Israel

O Penitente

O Penitente, de Isaac Bashevis Singer (L&PM Pocket, tradução de Jimi Joe, 1998, 166 p., R$ 9,50), é um daqueles livros que agarramos e não largamos enquanto não terminar a leitura.

Narra a história, datada em 1969, de um encontro entre o próprio autor e um americano bem sucedido que emigrara para Israel, fugindo das próprias frustrações e auto-avaliações.

Publicado em capítulos em 1973, em jornal iídiche, e como livro em 1983, o livro tem a atualidade dos dias de hoje. Parece descrever fatos da semana que acaba de ter transcorrido.

Leitura obrigatória. Imprescindível que se leia a Nota do Autor que conclui o livro, com o ponto de vista de Bashevis Singer distoando do personagem.

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Rimas da Vida e da Morte

Rimas da Vida e da Morte, de Amós Oz (Companhia das Letras, 2008, 118 p., tradução de Paulo Geiger) é um livro de um autor de quem gosto muito, mas que especìficamente não gostei DESTE.

A idéia é muito interessante: um escritor de meia-idade dá uma palestra, e sua mente vagueia enquanto olha as pessoas que estão a seu redor.
Dá-lhes nomes e cria-lhes histórias de vida.
Ótimo.

As histórias porém são meio fracas, repetitivas, esgotam-se, e o autor insistiu em mantê-las na metade final do livro.
Esperava MUITO mais.

Amós Oz, porém, tem de ser relevado, tantas são suas outras boas obras.

 

 

 

Judas

Judas, de Amós Oz (Companhia das Letras, 2014, 362 p.) é um romance muito interessante, que narra a história de Shmuel Asch, um estudante israelense que vive na Jerusalém dividida, em 1959, que pretende fazer uma tese sobre a visão de Jesus pelos judeus e a visão de Judas de Keraiot (Iscariotes) no cristianismo.

Perdido em suas divagações, sai da universidade e vai trabalhar como acompanhante de um velho inválido, Guershom Wald, que vive com a nora Atalia.

O “ex-tudante” ouve de Wald histórias da fundação do Estado de Israel, e a guerra pela independência, durante a qual havia morrido o único filho. Por sua vez, a história do já falecido consogro Shaltiel Abravanel, antigo proprietário da casa onde vivem, é a de um judeu que foi expulso das organizações sionista e política, por ser defensor da união de árabes e judeus, e passou a viver seus últimos anos sem contato com outras pessoas, mesmo a filha e Wald. Qualificado como traidor de Israel, a história de Abravanel serve para Shmuel de reflexões sobre Judas na história da formação do cristianismo.

Após quatro meses de convívio Wald, que passava seu tempo prazerosamente em discussões ao telefone com amigos, e depois de um confuso relacionamento amoroso com Atalia, Shmuel é obrigado a ir embora, sem rumo.

A impressão que Amós Oz deixa é a de pessoas perdidas na sociedade israelense, isoladas entre si e confinadas pelo mundo.

A tradução de Paulo Geiger é bem realizada, contudo o glossário final deixa algumas expressões apenas com a explicação de que fazem parte da religião hebraica, sem defini-las.

 

Esquerda Caviar

Esquerda Caviar – A hipocrisia dos artistas e intelectuais progressistas no Brasil e no mundo (Rodrigo Constantino, Editora Record, 2013, 423 p., R$ 42,00) caiu perfeitamente para muitos parentes, amigos, conhecidos e ex-colegas de trabalho. Confesso que eu algumas partes fui ao espelho e fiz um mea culpa.

O livro divide-se em três partes, a primeira das quais muito bem fundamentada, com muitas pensadores de um lado e do outro contrapostos, para que se possa ver com nitidez o quanto são ridículos, sujos, imbecilizantes e outras coisas mais, esses modismos hipócritas da correção política, das “minorias” no domínio da sociedade, e toda a “bondade rousseauniana” das leis que moldam as pessoas em robozinhos.

O capítulo sobre as origens da esquerda caviar, ou liberal limousine (EUA), champagne socialist (Inglaterra), radical chic (Itália), ou simplesmente a velha conhecida “esquerda festiva” dos centros acadêmicos, trata de vinte variantes: oportunismo hipócrita, narcisismo, elite culpada, tédio, histeria, racionalização, preguiça mental, ópio dos intelectuais, alienação, insegurança e covardia, medo, nihilismo, síndrome de Estocolmo, ressentimento, infantilidade, romantismo, desprezo popular, arrogância fatal, sede pelo poder, ignorância. Em seguida, fala sobre o duplipensar, ou seja, alterar o significado de palavras para que elas se encaixem ao pensamento polìticamente correto e hipócrita, e conclui essa primeira parte com o viés da imprensa.

