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Histórias que os jornais não contam

Histórias que os jornais não contam, de Moacyr Scliar (L&PM, 2018, 158 p, R$ 34,90), foi um dos livros que mais tempo levei para conseguir ler.

 

Sempre gostei de ler Scliar, podem checar meus outros posts sobre livros de sua autoria.

Por isso comprei o livro no dia 1º de setembro, imediatamente comecei a ler, e levei três meses para conseguir chegar à última página

 

Logo no início é divertido ver pequenas notas de jornais serem transformadas em uma crônica, em geral cheia de ironia.

A fórmula, porém, logo se esgota, torna-se repetitiva.
Nem uma delas acaba se fixando na lembrança.

 

Uma pena, um martírio.

 

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1919

Consegui ler 1919, livro de John dos Passos (Abril Cultural, 1980, 396 p.), indecifràvelmente traduzido para o lusitanês por um gajo chamado Daniel Gonçalves, que recebeu o Grande Prémio de Tradução Literária em 1986. Acho que até portugueses têm dificuldade com tantas palavras difíceis…

O livro em si já é difícil, já que Passos muda de um personagem para outro (não há relação entre eles), e insere biografias, recortes de notícias da época (Romanov, Lênin, Wilson, o banqueiro J.P.Morgan, etc.), invencionices jornalísticas (Trotsky assassina Lenine no meio de uma desordem de bêbados) e anotações de pensamentos dele mesmo. O traductor faz sua parte (inclusive confunde a ilha de Dominica com a República Dominicana).

Como sugere o título, o livro se estende pelos anos da I Guerra Mundial – soldados, madames, políticos, diplomatas e afins, uma infinidade de Joes, viajando entre Estados Unidos, Europa e até Argentina.

À medida que avança, a leitura torna-se mais enfadonha. Um típico livro de um escritor que quis fazer experiência. E, claro, a “crítica” gostou, para não se assumir de enfadonha.

Quer ler? Ótimo. Será um exercício de vocabulário, e conhecimento histórico e, sobretudo, de paciência.

Millôr Definitivo

Li 5299 frases do Millôr, o livro com o subtítulo A bíblia do Caos. (L&PM, 536 p., 16a. edição, 2014, R$ 69,90), que inclui 157 frases escritas entre 1994 (1a. edição) a 2007 (15a. edição). No início o livro se chamava 5.142 frases.

Aparecem fábulas, hai-kus (“traduzidos” como hai-kais por algumas décadas, no jornalismo brasileir0), frases políticas, de comportamento, noticiário em geral, trechos de peças teatrais.

Com coluna jornalística, sempre nos mais importantes meio de comunicação da época (O Cruzeiro, Veja, IstoÉ, Pasquim, Jornal do Brasil) Millôr tinha a obrigação de ser “criativo” para justificar o salário.
Dessa forma, algumas são realmente geniais, e atemporais, outras são bem maisoumenoszinhas, muitas ficaram demasiadamente marcadas pelo tempo, e não deixam de constar umas tantas besteiras, que a gente lê e se pergunta: o quê?!
As páginas se sucedem sem muitas reações do leitor.

Ao final, convenci-me de que, apesar de toda a fama, ele era uma pessoa igualzinha a você ou a mim.
Apenas tinha tido a sorte de viver no meio dos cariôcos da Zona Sul, que não se mudaram quando a capital do país foi transferida, e passavam o tempo só para sentir saudade do tempo em que bajulavam políticos. Continuaram a ser os donos da cultura brasileira e passaram a endeusar o próprio umbigo e “genialidades” bem questionáveis do grupinho.

– Quem é você para fazer um comentário tão incisivo como esse?

– Alguém que teve a pachorra de ler tantas frases que recheavam jornais e revistas.
Duvido que você a tivesse.

O livro vale mais como um retrato da história do jornalismo brasileiro da segunda metade do século XX.

 

 

Contos de fadas

Terminei ontem à noite um curso de contos de fadas, dado por Tino Freitas.

Vocês pensam que conto de fadas é coisa para criança?

Pois estão mais do que equivocados.

