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Histórias ou Contos de Outrora – Charles Perrault

Histórias ou Contos de Outrora – Charles Perrault, (Martin Claret, tradução Renata Cordeiro, ilustrações Rafael Nunes Cerveglieri, prefácio de Aurora Gebra Ruiz Álvarez, 2015, 126 p, R$ 39,00) contém

  • A Bela Adormecida no bosque
  • Chapèuzinho Vermelho
  • Barba Azul
  • O Mestre Gato ou o Gato de Botas
  • As Fadas
  • Cinderela ou o sapatinho de vidro
  • Riquete do topete
  • O Pequeno Polegar
  • Pele de Asno (adaptação em prosa dos versos de Perrault)
  • Os Desejos rídiculos. (em versos).

Como enunciado no prefácio, a tradução e a adaptação não se colocam como as versões de Walt Disney, que, ao contrário das histórias originais. não se preocuparam com a inserção das “moralidades” de cada conto, como apareciam na literatura do Renascimento.

Os contos não contêm detalhes escatológicos que surgem em algumas versões, sendo de modo básico uma forma de ensinar ao público infantil valores e comportamentos, e menos uma análise psicológica.

O livro tem capa dura, e cada conto é precedido de uma bem feita ilustração.
A tradução preocupa-se em mostrar jogos de palavras e dubiedades que constam do original francês.

O preço demonstra que uma boa edição não necessàriamente faz com que os preços tenham de ser estratosféricos, como costuma ocorrer com algumas editoras de letras caras.

 

Viagem com um burro pelas Cevenas

Viagem com um burro pelas Cevenas, de Robert Louis Stevenson (Editora Carambaia, tradução de Cristian Clemente, projeto gráfico de ps2 arquitetura + design, 2016, 114 p., R$ 87,90!) foi-me emprestado por um amigo.¶ Confesso que de início estranhei a própria capa, que imita a pela de um burro cuja reprodução é impossível em scanner doméstico. ¶ Igualmente a diagramação das páginas da edição Carambaia tem sua marca com a utilização do sinal (¶) para indicar os parágrafos, com a disposição das páginas pares e ímpares alinhadas apenas à margem da folha, de modo que se forma na parte de junção das páginas um espaço tortuoso que imita o caminho sinuoso da viagem feita por Stevenson. ¶ Outra marca é o uso de anotações nas laterais das páginas em verde, que indicam a localidade da viagem que foi atingidas pelo autor. ¶ Páginas verdes trazem um mapa https://www.google.com.br/maps/dir/43150+Le+Monastier-sur-Gazeille,+Fran%C3%A7a/44.6019346,3.9362352/30270+Saint-Jean-du-Gard,+Fran%C3%A7a/@44.6015438,3.895066,13z/data=!4m15!4m14!1m5!1m1!1s0x47f5f5894efb2095:0x4093cafcbe7fbc0!2m2!1d3.994968!2d44.939996!1m0!1m5!1m1!1s0x12b4718941d5a91d:0x1c078824698cdbb0!2m2!1d3.8757119!2d44.0969719!3e0 (linik que o WordPress não quer que fique em verde, mas em vermelho), o índice, e textos explicativos adicionados pela editora ¶ O autor de A Ilha do Tesouro, O Médico e o Monstro, em Viagem com um burro pelas Cevenas narra a viagem de doze dias, em, 1878, para percorrer sozinho e a pé cerca de 150 quilômetros por uma região pobre no sul da França, entre Le Monastier sur Gazelle até Saint Jean du Garde. ¶ Nesse sentido, o livro fica em algo entre uma crônica e uma carta pessoal distribuída a seus amigos. ¶ Modestine é uma burra que Stevenson compra no início da viagem, mas com a qual o autor tem um relacionamento difícil, com muitas incompatibilidades, embora um vínculo de afeto seja sentido entre os dois seres ao final da jornada. ¶ Dorme às vezes em pequenas pousadas / estalagens, e outras vezes ao ar livre, escondendo-se de ladrões ¶ Filho de família escocesa estritamente protestante, Stevenson preocupa-se durante a viagem com a história de uma revolta protestante huguenote dos Camisards ocorrida em 1702 contra as perseguições ordenadas pelo rei Luís XIV, e com a convivência em paz mas com muita segregação que as duas comunidades mantêm um século e meio mais tarde. ¶ Visita e se hospeda em um mosteiro trapista, onde encontra um monge escocês e onde ao se despedir provoca a surpresa do abade, ao ver que as doações encaminhadas à Escócia não haviam servido para a conversão dos protestantes. ¶ A narrativa do texto mostra bem a variação do humor ao longo dos dias, tanto na paisagem rude como no relacionamento com moradores que vivem em isolamento, muito desconfiados de estranhos. ¶ O vocabulário é rico, e as descrições não fazem com que o relato seja monótono. Um livro que ainda hoje merece atenção pelo estilo e pela influência que teve em relatar paisagens e pessoas. Merece ser lido.