A segunda parte menciona algumas das bandeiras que a esquerda caviar gosta de empunhar: a obsessão anti-americana, o ódio a Israël, o culto ao multiculturalismo (e ao Islã), os pacifistas, o mito Che Guevara, a ilha presídio de Cuba, os melancias (verde por fora e vermelho por dentro), os clichês de justiça social, os preconceitos dos que não têm preconceitos, as minorias, e a juventude utópica.

A terceira parte aborda alguns santos de pau oco, que ganham muito dinheiro às custas de propagandas e campanhas em prol da falsidade, e do escamoteio do estilo de vida desses mesmos santos: Obama, Gandhi, John Lennon, Noam Chomsky, Paul Krugman, Michael Moore, Sting, Al Gore, Peter Singer, John Kerry, Ted Kennedy, Bill Clinton, George Soros, Harrison Ford, Leonardo DiCaprio, Cameron Díaz, Robert Redford, Brad Pitt, Angelina Jolie, George Clooney, Barbra Streisand, Richard Gere, James Cameron, John Travolta, Bruce Springsteen, Oliver Stone, Whoopi Goldberg, Jack Nicholson, Matt Damon, Gérard Depardieu, Ben Affleck, Sean Penn, Bono Malo Vox, Oprah Winfrey, Benicio del Toro, Oscar Niemeyer, Chico Buarque, Luís Fernando Veríssimo, Wagner Moura, Eduardo Matarazzo Suplicy ex-Smith de Vasconcelos, Chico Alencar, Luciano Huck. Fora isso, muitos outros nomes são assinalados durante as duas partes anteriores, como Gilberto Gil, Fernanda Montenegro,
Desde o início do livro, Rodrigo Constantino salienta que não coloca em xeque o valor artístico das pessoas, mas a contradição entre o que dizem polìticamente e o estilo de vida que levam.

Não dá para concordar com tudo o que Rodrigo Constantino colocou no livro. Falar do Tibete como “vítima” é um tanto quanto “esquerdismo caviar” de muita gente que ignora que a região SEMPRE foi parte do império chinês, que NUNCA foi um país independente, que em 1911 deputados tibetanos fizeram parte da assembléia constituinte republicana chinesa (ou seja, eram parte da China), e que o que deixa o dalai lama indignado não é o domínio chinês, mas a perda do poder feudal que ele e seu clero exerciam sobre 85% da população tibetana que vivia em regime de servidão, para atender 10% de sacerdotes.
Só no finzinho do livro RC lembrou de juntar Mr. Richard Gere e Mr. Tenzin Gyatso no mesmo cesto de artistas festivos, caviarescos e champanhotes.

Interessante a menção final, de luz no fim do túnel, ao citar a mudança de opinião de Ferreira Gullar, enojado com o que seus antigos colegas “socialistas” têm feito nos últimos 90 anos. Um mar de sangue e um sem fim de prisões a quem os contrariar. Pena que o livro tenha sido escrito em 2013, e não tenha tido a oportunidade de incluir o que Eduardo Galeano disse em Brasília sobre “Veias Abertas da América-Latina”:

“Hoje não gostaria de reler o livro. Não me sinto mais ligado a esse livro como era. Quando escrevi, tinha 19, 20 anos. As veias abertas da América Latina tinha de ser um livro de economia política mas eu não tinha o conhecimento necessário para isso. A realidade mudou muito e eu também mudei”.

 

Nos Bastidores da Diplomacia

Recebi emprestado este livro de memórias do embaixador aposentado (ainda vivo) Vasco Mariz, intitulado Nos Bastidores da Diplomacia (Fundação Alexandre de Gusmão, 2013, 296 p.).

Há um lado curioso nas memórias de alguém nascido em 1921, e que esteve no serviço público de 1945 a 1987, período marcado pelo “glamour” de um Brasil que sonhava com Jóquei Clube, com o PSD (aquele que Juscelino herdou de Getúlio), com atrizes italianas, tendo o autor exercido atividades em diferentes países.

O autor, contudo, lança mão de modéstia zero, ao narrar fatos de importância pequena, que ele enxergou com lentes de aumento, e dos quais se declara partícipe importante, se não decisivo. Deixemos que a vaidade ocupe o lugar admissível para alguém de sua idade.

Breves relatos sobre algumas pessoas da história do século XX com quem o autor esteve, não raras vezes como acompanhante ocasional, mas que dão uma visão maior do aspecto humano dessas famosas figuras. Várias delas não merecem menção, de tão superficial o que é narrado no livro, mas algumas têm seus aspectos de contradição, ou de confirmação, do que foi cultivado pela imprensa em muitos anos. Tito, João Goulart, Tancredo Neves, San Tiago Dantas, Castelo Branco, Geisel, Roberto Campos, Ceausescu, Salvador Allende, Pinochet, Alfredo Stroessner, João Figueiredo e Lula.