No curso, aprendemos trocentas versões diferentes de cada conto,
– cada de um nós conhecia uma versão que diferia das outras –;

psicanálise por trás daquelas histórias (Erich Fromm, Jung, Bettelheim e Maria Louise von Franz);

papel da mulher (a xereta fofoqueira – Psiqué, Eva, Pandora), que viraram a mulher de Barba Azul, e outras tantas;

um dos contos mais conhecidos: Sansão e Dalila;

as parábolas já tinham a estrutura do conto de fadas, e havia o elemento mágico, no caso, os cabelos de Sansão;

A Bela e a Fera (a menina prometida em casamento para um velho horroroso, por quem ela desenvolve afeto);

Cinderela na China, Yeh-hsien (sapatinhos de chinesas, fetiche do ano 850);

Cinderela brasileira (norte de Minas) – uma festança de três dias no arraial;

Chapeuzinho Vermelho de Guimarães Rosa (A Menina da Fita Verde);

Chapeuzinho Vermelho masculino;

Branca de Neve no caixão e a história de Inês de Castro;

Os Três Porquinhos;

o urso que nos contos era pior do que os lobos;

Xerazade envelheceu, virou Mamãe Ganso e depois a vovó Dona Benta;

o espelho mágico da Branca de Neve;

as crianças enjeitadas porque os pais não tinham como alimentá-los (Rapunzel; Joãozinho e Mariazinha), afinal de contas, essa conversa de amor de família é invenção contemporânea;

e versões engraçadas de tudo isso,
como por exemplo:

– Vovó, qual é a senha do wifi?
– Pare de fazer tantas perguntas, minha netinha;

ou o grupo de internet de Cinderela, Bela Adormecida e Branca de Neve;

o primeiro porquinho era biólogo, por isso fez a casa de palha, o segundo frequentava as baladas e fez a casa de madeira, e o terceiro era empresário rico e fez a casa de alvenaria;

por que as princesas eram loiras?

por que a barba do Barba Azul era azul? afinal de contas, diz-se blue movie, blue talk, steak bleu;

por que os ogros eram chamados de ogros? (uigures –>húngaros)

e que, como não havia o politicamente hipócrita do corretinho, não era crime escrever que “o ogro comia pessoas como um macaco come castanhas”;

e mais as formas orais, as escritas, as adaptadas, o teatro, o cinema, as séries atuais na televisão.

Ah, sabia que existe um Tarot de personagens de Contos de Fadas?

Falamos no curso dos autores mais renomados:
Perrault, Grimm, Andersen, Oscar Wilde, Ítalo Calvino, e no Brasil Sílvio Romero, Monteiro Lobato, Tatiana Belinky;

e dos ilustradores que mudaram os livros de fadas:
Arthur Hackam, Edmund Dulce, Kay Nielsen, Harry Clark, Elenore Abbott, David Roberts, Rui de Oliveira, Anthony Browne, Kvéta Pskóva, Adolfo Serra e Salmo Dansa.

Não os conhece? Pesquise um pouco.

E sei que todos vocês gostam de conhecer o conto dos irmãos Grimm “o camundongo, o passarinho e a lingüiça” , que tanto parece com nossa estúpida realidade sindical brasileira.

http://www.grimmstories.com/pt/grimm_contos/o_rato_o_passaro_e_a_salsicha

Antes, já escrevi aqui no blog os posts que você pode rememorar:

https://outraveznarede.wordpress.com/2011/09/10/o-homem-que-calculava/

https://outraveznarede.wordpress.com/2012/06/17/contos-de-fadas-norte-americanos/

https://outraveznarede.wordpress.com/2014/03/22/os-grandes-contos-populares-do-mundo/

https://outraveznarede.wordpress.com/2014/07/30/as-mil-e-uma-noites/

https://outraveznarede.wordpress.com/2014/11/02/contos-dos-irmaos-grimm/

https://outraveznarede.wordpress.com/2016/03/15/falta-de-leitura/

Cuidado com a bruxa, com o lobo mau e com o príncipe encantado!

E, sobretudo, não converse no facebook com quem não conhece!

 

 

“Viva a censura”

Antes de me criticarem, leiam o artigo que inseri em meu outro blogue:

A Imbecilidade Humana NÃO Conhece Limites.

Se juízes, intelectuais, universitários, e outros tantos decidem o que se pode ou não ler, é melhor assumir que vivemos sob uma ditadura, a dos “bem intencionados”.
Não difere dos piores dogmas religiosos.

Guerra do Paraguai

O jesuíta argentino (o famoso 333 – meio besta) mais uma vez abriu a boca para dizer besteira.

Agora veio com o discurso esquerdopata de que o Paraguai é um coitadinho, por culpa dos gananciosos vizinhos que saquearam o país na segunda metade do século XIX.

