leitura obrigatória

Emília

Emília, uma biografia não autorizada da Marquesa de Rabicó. Textos de Monteiro Lobato selecionados por Socorro Acioli e ilustrados por Wagner William, para montar uma biografia de importante personagem do pensamento brasileiro do início do século XX.
Casa da Palavra – Leya, 2014, 96 páginas,
Um livro muito interessante. Bem feito. Deveria ser obrigatória sua leitura.
MAS, como vivemos no Brasil, eu o comprei por R$ 10,00 em uma desova de livros encalhados, no hall de um shopping center.
Crianças precisam ser bobalizadas, e os professores não incentivam a leitura de autores brasileiros – “são muito difíceis“,  “cheios de preconceitos“…

O Penitente

O Penitente, de Isaac Bashevis Singer (L&PM Pocket, tradução de Jimi Joe, 1998, 166 p., R$ 9,50), é um daqueles livros que agarramos e não largamos enquanto não terminar a leitura.

Narra a história, datada em 1969, de um encontro entre o próprio autor e um americano bem sucedido que emigrara para Israel, fugindo das próprias frustrações e auto-avaliações.

Publicado em capítulos em 1973, em jornal iídiche, e como livro em 1983, o livro tem a atualidade dos dias de hoje. Parece descrever fatos da semana que acaba de ter transcorrido.

Leitura obrigatória. Imprescindível que se leia a Nota do Autor que conclui o livro, com o ponto de vista de Bashevis Singer distoando do personagem.

Contos do nascer da Terra

livro010Contos do nascer da Terra, de Mia Couto (Companhia das Letras, 2014, 270 p,, R$ 21,00) contém 35 textos do renomado escritor moçambicano, um dos maiores expoentes da literatura em língua portuguesa contemporânea.

Em todos eles, a característica de criar palavras, a partir de dois conceitos que se somam ou se opõem, como O homem era um vidabundo, ou Minha água-natal, de freqüentemente alterar ditos e provérbios, como Não ata nem diz ata, e de formar frases com palavras de som assemelhado, como Um homem atravessou a calçada, desavultado vulto avulso.

Os contos muitas vezes relatam casos da relação entre pais e filhos, ou de casamentos desfeitos, de pessoas vítimas da guerra civil que marcou a fase da independência de Moçambique, ou são adaptações de fábulas africanas. Na verdade, preferi ler os contos criados do que as fábulas adaptadas, que se tornaram em geral sem forma nem formato, desenroladamente roliças.

A leitura dos contos é um constante exercício para os olhos e para as idéias do escritor e do leitor, para quem utiliza os neurônios subjacentes da linguagem.

Mia Côunto: leitura obrigatória.

 

A Máquina de Fazer Espanhóis

livro007Válter Hugo Mãe não gosta de Letras Maiúsculas. Foi assim que ele escreveu “A Máquina de Fazer Espanhóis”.  Sem Maiúsculas e apenas com Vírgulas e Pontos, nada de Interrogações, Exclamações, Travessões ou Aspas.

Assim como eu, porém, posso agora aqui me distrair, ele também deu suas Derrapadas, e todo o Capítulo Cinco conheceu a Utilidade das Letras Maiúsculas, que os Alemães sabem tão bem cultivar quando escrevem os Substantivos. Também o Capítulo Dezassete conhece Letras Maiúsculas, usadas nos Nomes próprios. Por que Policiais e Jogadores de Futebol merecem essa Deferência de Mãe?
Afinal de contas, faz alguns Milênios que deixamos de lado a Escrita Cuneiforme, e passamos a conhecer a Utilidade das Letras Maiúsculas e da Pontuação, embora alguns Portugueses, como Mãe considerem isso supérfluo, copiando o Mestre (dele) josé saramago (sal amargo), tão queridinho de Intelectuais.