Leitura fácil e ilustrativa de uma época, marcada por personagens um pouco mais interessantes do que o que temos como líderes mundiais atualmente.

Um típico livro nem sim, nem não.

intervalo – O Universo em uma Casca de Noz / Judeus contra Judeus

Devido a cirurgias nos olhos, fui obrigado a deixar a leitura por alguns meses.

Só agora pude retomá-la e, com isso, volto a comentar os livros que tenho lido.

Durante este tempo, deixei sem concluir a leitura de dois livros:

O Universo em uma Casca de Noz, do renomado cientista Stephens Hawkins (Saraiva de Bolso, 2012, R$ 16,90, 240 p.), e
Judeus contra Judeus – a história da oposição judaica ao sionismo, de Yakov Rabkin (Editora Acatu, 2009, 348 p.).

Confesso que difìcilmente retomarei a leitura de ambos.
Física não é um assunto pelo qual eu tenha interesse, muito menos quando se trata de contrapor diferentes teorias. Para mim basta saber que existem universos, que vivemos em um multiverso. E pouco me importa se o tal universo em que estamos inseridos está ou não em expansão: isso apenas aprofunda a realidade de que os seres humanos são microscópicos diante de cenários imensos e com possibilidades bem maiores do que podemos supor. Além disso, como cientista Hawkins cai no erro da vaidade e presunção, ao afirmar que a ciência é sempre mais importante do que a política, como se esta não fosse a propulsora da ciência em tantas etapas da História da humanidade.

A história dos conflitos políticos entre grupos judaicos, a favor e contra o sionismo é para mim mais atraente, mas o excesso de paradas obrigatórias, para entender palavras e expressões hebraicas e iídiches que constam do glossário, tornam a leitura demasiado lenta, com perda de continuidade e com prejuízo ao entendimento. É interessante, porém, ver que há grupos que defendem a tese de que o nacionalismo surgido com o sionismo, israelense, destruiu tradições do judaísmo, israelita.

Fica para mim o vácuo desses dois assuntos inacabados.

Uma Breve História do Mundo

Uma Breve História do Mundo, de H. G. Wells (L&PM, 2011, 378 p., R$ 21,00), o mesmo autor de clássicos da ficção científica como “A ilha do Doutor Moureau”, “O homem invisível” e “A Guerra dos Mundos”, foi escrita em 1922, na outra faceta do grande escritor, a de historiador.

Os 67 capítulos são bem curtos, e ao final de cada um fiz um intervalo, para ruminar e digerir o que li. Por isso também demorei vários dias na leitura.
O início do livro é quando a terra ainda estava quente, e a descrição dos períodos geológicos e e a evolução das formas de vida. Pterossauros, cenozóico e outras palavras que a gente já ouviu, mas não tem muito claro o que significam.

Ele fala de umas coisas que outros autores não costumam dizer, como as origens étnicas dos povos antigos.
Fenícios eram semitas que mais tarde se ajudeuzaram, e se espalharam por Cartago e pela Espanha.
Em geral outros autores falam de Cartago fenícia, mas não dizem que depois do fim dos fenícios surgiram os judeus na Espanha. Não é uma coincidência. Mas vá dizer isso a um libanês – você será trucidado.

Os russos inicialmente eram da mesma origem que os suecos. Franceses e alemães têm a mesma origem étnica e histórica (até o império de Carlos Magno) – só que um fala língua latina e o outro língua germânica. Búlgaros identificam-se com os turcos, mas têm religião ortodoxa e língua eslava.

Os gregos não são tratados exatamente como geniais em todas as situações, mas Aristóteles e Arquimedes o foram.
Roma é tratada pelas diferenças, e não pelas semelhanças que podem ter tido nos séculos romanos. Júlio César foi um personagem de segunda grandeza.

Gostei dos vários capítulos que tratam dos mongóis e seus diversos governos e impérios ao longo de milhares de anos da história. Mas antes, ao falar dos hunos, Wells disse que Átila se encontrou com o papa, e isso é lenda.

Não gostei do tratamento dado os bizantinos. O livro que li sobre Bizâncio desmente muitos dos pré-conceitos ocidentais descritos.

A partir da chamada Idade Moderna, os capítulos passam a ser menos factuais e muito mais analíticos. O desenrolar da História dá-se por grandes mudanças de pensamento e pelos substanciais progressos tecnológicos e científicos. Coincide com o apogeu britânico e o predomínio dos Estados Unidos.

O último capítulo é sobre a Liga das Nações.
Ele já anunciava que a primeiro guerra mundial seria seguida de uma muito pior.
Isso em 1922…

A nomenclatura é totalmente fora do contexto de correção política que existem na história. Povos e países são muitas vezes nomeados pela desginação atual – alemães, por exemplo, e não alamanos, germânicos ou teutônicos.

Pelo preço e pelo conteúdo, vale a pena a leitura desse livro da L&PM. Recomendo.