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/07/1654559-em-missa-papa-diz-que-guerra-do-paraguai-foi-injusta.shtml

Pois eu digo que CHEGA DESSE DISCURSO PESTILENTO, que foi tão difundido por autores como Júlio Chiavenato (que não é historiador), interessados em falar mal dos governos militares (mas que comprava a propaganda de um ditador chamado Stroessner, que inventou o mito do bom ditador Solano López).
E para quem fugiu das aulas de História do Brasil na escola primária, é bom lembrar que houve antes uma Questão Christie, que provocou o rompimento de relações diplomáticas entre Brasil e Inglaterra, e, portanto, a tese de que o imperialismo inglês estava por trás da Guerra não se sustenta.

Por favor, Imbroglio, Tramboglio, sei lá como é o nome desse cardeal, procure ler o livro Maldita Guerra, de Francisco Doratioto, e pare de abrir a boca sobre assuntos que não são de sua competência. Vá estudar teologia com o Alemão, o papa verdadeiro! Não teologia da escravidão esquerdopata, mas a católica.

um link:

http://www.estadao.com.br/noticias/geral,a-guerra-do-paraguai-sob-nova-visao,489869

Ah, em tempo: não há mais documentos secretos sobre a Guerra, escondidos no Rio de Janeiro, como volta e meia alguns jornalistas de meia pataca gostam de repetir.

Outra coisinha: não temos essa coisa de dívida cármica com os paraguaios, como se diz na Tríplice Fronteira. A quem interessa essa aberração? Nem precisa responder…

Soumission

Soumission, de Michel Houellebecq (300 p., Flammarion, 2015, R$ 85,00).
O autor escreveu sobre o “risco islâmico” na civilização européia, antes que tivesse ocorrido a matança no Charlie Hebdo, e outras coisas do tipo, que já ocorreram depois.  O lançamento do livro, coincidentemente, ocorreu no mesmo dia do atentado.
Trata-se de um “romance visionário”, que alguns comentaristas comparam com os de Aldous Huxley ou de George Orwell.
Uma quinta parte do livro é para descrever quais foram as bebidas ou comidas que o professor-narrador quarentão ingeriu.
Uma terça parte é para narrar as trepadas que ele teve, com alunas, ou com moças da difícil vida fácil.
A parte essencial do livro é escrita para falar da islamização da Europa.
Bem, no final, com chefes de governo islamitas eleitos na França e na Bélgica, na década de 2020 a União Européia expande-se para a Turquia, Marrocos, Argélia, Tunísia, Egito e Líbano, no plano islâmico de restaurar o Império de César Augusto, com o comentário de “como era boa a Idade Média. O problema da Europa foi ter decaído tanto com o Renascimento… ”
O livro é visto como uma comparação entre a queda da república romana e sua substituição pelo império, e o fim dos valores europeus laicos que têm vigido nas “democracias” atuais.
Sorbonne (e Oxford) é privatizada e islamizada, subsidiada pela monarquia saudita (ou catari).
As mulheres passaram a ter de se vestir sòbriamente (outra vez), pràticamente não saem mais às ruas, têm os estudos limitados, não ocupam mais cargos de empregos (o que permite que os homens ganhem mais), o que, como conseqüência óbvia provoca a redução do desemprego.
Com a poligamia instaurada na Europa, os homens têm uma mulher mais velha para cuidar da casa, e outra, adolescente, para levar para a cama, e que sempre será uma adolescente mimada.
Bem, o livro é assustador, visto como uma perspectiva concreta para as próximas décadas,
e realmente dá nojo a gente ver o que fazem os políticos e os “intelectuais” para continuarem em suas boquinhas, mamatas, etcéteras, abrindo mão de qualquer afirmação que antes expressassem.
Essa é a parte mais importante, e que merece reflexão de todos nós:
o que eles podem fazer para salvar a própria pele, não importa o que seja mais ético e/ou necessário.
Críticos “intelectuais” e revistas com “perfil político” criticaram o livro, considerando-o a mais fraca das obras de Houllebecq.
Outros o elogiaram, pela capacidade de fazer ficção a partir de uma análise dos valores sociais contemporâneos.
De qualquer forma, acredito que valha a pena sua leitura com todos os ângulos de pontos de vista. Exatamente como as críticas contidas nas obras “futuristas” de Orwell ou Huxley.