romance

O Imoralista

O Imoralista, de André Gide (Editora Nova Fronteira, Coleção Clássicos de Ouro, 2018, 128 p.,R$ 49,00, tradução de Theodomiro Tostes), é um romance de 1902, que tem uma escrita fácil, para montar um texto com fundo autobiográfico.

O texto, na descrição das viagens do casal Michel e Marceline à Itália é suficientemente monótono, mais parecendo um guia turístico.

Os interesses de Michel por rapazes pobres, na fazenda na Normandia ou no Norte da África, são a confissão da predileção do burguês intelectualizado por seus opostos socialmente. Na preconceituosa primeira metade do século XX provocaram fama ao livro, na realidade sobrevalorizado pela crítica.

É um livro que não justifica a fama de grande obra.
A força política da França no ambiente cultural, contudo, o elevou ao grau que ainda hoje desfruta. Não é, contudo, um livro de leitura obrigatória.

o remorso de baltazar serapião

 

tentei ler o remorso de baltazar serapião, de valter hugo mãe (prefáco de josé samarago, 2006, biblioteca azul, 2018, 224 p., R$ 49,90).
como afirmei no início do primeiro parágrafo, tentei. tentei mas desisti, pois o esforço não valeu o sofrimento.
o projeto gráfico já é suficientemente incômodo para desanimar. desnecessária e óbvia saramaguice.
o conteúdo é aquela expressão de tentar chocar o leitor, com descrição de cenas desagradáveis, com o apelo sexual dos impotentes de botequim, e violência psicológica.
em resumo, saltando parágrafos e páginas, cheguei ao remorso do leitor de “livros inteligentes” de autores con-temporâneos

Kyoto

Kyoto, de Yasunari Kawabata (Estação Liberdade, 2006, 256 p., tradução de Meiko Shimon, R$23,00) é uma obra, de 1960, que desenvolve uma história de duas irmãs gêmeas com vinte anos, na antiga capital japonesa, na década de 1960.

Na época, havia ainda entre os japoneses o preconceito contra gêmeos, por isso, ainda recém-nascida, uma das filhas – Chieko – havia sido abandonada na cidade, e criada como filha por um casal cujo marido é proprietário de uma tecelagem e confecção de quimonos, enquanto a outra – Naeko – é criada na pequena aldeia onde havia nascido, tendo os pais morrido logo.

O livro narra as muitas festas de caráter religioso, budista ou xintoísta, que marcavam estações do ano ou outros eventos de ordem natural.

Em uma dessas festividades as duas irmãs vêem-se pela primeira vez, e a partir daí desenvolvem uma relação de amizade afetuosa mas muito formal, dadas as diferenças sociais que haviam marcado a criação de ambas.

Uma obra literária muito lírica, na descrição da natureza e das festas tradicionais, com passagens em torno de Chieko e seus amigos, e da vida cheia de frustrações do empresário que a adotou.

Uma boa leitura.

 

 

A casa de Virginia W.

A casa de Virginia W., de Alicia Giménez Bartlett (Ediouro, 272 p., R$ 21,00, 2005, título original Una habitación ajena, tradução de Joana Angélica d’Avila Melo) é um misto de romance e ensaio, com a inserção de trechos dos diários (autênticos) da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941) e da cozinheira Nelly Boxall (1890-1965), que trabalhou, de 1916 a 1934, com Virginia e seu marido Leonard (1880-1969).

Fiz a leitura no “modo diário”, a conta gotas, o que também deu oportunidade para permear com leituras sobre outros personagens e sobre o grupo de Bloomsbury,que reunia intelectuais e artistas do início do século XX na inglaterra, e como burgueses trabalhistas e socialistas fabianos condenavam e desprezavam os valores…  … burgueses da era vitoriana.

Nelly tem a capacidade de análise que faltou a sua colega Lottie Hope, que não questionava a incoerência entre o que era pregado pelo casal Woolf, em palestras e livros, e a atitude de indisposição com as classes inferior, o zé povinho, e o desconforto que lhes era oferecido nas próprias residências.

A escritora espanhola compõe em “la habitación ajena” (um dormitório na casa de outrem, em uma tradução livre) um retrato da falta de liberdade das empregadas domésticas nas casas de seus empregadores, fazendo a mixagem dos diários, de fatos daquelas décadas, e textos que foram inseridos para dar a movimentação de romance ao livro, e explicar os comportamentos sexuais do grupo de “vanguardistas”.

Um livro agradável e útil.

 

O Vendedor de Passados

O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa (Gryphus, 2011, 200 + 8 páginas, R$ 21,00, no Sebo), é sem dúvida merecedor de um prêmio!