 

Ulisses

Ulisses, o clássico de James Joyce (L&PM Pocket – Mangá, tradução do japonês de Drik Sada, 2016, 388 p.), não me convenceu.

Simplesmente isso.

O mais famoso livro de James Joyce nunca foi famoso por suas gravuras, mas pelo texto.
O formato de mangá, porém, enaltece as figuras, e não o texto.
Além disso, a onomotopéia em japonês, com legendas ao pé de quadros, é um tanto incômoda de ser absorvida, ao mesmo passo em que esconde muitos detalhes descritos por Joyce.

O mangá segue rigorosamente a divisão em três partes e seus subcapítulos do livro de Joyce.
Os personagens, as horas retratadas, e tudo mais, estão de acordo com o que se encontra no original.
Os desenhos, contudo, não são capazes de transportar o leitor ao ambiente e às idéias dos personagens dublinenses.

Parece mesmo que não apenas foi feita a tradução do texto do japonês para o português, mas que Joyce vivia em Tóquio, e não na Irlanda.

Vale como experiência lúdica, não porém como literatura.

 

 

 

 

Diário de um velho louco

Diário de um velho louco (tradução de Leiko Gotoda, Estação Liberdade, 2007, 208 p., R$ 21,00), de 1962, foi o último livro escrito por Jun’ichiro Tanizaki, que morreu em 1965.

Em formato de diário, conta a história de um septuagenário rico, que descreve a velhice, as doenças (e remédios), as relações com os parentes, os médicos, e, sobretudo, a relação com a nora.

Fala do erotismo de alguém que se descreve como alguém que “continua vivo e não pode deixar de sentir atração pelo sexo oposto”.
Enquanto isso, o velho sai a procurar o túmulo que mandará construir para, em breve, guardar seus ossos.

A linguagem é sempre muito ágil, e tem muita ironia e sarcasmo do personagem com relação às pessoas que o cercam.

Por outras vezes, fala da aparente “dureza” que o velho tenta manter, mas que resvala em lágrimas, que esconde quando inquirido por seu estado de saúde.

Muito bom.

Ao contrário de Voragem, do mesmo autor e da mesma tradutora, neste livro, porém, não há muitas notas para explicar detalhes dos hábitos japoneses, como por exemplo peças da indumentária.

Nada grave. Podem perfeitamente ser sub-entendidos e passados por cima.
(sub por cima ?!)

 

 

 

 

1919

Consegui ler 1919, livro de John dos Passos (Abril Cultural, 1980, 396 p.), indecifràvelmente traduzido para o lusitanês por um gajo chamado Daniel Gonçalves, que recebeu o Grande Prémio de Tradução Literária em 1986. Acho que até portugueses têm dificuldade com tantas palavras difíceis…

O livro em si já é difícil, já que Passos muda de um personagem para outro (não há relação entre eles), e insere biografias, recortes de notícias da época (Romanov, Lênin, Wilson, o banqueiro J.P.Morgan, etc.), invencionices jornalísticas (Trotsky assassina Lenine no meio de uma desordem de bêbados) e anotações de pensamentos dele mesmo. O traductor faz sua parte (inclusive confunde a ilha de Dominica com a República Dominicana).

Como sugere o título, o livro se estende pelos anos da I Guerra Mundial – soldados, madames, políticos, diplomatas e afins, uma infinidade de Joes, viajando entre Estados Unidos, Europa e até Argentina.