A Máquina de Fazer Espanhóis“, (Cosac Naify, 2015, 255 p., R$ 21,00) é um Livro dolorido. Como conclui o Personagem Principal, provoca Angústia.
Em Primeira Pessoa, narra a História de António Jorge da Silva, um Barbeiro aposentado, Octogenário, que é enviado pelos Filhos para uma “Casa de Repouso”, quando enviúva. A Filha resume Toda a Vida do Pai (o Filho mora na Grécia e sequer foi ao Funeral da Mãe), em duas Malas de Roupas, e uma Imagem de Nossa Senhora de Fátima.
Este Silva passa um Período de Silêncio, revoltado com a Situação, e desejando muito expressar a Necessidade do Luto que sente com a Morte de Laura, com quem vivera 48 Anos.

Alguns Capítulos são marcados pelas Lembranças da Vida deste Silva, durante o Salazarismo, e mesclam-se com as Narrativas do Quotidiano no Asilo, chamado de Feliz Idade, e de cujas Janelas os Internos avistam o Cemitério que fica ao lado.
Os outros Personagens mesclam-se nas Narrativa sobre os Internos, lúcidos ou senis, e sobre o Passado. Encaixa-se aí um tal Ricardo que Silva, do alto de sua sempiterna Covardia, denunciara à Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), trazendo-lhe permanentes Remorsos.Os Internos sucedem-se nas Mortes, algumas Vezes suspeitas e violentas, e nas novas Internações que ocupam as Vagas deixadas, embora alguns Fantasmas desses Moradores rondem a Vida dos que ficaram.
Dentre eles há a Figura de Esteves, um Senhor Centenário, que afirma (falsamente) ter sido Inspiração para que Álvaro de Campos / Fernando Pessoa escrevesse o Poema Tabacaria.

Nas Conversa entre Silva e Esteves, há a Clareza de que o nosso Inimigo é o Corpo, porque o Corpo é que nos ataca. Estamos finalmente perante o mais terrível dos Animais, o nosso próprio Bicho, o Bicho que somos, que decide que é chegado o Momento de começar a desligar-nos os Sentidos e decide como e quando devemos padecer de que Tipo ou Loucura.

Sabem que os Peixes têm uma Memória de Segundos? Aqueles Peixes bonitos que vês dentro dos Aquários pequenos, sabes que têm uma Memória de uns Segundos, três Segundos, assim. É por isso que não ficam loucos dentro daqueles Aquários sem espaço, porque a cada três Segundos estão como num Lugar que nunca viram e podem explorar. Devíamos ser assim. Mas seria uma Pena que não se voltasse a lembrar das Pessoas, como lhe explicou o Enfermeiro.

No final da Vida, Silva percebe que as Histórias bonitas aconteciam por acaso, e ele acabara de aprender que a Vida tem de ser mais à Deriva, mais ao Acaso, porque quem se guarda de Tudo foge de Tudo.

Acredito que este Livro devesse ser Leitura Obrigatória para todas as Pessoas com menos de 40 Anos, para terem uma Visão de que lhes reserva a Vida, o próprio Corpo.
Curiosamente Mãe, como afirma na Nota do Autor, escreveu o Livro pensando no próprio Pai, que não chegou à Terceira Idade, já que morreu de Câncer antes disso.Algum outro Velho, porém, deve tê-lo marcado, para que pudesse perceber, com 39 Anos, quando escreveu “A Máquina de Fazer Espanhóis”, que a Vida é muito menos do que se imagina na Juventude e na chamada “Vida Produtiva”.

Como dizia minha Avó Olguinha, viver muito é um Castigo de Deus.
Como dizia minha Tia Rosa, de que adianta estar lúcida, se não posso passear porque os Joelhos não me permitem? se não posso ir a uma Festa porque o Estômago não se sente à Vontade? se não posso fazer uma Visita, porque a Bexiga me atrapalha?