O livro mais CHATO que já li, desde que fui alfabetizado nesta encarnação!
Nem sei quantos meses eu me arrastei para concluir a leitura dessa obrada!

O começo curioso, com a participação de uma lagartixa da espécie osga, que recebeu o nome de Eulálio e vive na casa do albino Félix Ventura, em Luanda.
Outros personagens menos interessantes surgem, como José Buchmann, Ângela e Edmundo
Melhor seria se o livro se focasse na Velha Esperança, que arruma a casa no início do romance.

Narrado ora em terceira pessoa, ora pelo inFeliz desVenturado albino e ora pela filosófica lagartixa, o texto já se perde nessa experiência.

Para piorar, o livreto ganhou 64 páginas em branco e mais 8 iniciais, para que a editora pudesse chegar a 200 páginas e propusesse um preço mais elevado.

Procurei outros comentários e/ou críticas sobre o livro, e tampouco foram favoráveis (ou farofáveis).
Achei melhor colocar o link para a versão cinematográfica (brazuco-global), com os comentários dos leitores/visualizadores:

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-218155/criticas-adorocinema/

 

A Redoma de Vidro

A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath (The Bell Jar, Biblioteca Azul Editora Globo, tradução de Chico Mattoso, 2014, 280 p., R$ 21,00) é um romance semi-autobiográfico da escritora que cometeu suicídio um mês após sua publicação, em 1963.

Passando-se no início da década de 1950, narra a história de uma jovem bostoniana que vai a Nova York para fazer estágio em famosa revista de moda.
Terminado o estágio, volta para a casa da mãe e toma conhecimento de não ter sido aceita para um curso de redação, o que inicia um processo de profunda depressão, que culmina com sua internação em clínica onde sofre eletrochoques em um tratamento mal conduzido.

A dúvida entre ser obrigada a constituir família ou obter uma profissão, a questão da virgindade ainda vista como prioridade na época pré-revolução sexual, e outros tratamentos médicos psiquiátricos confundem ainda mais a jovem, que se sente respirando dentro de uma redoma de vidro.

Sylvia Plath tornou-se sinônimo de escritora maníaco-depressiva que termina por buscar o suicídio, sendo registrado como “efeito Sylvia Plath” o fenômeno de que escritores criativos são mais suscetíveis a doença mental.

A linguagem do romance é muito clara e bem expressa.
O assunto é bem abordado pela autora.

Merece a leitura.

 

O Futuro da Humanidade

Emprestaram-me o livro O Futuro da Humanidade, de Augusto Cury, que é “a emocionante história de um médico e um mendigo em busca de um mundo melhor” (Arqueiro, 2005, 252 p.).

A primeira parte, que mostra a importância da filosofia para “humanizar” os médicos, é muito interessante.

A segunda parte, porém, vira um amontado de pieguices, na maioria das vezes recheada de clichês, como o doente judeu que ficou amigo do doente palestino.
O médico que só pensa no remédio.
A enfermeira que se torna uma nazistona e foge dos doentes.

Há partes muito interessantes, como a necessidade de unir psiquiatria e psicologia, mas como ele mesmo coloca, os interesses das duas categorias não se colocam com a mesma disposição. Afinal de contas, os conselhos profissionais (guildas) perderiam poder.

Ele não leva em consideração que 8114% dos estudantes e formados em philosophia estão preocupados com “lutas de classes” e não com a natureza humana.

E acho que não sabe que a pior parte dos hospitais não são os médicos, nem os enfermeiros, nem os seguranças, nem o equipamento, nem os remédios.
São os “voluntários”. Gente que veste um jaleco ou avental e se torna ótóridade, para poder destratar à vontade os pacientes e os acompanhantes.
Isso nem a vã filosofia poderá corrigir.

Ainda não terminei a leitura.

Mas certamente vou ter as mesmas restrições que sempre tive contra esse tipo de livro de baixo-ajuda. Alta ajuda para quem recebe dinheiro com eles e com as palestras decorrentes.

21 de julho de 2017

Parte 2

Concluí a leitura.

De repente o livro adquire novamente fôlego, ao falar da indústria farmacêutica ditando regras na medicina (e nos pacientes e cobaias de tantas novas drogas, por isso mesmo chamadas de drogas), e também quando o personagem principal encontra uma aluna com quem trata a difícil relação entre as diferentes enfermidades ou estados mentais, com destaque na depressão.

Os questionamentos que são feitos nesses dois capítulos são realmente instigantes,

O livro, porém, retoma a pieguice de capítulos anteriores e parte para o clichê da pobre menina milionária, que sofre solidão no palácio em que vive. Parecia uma novela mexicana.

