Grécia

Do Olimpo a Camelot

Do Olimpo a Camelot, um panorama da mitologia européia (David Leeming, Jorge Zahr Editor, tradução de Vera Ribeiro, 2004, 192 p., R$ 20,00) abarca os diversos mitos europeus, em capítulos divididos pelas sub-regiões geográficas do continente, geralmente co-relacionando as diversas culturas e seus respectivos mitos.

 

Trata bàsicamente da

  • mitologia grega (com destaque para o período minóico anterior à civilização helênica, cujos mitos são mais conhecidos),
  • mitologia romana (com destaque para a mitologia etrusca que, formação troiana, moldou Roma antes da influência helênica),
  • mitologia germânica (e nórdica-viking),
  • mitologia(s) báltica, eslava e balcânica (pouco conhecidas e muito relacionadas com mitos persas e indianos),
  • mitologia finlandesa e outras mitologias não-indo-européias, inclusive a civilização tartéssica onde hoje é Portugal, supostamente de origem fenícia, nos séculos VIII a V a.e.c., e os bascos.

 

Em conclusão aborda os padrões míticos europeus e hegemonia cristã (que assimilou os diversos mitos), que trata das

  • divindades européias e mitos da criação, com as várias versões do criador, o trapaceiro, a agricultura, o sacrificado que ressurge, a fertilidade,
  • herói mítico europeu (com rápidos comentários sobre a figura do super-herói germânico e sobre a “mão invisível do mercado” de Adam Smith).
  • os mitos filosóficos europeus e o mundo moderno, interessante capítulo que ligeriamente aborda Platão, Aristóteles, Freud, Jung e o big bang.

 

O livro inclui vários trechos de lendas que narram os infinitos mitos.
Interessante, porém de leitura não muito rápida, o livro merece ser conhecido.

 

Dicionário das Religiões

Dicionário das Religiões, é uma obra póstuma (1990) de Mircea Eliade (1971-1986) organizada por Ioan Petru Couliano (1950-1991) (WMF Martins Fontes, 2019, 344 p., R$ 84,90, tradução de Ivone Castilho Benedetti, revisão de Maria Ermantina Galvão), baseada nos três volumes da História das Religiões (1969-1985).

Dividido em 33 capítulos, organizados geogràficamente ou em ordem alfabética das variedades, aborda definições de religiões, desde a pré-história, todos seguidos de uma bibliografia sobre o respectivo tema.
Em muitos casos, os capítulos têm apenas duas ou quatro páginas (Austrália, Canaã, Celtas, Hititas, …), sem aprofundamento.
Outros, como o budismo, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo, ocupam várias páginas e subcapítulos.

De modo geral, há mais uma relação de nomes relacionados a cada religião do que a identificação de seus significados.

Vários temas sequer são mencionados (fé Bahai, doutrina de Alan Kardec, movimento Rajneesh).

De modo geral, os capítulos mais longos preocupam-se com o platonismo e com o neoplatonismo em seu pensamento, e na maioria dos verbetes as relações e semelhanças entre as diferentes religiões mal são levantadas.

Uma obra que não atinge o objetivo de esclarecer as muitas “coincidências” entre as diversas denominações religiosas.
Obras como o Dicionário das Religiões, de John R. Hinnells (1984), ou Pequena História das Grandes Religiões, de Félicien Challaye (1947) são muito mais elucidativas.

Cabe, por fim, observar a fraca revisão do texto.

Did the Greeks believe in their Myths?

Did the Greeks believe in their myths? An Essay on the Constitutive Imagination, de Paul Veyne (The University of Chicago Press, 1988, 131 p., tradução do francês para o inglês de Paula Wissing, R$ 41,00) é um dos maiores engodos que já encontrei.

O tema é interessante, mas o ego maior do que o Olimpo do historiador francês estava ocupado demais em encher as páginas do livro com suas digressões intelectuais, que tornaram a leitura insuportàvelmente tediosa.

Veyne tratou muito pouco da História (que é sua área de atuação), e muito de …
de quê mesmo?

Nem sei. Para usar o “método” moderno, de tratar a História como uma inter-relação de fatos, inclusive os que virão dali a uns séculos, Veyne chega a falar de Nietzsche, Weber e Hitler!
Em cada um dos dez capítulos é possível encontrar uma ou outra frase que aborde a relação dos gregos com seus deuses míticos.

Ou seja, recheou as páginas com filosofices e psicologices que fugiram do tema, mas que certamente devem ter rendido ao autor muitos elogios vindos da panelinha acadêmica onde vive mergulhado em Paris. Se pelo menos fosse para se ater à filosofia clássica…

Ah, deve ter sido por isso que ele se esqueceu de falar da sociedade grega da Antigüidade.

 

As Máscaras de Deus – Mitologia Criativa

Em As Máscaras de Deus – Mitologia Criativa, Joseph Campbell (Editora Palas Athena, tradução de Carmen Fischer, ano 2010, 624 p.) trata da arte, e não da religião, por trás das mitologias.

Pintura, escultura, arquitetura, literatura, música, teatro, filosofia.
Igrejas românicas e góticas, Abelardo e Heloísa, Tristão e Isolda, Os Cavaleiros da Távola Redonda e a busca do Santo Graal, Dante Alighieri, Goethe, James Joyce, Thomas Mann, Leonardo da Vinci, Kant, Schopenhauer, Nietzsche, Freud, Wagner, Ionesco, Samuel Beckett.

Escrito em 1968, o livro algumas vezes ficou superado por descobertas mais recentes. Além disso, o autor não esconde o entusiasmo por certos autores, de quem havia se tornado amigo (sobretudo Heinrich Zimmer) e algumas idéias das obras que menciona (Tristão e Isolda ocupa pràticamente a metade do livro).