À medida que avança, a leitura torna-se mais enfadonha. Um típico livro de um escritor que quis fazer experiência. E, claro, a “crítica” gostou, para não se assumir de enfadonha.

Quer ler? Ótimo. Será um exercício de vocabulário, e conhecimento histórico e, sobretudo, de paciência.

47 contos de Isaac Bashevis Singer

Concluí hoje a leitura de um dos melhores livros que desbravei nestes últimos tempos:

47 contos de Isaac Bashevis Singer (Companhia das Letras, 720p., 2004, R$ 31,00), com excelente prefácio de Moacyr Scliar.

Os contos são quase todos impregnados de indisfarçável caráter auto-bio-gráfico.
Como são contos, não cansa a leitura.
Cada um é cada um.
Dentre eles está Yentl, que foi tornado peça de teatro, em 1975, e depois filme, com Barbra Streisand, em 1983.

Há contos passados na Polônia sem data, relatos que ele ouvia durante a infância, outros na Polônia do início do século XX (período ainda sob domínio russo-austro-alemão), outros pré-Segunda Guerra Mundial.
Contos mais modernos se passam nos Estados Unidos – Nova York ou Flórida – no período pós-Segunda Guerra, ou em Israel, e até mesmo na Argentina.
Muitas palavras ou expressões estão em  iídiche, mas nada impossível de ser aprendido no glossário.

O que me surpreendeu foram as lições sobre o judaísmo.
Nunca imaginara que fossem tão tão tão supersticiosos!
Diabinhos, talismãs, amuletos, quebrantos, reencarnações, inferno (não eterno), e coisas do tipo em quase todos os capítulos.

Sem contar a tradição do casamento:
as casamenteiras saem para procurar “um bom partido” para ele e para ela.
Se não der certo, porém, nada mais fácil do que obter o divórcio.

Caramba, os judeus ashkenazim são muito mais complicados do que eu pensava…
Só não posso dizer isso a eles.

A tradução de José Roberto Siqueira parece ter sido feita por alguém que não mora no Brasil. Há termos que parecem demasiadamente com dicionários, e não com expressões da língua contemporânea.
A revisão, feita por Ana Maria Barbosa e Carmen S. da Costa também deixa a desejar. Curiosamente, são mais evidentes os erros em um conto que narra a história de um vizinho, que era revisor em um jornal iídiche em Nova York.

Descobri que há muito tempo, durante a adolescência, eu havia lido O Mago de Lublin (traduzido para o português por Rachel de Queiroz), livro escrito por Bashevis em 1960, mas o nome do autor não havia ficado registrado em minha memória – apenas o livro.
Gostei tanto de ler Bashevis, que já me municiei de outros dois livros de sua autoria: O Penitente, e Inimigos: Uma História de Amor, ambos publicados pela L&PM.

 

Frankenstein

Fiz a releitura de Frankenstein, de Mary Shelley, desta vez com a edição da Biblioteca Folha / Ediouro (1998, tradução de Éverton Ralph, 220 p.).
O livro é mesmo um clássico da literatura, leitura obrigatória.
Quando se pensa que a autora tinha tão pouca idade quando escreveu o livro, vemos que ela teve mais imaginação do que muito autor “premiado” pelas editoras e renomados pela imprensa.
Os personagens desse exemplo da literatura romântica são muito bem engendrados, na oscilação entre o bem e o mal. Nada de linearidade, previsibilidade.

O versão do livro, porém, é bem fraquinha. O tradutor não sabe quando usar próclise nem ênclise, e confunde tempos verbais.
(Nada tão ruim quanto a abominável tradução de A Cidade do Século XIX, da falta de Perspectiva.)
Vou procurar uma edição original, em inglês, para confrontar com a “linguagem acessível” em que foi adaptada pela editora da Folha.

Quanto à conhecida história de Frankenstein, é uma pena que a maioria das pessoas insista em confundir criatura e criador. Ou que continuem a dizer que Ali Babá era ladrão.
Para Mary Shelley, o monstro é sempre chamado de “a criatura” ou “o demônio”. Nunca se transformou em “júnior”, como já li em um comentário de jornalista “especializado”.