O autor do livro, porém, repete mais de uma vez aquela coisa de “coitadinhas das criancinhas da África”. Não sei se parecia madona ou joão malo jovi.
Sei que todos eles esquecem que o problema da África não é ter pobres, mas, bem o oposto, é ter os mais ultra-arqui-multi-milionários e perenes ditadores do planeta.
Em ordem alfabética: Angola, Burkina, Congo-Brazzaville, Eritréia, Etiópia, Gabão, Guiné,Guiné Equatorial, República Centro-Africana (aquele país que foi do Bokassa), Sudão, Zimbábue, sem contar países que depois da ditadura ficaram ainda piores, desgovernados, como Egito, Líbia e sobretudo Somália.
Certamente devo ter esquecido de alguns outros países africanos, e aqueles cujas ditaduras se fazem por meio da perenização de certos partidos nessas democracias (África do Sul, Botsuana, Congo-Kinshasa, Moçambique, Namíbia, ..).

Nesse bom mocismo do autor, de falar dos coitadinhos no planeta, ele esqueceu de falar dos médicos sem fronteira, aquela ongeira que leva jovens idealistas a curtir boas festas, na África, junto com funcionários internacionais do podre sistema onu.

E por falar em médicos sem fronteira, lembrei dos médicos brasileiros dessa ongice e dos técnicos em medicina que importamos de cuba, pois os nossos jalecos foram cuidar de suas preocupações em outras partes do mundo, enquanto a ditadura cubana emprestou para nós os profissionais de saúde que ficaram faltando.

Ah, e se você acha que ongices são coisas boas, sobretudo na saúde, é bom olhar nos sites e ver quantas cruzes vermelhas aqui na tupinambalândia foram assaltadas, nos últimos meses, por seus dirigentes, sem contar as várias demoníacas casas.
Sem caridade não há saúva-ação, não é mesmo?
Rouba-se de onde surge dinheiro.

A atingir os últimos três capítulos, que narram a festa de casamento, veio aquela sensação ruim de que o livro era apenas um espelho das fantasias de um dos piores canastrões que já houve no cinema:
Robin Williams, aquele chato que estragou tantos filmes “de humor” ou de “sentimento”.
Aquele cara que, apesar do filme Um Amor Além da Vida, não se preocupou em se suicidar (apesar dos desmentidos, um ano depois, da viúva, que arrumou uma desculpa de enfermidade física para o corpo que ela tinha mandado cremar, e naturalmente não pôde ser verificada a alegação da senhora viúva rica).
Excetuado “Babaca quase perfeito”, R. W. sempre foi um péssimo ator que interpretava personagens ainda piores.
Aliás, no filme que mencionei, do babaca quase perfeito, o mérito foi do pessoal da maquilagem, não do ator mais piegas que já surgiu na telona.
Augusto Cury sequer disfarçou a “fonte onde bebeu”, pois a bonita música de good-bye vietnam (what a wonderful world) é repetida vezes no livro.

Bem, parando com digressões, e voltando ao livro, tinha de princípio suspeitado que fosse um livro de alta-ajuda para o autor. A própria capa já insinuava isso.
Após concluir a leitura, fiquei pensando se esse defeito preponderava sobre o restante do conteúdo.
Não, claro que é importante demais que se discuta o papel da “humanização” das “ciências”, o papel dos fármacos, a necessária fusão de cursos universitários.

Não só psiquiatria e psicologia, como abordado pelo médico psiquiatra autor do livro, mas também outras matérias que se necessitam e se rivalizam mùtuamente, como educação física e fisioterapia (e seus apêndices nutricionais), os cursos das chamadas fefechês (história, geografia, ciências sociais e outras similares), arquitetura e engenharia civil, e também os cursos de línguas (o método comparativo entre elas, que exige estudar gramática é muito mais eficaz e duradouro do que a mera decoreba de cools e kuhs nas escolas de idiomas.

Curioso que o médico tão correto e “humano”’ derrapa e demonstra não saber ainda que só existe uma raça de homens: a raça humana, as variações que existem são étnicas.

O autor vendeu mais de 20 milhões de exemplares de seus livros na tupinambalândia. Pois é. Certamente o doutor psiquiatra, que além disso saiu por aí dando palestras e participando de programas de televisão, deve ter recheado muito bem sua conta bancária.
Mas como, os banqueiros não são os malvados corruptos que estavam na festa do casamento retratada no livro?

Como se vê, o livro pode ser resumido em:
faça o que eu digo, e não o que eu faço.
Algo que me parece típico de de médico sedentário que fuma e enche a pança na churrascaria. Já me consultei com uns tantos assim.

22 de julho de 2017.