Telles:

Antes do Baile Verde (18 contos) – 1970;

Seminário dos Ratos (13 contos) – 1977;

A Estrutura da Bolha de Sabão (8 contos) – 1991;

A Noite Escura e Mais Eu (9 contos) – 1995;

Invenção e Memória (15 contos) – 2000;

Um Coração Ardente (10 contos) – 2012;

e mais ainda contos esparsos ((12).

Lygia é, em minha opinião a mais importante contista brasileira.
Impossível não apreciar sua obra.

A edição da Companhia das letras caras, porém, não é prática. As 750 páginas ocupam um livro com espessura de 4,5 cm, e um peso 600 gramas.
O resultado é que o incômodo de se ler um livro de contos comme il faut, ou seja, refestelado na cama ou em uma poltrona, é uma tarefa quase hercúlea.

Uma pena – uma tristeza e um castigo.
Melhor seria dividir a obra em tomos, ou, quem sabe, procurar em sebos os vários livros, embora nesse caso não seriam incluídos os contos esparsos.

 

A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande

Encontrei alguns elogios a respeito de Yuri Vieira e procurei em uma livraria alguma obra sua. A única à venda era “A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande” (Editora Record, 2017, 306 p., R$ 44,90).

O livro seria uma coleção de contos, todos porém interligados ao personagem advogado que lhe dá nome.

Os contos têm os seguintes títulos:

  1. O machista feminista – uma longa divagação sobre um ilusionista que finge ser extra-terrestre e fala da invasão islâmica na Europa em um boteco de Vila Madalena;
  2. O Prompt de Comando ou A sábia ingenuidade do Dr. João Pinto Grande – sobre bullying e racismo;
  3. A teologia da maconha – a respeito de um casal e o vizinho policial;
  4. O pedinte do metrô – uma enxurrada de moralismo do personagem principal em uma viagem de metrô;
  5. A menina branca – o uso excessivo das comunidades sociais e a violência na periferia de São Paulo;
  6. Amarás ao teu vizinho – uma discussão entre ex-vizinhos durante jantar na casa de um ex-militar sérvio; somada à filosofia de um bêbado da vizinhança;
  7. A Satoshi o que é de Satoshi (somente para nerds e geeks) –outra longa divagação, dessa vez sobre bitcoins e a possibilidade de corrupção da justiça, durante um almoço de pizza e cerveja (péssima escolha para um almoço, por sinal, mas normal para o mau gosto gastronômico dos paulistanos).

Confesso que não gostei dos capítulos.
O texto na maior parte é recheado com a preocupação em “escrever certinho”. Sobretudo certinho demais para diálogos.

Os capítulos teòricamente não têm data (embora sejam muito bem datados na contemporaneidade), mas a descrição geográfica é excessiva.
Parece que o autor considera que os assuntos abordados são exclusividade de São Paulo, e não de qualquer outra cidade do Brasil (ou do mundo).
Surpreendente, para alguém que já viveu em diferentes cidades e países.
Já que não o livro não tem data, que tal se não tivesse endereço?
Haveria a eliminação de aborrecidos detalhes sobre o trajeto em automóvel, por exemplo.

Ao longo do texto, Yuri Vieira recheia o desenrolar dos contos com a exposição de suas idéias políticas – nem sempre com muita clareza.

A futura leitura de outra obra poderá me dar uma visão mais clara sobre minha opinião a respeito de Yuri.

Tutaméia

Estou sumido do blogue.
Não estou sumido da leitura.
Ocorre que Tutaméia (Terceiras Estórias), de Guimarães Rosa, não é uma obra que possa ser comentada.
A leitura é lenta, não por ser difícil, mas porque em cada linha encontramos algo que merece ser matutado, um verdadeiro tratado de filosofia.
Humor sutil, pensamentos que conduzem a outros.
Tutaméia é uma verdadeira lição de vida.
Se ainda não o leu, comece hoje.
Talvez a vida não lhe seja tão longa para concluir a leitura.
E certamente a vida lhe será menos inteligente sem essa obra-prima.
O texto pode fàcilmente ser encontrado na internet, e baixado em pdf.