Frankenstein

Fiz a releitura de Frankenstein, de Mary Shelley, desta vez com a edição da Biblioteca Folha / Ediouro (1998, tradução de Éverton Ralph, 220 p.).
O livro é mesmo um clássico da literatura, leitura obrigatória.
Quando se pensa que a autora tinha tão pouca idade quando escreveu o livro, vemos que ela teve mais imaginação do que muito autor “premiado” pelas editoras e renomados pela imprensa.
Os personagens desse exemplo da literatura romântica são muito bem engendrados, na oscilação entre o bem e o mal. Nada de linearidade, previsibilidade.

O versão do livro, porém, é bem fraquinha. O tradutor não sabe quando usar próclise nem ênclise, e confunde tempos verbais.
(Nada tão ruim quanto a abominável tradução de A Cidade do Século XIX, da falta de Perspectiva.)
Vou procurar uma edição original, em inglês, para confrontar com a “linguagem acessível” em que foi adaptada pela editora da Folha.

Quanto à conhecida história de Frankenstein, é uma pena que a maioria das pessoas insista em confundir criatura e criador. Ou que continuem a dizer que Ali Babá era ladrão.
Para Mary Shelley, o monstro é sempre chamado de “a criatura” ou “o demônio”. Nunca se transformou em “júnior”, como já li em um comentário de jornalista “especializado”.

 

Virginia Woolf – Contos Completos

Virginia Woolf – Contos Completos é um livro com uma bonita edição gráfica, da Cosac Naify, de 2005 (reedição em 2007)  (468 p.), com tradução de Leonardo Fróes e notas de Susan Dick.

O livro é dividido em etapas cronológicas da vida de Virginia (1882-1941):   Primeiros Contos (1906/1909) ; 1917-1921; 1922-1925; 1926-1941, com um total de 46 contos.
Pode-se ser observada claramente a mudança de estilo da grande escritora ao longo desses 35 anos de trabalho.
Os primeiros são nìtidamente arrastados, de leitura que não se fixa, mas vão se alterando progressivamente.

Alguns contos são nìtidamente crônicas que foram adaptadas. Outros apresentam um sutil humor ou alguma malícia. Há os que são apenas “confissões de luluzinhas” preocupadas com os assuntos femininos de casamento, filhos e casa, ou então o a roupa e o penteado para um jantar.
A variedade de conteúdos inclui também ficção que se assemelha a lendas, ou outros que são retratos visuais descritos em palavras.

Sem dúvida o livro é de leitura obrigatória para quem quer conhecer um pouco mais da literatura em língua inglesa da primeira metade do século XX.
A leitura deste livro me fez desejar reler o conhecido Orlando, romance publicado em 1928, do qual tenho vívidas lembranças passados já 36 anos da primeira vez em que o livro me caiu aos olhos.

Dostoikévski – três vezes

Li simultâneamente três novelas da primeira fase de Fiódor Dostoiévski (Obra Completa – volume 2 – Editora Nova Aguilar – 2004).

  • Pobre Gente (1844-1846)
  • O Duplo (1845-1846)
  • A Granja de Stiepântchikovo e Os Seus Moradores (1859).

Ao contrário dos personagens planos de outros autores da mesma fase literária, os de Dostoiévski são cheios de nuances, e já no primeiro texto publicado (Pobre Gente), que tem o formato de uma coleção de cartas trocadas, ele foi aplaudido pela crítica da época, por se destacar como uma rica fonte de conflitos pessoais e interpessoais, que levaram Sigmund Freud a considerá-lo, mais tarde, o maior de todos os romancistas.

A variada “fauna humana”, miserável e cheia de fraquezas, que Dostoiévski descreve é algo raramente encontrado.
O leitor é levado a questionar que tipo de pessoa teria aquelas atitudes, e ao mesmo tempo identifica ao redor inúmeros comportamentos que tornam a vida ora mais interessante, ora mais difícil.
Não se limitam ao período da Rússia do século XIX, mas são uma coleção de fraquezas, de chantagens, de psicopatias, que vão muito além da crítica social.

Dostoiévski é mais do que um autor cuja leitura deveria ser obrigatória: é um dos pontos mais altos das literaturas de todos os tempos.