A leitura é interessante MAS tediosa.
Não raras vezes somos compelidos a saltar páginas.

O escopo da tetralogia As Máscaras de Deus (1959 a 1968) foi discutir a unidade dos mitos, e é posterior à obra O Herói com Mil Faces, de 1949, que trata da unidade do conceito de deus. Curiosamente, Campbell não mencionou em toda a obra os mitos e as religiões da África Negra.
Há críticos que consideram no trabalho de Campbell evidentes sinais de anti-semitismo e de preconceito contra os negros, o que me pareceu ser verdadeiro.

No fundo, o que permanece em mim é o conceito que aprendi há uns 15 anos com um monge budista velhinho:

– A maior diferença entre as religiões monoteístas do Oriente Médio e as outras, é que todas as demais existem para agradecer pela fartura que lhes é proporcionada pela Natureza, enquanto que os “povos do deserto” preocuparam-se mais com as lutas pela sobrevivência…

 

As Máscaras de Deus – Mitologia Oriental

As Máscaras de Deus – Mitologia Oriental, de Joseph Campbell (Editora Palas Athena, tradução de Carmen Fischer, 1995, 446 p.) oferece uma leitura um pouco tediosa. São muitas as páginas em que reproduz integralmente algum texto mitológico, com pouca interpretação sobre ele.
No entanto, é muito interessante encontrar ao longo das muitas páginas a onipresença de serpentes em todas as mitologias e religiões, as “coincidências” entre mitos egípcios e persas, entre lendas sumérias e gregas, Enki e João Batista, deuses indianos e escandinavos, as “semelhanças” entre narrativas chinesas e da bíblia judaica (Noé, Lot) e também gregas (Hades), os deuses nascidos de virgens em todas essas regiões, as diversas lendas dos salvadores do mundo, etc..

Campbell trata brevemente do jainismo, primeira religião sem deus, e o compara com o zoroastrismo (anterior) e com o budismo (posterior).

Assinala que o milênio compreendido entre o ano 500 a.C. e 500 e.c. pode ser chamado de a época de ouro do pensamento, quando em todas as regiões civilizadas, simultâneamente, estabelecem-se as bases do mundo moderno.
O autor esclarece que Confúcio e Lao Tsé são seres tão míticos quanto Homero.
Não deixa de transparecer a preferência pelo budismo, quando fala das diversas religiões.

O livro ensina e demonstra que o atual hinduísmo (conhecido por bramanismo até a década de 1960), é uma adaptação da antiga religião da Índia após o aparecimento do budismo, e não é anterior a ele.
Demonstra também que o desaparecimento do budismo na Índia não é consequência desse ressurgimento, mas da implantação do islamismo na região de Bengala, com a decorrente expulsão dos monges para regiões do Sudeste asiático.
No final, Campbell relata diversos casos de tortura e extermínio que o governo comunista chinês perpetrou na região do Tibete, no início da década de 1950.

Este volume não traz muitas novidades em relação ao primeiro volume da tetralogia, e tampouco em comparação com outros autores.

 

O Livro da Mitologia

O Livro da Mitologia (Thomas Bulfinch, Martin Claret, 2015, 534 p., tradução de Luciano Alves Meira, R$ 38,90) foi escrito em 1855.
Talvez seja por isso que contém tantos vícios, ao focar quase exclusivamente a mitologia greco-romana, que o próprio autor qualifica a Grécia como “pátria-mãe da mitologia clássica”.
Chega até mesmo a classificar a mitologia nórdica como um conjunto de superstições.
Não leva em conta, porém, que os deuses gregos tinham nomes gregos, e não latinos. Isso o autor simplesmente ignora em todo o livro… Na Grécia havia Zeus, não Júpiter!

Os diversos capítulos são permeados de trechos de poemas (em sua maioria de autores românticos) que fazem menção à mitologia grega. Cansa…

Dá rápidas pinceladas nas religiões egípcia e mesopotâmica, ignorando por completo que essas regiões foram berço de civilizações em tempos bem anteriores ao da Grécia clássica.

Irã e Índia são abordados muito superficialmente.

A antiga religião dos celtas é vista como um amontoado de rituais selvagens. Justamente a religião que, hoje em dia, mais interesse provoca no mundo anglo-americano… Embora eu ache essa onda “new age” muito “bem comportada” e apenas um reflexo de busca de valores étnicos das Ilhas Britânicas que andavam abandonados.

A leitura fica mais interessante e ágil quando se chegam aos capítulos em que se fala da mitologia nórdica. Apesar de a Valhala ter menos agitação do que o Olimpo.
Não obstante, o trecho sobre sua variante germânica é mais a reprodução de libretos de óperas de Wagner.

Resumindo: ôôôôoooooo livro chato!!!
Não foi à toa que me arrastei por quase três meses para conseguir concluir a leitura.
E que pouco acrescenta aos interessados em mitologia, que hoje em dia dispõem de muitas outras obras para consulta e pesquisa.
O valor do livro restinge-se à época em que foi escrito.

Ah, o glossário no final do livro esclarece muito menos do que se poderia esperar.

 

“Viva a censura”

Antes de me criticarem, leiam o artigo que inseri em meu outro blogue:

A Imbecilidade Humana NÃO Conhece Limites.

Se juízes, intelectuais, universitários, e outros tantos decidem o que se pode ou não ler, é melhor assumir que vivemos sob uma ditadura, a dos “bem intencionados”.
Não difere dos piores dogmas religiosos.